terça-feira, 3 de julho de 2007

Sabe bem voltar a ler...

(Imagem daqui)
Porque vivo imaginando, voltei a ler e transcrevo as palavras do Miguel lá de Angola, postadas em 14 de Maio de 2006 no SDBlog :
O homem adapta-se facilmente a rituais muito próprios, fora da anarquia que acaba por constituir a grande cidade. Filho de uma, descobri apenas em Pemba como, afinal, um dia é mesmo enorme. Pela primeira vez experimentara a sensação de poder ir a pé de casa para o trabalho, gastando apenas 2 minutos. 2 minutos! Mesmo com passo lento, o máximo que fiz nunca terá ultrapassado os 5 minutos.
Foi com entusiasmo que me disseram que iria conhecer as pedreiras, em Montepuez. Finalmente sairia da cidade e entraria mato dentro, o verdadeiro mato. Iria com o C. ver como estavam as operações, a 200km da cidade. O C. era doido. Literalmente. A Toyota Hilux azul era, na realidade e como vim a saber mais tarde, a pick-up mais perigosa que poderia existir para aquelas estradas. Abalámos ao início da madrugada. O C. adorava impressionar. Ia fazer-me o baptismo. Imagino o que o sacana terá gozado à minha conta. Alguma vez na minha vida tinha eu visto uma picada?! Ou uma estrada em que eram mais os buracos do que o alcatrão? Sem vivalma? Só o verde imenso, entrecortado por uma ou outra aldeia? Agarrei-me onde pude dentro do carro enquanto pensava que a viagem ainda acabaria mal. 120-140km/h naquela merda de estradas? O gajo era chanfrado de todo. E como não podia ir pelo meio da estrada, passou a maior parte da viagem a alta velocidade com metade do carro fora da estrada e a outra no que restava. Sempre a acelerar. A comer capim. A levantar poeira. A fazer fugir cabritos, galinhas, porcos e pessoas. E eu nem sabia que o cabrão do C. era cego de um olho resultante de um grande acidente que tinha tido em Portugal. Aguentei-me. Que remédio.
Delirei com a paisagem. A imensidão. A baía de Pemba. As aldeias que se iam vendo e a forma como os produtos eram colocados junto à estrada para venda mesmo sem ninguém por perto. Sobretudo carvão, era o que mais se via. Parámos na tasca do português, penso que logo a seguir a Metoro - cruzamento que dava acesso a Montepuez, Mueda e Chiúre/Namialo - não me lembro do nome da aldeia, onde o tipo mandava. A tasca com o emblema do Sporting (claro!). Já nos seus 50 e muitos, 60 e poucos, tinha ido na guerra colonial para aquela zona e por lá tinha ficado. Arranjou mulher, moçambicana, com quem tinha muitos filhos. Era o único sítio onde podíamos comer, áquela hora, uma sandocha com omelete e um café batido a meio do caminho. Isso e dois dedos de conversa já que o carro não tinha nenhuma das actuais mordomias. Nem ar condicionado tinha, quanto mais leitor de CD…
Depois da curva da missão católica, Montepuez. Que susto. Aquilo é que era Montepuez? Aquilo?! Lá curvámos à esquerda e entrámos na “estrada” principal. Estrada. Uma picada toda rebentada pelas chuvas, com buracões descomunais e uma cidade sem energia eléctrica durante o dia. Apenas se ligava o gerador à noite e por umas 2 ou 3 horas. Parámos numa tasca também do Sporting do lado direito onde, pelas 6:30, encomendámos logo o almoço. As opções eram poucas: galinha ou cabrito. Só depois é que percebi porque é que eram essas as opções e a razão de encomendarmos aquela hora o almoço. É que ambos são animais de pequeno porte que, pela inexistência de condições de conservação a frio, permitiam que os restaurantes mantivem um stock vivo, permanentemente disponível para os potenciais clientes. O único senão era a necessidade de encomendar com muitas horas de antecedência para matarem os animais e prepará-los para a refeição. Feito.
Demos uma rápida volta pela “cidade”. Era muito pequena. Ao fundo da rua principal, do lado esquerdo, um C-47 da FAP abandonado e o que restava dele sendo possível ver-se ainda a cruz de cristo. Do lado direito a casa do administrador ou a Administração Municipal, uma ou outra ONG e, umas voltas mais adiante, as instalações da empresa. Foi aí que conheci o Firmino. 250Kg em cima de uma pessoa. Vivia em Montepuez com a sua família. A mulher e a filha pequena, de uns 5 anos, pareciam perfeitamente adaptados. Nem queria acreditar. Adaptados? Ali? O Firmino, volta e meia, apanhava malária. Montepuez era um ermo terrível metendo medo à noite. Uma cidade tomada pela escuridão da noite apenas iluminada pelas chamas das velas dos vendedores informais estrategicamente colocados nas zonas mais importantes e onde se comprava de tudo um pouco. Aí e nas tascas que vendiam cerveja e refrigerantes quentes.
Em Montepuez, como em Pemba, o C. dominava. Gostava de demonstrá-lo. Ele era “o” moçambicano da equipa. Irrequieto, pouco tempo passou sem que abalássemos novamente a alta velocidade pela picada que nos faria chegar à pedreira em pouco tempo. Voámos e graças a ser novo e sem problemas de coluna, a viagem fez-se não sem que tivesse mandado duas ou três cabeçadas no interior. O gajo era passado. E eu ali já arrependido por ter aceite o convite para a viagem.
No regresso, a noite tinha já caído sobre a estrada. Nem vivalma. Só mato e o que da picada se podia ver com os máximos sempre ligados. Nenhuma luz artificial. O céu, preto, cheio de estrelas. Tantas. Nem mesmo o céu da serra da Freita tinha tantas. Demorávamos a chegar atá que, após mais uma curva com o carro indeciso se permanecia metade dentro ou se capotava mesmo, as luzes de Pemba apareceram no meio da escuridão para grande alívio. Ah como sabia bem regressar à civilização, à data também conhecida por Alto Gingone!
Miguel
Parte 1

Um comentário:

Anônimo disse...

Por momentos voltei a Montepuez e ao ano de 1956.
Entre outras coisas, duas horas de energia eléctrica ao fim do dia (para alguns)...