quarta-feira, 9 de novembro de 2005

...Uma vez em Caia - Moçambique !


Decorriam os anos de 1975/1976.
As chuvas caiam com intensidade.
Uma avioneta faz -se á pista de Caia (Moçambique) e, uma jovem de vinte anos com o seu filho de dois meses descem.
Além do marido que a aguardava, ao seu lado estava o Engenheiro Carrilho, naquele modo educado e brincalhão, a dar-lhe as boas vindas e a divertir-se com seu ar assustado.
Foi bom encontrá-lo.
A jovem suspirava por saudades de Maputo e, aquele fim do mundo, aquela umidade, aquele calor doentio, aquelas chuvas castigavam seu peito...
Era enfim uma zona de Moçambique que não conhecia.
Nos serões na grande varanda de estilo colonial falava-se de terras e gentes de Cabo Delgado, da faculdade já que todos que ali estavam estudaram na mesma época na Faculdade de Engenharia em Maputo: o Zé Rendas e o Japs - José António Pereira da Silva que vive em Maputo.
Eram da Somopre - da ponte sobre o Zambeze.
E o marido da jovem trabalhava na Manuel da Silva Oliveira...a celebre estrada centro nordeste...O Engenheiro José Carrilho era da fiscalização por parte do governo .
Com o tempo, o estado do bebê, filho da jovem, ia piorando vítima de uma grave disfunção muscular.
A jovem levou-o para se tratar e viver em Portugal,...mas ela voltou depois de deixá-lo com os seus pais na Povoa de Varzim...Voltou para Caia.
Um dia, quando regressa da Beira na avioneta do Guerra , chega a casa e é informada que o seu marido está preso e a ser interrogado pelo grupo dinamizador e policia da Frelimo.
Em pânico procura ajuda...
Está no seu quarto lavada em lágrimas quando alguém bate á porta e senta-se ao seu lado, abraça-a e diz-lhe:
- "Nada vai acontecer. O Delgado (marido da jovem) é um bom colega e um bom profissional, confia em mim, não permitirei que lhe façam mal."
E partiu...
A noite decorreu cheia de lágrimas.
Mais dois dias se foram e ninguém aparecia.
Disseram à jovem que o Engenheiro Carrilho presidia às reuniões sempre muito zangado quando falava.
Ao fim do terceiro dia, o sol começava a pôr-se e a jovem ouve gritos dos empregados da casa.
Corre para o portão e aos poucos vai saindo para o meio da estrada de terra vermelha batida pela chuva com explosões de pequenos cristais, tamanha era a força com que a água tocava o chão.
Ao fundo começavam a surgir duas silhuetas que pareciam emergir do estrondo da trovoada e relâmpagos...Eram José Carrilho e João Delgado!...Ali os dois...todos molhados...
A jovem desmaia e acorda na sala.
Ao seu lado o seu marido pálido com a barba por fazer de dias e o Engenheiro José Carrilho.
... ...
Um dia partiram para Maputo e, no aeroporto, a jovem abraçada ao Engenheiro Carrilho promete que nunca o esquecerá e voltaria a encontrá-lo.
... ...
1997-Pemba...Um abraço bem forte: o Zéca Carrilho ali estava. Conheceu o bebê já homem e mostrava felicidade porque aquela mulher, aquela família, nunca o esqueceram...
1998 – Maputo, foi a ultima vez que o viu.
2005 – Hoje, essa jovem sou eu.
O bebê é o meu filho mais velho de 30 anos, irmão de mais três.
Muitas vezes me lembro da noite em que o pai dos meus filhos voltou para casa, numa época política instável e tumultuada que se vivia em Moçambique, quando poderia ter ido prisioneiro para um dos campos da Gorongosa.
Sou moçambicana.
Com os erros passados aprende-se a construir um país melhor... mas ali, naquele tempo, o enorme coração do Engenheiro Zeca Carrilho evitou que um ser humano fosse vítima de um erro.
Considero-te Zeca Carrilho, uma das estrelas que mais brilhará no céu de Caia e Moçambique.
Quem sabe a qualquer hora, ao olhar o firmamento estrelado, irás mandar-me uma mensagem, um sinal, como acontecia quando éramos parceiros nos jogos de cartas de tantos serões?...
E então, pedir-te-ei, seja lá onde estiveres, para tomares conta de nós, como tão bem fizes-te em 1975/76 na distante Caia.
Aqui deixo a eterna saudade das famílias Delgado e Fernandes Pinto.
Um beijo terno muito meu,

06/10/2005 - Maria Manuela de Fátima Marques Pinto (Fátinha)

Mensagem postada no
alusiva ao aniversário de falecimento do saudoso parceiro e amigo desde os bancos escolares na então Porto Amélia – Zeca Carrilho.
Também encontrará este texto na página da Home Porto Amélia/Pemba dedicada à
A foto acima foi retirada do site UNIT

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