sexta-feira, 2 de setembro de 2005

A globalização faz mal aos pobres...

01.09.2005 - Já faz algum tempo que a economia mundial, tomada em seu conjunto, vem crescendo e, em alguns anos, com o pé no acelerador. Nem por isso, a situação das populações dos países ditos emergentes tem melhorado. Ao contrário, o fosso entre ricos e pobres – sejam pessoas, regiões ou países –, com o advento e disseminação da globalização econômica, vem se alargando dramaticamente. Um levantamento da ONU, reunindo séries históricas de vinte anos, que acaba de sair do forno, confirma, com números alarmantes, o fato lamentável.Há uma profusão de indicadores, nas mais de 150 páginas do relatório de 2005. Coordenado pelo brasileiro Roberto Guimarães, chefe do setor de análises sociais do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais, a publicação consolida informações novas e outras nem tanto, atualizando o retrato da pobreza e da desigualdade no mundo. Seu mérito maior é oferecer, com a chancela da ONU, uma visão de tal forma nítida e panorâmica que permite chegar, sem susto de erro, à seguinte constatação: a globalização faz mal aos pobres e acentua as desigualdades entre povos e pessoas.Não faltam dados e números para sustentar a conclusão. Mas nem é preciso ser exaustivo na análise das informações para verificar que a estrada do desenvolvimento humano em tempos globalizados leva ao precipício. Apenas cerca de 1 bilhão dos 6 bilhões de habitantes do planeta – pouco mais de 15% do total –, a esmagadora maioria nos países desenvolvidos, se beneficia dos resultados de 80% da produção mundial. Isso não justifica, mas explica por que os 20% mais ricos do mundo respondem por mais de 85% do consumo mundial, enquanto os 20% mais pobres não conseguem consumir nem 1% do que o mundo produz. Na entrada do século 21, com todas as maravilhas e confortos da tecnologia contemporânea, é algo absolutamente inadmissível.Alguém de bom senso já disse que a globalização econômica, à semelhança de certos fenômenos naturais, como as marés e as secas, não pode ser evitada. Mas isso não significa que não possa ser controlada, como são controláveis as marés e a seca. A conclusão do estudo da ONU é que a globalização não tem sido controlada. Basta ver que, nos últimos 40 anos, período em que sobretudo a circulação financeira sem fronteiras se impôs, enquanto a renda per capita nos 20 países mais ricos praticamente triplicou, nos 20 países mais pobres não avançou um terço. Daí o abismo de 120 vezes entre os US$ 30 mil per capita de um grupo e os US$ 270 do outro. Lembrete: no item defasagem de renda, o Brasil é o campeão mundial, com a renda per capita dos 10% mais ricos (gente com remuneração pouco acima de R$ 1 mil por mês já entra nesse grupo) superando em 32 vezes a renda dos 40% mais pobres. São pelo menos três as causas diretas da crescente concentração de renda planetária e da estagnação dos níveis de pobreza nas alturas inaceitáveis de 1,5 bilhão de seres humanos vivendo com menos de US$ 2 por dia. Uma delas remete aos problemas de acesso a bens e serviços, aí incluídos educação, saúde e segurança. Outra diz respeito à deterioração das regras de funcionamento e proteção do mercado de trabalho, aí incluído o setor público e estatal. A terceira tem a ver com a forma como tem se dado a liberalização comercial e financeira.As questões de acesso são dramáticas, pois não se restringem a problemas de renda, embora estes sejam, obviamente, os principais. É sabido que, atualmente, a produção de alimentos no mundo seria suficiente para alimentar, dentro de padrões mínimos requeridos para uma vida saudável, a totalidade da população mundial. No entanto, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar e fome, mesmo com a redução média no preço dos alimentos, tem crescido no mundo. São hoje mais de 850 milhões de pessoas, dos quais apenas 2% em países desenvolvidos. Além da renda, há a barreira institucional, da qual as dificuldades de alcançar o público-alvo e as distorções dos cadastros de programas tipo bolsa-família são um exemplo suficiente.Desregulamentações e flexibilizações no mercado de trabalho também contribuem fortemente para a produção de desigualdades. Erosão salarial, redução dos postos de trabalho, enfraquecimento de leis e regulações do emprego estão gerando uma epidemia de informalidade e precariedade no trabalho. Metade do mercado de trabalho na América Latina é informal e o percentual atinge 80% na África, boa parte sobrevivendo no subemprego com subsalários.Nos modelos de comércio em moda no mundo atual, o relatório da ONU descobre uma terceira fonte de produção de desigualdades. O comércio internacional tem evoluído com base preferencial em acordos bilaterais. A deterioração dos termos de troca, com os países mais ricos vendendo produtos e serviços de maior agregação tecnológica e comprando produtos de menor valor agregado tende a gerar um excesso de riqueza para os já ricos, em detrimento dos mais pobres. Se todo o comércio fosse global, a renda mundial cresceria, de acordo com cálculos da ONU e numa visão de conjunto, US$ 200 bilhões anuais, dos quais metade seria absorvida pelos países pobres. Com a expansão do modelo de comércio bilateral, no entanto, a estimativa é que a renda mundial anual cresça US$ 110 bilhões, integralmente absorvida pelos países ricos. Aos pobres restaria contrair dívidas em moedas fortes.

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