sexta-feira, 7 de abril de 2006

África é motivo de polêmica no novo Museu da Língua Portuguesa.



Não há igual no mundo.
Um museu totalmente dedicado a um idioma, com seus sotaques, origens e influências.
Mais que isso, ele vai muito além do tradicional conceito de museu, já que traz todo o conteúdo ligado à mais alta tecnologia.
Há jogos interativos com palavras, vídeos exibidos em telões gigantescos, instalações interativas. Uma "viagem sensorial pelo idioma", segundo os diretores do Museu da Língua Portuguesa, inaugurado no último dia 20 na Estação da Luz na região central de São Paulo.
Entretanto, uma polêmica poderia manchar projeto tão caprichado.
No totem multimídia denominado "Português no Mundo" há, segundo uma especialista, diversos "erros" sobre a história de Angola, Moçambique e outras ex-colônias portuguesas na África.
Na tela, há um mapa-múndi onde todos os países de língua portuguesa estão em destaque.
Ao se clicar, por exemplo, em Angola, tem-se a informação que sua guerra civil terminou em 1999.
Na verdade, o fim do conflito deu-se apenas em 2002.
Datas relativas às independência em países como São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau também estão incorretas.
Quem garante é a professora de Língua e Literatura Africanas do departamento de Letras Clássicas da USP, Rita Chaves, que visitou o museu e se mostrou inconformada ao observar as imprecisões.
"Justamente por ser esse um museu tão extraordinário é que esse descuido e esse desconhecimento me surpreendem. Será que ninguém revisou as informações?"
O jornalista Marcelo Macca, responsável pelos dados no tal totem, afirma tudo foi checado e rechecado.
"Trabalhei como roteirista do museu. Meu papel foi adaptar o material bruto que recebemos, complexo e acadêmico, para uma linguagem mais popular", explica.
E de onde veio esse material?
Uma boa parte foi retirada dos dados fornecidos por Ivo Castro, professor de Português e chefe do departamento de Lingüística da Universidade de Lisboa.
"Muitos angolanos consideram que o conflito terminou em 2002, mas também alguns pensam que o primeiro ato foi a retirada das tropas da ONU em 1997. Pelo meio, o processo teve muitas peripécias. Importante é que a guerra civil esteja mesmo acabada", diz Castro.
A reportagem apurou que, entre os consultores dessa seção do museu, não há nenhum historiador.
Angolanos visitando o museu também seriam surpreendidos ao ler que 40% da população de seu país falam português.
De acordo com a professora Rita Chaves, no mínimo 70% dos angolanos falam o idioma.
"Sem dúvida, isso acontecerá num futuro talvez não muito distante", se defende Ivo Castro. "Mas não conheço nenhuma estatística que aponte para tal número nos dias de hoje. As estatísticas não são fiáveis em Angola, sendo prudente proceder por analogia com Moçambique: neste país, há poucos anos calculava-se que 40% dos moçambicanos falavam português. Este mesmo número encontro em várias fontes aplicado a Angola."
In "O Povo" - (da Agência Estado) - 04/04/2006

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