sábado, 22 de abril de 2006

Cabo Delgado volta ao cultivo de algodão .

Os distritos de Chiúre, Ancuabe, Quissanga, Meluco e Macomia poderão voltar ao cultivo intensivo do algodão, assim que a anunciada fábrica de descaroçamento for instalada, ou na região de Metoro, distrito de Ancuabe, ou em Chiúre, segundo esperam os produtores e respectivos directores distritais.
A nossa Reportagem colheu a sensibilidade que os produtores têm sobre o "dossier" que fala da instalação de uma fábrica de descaroçamento do algodão, em princípio em Metoro, Ancuabe, tendo como denominador comum a ideia de que porá fim ao monopólio pela PLEXUS, entretanto instalada na zona sul, em Montepuez, sem, porém, capacidade de cobrir o resto da província que igualmente é potencial produtor do chamado "ouro branco".
António Maurício Aiane é supervisor da rede de extensão rural e nos revelou que havia uma coordenação entre os directores distritais visando estudar a necessidade da existência de mais uma fábrica em Cabo-Delgado.
"A ideia é muito bem-vinda, desde que esteja no território de Chiúre, porque, do ponto de vista de história, Chiúre já fez algodão, já teve um fábrica em Ocua, há razões para isso, pois a produção existe".
A região de Chiúre, que estava concessionada à SODAN, de quem recaía a responsabilidade de fomentar aquela cultura, passou a ser também cobiçada pela PLEXUS, que foi socorrer aquela empresa da falência que então se anunciava.
"Foi encarregada a PLEXUS, através de um memorando de entendimento entre os dois, mas não quer dizer que tenha sido concessionada, por isso pode se considerar uma área por explorar. Aliás mesmo na sua própria área de concessão a PLEXUS ainda não mostrou poder cobrir toda a região. Mais uma fábrica não seria demais".
António Aiane diz mesmo haver um défice de atendimento e cobertura da província por parte de empresas concessionárias ou fomentadoras do cultivo do algodão, razão pela qual as populações, a pouco e pouco, estão a abraçar uma outra cultura de rendimento, o gergelim.
"Mas esta terra é rica em algodão, só que as populações já não acreditam nestas empresas que menos dia mais dia desistem, nem no que a PLEXUS possa fazer.
A ideia de uma outra fábrica vai impulsionar o regresso dos tempos bons do algodão", diz Aiane. Por seu turno, Dinis Rafael, director distrital da Agricultura em Ancuabe, afirma que a instalação de mais uma fábrica em Cabo Delgado, não é problema principalmente na zona em que se prevê que venha a ser instalada.
"Há quem não produza algodão por falta dessa fábrica. O meu distrito, situando-se na área em que tal se pretende, acolhe com muito entusiasmo a ideia, porque pode vir a ser um grande incentivo. Está a faltar! Devia ser amanhã e a população diz o mesmo", afirma Dinis Rafael, tendo em conta que o problema , grosso modo, situa-se não tanto na produção do algodão, mas sobretudo na comercialização, seria bom que os novos empreendedores utilizassem as duas modalidades, nomeadamente o fomento e a produção empresarial.
"Porquê não haver competição no sector algodoeiro, se em toda as actividades económicas, e não só, no nosso país há concorrência? Não queremos eliminar um deles, mas sim que se abra a possibilidade de competir para o bem de todos".
José Severino Schereiber é um agricultor que insiste em, a cada campanha, voltar a produzir algodão na região de Ancuabe.
Ele acolhe com satisfação a projectada segunda fábrica, porque, no seu entender, alguma injustiça que vem da PLEXUS poderia parar.
"Desta forma o concessionário, único, não estaria aqui a brincar connosco, o que sozinho está a fazer. Faz o que lhe apetece, celebra contractos que depois não honra, principalmente nos financiamentos e assistência técnica. Para conseguir um técnico tem que ser à responsabilidade do agricultor, enquanto eles têm muitos", lamenta Schereiber.
Este agricultor fez neste ano 55 hectares de algodão, nas áreas sob a concessão da PLEXUS, depois de um financiamento de 14 milhões de meticais que, conforme ele, resultaram de um empenho pessoal.
"Consegui com o meu dinheiro e outro retirado fora, nomeadamente da GAPI, que tanto me ajudou. Penso que, pelo menos dinheiro para pagar o empréstimo vai sair".
José Schereiber, devido a problemas climatéricos, nesta campanha viu-se obrigado a fazer seis sementeiras na sua área, localizada a 296 quilómetros da sede do distrito de Ancuabe, em Moteja Cocora.
"Queremos mais fábricas, mais concessionárias, para que, como privados, escolhamos a quem vender, conforme cumpre ou não, os compromissos. Uma liberalização é que pode incrementar o cultivo do algodão, de contrário, os discursos políticos sobre o combate à pobreza, não estão a dizer nada".
Estes problemas, conforme a fonte, fazem com que, ano após ano, a produção do algodão esteja a abaixar, como exemplificam as quatro campanhas em que ele participou.
Na primeira campanha 2000/2001, eu produzi 42 toneladas, a seguir, 22 toneladas, em 2002/2003, baixei para 40.250 toneladas e na última consegui 37 toneladas. Não sei o que espero desta que ainda não terminou”.
O distrito de Meluco, outro potencial produtor de algodão, em Cabo Delgado, está quém das suas capacidades de produção.
Desde a crise criada nos anos 97/98, da produção que não foi comprada pelo grupo "Sir Motors", nunca chegou a reanimar-se.
Na campanha passada, segundo dados colhidos do Instituto Nacional do Algodão, sediado em Montepuez, só pôde produzir 65 toneladas.
Os produtores esperam que com a instalação de mais uma fábrica possam ter motivos que lhes obriguem a acreditar na seriedade da cultura do algodão, visto que desde os já referidos tempos da "Sir Motors" nunca mais voltaram a encontrar um parceiro sério.
Em Quissanga, muito concretamente no posto administrativo de Mahate, onde já funcionou uma fábrica de nomeada, antes pertença da então Sagal, e mais de 20 anos depois recuperada pela então Mocotex, as opiniões sobre instalação de uma nova indústria fora daquele distrito dividem-se.
Por um lado há quem pense, como Murraquilha Omar, que em vez de procurar um outro lugar, mais importante seria reabilitar a que já existe e assim a unidade consumiria a produção dos restantes distritos da região que se pensa vir a ser abrangida pelo empreendimento que se prevê venha a instalar-se em Metoro, distrito de Ancuabe.
"Querem tirar-nos a única indústria que tínhamos no distrito, que fazia com que esta região fosse menos pobre, que dava vida a esta parte, também de Moçambique, querem enriquecer Chiúre e Ancuabe, quando já não são as mesmas dos outros tempos, partindo, sobretudo, do facto de que a cultura pelos camponeses ali residentes baixou drasticamente.
O outro factor a desfavor são as vias de acesso em relação aos pontos de produção e exportação do algodão.
Quissanga, apesar de se localizar muito perto do Porto de Pemba, cerca de 180 quilómetros, a estrada que liga estes dois pontos só permite que esta distância seja feita em mais de três horas e em condições precárias.
O mesmo se diz de Macomia e Ancuabe, sem falar dos cerca de 80 quilómetros que seriam , no mínimo, necessários galgar ao encontro de Meluco, sem entrar para as zonas de produção daquele distrito.

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