sábado, 26 de novembro de 2005

Diversificando - A gente se vê em Blade Runner...



26.11.2005 -Vocês podem não acreditar, mas eu tenho um amigo rico, muito agradável e extremamente inteligente, tudo na medida certa.
De vez em quando a gente se encontra e, sempre antes do cafezinho, a conversa inevitavelmente envereda filosoficamente pela questão do destino dos pobres.
Gosto de saber o que o andar de cima pretende fazer com os miseráveis.
Meu amigo não é um rico qualquer.
Ele tem humor, imaginação e uma dose de maluquice incomum aos neurônios endinheirados. Certa vez, falávamos sobre a explosão demográfica na Rocinha, ele me expôs um plano que considerava o único com chances de reverter o problema: todos os barracos seriam desapropriados através de negociação direta com a comunidade e os favelados indenizados a peso de ouro por uma incorporadora multinacional autorizada a ali construir e administrar um misto de Cote D’Azur e Beverly Hills, enfim, uma área exclusiva para ricos nas encontas de São Conrado e da Gávea.
“Não faz sentido o que poderia ser o metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro ocupado pela população de mais baixa renda da cidade.
”Essa foi a penúltima vez que nos encontramos e, na ocasião, me despedi com a sensação de que a turma que está podendo ainda não havia descartado os pobres das negociações para um mundo melhor.
Por mais que se possa criticar a idéia de substituir barracos por mansões, se no final das contas restar ao favelado uma graninha boa para viver decentemente, quem sabe até com capital para inaugurar negócio de fundo de quintal, por que não, uai?
Não vou ser hipócrita aqui de dizer que meu amigo gosta de pobre.
Ele não gosta, mas também admira pouquíssimos ricos.
O rico inteligente é uma minoria muito solitária e divertida.
Adoro essa raça!
Pensava no prazer do reencontro enquanto subia na quarta-feira passada os últimos degraus que levam ao terraço do Nasdaróvia, nosso ponto de encontro de sempre.
Lá estava ele, na mesma mesa, com outro terno impecável de sempre, sorriso de despreocupação...
Só percebi que alguma coisa estava fora de ordem depois que, como de hábito, provoquei meu amigo a filosofar sobre a estratégia dos ricos para conter o avanço dos excluídos.
“Afinal, sendo última moda em Paris, você deve estar a par da Revolução do Mal-Estar que espalha pelo mundo a idéia da socialização do desconforto...”
Meu amigo estava sabendo e tinha más notícias a dar aos pobres: os ricos vão perder a paciência em questão de segundos.
“Nos últimos anos o neoliberalismo agravou de tal forma a concentração de renda, que já não faz mais nem sentido falar em distribuição, coisa nenhuma.”
A possibilidade de convivência pacífica estaria por um fio.
Não o levei a sério:
“E como é que vão fazer para se livrar dos miseráveis? Será que, como no filme ‘A Fuga das Galinhas’, vão inventar uma máquina para transformar excluído em torta?” Sentindo que eu estava de galhofa, ele entrou no jogo:
“Talvez abram temporadas de caça aos excluídos”.
Mas, falando sério, acha que os ricos vão preservar seus mundos e confinar os excluídos em áreas vigiadas de conflagração consentida.
Matem-se!
“Tente dar um jeito de escapar de Blade Runner, parceiro!”
Comecei a ficar apavorado.
Meu amigo não está brincando quando fala da reação das elites e da classe média européia aos “distúrbios sociais” na França.
“Não querem isso perto deles, estão com horror a imigrantes pobres!”
Pelos cálculos do meu amigo a Europa inteira vai votar em governantes cada vez mais truculentos.
“Daqui a 20 anos”, prevê, “Bush terá sido o estadista mais preparado das últimas duas décadas”, arrisca.
“Enfim, não espalha, mas estamos em guerra.”
Me despedi do amigo como se fosse a última vez – dificilmente escaparei de Blade Runner –, mas logo adiante pensei: se Deus quiser a chuva vai adiar o arrastão para outro fim de semana.
Por Tutty Vasques - tutty@nominimo.ibest.com.br
Via: "NoMínimo"

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