quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Ronda pela net: Um pouco de prosa virtual - Seis meses em Cabo Delgado descritos por missionária brasileira.

Vida sofrida em Moçambique.
Moçambique. Seis meses já se passaram desde que cheguei aqui em Moçambique. Quem diria que o tempo passaria tão depressa. Recordo-me de estar fazendo as malas cheias de repelente, mosquiteiro e outras coisas partindo em direção ao desconhecido. Muita coisa aconteceu, momentos felizes, tristes e até engraçados. Vou embora com a consciência de que realmente fiz um bom trabalho aqui.
Foram seis meses de muito aprendizado, de alegrias e frustrações, de dias pesados e turbulentos, calmos e serenos. Confesso que a idéia de ir embora daqui é um tanto assustadora. Foram seis meses vivendo no meio do mato, sem muito acesso a outros lugares a não ser o mato atrás da casa. Primeiro tenho que respirar fundo para tentar resumir o que foram estes meses na minha querida e especial Bilibiza.
Para nos situarmos nesta história, estamos em uma Escola de Professores do Futuro, onde os estudantes são treinados para serem professores em escolas primárias de Mocambique. A escola localiza-se na província de Cabo Delgado, no extremo norte de Mocambique. A aldeia é Bilibiza, digamos que é um pontinho esquecido por Deus, no meio do mato, onde a energia ainda vai demorar algumas décadas para chegar, e está localizada dentro do Parque Nacional das Quirimbas. A escola e nossa moradia ficam a cerca de 25 minutos a pé da aldeia. E posso dizer que a escola é único movimento que pode existir em Bilibiza diariamente. A aldeia tem em torno de quatro mil habitantes, uma das mais pobres da região.
Estou indo embora muito feliz com o trabalho que consegui realizar em Bilibiza. Rapidamente na primeira semana já começamos a trabalhar. Iniciei com aulas de música, sociologia, inglês e ciências. Sempre tentava apresentar os assuntos de uma maneira em que eles pudessem aplicar isto com as crianças também, quando fossem para as práticas. O nível de conhecimento dos alunos que para cá vêm é baixo.
No mesmo tempo estava a dar aulas na Escola Primaria de Montepuez, na aldeia. Tive duas turmas e seis classes. Uma tinha em torno de 55 alunos e outra 63 alunos, com idades entre 10 e 30 anos, e distribuídos em duas salas com apenas algumas mesas e cadeiras. Os resultados foram positivos, não digo que isto se deva principalmente a mim, mas ao interesse deles em aprender. Parecia que a fome não era mais de comida, mas de conhecimento.
O nível escolar é muito baixo. Nem todos os alunos disponibilizam de livro didático, sendo que o meu recurso foi elaborar a aula pelos meus próprios conhecimentos. Lembro-me do primeiro dia que entrei na sala. Mais ou menos 60 sorrisos para você, mas logo de início já apresentei meu nome e disse que a partir daquele momento eu seria Jucyara.
Sentirei muitas saudades deles, pois aprendi a cada segundo estando juntos com eles. Sobre a cultura, hábitos e modos de pensar, sobre como professor e alunos podem ser tão amigos e não perder o respeito, mesmo eu sendo mais nova que todos eles. Estarão sempre em meu coração.
Enfim, o tempo acabou. Feliz de ir? Sim, porque tenho certeza de ter realizado um bom trabalho. Saudades? Com certeza. Para sempre ficarão em minha mente, rostos sofridos, mas com sinal de um dia melhor. Permanecem em minha mente os dias de caminhadas para a aldeia, passando por crianças a gritar meu nome, passar pelo costureiro e dizer “salama”, ou pela Barraca do Mussa ou da Mama Sifa e tomar um refresco gelado.
Agradeço aos professores que nunca hesitaram em nos ajudar em qualquer situação, agradeço às “chapas” por nos levarem a destinos tão desconhecidos, aos elefantes que se fizeram presentes em um dia de viagem, aos macacos por tentarem roubar a comida perto de casa e ao leão que somente rugiu no mato atrás da casa e não chegou mais perto. Agradeço principalmente aos estudantes, pois sem eles não estaríamos aqui e não conseguiríamos fazer um bom trabalho. E acabo deixando uma frase que um estudante disse ter se inspirado em mim para escrever: “Quanto mais conhecimento eu adquiro, mais eu quero”. Parto feliz esperando que a vida destas pessoas realmente possa ser mais digna um dia!
-Juciara Prado *Especial para o Diário do Nordeste de Fortaleza-Brasil.
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Acrescento: Obrigado Juciara. Não em meu nome ou em nome dos que, sob o cómodo viver das cidades urbanas onde já chega algum progresso ou modernização, nem se aperceberam de seu trabalho, sacrifício e dedicação. Mas sim em nome do povo, aquele povo macua carente que, lá pelo mato esquecido, belo, selvagem de Bilibiza, Montepuez, Cabo Delgado e Moçambique recebeu sua Amizade, seus ensinamentos, seu sorriso bem ao jeito caloroso e brasileiro que atravessou o oceano e aportou no interior quase virgem de um Moçambique rico para uns poucos e pobre para uma imensa maioria desprotegida de tudo... Povo que, certamente, por si sente saudades já, sem saber como as manifestar! Nem como agradecer!

7 comentários:

Anônimo disse...

"Salama":e Parabéns Juciaria,pelo teu trabalho,aquela gente merece isso tudo e muito mais,eu conheço bém a regiâo,e para te provar vê este site, = http://groups.msn.com/1accmdsmontepuezmozambique
Obrigada pelo teu esforço

Vidal Castro.

Celestino Ferreira Gonçalves disse...

Olá Jaime!
Subscrevo na íntegra as tuas bonitas palavras dirigidas à Juciária, a quem saúde pela sua solidariedade para com o povo de Bilibiza, uma terra e gentes que ambos conhecemose por quem nutrimos idênticos sentimentos!
Grande abraço e obrigado pelas palavras amigas que deixaste no BarDaTininha!
Celestino

Isabel-F. disse...

Olá Jaime,


Sem dúvida um trabalho de louvar ... este feito por esta missionária.

Gostei imenso de ler o teu post.

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tenho uma coisa para ti no meu Blog; quando tiveres tempo, pfvr. passa por lá.

beijinhos e tem um bom dia

gotaelbr disse...

Saúdo os Amigos acima. E digo à Isabel que agradeço o "Destak" de Agosto, que me dá satisfação e orgulho. Tentarei merecer!

Odele Souza disse...

Olá Jaime,

Como é bom ler sobre alguém fazendo o bem como esta jovem Juciara. Obrigada a você por dividir conosco este assunto.

E PARABÉNS pelo prêmio Blog Destak de Agosto, concedido por Isabel Filipe.

peciscas disse...

É bom saber que neste mundo ainda sobra gente boa.
Parabéns pelo Destak.

gotaelbr disse...

Beijão para a Odele. Força em espírito para a pequena Flávia e para si. E a certeza de que a "luta continua" e nela continuaremos empenhados.
Um abraço com agradecimentos para o "Peciscas" lá do Porto pela visita. Também fará parte dos "Amigos & Vizinhos" do ForEver PEMBA.