sexta-feira, 10 de novembro de 2006

CABO DELGADO : População de Quissanga céptica quanto ao fim da pobreza absoluta...


Disseram a Lázaro Mathe que, como ele próprio afirmou, representava o presidente da República. A população de Quissanga não acredita que a pobreza (ainda que não seja absoluta) venha a acabar no seu distrito, sendo que, na sua opinião, o seu combate não passa de um slogan que pretende apenas mostrar o que seria bom para as populações daquele ponto de Cabo Delgado.
Um dos intervenientes à reunião popular dirigida pelo governador de Cabo Delgado, na localidade de Nivigo, Moisés Dias Air, disse que não se vê a seriedade do que se fala em torno da pobreza, que na sua opinião não pode acabar com uma agricultura de subsistência, em que o homem e a sua mulher todos os dias vão à machamba apenas para conseguirem, uma vez por ano, certas quantidades de comida que nem sequer cobrem todo o período. Dias Air acrescentou que o trabalho destes dois só dá para não morrerem de fome, o que não significa o fim da pobreza, pelo que o Governo, se quiser implementar o seu sonho, deve criar condições para a reintroduçao da agricultura mecanizada, se bem que este sector continua a base de desenvolvimento do país. "Nunca vamos desenvolver com a enxada de cabo curto, sem tractor, quando para se ter acesso ao crédito bancário exigem-se garantias que quem as tem não é pobre. Exigem casas de alvenaria, carros, motorizadas, tudo isso como garantia. Ora, quem tem isso tudo não faz parte do grupo dos pobres que deveriam ser apoiados para saírem da pobreza", sustentou Moisés Dias Air. Em Nivigo, localidade pertencente ao posto administrativo de Bilibiza, em Quissanga, tudo falta, apesar de estar no corredor da estrada Pemba/norte da província, exactamente em Modja. Uma loja encontra-se encerrada desde a guerra dos 16 anos. Vive-se de algumas barracas que os residentes dizem não satisfazer porque, conforme Emilio Abdala, nem sequer vendem pano branco, tradicionalmente usado para funerais. "Quando alguém morre temos que percorrer grandes distâncias à procura de pano branco, normalmente no distrito de Ancuabe. Quando regressa a pessoa já é tarde, razão porque os funerais de Nivigo realizam-se quase sempre à noite" exemplificou Abdala, que gostaria que o Governo local contemplasse a reabilitação das mesquitas no quadro do seu programa com os sete biliões de meticais alocados aos distritos. Aidar Salimo, por seu turno, convida o Executivo a repensar na sua atitude de protecção aos elefantes, que entretanto são a razão principal por que em Nivigo as pessoas passam fome. "Desde a independência nós produzíamos muito arroz nas margens do rio Montepuez. Produzíamos também bananas e batata-doce. Mas agora, com estes elefantes que vocês dizem para serem protegidos, estamos mal. Se fossem do nosso tio haveríamos de matar para mais tarde resolvermos o problema com ele", queixou-se Aidar Salimo. Pires Ássimo Sahá secunda o seu conterrâneo e acrescenta que várias áreas de cultivo de Nivigo, Bilibiza, Ntingue, Tororo e Mauá foram arrasadas impiedosamente e o panorama pode vir a complicar-se nos próximos dias, quando se entrar na (re)abertura das machambas para a safra seguinte. Para quem está a conseguir entrar na sua antiga machamba, fá-lo depois das 10 horas, altura em que os elefantes se retiram, mas para mais logo retomarem a reocupação das áreas de cultivo. "É que os elefantes já tomaram de assalto as áreas de cultivo e ninguém os pode expulsar. O Parque Nacional das Quirimbas diz que são mais importantes que nós", ironizou. A 500 metros do rio Montepuez, Nivigo não tem água potável, os poços da região não escaparam à fúria dos elefantes e há poucas informações sobre vítimas humanas provocadas por aqueles paquidermes.
PEDRO NACUO - Maputo, Quinta-Feira, 9 de Novembro de 2006:: Notícias
CABO DELGADO : População céptica nas teorias de desenvolvimento rural.
Também existem problemas com os elefantes igualmente na localidade de Cagembe, pertencente ao posto administrativo de Mahate, ainda no distrito de Quissanga Fernando Pia diz que não se percebe que se continue a proteger o elefante enquanto a vida das pessoas está em permanente perigo e jura que Moçambique não se vai desenvolver com elefantes.
"O que está na machamba não é nosso, o que está em casa, também não é nosso. Matam cabritos em casa, juntam-se os ladrões que temos aqui e limpam-nos a casa. Na machamba é outra vez o elefante. Elefante! Elefante! Elefante, senhor governador"! Lázaro Mathe, impotente ante as evidências de graves problemas que concorrem para o empobrecimento das populações, pediu ao povo que acreditasse na vitória sobre a pobreza absoluta, tal como havia acreditado que os moçambicanos seriam capazes de expulsar o colonialismo e combater a guerra dos 16 anos. "Temos uma boa liderança do presidente Armando Emílio Guebuza, que por sua vez escolheu homens firmes para as diferentes frentes de batalha. Havemos de vencer a pobreza. Podem acreditar que havemos de acabar com a pobreza", assegurou Mathe. A população nem sequer acredita nas diferentes teorias sobre o desenvolvimento rural. Disse a Lázaro Mathe que igualmente não vê com bons olhos o trabalho desenvolvido pela Fundação Aga Khan. "Nós não estamos a ver nada. As sementes são caras, mandam técnicos para nos ensinar a semear e vão embora. Não há mais acompanhamento e continuamos na mesma". A experiência recente com a "Maharishi Mozambique Global Administration", ainda na região de Nivigo, aumenta as suspeitas sobre a seriedade dos programas da Aga Khan. O "Notícias" apurou que há cerca de quatro anos, um projecto da "Maharishi" sonhava na utilização futura de 100 mil hectares, para o que dizia haver um investimento na ordem de 100 milhões de dólares norte-americanos a serem aplicados num prazo de cinco anos no desenvolvimento de uma agricultura orgânica e agro-industrial virada à plantação de fruteiras diversas, plantas medicinais e aromáticas, bem como legumes e vegetais, para além da exploração de variedades de madeireiras. Do valor global, segundo soubemos, 400 mil dólares representariam o investimento estrangeiro directo do projecto e seriam aplicados num ano, o mesmo que aconteceria com o investimento nacional directo para o mesmo período. Por outro lado, 99 milhões de dólares seriam realizados sob forma de empréstimos e o Banco de Moçambique seria responsável pela emissão de pareceres sobre os créditos solicitados. Porém, tudo não passou de utopia, incluindo a promessa de empregar, em tais situações, 417 trabalhadores moçambicanos que já haviam começado a devastar as matas da região de Modja (em Nivigo), que entretanto pararam nos 700 hectares, assim que se começou a duvidar da seriedade do projecto.
PEDRO NACUO - Maputo, Quinta-Feira, 9 de Novembro de 2006:: Notícias
CABO DELGADO : Um sonho adiado
Com o aborto do projecto, os moçambicanos, na maioria de Nivigo e da aldeia Mauá, viram o seu sonho adiado e ninguém ainda foi ao local explicar as circunstâncias em que tal aconteceu, deixando uma dívida que custa esquecer no seio da população.Na verdade, segundo dados reunidos pelo "Notícias", o fim do projecto veio anunciar-se quando a "Maharishi" não conseguiu desalfandegar o equipamento que trazia para o seu início, nomeadamente tractores, buldozeres, pás-escavadoras, máquinas de furo para abastecimento em água, charruas, entre outros.
As razões evocadas pelas autoridades aduaneiras assentavam no facto de maior parte do equipamento ser em segunda mão e outro sem nenhuma relação com as actividades inscritas, como por exemplo, mil câmaras frigoríficas. Por outro lado, a "Maharishiri" impunha ao Governo moçambicano a introdução de um sistema fiduciário não comum entre nós, nomeadamente que na área de influência do projecto, os distritos de Quissanga, Meluco, Montepuez, Ancuabe e Macomia, que se trataria como zona franca, não se usasse a moeda nacional nem outra qualquer, mas sim, circulassem cupões (senhas) para todo o tipo de troca. Numa altura em que ainda não haviam sido apresentadas à parte moçambicana as garantias da existência de dinheiro em algum banco do mundo e a "Maharishi" defendia que as árvores e o que fosse possível fazer como riqueza é que eram o sustento do projecto, o vínculo acabou se dissolvendo, tendo o projecto sido transferido para Madagáscar, onde foi aceite. Esta história, com todo o requinte a que se lhe emprestou, ficou na retina da população dos distritos que seriam abrangidos pelo projecto, mas muito particularmente do distrito de Quissanga, onde se localizava a sua sede, a menos de um quilómetro da localidade Nivigo. E a mensagem de Nivigo de que a pobreza não se pode eliminar nas actuais circunstâncias, veio a repetir-se em quase todos os lugares por onde passou o governador Lázaro Mathe. Reitera sempre que combater este flagelo só pode ser possível se forem tomadas acções muito concretas na área da agricultura, base da economia nacional. Também dizem que não se combate pobreza com a manutenção da medida que proíbe o abate dos elefantes que devastam as suas machambas. Os sete biliões alocados ao distrito de Quissanga são, outrossim, o ponto à volta do qual reinam muitas desconfianças. O administrador distrital, Alafo Abdala, é acusado de decidir sozinho sobre o destino daquele bolo orçamental. A população quer saber a quem vai beneficiar o dinheiro e em que áreas de desenvolvimento, facto que levou a que Alafo Abdala reagisse, em jeito de esclarecimento. "O Conselho Consultivo do Distrito reuniu-se e encontrou algumas prioridades, como seja a construção de um centro de Saúde de Macoba, uma fonte de água na aldeia Linde, reabilitação da residência do secretário permanente do distrito", disse o administrador do distrito de Quissanga. De acordo com o governante, o centro de Saúde vai custar 4,5 milhões meticais da nova família, a fonte de água 350 mil MTn. Entretanto, o distrito foi desaconselhado a reabilitar a casa do secretário permanente, por o dinheiro não se destinar à reabilitação de infra-estruturas do Estado. Sendo assim, conforme apurou o nosso Jornal, o dinheiro foi reorientado para outras acções, como a compra de um atrelado para tractor, charruas, grades e capineiras, já requisitado. Pensa-se igualmente na criação de uma loja a entregar a um comerciante que tenha a capacidade de comprar e vender produtos em grandes quantidades, já encontrado na sede do distrito, a quem se lhe deu 350 mil MTn. A aquisição de bombas pedestais, em Maputo, a compra de 261 caprinos para 87 famílias, para o fomento, redes para associações de pescadores de Bilibiza, Mahate e sede do distrito e o financiamento a associações de carpinteiros, constam das prioridades do Conselho Consultivo Distrital para a utilização do valor de 2,15 milhões MTn. "Mas são ideias nossas. Como não sabíamos ainda dos custos, corremos o risco de não concluir todos os projectos; é pouco o dinheiro que resta" diz Alafo Abdala. É aqui onde residem as desconfianças da população. Já na sede do posto administrativo de Mahate, onde teve lugar a sessão extraordinária do Governo do distrito, vozes se levantaram de dentro do Conselho Consultivo a negar que tenham conhecimento dos projectos anunciados pelo administrador, deixando a nu o facto de que a sua participação foi nula.
PEDRO NACUO - Maputo, Quinta-Feira, 9 de Novembro de 2006:: Notícias

Nenhum comentário: