domingo, 23 de outubro de 2005

BAÍA DE PEMBA - mito ou realidade...


Em "LINHA D'ÁGUA" do "Correio da Manhã" (Maputo) de 21 de Outubro de 2005, Luis Loforte escreveu:

Tudo quanto se relacione com a cidade de Pemba me prende muita atenção.
E quero acreditar que todos sabem as razões disso, pelo que seria repetitivo expô-las aqui.
A razão, porém, de falar dela hoje prende-se com a passagem de mais um seu aniversário.
Antes propriamente de entrar no assunto que me motivou estas linhas, deixem-me revelar-lhes um problema que nunca consegui decifrar.
Quando em Agosto de 1968 parti com destino a Porto Amélia, partira do Sábiè.
Desde 1965 que aqui vivia e nunca soubera, exactamente, como se designava aquela terriola.
O mais curioso é que cada pessoa parecia escolher a sua própria designação: Sábiè (Saviela), Machatuine ou Mavila (ka Mavila).
À chegada a Porto Amélia, logo, logo me apercebi que cada um chamava também à terra o nome que a sua consciência lhe ditava: Porto Amélia ou Pemba.
De uma coisa, porém, todos estavam de acordo: a baía chamava-se Pemba, daí o porto não era de Porto Amélia, mas, sim, de Pemba.
É, aliás, sobre a baía de Pemba que pretendo trazer à liça uma outra ambivalência no que acerca da sua dimensão diz respeito.
A baía de Pemba é ou não é a terceira maior baía do mundo, como há muito nos habituamos a ouvir dizer?
C. Torres era um cronista respeitado do Rádio Clube de Moçambique, através do seu programa "Manta de Trapos".
Uma sua crónica urdida em Abril de 1973 e a-propósito das potencialidades virtuais do porto de Nacala previa que a "menos que algo de extraordinário e imprevisível aconteça, tudo indica que será Nacala o grande porto moçambicano do futuro".
Para Torres, a sua premonição era também sustentada por alguma dor de cotovelo sentida pelos habitantes de Porto Amélia, que sofriam as "consequências da inânime administração da antiga Companhia do Niassa", ao verem o nome de Nacala crescer, "gritando a torto e a direito que habitam nas margens da terceira maior baía do Mundo" e por isso tudo quanto Nacala vai conquistando lhes "era devido a eles".
Depois da bofetada aos habitantes de Porto Amélia, C. Torres partiu a zurzir Inhambane. Embora não seja motivo desta crónica, vale a pena citá-lo: "Quanto a ser a terceira maior baía do Mundo trata-se de uma patranha [história mentirosa] geográfica tão rotunda como ser Inhambane a terra a que Vasco da Gama chamou de ‘boa gente’".
Antes de trazer os exemplos que sustentam as suas razões, o cronista revolta-se com o facto do mito da baía de Pemba, assim como do de Inhambane, continuarem a correr como "indiscutíveis verdades de boca em boca".
Para C. Torres, bastariam "umas noçõezitas de geografia" para saber que "não há dezenas, mas talvez centenas de baías maiores do que a de Pemba em redor do Globo".
Dispensando a baía de Hudson e as dos mares gelados do Norte ou da Antárctica como exemplos de superação à de Pemba, gozou os pembenses da seguinte maneira: "Só nas ilhas nipónicas encontramos dezena de baías que metem a de Pemba num chinelo, seja qual for o ângulo pelo qual as encaremos".
E depois, sim, trouxe os exemplos: "Mas o que é pior para o caso de que estou a ocupar-me é que mesmo defronte de Moçambique se encontra Madagáscar, com umas seis baías maiores do que a de Pemba: Diego Suarez, Antongil, Bombetoka, Mahajamba, Ampasindayu e Narinda".
As farpas de C. Torres podem, estas sim, ser autênticas patranhas quando atiradas sem indicar os parâmetros em que assentam as suas comparações.
Se calhar, as centenas de baías que metem a de Pemba "nos chinelos" fazem-no em comprimento ou até pela estreiteza e elas, porventura, metidas "nas socas" de Pemba na componente profundidade e largura.
Tudo depende sempre do ângulo em que vemos as coisas.
Ora, mais do que "noçõezitas de geografia" teriam certamente os autores dos livros oficiais que eu conheço sobre Moçambique para escreverem que a baía de Pemba é larga e uma das mais belas do mundo ou que o epíteto de terceira maior do planeta tem nos parâmetros de amplitude e profundidade a sua base de sustentação.
Não seriam também atrasados mentais aqueles que nos dizem que apenas a baía de Guanabara, no Brasil, e a de Sidney, na Austrália, suplantam a da nossa Pemba.
E se os parâmetros são a amplitude e a profundidade, não estranha que em Guanabara e Sidney se localizem dois dos mais importantes portos do Mundo.
E no dia em que Moçambique resolver os seus problemas estruturais (estradas e caminhos de ferro funcionais), ainda vingará a tese de que o cais de Pemba, construído em 1957 e onde pode atracar um navio de longo curso de qualquer calado, servirá com grandes vantagens económicas o Malawi e uma parte da Zâmbia, além de servir melhor do que ninguém a drenagem da produção desse gigante adormecido que é o Niassa e da própria província de Cabo Delgado.
E agora uma pequena provocação e sem que se interprete tal diatribe como revolta pessoal por a cidade ter deixado de comemorar os seus anos no dia do meu próprio aniversário: 9 de Dezembro. Mas isso são contas do outro rosário.
A portaria 12712, de 18 de Outubro de 1958, publicada no Boletim Oficial número 62, primeira série, da mesma data, elevou a vila de Porto Amélia à categoria de cidade com a denominação de "Cidade de Porto Amélia".
A denominação "Cidade de Pemba" foi anunciada, em comício, por Samora Machel, que eu saiba sem qualquer portaria ou Boletim da República.
Tal como aconteceu, afinal, em relação a outras urbes: Lourenço Marques para Maputo, João Belo para Xai-Xai, Vila Pery para Chimoio, e por aí fora.
O que é que comemoramos, afinal, a 18 de Outubro: a criação da cidade de Porto Amélia ou a criação da cidade de Pemba?
E para terminar esta evocação, apenas uma pequena observação.
Quando cheguei a Porto Amélia, a cidade ainda se encontrava, de facto, na parte baixa e só timidamente subira para cinquenta metros acima do nível das águas marinhas.
Morei num bairro que já nem vestígios ostenta: o "Comboio".
Nas zonas hoje nobres, ainda vimos macacos trepando as maçaniqueiras.
Sempre estranhei que as casas em Porto Amélia fossem construídas com paredes descomunais, algumas com para aí trinta centímetros.
Afinal, segundo mais tarde havia de tomar conhecimento, a cidade de Pemba é propensa a ciclones e os edifícios, por várias vezes no passado, já foram destruídos e arrasados.
Hoje por hoje, ainda se terá em conta esse capricho da Natureza?
Outra particularidade da cidade de Pemba no passado é que a água corrente era captada do mar e depois desalinizada.
Cada residência ou mesmo instituições eram construídas com a respectiva cisterna, que captava a água das chuvas (abundantes e quase em regime permanente) e normalmente destinada ao consumo humano.
Hoje, fala-se em cinquenta e um biliões de meticais para a reabilitação do sistema Pemba-Moaguide para trazer água doce à cidade, o mesmo que se fez, aliás, há pouquíssimos anos, o mesmo que se fará daqui a poucos anos.
Mas se além de olharmos para o passado buscando as datas que nos fazem celebrar o aniversário de uma cidade bela, nesse passado talvez também encontrássemos soluções para muitos dos problemas que nos afligem hoje.
Bem haja, cidade de Pemba!
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Colaboração de I. A. P.
Via: "Correio da Manhã"- Nº 2188, Sexta-feira, 21/Outubro/2005
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Editor: 21305326, Fax: 21305328.
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