sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Euro-África minha...


(Trabalho do artista plástico Ralph Sirianni)

A Mãe é do Douro e nasceu no Porto por um acaso feliz; eu sou do Tejo e nasci em África por um acaso da sorte. A Mãe fez dois anos durante a viagem para Moçambique; eu fiz dois anos, na torna-viagem, pouco depois de chegar a Lisboa, vinte e dois anos mais tarde.
A Mãe guarda duas ou três memórias breves desses tempos primevos passados no norte, antes da viagem africana: a apanha das castanhas ouriçadas debaixo dos castanheiros durienses e um rio de vinho a escorrer de uma pipa que ela abrira sem saber como... mas também eu guardo algumas memórias tímidas mas nítidas desse ínfimo tempo africano que me coube: a cadelinha Susy e os seus dois cachorrinhos e uma traquinice insignificante que “vitimou” minha prima.
Quando a Mãe visitou Portugal pela primeira vez, em Abril de 1975, trouxe-me com ela. Eu tinha um ano mas lembro-me perfeitamente de Tróia e da piscina com dezenas de cadeiras amarelas vazias, espreguiçadas ao sol primaveril. Em Maio voltámos a Moçambique e em Novembro eu já estava definitivamente de regresso a Portugal com os Avós. Meus Pais só regressariam em Abril do ano seguinte.
Durante estes quase trinta anos, a Mãe, inicialmente com alguma incontida emoção, foi descobrindo e conferindo a História e a Geografia de Portugal que ela conhecia apenas do Liceu e das descrições familiares, num tempo em que ainda se aprendia que D. Afonso Henriques era um rei façanhudo e destemido que tinha conquistado aos mouros Santarém, Lisboa, Alcácer do Sal, Évora, Serpa, e Juromenha.
A mesma emoção que eu senti quando, tal como ela, anos mais tarde regressei a África, primeiro à África de Sul e quatro anos depois a Moçambique. Então, também eu reconferi, embargada, a Lourenço Marques colonial imaginada, narrada pelos Pais e Avós, com a Maputo da minha experiência pessoal actualizada. Mas também Porto Amélia (Pemba), a Ilha de Moçambique (a Ilha), Nampula (a Linda), a Beira...
O Minho, o Douro, o Vouga, o Mondego, o Tejo, o Sado, o Mira e o Guadiana da Mãe tiveram, então, a sua equivalência nos meus Rovuma, Monapo, Licungo, Zambeze, Save, Limpopo, Incomati e Umbeluzi.
E se minha Mãe tinha sabido redescobrir as vinhas do Douro, os pinhais de Leiria e os montados do Alentejo... também eu soube redescobrir os mangais do Lumbo, os palmares da Angoche e os canaviais de Xinavane... e nem sequer o Marão, a Estrela e Arrábida ficaram sem os seus Namuli, Chiperone e Gorongoza...
Agora, que já conhecemos o verso e o reverso do mesmo percurso euro-africano que ambas partilhamos, intrincado de partes de um mesmo diapositivo de sentimentos comuns, estamos definitivamente quites com a memória.
Por: Bárbara (Cokas) em 06/03/2005 no Sublimações

2 comentários:

Bárbara Vale-Frias disse...

É bom saber quando um texto meu toca alguém. Este, então, foi um dos que me deu mais prazer escrever :)

Obrigada pela divulgação no Forever Pemba :)

gotaelbr disse...

De nada...E continue com essa disposição de nos contar casos e histórias que nos transportam a África-Moçambique.

Um Abraço,

Jaime