segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Diversificando - Terno de Moçambique, do povoado de Fagundes, no município de Santo Antônio do Amparo (MG)...

O título do post pode levar a suposições erradas... Não se trata de digressão artística de moçambicanos por terras de Vera Cruz, mas sim de matéria que acabo de ler na net, a respeito da forte influência que os escravos oriundos de África e Moçambique em anos já distantes, têm na tradição cultural e religiosa do povo brasileiro.
Segundo o "Góias Agora"(Brasil) de hoje:

""Terno de Moçambique (Minas) se apresenta em Goiânia: - Os museus da Imagem e do Som e Zoroastro Artiaga, da Agepel, recebem a visita do terno de Moçambique, do povoado de Fagundes, no município de Santo Antônio do Amparo (MG), na quinta-feira, 13. A recepção, às 16h30, será na porta do Museu Zoroastro Artiaga. Duas horas mais tarde, às 18h30, depois de que terminar o cortejo pela Praça Cívica, será exibido o DVD Cê me dá licença: capitão Julinho e o Congado de Fagundes .
O trabalho está associado ao projeto Registro Audiovisual da Congada de Santa Ifigênia de Niquelândia (GO), a ser realizado pela Rede Goiana de Pesquisa em Performances Culturais – memória e representações da cultura em Goiás, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), em parceria com a Agepel por intermédio do Museu da Imagem e do Som.
O grupo de Minas encena as visitas que os ternos fazem a reis, rainhas e festeiros durante o Reinado/Congado, criando, assim, um ambiente em que a espontaneidade da interpretação dos capitães possa ser, em alguma medida, preservada e a alegria e a emoção da festa compareçam. Essas visitas também, podem propiciar a gestores e técnicos dos órgãos e instituições um contato mais próximo com manifestações cuja preservação, valorização e divulgação constituem a finalidade de parte de suas ações....""" E o texto segue na íntegra aqui!

E o que tem a ver a matéria acima com Moçambique e África? Tudo, como se pode constatar no que continuo transcrevendo com a devida vénia:

""CONGADO: origens e identidade - A identidade do congado, antes de tudo, é brasileira. A partir da África, são 500 anos de história desde a viagem no Atlântico (calunga), a escravidão, as lutas, os reinados e tudo, até hoje. É brasileira a identidade do congado. Os irmãos do rosário estão vivos e sua identidade é dinâmica, mesmo quando pretendem conservar suas tradições, sabedorias e organização. Vejamos: antigamente não existia a Federação dos Congados. No mundo de hoje, as mudanças são grandes. No congado, mudamos algumas coisas para ver se assim fica melhor. Mas, qualquer adaptação necessária há de ser feita pelos próprios congadeiros a partir da tradição e das raízes, a partir da espiritualidade recebida na irmandade. Falamos de uma identidade dinâmica e brasileira. O congado e a "irmandade do rosário dos Homens Pretos" são fruto de muita criatividade desde o princípio. Esta criatividade é de beleza e fé, mas principalmente de necessidade e sobrevivência.

A identidade faz parte do tripé: história, identidade e cultura. As raízes do congado estão na África, principalmente nos povos bantus. Toda identidade tem uma história. Até mesmo a identidade de uma pessoa tem tudo a ver com a história dela desde criança; tudo que ela aprendeu dos pais, da escola, da vida. Uma identidade cultural surge na história de comunidades ou povos. No congado, os antepassados, as almas dos escravos, o fundador da irmandade, reis, rainhas, capitães falecidos são lembrados e reverenciados. A cultura congadeira é fiel aos ancestrais.

Na África, os bantus (mais de 500 povos) formam um grupo lingüístico. O termo "bantu" não significa uma cultura. Muito tempo antes dos portugueses chegarem à África, já havia os povos bantus. Atravessaram as densas florestas do centro da África e, isso demorou séculos. Nessa façanha, misturaram-se com outros povos e venceram outros. Forjaram-se reinados, e uma civilização hieraquizada; não uma única cultura e sim muitas. Explicamos a diversidade cultural dos bantus, pela importância dada aos antepassados. Cada grupo étnico bantu tem seus antepassados como ponto de união. É deles que apreenderam a sabedoria dos provérbios; dos antigos receberam as leis para fazer justiça no caso de uma briga de terras ou entre famílias; é deles que aprenderam a religião, a cura das doenças e os instrumentos musicais e todas as outras coisas da vida. Assim, cada grupo, cada clã, cada povo de bantu tem sua cultura própria. Portanto, existe a civilização bantu na África, o grupo lingüístico bantu e muitas culturas bantu.
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No Censo 2000, 50% dos brasileiros declararam ser afro-descendente. Isso mostra a importância do nosso assunto. Ao falar da identidade das irmandades do rosário em Minas - e que também existem em outros estados, - não podemos esquecer que a grande maioria dos escravos que vieram para o Brasil são de origem bantu. A questão bantu é complexa. Isso observamos, por exemplo, na luta pela valorização da identidade negra no Brasil. Ao afirmar a "negritude", muitos afirmam principalmente valores dos iorubas, jejes, quêtos (no Brasil chamados nagôs). Dizem axé (!) e consultam os búzios para saber qual é seu orixá. Ora, o candomblé é respeitável. Conheço e reverencio seus grandes líderes e admiro os cultos nos ilês. Mas, na busca da identidade do congado, não podemos confundir as coisas. O candombe e o candomblé são diferentes desde a origem. Os nagôs dos candomblés do Brasil vieram de reinados situados ao norte do rio Congo. Os congadeiros do Brasil são bantu-descendentes do Congo, da Angola e do Moçambique, regiões colonizadas por Portugal. Suas origens estão nos reinados localizados principalmente ao sul do rio Congo. Os numerosos povos bantus africanos formam um grupo linguístico. Alguma origem comum percebe-se pelo uso de línguas parecidas. Os bantus também têm em comum vários elementos importantes, como a fé em um só Deus próximo aos humanos (Nzâmbi, Zambiapunga e outros nomes) e a amorosa dedicação devida aos antepassados, sempre presentes. O sistema perverso da escravidão no Brasil colônia, visava desestruturar os grupos étnicos de origem. Para evitar conspirações, os donos de escravos compravam africanos de línguas e origens diversas. Com grande criatividade, os bantos do Brasil partiram para a adaptação, sem poder reconstruir os grupos étnicos originais com os mesmos antepassados. Desde a travessia do mar em navios negreiros, escravos bantus de povos e línguas diferentes criaram uma língua comum, o chamado "português crioulo". Entre si, estes escravos tornavam-se "malungos", companheiros na luta pela sobrevivência, também cultural. Mas foram as irmandades de Nossa Senhora do Rosário (ao menos, desde 1496), que possibilitaram uma sofrida reorganização e a busca da identidade dos bantos, escravos, cristãos, no Brasil. Surgiram grupos de "homens pretos" e de "pardos". Criar é preciso. Muitos dos congados atuais começaram a partir de uma família líder que polarizava a participação de outras. Na grande Belo Horizonte, temos os arturos de Contagem, o Moçambique "Treze de Maio" na Concórdia, o congado do Jatobá e muitos outros que cultivam seus antepassados recentes No congado distinguimos vários grupos: o candombe é o mais antigo e o mais banto; depois vêm moçambique, congada, marujos, caboclinhos, catopês, os cavaleiros de São Jorge. Em Araçuaí (MG) têm os tamborzeiros; lá ninguém fala “congado” e sim “tamborzeiros do rosário”. As irmandades do rosário comprovam que é possível viver no Brasil a diversidade própria e tradicional dos bantos, mantendo viva a memóriada África bantu. Há reinados, "ngomas" (tambores), os antepassados e Deus que é chamado de Zâmbi.
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CHICO REI - Do famoso "Chico Rei", a história oficial não conta muita coisa. Não existem documentos a seu respeito. Há romances que são inventados. Mas, a história de "Chico Rei" é verdadeira na medida em que ela representa coisas acontecidas com muitos negros escravos. Imaginem, no tempo da escravidão que, uma vez por ano, um negro que vai saindo à rua com uma coroa bonita na cabeça e acompanhado por uma guarda de congo, dizendo: “Eu não sou escravo nada! Eu sou é Rei!” Este homem dá uma demonstração de coragem e dignidade! É isso que significa a memória de Chico Rei. Ele representa essa resistência histórica do povo negro do Brasil, essa consciência de dignidade humana, essa memória dos reinados da África. Por isso, Chico Rei tornou-se um personagem tão importante. Olhem, com essas coisas não se brinca. Ninguém pode dizer por si: “Eu quero ser rei Congo também!”. Um rei Congo é escolhido na sua comunidade aos poucos. As lideranças, os capitães, vão observando quem servirá melhor para representar essa dignidade e essa memória da África. Nada vale sair dizendo: “Nós somos reis pela herança, herdeiros dos templários, misteriosa memória das cruzadas na Europa!” Isso aí é uma falta de respeito, um absurdo que não deveria existir.... Pois, a identidade brasileira do congado tem tudo a ver com a memória da África e da escravidão. ... ... ""

O texto é apaixonante e longo. Poderá ser lido por completo aqui!

  • Capitão Terno de Moçambique (imagem Reinado Lamounier-Flickr) - Aqui!
  • Fonte do post acima "CONGADO: origens e identidade" - Aqui!
  • Religiosidade Popular "Vida e Religião dos pobres no Brasil" - Aqui!

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