sábado, 21 de julho de 2007

Cabo Delgado - Bilibiza...

Bilibiza: Assim se faz o desenvolvimento.
Quando se chega a Quissanga, distrito costeiro, a cerca de 80 quilómetros a norte da cidade de Pemba, em Cabo Delgado, a primeira coisa a constatar é a sensação de não ter sido essa distância percorrida, sobretudo quando se pretende ir por aquela que seria a mais curta ligação com a sede daquele distrito, via Metuge. São três horas e mais para fazer 80 quilómetros!

A outra forma de ir a Quissanga é preferir, nos tempos que correm, fazer acima de 200 quilómetros pela estrada nacional que leva ao norte (Mueda, Muidumbe, Nangade, Mocímboa da Praia e Palma) para fazer o desvio na aldeia 19 de Outubro, a poucos quilómetros de Macomia.
Quissanga é distrito inevitável para quem vá, via terrestre, à Ilha do Ibo, assim como à maioria das ilhas do arquipélago das Quirimbas, sendo óbvio, que tais dificuldades sejam extensivas a quem tenha como destino aqueles locais históricos e turísticos que chamam a muitos curiosos por este mundo fora.
O administrador distrital, Alafo Abdala, de cada vez que recebe hóspedes coloca, por isso, as vias de acesso como o principal problema que leva a que o seu distrito ainda, na sua opinião, continue muito pobre. A seguir, é o problema perene do conflito entre homem e os animais bravios. O comandante da PRM de Quissanga secundando o seu administrador, quase que acusa as visitas governamentais como factores que atiçam o conflito ao afirmar que “de cada vez que vem uma visita, logo a seguir à sua retirada os elefantes atacam e matam”. Por outro lado, os membros do Governo distrital acreditam que os esforços dos camponeses são em vão e aumentam as dívidas destes face aos seus compromissos com as organizações e empresas que apoiam ou fomentam a agricultura.
Alafo Abdala, interpretando o sentimento que disse ser das populações que dirige, ainda fala da energia da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, do ensino secundário e da falta de água potável, para além da peculiaridade de ser um distrito totalmente no interior do Parque Nacional das Quirimbas sujeito às regras que guiam os propósitos que nortearam a sua criação.
Quissanga tem apenas dez moageiras como representação do que estaria na lista do que seja alguma infra-estrutura industrial e não possui nenhuma loja, mas todo este rol de lamentações e sofrimento parece não incluir o posto administrativo de Bilibiza, onde se está a fazer um desenvolvimento paulatino, com apoio da Fundação Aga Khan.
O nosso Jornal esteve em Bilibiza, um nome sonante por ter sido local onde se experimentou, até ao início do conflito armado em Moçambique, a formação de técnicos básicos da agricultura e num outro momento campo para a reeducação de cidadãos provenientes de todo o país sobre quem se pensava se pudessem corrigir mediante a sua separação com as famílias.
Jaime Assuba, líder comunitário, congratula-se pelos esforços que a Aga Khan está a levar a cabo, principalmente nos aspectos ligados à nutrição e desenvolvimento das aldeias, pois de acordo com ele, o aconselhamento no uso de latrinas e aterros sanitários, o hábito de as pessoas se dirigirem ao posto de Saúde quando doentes, incluindo mulheres grávidas está a fazer parte do “modus vivendi” das populações locais.
Por seu turno, Jaime Fumito Antumane, da aldeia Nacoja manifesta-se profundamente satisfeito com os desenvolvimentos visíveis na agricultura, Saúde e Educação mas diz haver um programa daquela fundação, cuja origem e encaminhamento estão a ser difíceis para as populações.
“Quando a Aga Khan chegou estávamos a sofrer de fome e disse que aumentássemos a produção, o que veio a ser emperrado pela praga dos elefantes e outros animais bravios. Por causa dessa coincidência, chegámos a pensar que a fundação trouxe os animais destruidores. Mas voltámos a pensar de novo: será que a Aga Khan haveria de distribuir sementes e instrumentos de produção para produzirmos para os elefantes”, questionou-se Antumane.
Referiu, no entanto, que todos os esforços tendentes a aumentar a produção vão por água a baixo, mas o nosso interlocutor voltou aos benefícios sociais para tecer as seguintes considerações: “na Educação, o número de alunos aumentou substancialmente com a Aga Khan, que trouxe escolinhas. Agora são salas que escasseiam. Na Saúde, antes não havia quem desse parto numa maternidade, agora o problema não é a falta do local onde dar parto, mas sim que a maternidade se tornou pequena”.
Outro líder comunitário, que é ao mesmo tempo secretário da aldeia 25 de Setembro, Alfredo Ali, explica que não há quem tenha dúvidas de que o ambiente mudou em Bilibiza com a presença de Aga Khan e destaca as mudanças que na sua opinião são positivas.
“Na alfabetização, agora até adultos vão à escola. Houve muitas mudanças positivas, o que há por pedir é a continuidade dos programas e o seu incremento com vista a abranger as outras aldeias em redes mosquiteiras, por exemplo...”.
O chefe do posto administrativo de Bilibiza, Adolfo Navaia, secunda os seus dirigidos ao concordar que o único empecilho na sua área de jurisdição leva o nome de elefantes e outros animais bravios responsáveis por destruir todo o esforço comunitário de luta contra a fome.
“Eles não só destroem como matam. A nível da Saúde, as redes mosquiteiras haviam sido distribuídas para todas as aldeias, mas o número de crianças de zero aos cinco anos está a crescer. Ora, quanto à desestabilização dos animais bravios, um problema que se está a levantar de forma insistente há quatro anos fica como questão de fundo, pois tendo em conta a liberdade que os animais e homens gozam. Ficamos dependentes de ouvir das nossas estruturas superiores”.
Navaia recordou que por orientação superior uma equipa de alto nível, dos ministérios da Agricultura, da Acção Ambiental e do Turismo tinha a responsabilidade de fazer um estudo que trouxesse uma solução que passados dois anos ainda não se pronunciou, pelo menos do conhecimento das áreas afectadas.
O director de programas da rede Aga Khan em Cabo Delgado, Lebreton Saah Nyambe diz com prazer que o quadro, cinco anos depois da presença da sua fundação em Bilibiza, é de uma região que está a mudar profundamente, mas precisa que sejam esforços complementados por outras organizações ou, sobretudo, pela própria população.
“Lembro-me com alguma tristeza, que em 2001 nós fazíamos 27 quilómetros a pé para o cruzamento, na aldeia 19 de Outubro, para apanhar uma boleia para Pemba ou 20 quilómetros até Mahate para fazer o mesmo, simplesmente porque por aqui não passavam carros, pois para ver um, passava um mês”.
Para Lebreton Nyambe, o elefante, não sendo pensante, o que a sua organização recomenda é que as pessoas saiam dos seus corredores. O mesmo acontecia com os crocodilos que matavam pessoas em Bilibiza. Não foi necessário chamar pessoas vindas de longe para acabarem com a praga de crocodilos. Hoje, não se fala de vítimas daqueles répteis.
Pedro Nacuo
Bilibiza: Mulheres pedem capacitação.
Da aldeia 19 de Outubro é nos dado a ver uma associação de nove mulheres, que fazem olaria, fabricando bilhas, panelas, pratos, travessas, frigideiras, bandejas, chávenas, jarros, copos e outros, tudo de barro.
São mulheres que dizem: “precisamos de capacitação, acesso ao transporte, novas técnicas. O nosso rendimento está entre 100 a 600 meticais por mês e trocamos o fruto do nosso trabalho com produtos para a alimentação”.
Elas apontam como desafios que se lhes colocam o aumento do seu rendimento, fabrico de tijolos queimados e o incremento das áreas de produção e têm um fundo avaliado em 800 meticais.
Mas à frente temos uma associação de latoeiros, com quatro elementos, fundada em 5 de Março deste ano. Com uma chapa de zinco de 3,60 metros de comprimento, faz cinco latas para água que custa cerca de 100 meticais. Quer dizer, numa chapa ganham 500 meticais.
“Fazemos também fogões, regadores, baldes, bules, copos, panelas, frigideiras e lamparinas. Entretanto, precisamos de novas técnicas de moldura de peças, organização da associação, de materiais, como tesouras, alicates, escopros, ácido, solda, serrotes de ferro, fita métrica...”. Os desafios desta associação passam pela melhoria da qualidade da produção e tem um fundo de 500 meticais.
É também em Bilibiza onde existe uma associação de cestaria constituída por quatro mulheres com uma renda de 1500 meticais e um fundo de 1000 meticais. Trabalha a palha grossa fazendo bolsas, chapéus, vassouras, esteiras, cilhas, esteiras, anéis e cestos.
“Precisamos de tinta, catanas, tesouras, agulhas e pretendemos melhorar a qualidade da nossa produção” eis o grito dos associados que em resposta o director nacional da Promoção do Desenvolvimento Rural, Salimo Valá, apela:
“Estamos a ver as pequenas coisas que fazem, que podem ser grandes com o andar do tempo. Isto pode levar-nos ao desenvolvimento, mas apelamos que não se colem sempre à Fundação Aga Khan ou uma outra qualquer. Devem fazer esforços para se desmamarem da fundação. Imaginem uma criança que desde que nasceu nunca mais deixou de mamar, como ficaria a mãe?
Pedro Nacuo
Bilibiza: Escola agrária nasce por decisão do III Congresso.
A Escola Agrária de Bilibiza, segundo dados reunidos pelo “Notícias” resulta de uma das decisões do III Congresso da Frelimo realizado em Fevereiro de 1977, cuja materialização devia ocorrer nos anos 80 com a implantação efectiva de uma escola da especialidade naquele ponto da província de Cabo Delgado. Até aqui já formou 1704 alunos.
Inicialmente, funcionaram dois cursos, nomeadamente de Mecanização Agrária e Agricultura, antes que o conflito armado viesse paralisar o funcionamento quase total daquele estabelecimento do ensino técnico-profissional. Tratou-se da fase mais crítica da Escola de Bilibiza durante a qual foi saqueada tendo perdido maior parte do seu aparato, em termos de equipamento, bem como os recursos humanos foram desaparecendo.
No ponto mais crítico da crise, a Escola Agrária de Bilibiza chegou a ter apenas 20 alunos com um curso que tinha apenas cinco alunos. Em 1998, depois da guerra, a ADPP (Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo), uma associação dinamarquesa, manifesta interesse de aproveitar as instalações então literalmente abandonadas para a formação de professores primários.
O Executivo de José Pacheco, então governador de Cabo Delgado, sugeriu que quem tomasse as instalações não descurasse a procura de financiamentos para a revitalização da componente formação para a agricultura, que era a primeira vocação da escola.
Dos vários parceiros que foram aparecendo, segundo director da escola, Lestivo Albano, a intervenção da Aga khan foi determinante e em 2004 começa com a reabilitação dos outros edifícios para logo a seguir trazer os programas de bolsas de estudo.
“O número de raparigas subiu cinco para 200. Também dos outros alunos e de professores. As condições materiais, em termos de logística, também começam a melhorar e em 2005 o número de alunos explode para lá das capacidades instaladas da escola e do internato”, explica o director da escola.
Entra-se num outro tipo de crise que Lestivo Albano a apelida de depressão em razão da superlotação da escola e do internato. A Aga Khan amplia as instalações e constrói um centro-internato para raparigas. Mesmo assim, as infra-estruturas físicas não suportam e o resultado foi a má conservação das mesmas, ao mesmo tempo que a nível meramente pedagógico se iam desenhando programas de elevar a escola para além do nível básico.
No ano passado a escola faz um diagnóstico das suas capacidades e identifica as áreas fundamentais. Chega à conclusão de que deve trabalhar com programas de curto prazo (semestrais e trimestrais) e deveria obedecer a um plano de redução de alunos sem afectar aqueles já a estudar.
Na verdade, a Escola de Bilibiza tem neste momento 775 alunos, entre os quais 422 a viverem no internato, calculado para albergar apenas 300 do número total de discentes 178 são raparigas. Tem 18 professores para 13 turmas.
“Para tanto, decidimos ir reduzindo os alunos, primeiro por via do afunilamento nos ingressos, segundo, sendo rigorosos no aspecto disciplinar, porque chegámos a descobrir que alguns pais mandavam os seus filhos para aqui, não porque tivessem uma queda pelas matérias ligadas à agricultura, mas sim como um lugar para a reeducação, entre outras medidas”, explica o director Lestivo Albano.
Hoje, a Escola Agrária de Bilibiza reergue-se num posto administrativo onde são visíveis sinais de desenvolvimento e sonha com melhores dias. Os alunos bolseiros que de algum tempo para cá haviam sido enviados para os cursos médios em Chimoio e em Boane, já estão de regresso e precisam de um pequeno treino para engrossarem o grupo de professores.
“Aliás, já temos professores que saíram daqui como bolseiros, outros estão por vir. Há muitas vantagens nisso, a maior das quais é o conhecerem bem a escola”, afirma o director da Escola Agrária de Bilibiza.
Para este ano, contam com 42 bolsas de estudo, mas o orçamento que lhe é destinado não satisfaz a demanda. São 34 mil meticais, muito abaixo do que recebem as suas congéneres, incluindo da vizinha província de Nampula, conforme revelou o director da escola.
Pedro Nacuo
Maputo, Sábado, 21 de Julho de 2007:: Notícias

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