quarta-feira, 1 de agosto de 2007

MOÇAMBIQUE/Cabo Delgado: Os velhos ritos de iniciação no mundo de hoje.

Pemba, 23 Julho 2007 (PlusNews) - Aprendi a circuncisar com um velho nekanga (mestre) em Nangade, no norte de Cabo Delgado. Foi em 1983, antes da Sida. O velho podia circuncidar até cem crianças duma vez. Primeiro evocava os antepassados. Seguia uma noite de dança. No outro dia, por volta das 14 horas, recolhia as crianças no mato, a três quilómetros da aldeia. Com o rabo de um animal traçava um círculo mágico no chão, onde não entravam animais predadores, e onde fazia o ritual. Ele usava um método rude: dois ou três adultos imobilizavam a criança, ele estirava o prepúcio, cortava, e colocava na boca. Isto era parte do rito, que lhe dava um poder sobrenatural. Quando acabava com todas as crianças, ele tirava os prepúcios da boca, colocava numa tigela, e levava. Não sei o que fazia com aquilo.
Alegria das mães
Desde que estudei para técnico de medicina, na cidade da Beira, sempre me interessei pela cirurgia – drenar abscessos, extrair dentes. Mais tarde fui transferido para a ilha do Ibo, ao norte de Pemba, onde trabalhei nos programas de lepra e malária junto aos líderes comunitários. Ouvi falar da Sida pela primeira vez em 1985, quando morreu um médico estrangeiro em Cabo Delgado. Foi a primeira morte de Sida no país, e muito divulgada. Em 1986, num seminário, aprendi sobre a Sida, a importância do material limpo e seleccionado, e o controlo das crianças. Em 2002 fui transferido para Pemba, a capital provincial. Aqui começou a crescer o número de clientes que me procuram. De Outubro a Janeiro, quando é tradicional fazer a circuncisão, posso ter ate 15 crianças durante um fim-de-semana - este é o número máximo que eu admito. Quando os pais preferem chamar um curandeiro, eu falo com ele, explico a importância da higiene e do controlo, verifico a limpeza do seu material, entrego pensos, luvas e desinfectante. Pode ser outro curandeiro a cortar, mas eu faço a desinfecção, os pensos e o controle. Os meus cortes cicatrizam em 15 dias; aquelas do velho nekanga demoravam 60. Meu filho cicatrizou em dez dias; ele tinha quatro anos quando eu o circuncidei. As mães ficam felizes quando eu devolvo os seus filhos saudáveis. Oferecem-me kapulanas e dinheiro, mas o melhor é ver a alegria delas ao verem os filhos sãos e limpos. É uma grande festa quando a criança volta; compram-lhe roupa nova, oferecem material escolar ou dinheiro. Estes valores continuam hoje. Durante o ritual de iniciação as crianças aprendem a respeitar os pais e os velhos, e as cerimônias dos funerais. Durante este tempo as famílias se unem, esquecem das brigas entre elas. Além disso, a circuncisão conserva os genitais limpos e evita a aparição de chancros e doenças transmissíveis sexualmente. Alguns dias antes da circuncisão examino a criança para ver se há sarna, malária ou anemia, e trato isto. Cobro cem meticais (quatro dólares); a metade é o custo do material, porque eu preparo um kit para cada criança. O procedimento em si leva uns sete minutos. Primeiro tranquilizo a criança, falando com ela. Desinfecto a zona e injecto a novocaína no prepúcio. Puxo, corto, e faço a sutura. Agora pode mirar, já está feito, digo a criança - e ela fica surpreendida, os pais também. É um procedimento muito bonito e eu faço com orgulho.
Tema(s): (IRIN)
Artes/Cultura, (IRIN) Prevenção. In - Plus News África

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