terça-feira, 5 de abril de 2005

Relembrando o Dr. José Alves...!


Transferindo "post" do ForEver Pemba 3:

Ex-farmacêutico, ex-polícia, José Alves vive (viveu seus últimos dias) em condições desumanas!!!!

O DIABO (jornal português) retoma o causa dos espoliados das ex-colónias e aborda mais um caso humano dramático: José Alves, de 88 anos, vive agora os últimos dias da sua vida em condições difíceis. Para trás fica uma história côr-de-rosa de um licenciado em Farmácia por terras de Moçambique:

Da polícia para a Universidade
Na recôndita aldeia de Gondelim, concelho de Penacova, todos o identificam como o «doutor José Alves», devido ao seu passado como farmacêutico. Este idoso, de barba e cabelos bran­cos em desalinho e unhas enegreci­das, move-se com muita dificuldade, apoiando-se num providencial caja­do. A idade não perdoa. Para ele o tempo passa devagar. Muito deva­gar. Revela uma lucidez e uma preparação intelectual invulgar para um homem de tão provecta idade. Vive ao abandono e somente a generosida­de dos sobrinhos lhe disfarça a fome. Sobrevive com uma parca pensão de 30 contos.
Ele é um dos muitos espoliados das ex-colónias, que, da noite para o dia, ficou com uma mão-cheia de nada. Dir-se-ia que como o deste homem, nascido no período em que a I República dava os primeiros passos, há centenas de casos em Portugal. É possível. Mas cada histó­ria é uma história, e a de José Alves reveste-se de peculiaridades.
A pacata Gondelim, nas imedia­ções da Barragem da Raiva, foi a terra que o viu nascer. Afecto à classe dos "pés-descalços" como faz ques­tão de realçar, começou logo aos 5 anos a trabalhar no campo. «Não de sol a sol, mas de estrela a estrela», apressa-se a corrigir. O serviço mili­tar foi cumprido em Vendas Novas. Os estudos ficam para trás sem gran­de êxito, apesar das potencialidades que todos lhes reconhecem. Concluiu o 2º ano do liceu apenas com a ins­trução primária cumprida. Entretan­to, aceita o desafio de dois colegas e concorre à polícia.
Entusiasmou-se, e mais tarde re­tomou os estudos. A experiência ob­tida numa farmácia da terra fá-lo ganhar o gosto por estas matérias. Demanda a «cidade dos estudantes», onde tira o bacharelato em Farmácia, para espanto de muitos que indaga­vam o que fazia um polícia na univer­sidade. Só posteriormente, com 35 anos e uma distinta média de 15 valores, logra a licenciatura na Uni­versidade do Porto. Inicia o périplo por algumas farmácias do País, pri­meiramente no Padrão, no centro da cidade do Porto.
Mas o apelo das províncias ultra­marinas revelar-se-ia mais forte. Em 1948 instala-se em Moçambique, na cidade de Lourenço Marques, na Far­mácia Augusto Nazaré, onde era sócio a título simbólico, porque «a lei assim o obrigava». O despedimento leva-o até ao estabelecimento de João Ferrei­ra dos Santos, na ilha de Moçambique, descoberta por Vasco da Gama em 1498 e onde os portugueses se instala­ram em 1506. Reconhece que em três anos de permanência em África arre­cadou mais do que nos restantes anos em Portugal. «Só para dar uma ideia, passei de dois para seis contos por mês, o que na altura era significativo.»
Em 1956 atinge a emancipação, quando passa a gerir a única farmácia de Porto Amélia. O facto de ter prescindido de ajudante obrigou-o a uma entrega total ao negócio, trabalhando «24 sobre 24 horas». -Ganhei a indepen­dência e deixei-me ficar para ver se ganhava mais algum. Só num mês acumulou 50 contos.

O esboroar do sonho africano
Os dias de tempestade levam-no à cadeia, apesar de ser o primeiro a reco­nhecer que o «preto moçambicano gos­tava de ser português». Detido, convi­veu com nove pessoas como sardinha em lata, sujeitos a torturas e interrogatórios numa cela à temperatura de 40 graus. As acusações de traidor eram as mais frequentes no tempo de cativeiro, período em que perdeu dez quilos. -Só havia pão e água, e o peixe que ser­viam era podre e nem os cães o queri­am comer, relembra.
Entretanto, dá-se a transferência da prisão provisória de Porto Amélia para o estabelecimento prisional de Machava, em Lourenço Marques. «Não me mataram porque não quise­ram», relata, e conta as suas experiên­cias nesta prisão política.
Aos 65 anos regressa a Lisboa, com "alguma roupa e um transístor". Dinheiro nem vê-lo. Antes de ser deti­do depositou cinco mil contos no con­sulado português em Moçambique, quantia que nunca mais reaveu. Fala com especial ternura do "canudo da formatura, escrito em latim", que o precipitar dos acontecimentos fizeram com que ficasse esquecido nas quen­tes terras de África.
Já em Lisboa seria acolhido pela Santa Casa da Misericórdia, onde, ironicamente, declara «não ter visto mostras de muita santidade».
À reforma social, no valor de cinco mil escudos, juntava-se o mesmo montante para a reforma da polícia, na sequência de um decreto-lei da res­ponsabilidade de Mota Pinto, que pri­vilegiaria quem tivesse sido funcio­nário do Estado. Um dia, na Segu­rança Social, um zeloso funcionário informou-o de que «não podia ter di­reito a duas reformas». Resultado: fi­cou reduzido a uma reforma, do tempo em que foi agente da autoridade. Do período em que foi farmacêutico, só perduram as memórias, porque da compensação social, nem tusto.
Por estes dias dorme num leito tosco e pobre sob quatro paredes sem condições, que, gracejando, denomi­na como «o palácio do doutor». Con­fessa que sofre muito com os rigores do Inverno, e o que lhe vale é o ar puro proveniente da imensa mancha de pi­nhal que o circunda - se calhar o segredo da sua longevidade.
Mais um, dos muitos casos, que continuam a escapar à sensibilidade dos políticos da nossa praça.

Nota da redação do "O Diabo":
Indaguei, por várias vias, se o Dr. José Alves ainda seria vivo e soube que ele teria morrido em finais de 2001.

Nuno Dias da Silva escreveu e Pedro Cardoso fotografou !
Posted by Hello

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