sexta-feira, 15 de abril de 2005

Cultura Macua


Posted by Hello
(Adaptação de textos de Pedro Saleiro, UCM, e Vítor Terra, UP)

A Simbologia da Peneira na cultura Macua
Na cultura macua, alguns objectos, para além do seu carácter utilitário, assumem valores simbólicos que devem ser dominados por homens e mulheres, sendo os ritos de iniciação o momento privilegiado para essa aprendizagem. A peneira constitui um bom exemplo da riqueza simbólica que esta cultura encerra e que importa observar.
A cultura macua é ainda pouco conhecida e, no entanto, apresenta-se como bastante rica em termos da simbologia atribuída a muitos objectos diários. Neste trabalho quero dar o meu contributo para o conhecimentos de alguns dos símbolos da peneira, a partir do que escutei e da realidade dos factos conhecidos e observados nos ritos de iniciação. Não será, por isso, um trabalho exaustivo, mas um levantamento dos principais aspectos.
A peneira, denominada em macua ethekwa, é um utensílio feito de tiras de bambu colhido nos baixios. As canas são expostas ao sol, para secar, e dela são tiradas tiras, raspadas e alisadas nos nós, cortadas em função do tamanho que o artesão quiser. Começa-se por entrelaçar o fundo da peneira, terminando por fechá-lo com um arco de um pau especial, denominado muyepe, bem raspado. Em seguida, cose-se com um tipo de arbusto chamado mutho ou hururi.
A peneira é utilizada para vários fins, particularmente pela dona de casa. Ela serve para transportar, armazenar e conservar produtos agrícolas, frutos silvestres e outros alimentos. O nome vem, porém, da sua função de separar os grãos (que ficam nos bordos) da farinha já moída (que converge para o centro) de cereais como arroz, milho, mapira e mandioca. São, no entanto, sobretudo os usos e valores simbólicos que atribuem à peneira o lugar de relevo que ela ocupa na nossa cultura.
Na cultura macua, a peneira simboliza, antes de mais, estabilidade no lar. Toda a casa tem peneira. Sem ela, um lar torna-se dependente de outro, acreditando-se que a mulher passa, por isso, a estar dependente da vizinha. Lar e mulher estão pois muito ligados à peneira, que simboliza início da vida, ritos de iniciação, o centro da terra. Alguns dizem ainda que a peneira simbolizava aves de rapina, como abutres, milhafres e outras.

Nos ritos de iniciação masculinos, todos os rapazes aprendem a fazer uma peneira, o que revela o seu papel central na estabilidade futura do seu lar. Este aconselhamento, olaquiwa, ensina os rapazes a colocar as primeiras tiras do meio do fundo da peneira, chamado "o centro da terra". no final dos ritos, a peneira também está presente - no final da instrução, o mestre (nakano - conselheiro, em macua), coloca na peneira uma variedade de cereais, coloca-a na cabeça e começa a cantar, andando, seguido pelos rapazes, até a farinha desaparecer, o que marca o fim da cerimónia.

Nos ritos femininos, é ensinada a utilização da peneira como sinalização. Em vez de comunicarem verbalmente ao marido o seu período menstrual e a sua indisponibilidade, a mulher deve pegar a peneira e tapar um dos cântaros e atravessar por cima o remo (pau que amassa a caracata (farinha de mandioca).
Se iniciados, os maridos logo entendem. Uma determinada colocação da peneira em casa pode, ao contrário, simbolizar a disponibilidade sexual. Como iniciação à vida, o papel da peneira é também complexo.
No interior, quando uma criança tem cerca de 30 dias de vida, é realizada a wakulelia muana. Trata-se de dar banho á criança com medicamentos tradicionais, para ela poder sair de casa protegida. Depois desta cerimónia, o recém-nascido é colocado na peneira e lançado aos quatro pontos cardeais, autorizando-o, assim, a casar em qualquer dessas direcções.
No litoral, a criança é posta na peneira ao sétimo dia e passada três vezes das mãos de uma pessoa dentro de casa para outra fora de casa e vice-versa. Depois de um banho de água misturada com medicamentos tradicionais, preparados no pilão, a criança está imunizada contra todos os espíritos.

Se uma criança se atrasa nos primeiros passos, os pais solicitam ajuda ao cunhado, napwera (que significa aquele com quem o pai brinca). Este coloca a criança numa peneira e arrasta-a, dando voltas pela casa. Quando pára, dirige-lhe alguns nomes. Passados alguns dias, a criança começará infalivelmente a andar, com a pressão do movimento simbolizado pela peneira.
Se aparece ligada à vida, também está presente na morte, pois é da tradição que seja usada a peneira quer para abrir a cova da sepultura, quer para lançar a terra que a tapará.

Os rituais de magia são outro dos campos em que está presente a peneira. Quando a mulher abandona o lar, os curandeiros oferecem medicamentos tradicionais ao marido, sivela (que significa gostar), que este deve colocar na peneira, processo que será repetido por três dias. No fim destes, o coração dela começa a palpitar duma forma anormal e surge o desejo de voltar a casa. É por tudo isto que o padrinho nunca se esquece de avisar o seu afilhado quando este prepara a sua vida de casado: "afilhado, não fez nada ainda, pois falta peneira".

A simbologia é, pois, para nós bem diferente da da mentalidade ocidental, que concebe a peneira como a separação da fina flor, através de malhas cada vez mais apertadas, ideia aplicável às relações sociais ou às actividades pessoais.

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Texto enviado por Armando Silva - Lisboa

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