sábado, 4 de agosto de 2007

Cabo Delgado - Fibra óptica, primeira ministra e os putos...

Do Notícias deste sábado = Extras-Fibra ótica:
Luísa Diogo, a primeira-ministra do nosso país, veio a Cabo Delgado pagar uma dívida com a qual corria o risco de “ir” definitivamente. Curioso que, em dois mandatos naquela qualidade nunca tenha feito uma visita de trabalho a esta província. Rectificou o erro (ainda bem) e não foi por acaso que a sua recepção foi das mais raras nos últimos tempos a um dirigente abaixo do Presidente da República.
E fê-lo de uma maneira politicamente muito forte, visitando Nangade, Mueda, Muidumbe, Macomia e Pemba-Metuge, ficando a outra parte de Cabo Delgado, estrategicamente muito forte, o sul, para uma outra oportunidade. E confessou que, afinal, estava a perder ao atrasar conhecer aquelas regiões habitadas por pessoas que usam palavras nunca com meandros.
A correcção do erro não o fez desaparecer de vez, pois as dúvidas do por que é que ela nunca se “lembrou” de Cabo Delgado, província que morria de ciúmes por ouvir todos os dias que a primeira-ministra se encontrava na Zambézia, ainda persistem nas cabeças da maioria dos visitados ou não. É que estes sempre ouviam, uma, duas, três ou mais vezes no mesmo ano, Luísa Diogo na Zambézia. Não se querem dar ao luxo de se aperceberem que ela é a responsável máxima, pelo seu partido, naquela província, daí que...
Há-de ser por isso que a mensagem das crianças de Nangade, evidenciando tal ciúme, quis ligar a frequência da primeira-ministra à província da Zambézia, com o facto de muito recentemente lá ter sido inaugurada a fibra óptica. A propósito, o que vem a ser, na verdade, a fibra óptica, perguntava a mensagem dos putos.
Na resposta, a primeira-ministra explicou como devia, mas o intérprete, em língua cimakonde, na primeira tentativa disse que se tratava de uma doença que tinha terminado na província da Zambézia. No prosseguimento da explicação do tradutor, já mais à frente, disse que era uma coisa que estava por vir e que chegaria até Nangade.
Entre os jornalistas houve quem fizesse chegar a sua vontade de ver rectificado o erro, mas o tempo já havia passado e a mensagem ficou deturpada. São as diferenças linguísticas e o esquecimento que o país tem da necessidade de formar também intérpretes para os comícios. Hoje em dia estuda-se tudo, mas o intérprete continua a ser o mais esperto entre os militantes de determinado partido.
Mas aqui o problema não parece pequeno em relação à pertença da dúvida aparentemente das crianças. Está visto que as crianças que nos comícios lêem as mensagens não são autoras das mesmas, tal como a população é apresentada com mensagens politicamente convenientes, mas não constituem o seu real sentimento. Foi assim que as populações de uma aldeia do distrito de Macomia, em Likangano, depois de muito reclamarem a fome que disse flagelar a sua região, a seguir faz ofertas fabulosas àqueles que nunca mais sentirão esse fenómeno na sua vida.
Sendo assim, a dúvida que se tem endossado às crianças por adultos é clara, não ficou esclarecida, logicamente! Quer dizer Nangade, por via da tradução daquele camarada que transformada as palavras portuguesas em macondes, não ficou a saber. E a dúvida, como é de prever, não era das crianças, tendo em conta que não são elas que escrevem as mensagens pois, que antes de lidas passam por um minuciosa censura.
Há-de ser o professor que fez a mensagem que trazia a dúvida sobre o que era a fibra óptica. Há-de ser o camarada do Comité do Partido que depois viu a missiva, o administrador que a aprovou e, no fim de contas, a dúvida era de todos os que “organizaram” a criança para ler, apresentado a dúvida que nem sequer era sua.
Se calhar todos ficaram sem saber o que é fibra óptica!
Pedro Nacuo - Maputo, Sábado, 4 de Agosto de 2007:: Notícias

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