sábado, 14 de abril de 2007

Quando...desconfiar não é mau!


No segundo semestre de 1998, uma parte das 12 toneladas de haxixe, então apreendidas (ou encontradas?) em Quissanga em Agosto do ano anterior, seguia, num barco propositadamente preparado para Maputo onde hipoteticamente iria ser destruído. Pouco antes, um grupo de seis agentes da PRM tinha sido preparado para proteger a mercadoria ruim, como forma de evitar que seguisse outros caminhos.
A esse grupo de polícias se havia, inclusive, distribuído dinheiro para as respectivas ajudas de custo, tanto para a viagem como para a sua permanência em Maputo, donde deveriam regressar depois da missão cumprida.
A última hora receberam ordens para não seguirem viagem e mesmo assim, o dinheiro das ajudas de custo ficou com eles. Deixou-se que ficasse de contas que viajaram e foi um passo para eles que, afinal, iriam para uma missão espinhosa pela qualidade da mercadoria a proteger.
Nunca mais se soube quem levava a mercadoria, se chegou a Maputo, muito menos se chegou a ser destruída, como seria lícito. Não houve nenhuma informação, quer dizer, nenhuma comunicação (mesmo que anti-social) chegou a noticiar a incineração do haxixe de Quissanga.
O haxixe de Quissanga foi notícia quando foi encontrado nas matas de Quiongo, em Quissanga, quando se detiveram pessoas, quando começaram as investigações, outras detenções e quando se fez o julgamento em Abril de 1998. Deixou de ser notícia quando era necessário sair e chegar (se chegou...onde?).
Ora, isso dá para desconfiar. Também dá para desconfiar o que estamos a fazer com os apoios que damos aos infortunados em virtude das cheias e inundações do vale do Zambeze, do ciclone Fávio e, já muito recentemente, das vítimas das quatro causas identificadas pela Comissão de Inquérito encarregue de investigar os acontecimentos do paiol de Mahlazine.
Um movimento nacional de apoio aos nossos compatriotas nasceu e foi correspondido, fazendo-nos lembrar os tempos em que nos sentíamos orgulhosos por sermos moçambicanos, em que as diferenças eram mínimas, por isso cada um sentia a dor do outro. Ainda bem que estamos a voltar a isso!
Em Cabo Delgado, um comerciante doou de uma só vez mais de 12 toneladas de produtos alimentares, realizaram-se espectáculos musicais e desportivos para a colecta de bens e dinheiro, jornalistas contribuíram, confissões religiosas...
O mesmo, pelo que deixam ouvir os órgãos de comunicação social, aconteceu em todo o país, exactamente porque os moçambicanos estão cada vez mais (re)unidos, sobretudo em momentos de dor e sofrimento.
Acompanhamento da Imprensa
Ora, em cada acto de colecta e recepção dos diversos tipos de apoio, sempre foi chamada a Imprensa. Em todos actos, ainda que fosse para dar um cheque de 2.500,00MT, sempre se chamou a Imprensa para testemunhar e publicitar o acto. Talvez por isso o gesto humanitário se alastrou muito rapidamente para todos os cantos deste país.
Todavia, a Imprensa não aparece, não testemunha, é quando os produtos colectados seguem o destino. Não estamos a ouvir notícias de que em determinada região o que foi colectado está a seguir viagem. Não estamos a ver ou ouvir reportagens sobre o descarregamento desses produtos no local onde os necessitados se encontram.
Do jeito “este camião vem da província de Niassa, traz a contribuição daquela província para apoio aos infortunados acomodados neste centro de Chupanga”, por exemplo, ou “passou por aqui um camião, proveniente de Cabo Delgado, carregado de produtos que aquela província nortenha colectou em apoio às vítimas...”.
Não estamos a saber quem são as pessoas que a partir de uma determinada região acompanham o lote de apoio até ao destino. Entregou a quem, como se sentiram os destinatários, onde está acondicionado e como é que de facto estão lá os nossos concidadãos.
Gostaria que um dia ouvisse, lesse, ou visse televisionado algo como isto: o chefe da equipa que transportou os bens doados pela província “Y” já regressou. Ele conta como foi a viagem e outros aspectos da missão humanitária que lhe levou a aceitar tamanha responsabilidade.
“Sim, obrigado pela oportunidade que me dá. A nossa viagem, como sabe, levávamos três camiões de 40 toneladas cada. Partimos daqui pelas quatro horas do dia “x”, pernoitámos na região “z” e logo pela madrugada partimos, mas antes de fazermos 80 quilómetros o camião que ia à frente teve uma ligeira avaria. Depois de resolvido o problema, o mesmo fica enterrado”, etc, etc...”
É dizer: a Imprensa não acompanhou o processo até ao fim e, em consequência, não sabe se o que noticiou no primeiro dia teve seguimento ou não. Como tal, aqueles que contribuíram ainda não sabem se o seu apoio chegou ao destinatário ou não. E isso não dá lugar para desconfianças? Se desconfiar não é mau!
PEDRO NACUO - Maputo, Sábado, 14 de Abril de 2007:: Notícias

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