sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Porquê Chipande perdeu a cabeça?...

O velho e tradicional fisiologismo frelimista tem por porta-voz declarado e descarado um dos tais "heróis-de-barro"!
Transcrevo - Parte 1:

""Tendo sido convidado, participei na segunda-feira da semana passada, dia 3 de Agosto, no encontro em que foi anunciada publicamente a nova estrutura accionista e de direcção do Corredor de Desenvolvimento do Norte (CDN), e devo dizer que saí totalmente desiludido. Devastado, se há algum termo mais forte.

Devastado porque para mim, aquilo que me havia sido dado a entender como tratando-se de um encontro para o anúncio de uma transacção económico-financeira de rotina para qualquer economia normal e razoavelmente saudável, acabou sendo transformado num acto político, no qual se tentou pregar uma doutrina quanto a mim retrógrada, reaccionária e que entra completamente em choque com a ideologia do desenvolvimento sustentável e equilibrado de um país moderno.

O actor principal desta peça foi o General Alberto Joaquim Chipande, que pela sua estatura na nossa sociedade, dispensa qualquer apresentação. Para tornar curta uma longa história, o que o General Chipande disse naquele encontro foi, essencialmente, que neste país a Frelimo faz o que lhe apetece, e o resto que se dane! Que os dirigentes da Frelimo têm o direito natural de enriquecerem, não importam os meios, porque lutaram para libertar o país do colonialismo.

Que são anti-patriotas os que criticam a corrupção e o uso restrito e indevido dos recursos nacionais por uma pequena elite ligada à Frelimo.

Com todo o respeito que tenho por ele e por muitos outros da sua geração, cheguei a pensar que o General pudesse estar sob influência de qualquer anti-depressivo. Porque tudo quanto ele disse contraria em absoluto o discurso formal da Frelimo de lutar contra as desigualdades, contra a pobreza e pelo estabelecimento de uma sociedade de justiça, próspera, moderna e civilizada.

Não conheci Lázaro Kavandame, mas por aquilo que já me foi dado a conhecer pela própria história da Frelimo, o discurso de Chipande assemelhava-se muito à sua narrativa. Será que a Frelimo chegou à conclusão de que estava no caminho errado, e que os ideais de Kavandame e do seu grupo representavam, em última análise, as aspirações mais altas da luta pela independência?

Fiquei com a impressão de que o que Chipande estava a dizer era o reflexo do pensamento colectivo dos dirigentes veteranos da Frelimo. De que lhes devemos favores e obediência inqualificada por nos terem libertado do colonialismo. Quem disse que os que consentem sacrifícios pela libertação ou em defesa da Pátria fazem-no por um objectivo nobre e pelo bem comum?

Ficara aparente de há uns anos para cá, que a Frelimo estava num processo de arrependimento pelas suas opções comunistas do período que se seguiu a 1977. Para muitos isso justificava o capitalismo selvagem e desumano para que muitos dos seus dirigentes se haviam atirado, numa espécie de tentativa de recuperar o tempo perdido. Agora foi bom ouvir essa confirmação de nada menos do que de uma das figuras mais iluminárias desta Frelimo.

A máscara vai caindo gradualmente. E é muito bom, para que as futuras gerações não tenham que viver com uma história esbranquiçada, como aconteceu com a geração dos filhos da geração de Chipande.

Pessoalmente, não considero traição de nenhuma espécie que os dirigentes da Frelimo, ou para esse propósito qualquer moçambicano, enriqueçam. Mas oponho-me tenazmente a uma sociedade em que uns acumulam cada vez mais e os outros, a maioria, têm cada vez menos.

Oponho-me a uma sociedade em que os ricos não o são porque criaram riqueza, mas sim porque usaram da sua influência e poder para assumirem posições como accionistas em empresas sem nunca terem posto um único centavo na mesa.

Oponho-me a um sistema em que os investidores são extorquidos e obrigados a ceder gratuitamente acções a pessoas influentes e poderosas como a única condição de poderem realizar os seus investimentos. Oponho-me a tudo isso porque se trata de um sistema que pode criar gente rica, mas não necessariamente riqueza para o desenvolvimento do país. Oponho-me porque é um sistema que distorce o mercado e a economia.

Portanto, não é contra a riqueza dos dirigentes da Frelimo que as pessoas estão revoltadas.

As pessoas estão revoltadas contra a falta de clareza na maneira como os negócios são feitos neste país, criando uma situação em que tudo quanto é negócio gravita em torno dos mesmos círculos restritos.

Elas estão revoltadas contra o sistema de exclusão nas oportunidades a que estão sujeitos aqueles que não se suplicam à Frelimo.

A revolta é contra aqueles que são eleitos para dirigir o país, mas que se aproveitam do seu poder para enriquecerem.

E se as coisas continuarem como estão, será a geração dos netos do General Chipande que irão pegar em armas e lutar para derrubar o legado da geração dos seus avós. Dessa vez não a partir da localidade de Chai, mas sim a partir do coração e dos efervescentes subúrbios da cidade de Maputo.""
- Por Fernando Gonçalves, in SAVANA – 14.08.2009.
NOTA: Ainda me admira que pessoas que deveriam estar medianamente informadas, acreditem no “discurso formal” da FRELIMO. E não me admira que tudo o que o Gen. Chipande agora disse, não seja um pequeno aviso de que a FRELIMO tem que continuar a ser Governo. Custe o que custar. Para ele, e outros, isso até foi um direito adquirido. Aliás, já aqui escrevi, Moçambique só mudará quando e depois da geração dos anos sessenta acabar: moçambicanos e portugueses. Incluindo a minha pessoa. (Fernando Gil - MACUA DE MOÇAMBIQUE).
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Transcrevo - Parte 2:
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Chipande insiste na “legalidade” dos dirigentes da Frelimo serem ricos. - Luta armada põe veteranos às turras

Jorge Rebelo condena as afirmações do velho guerrilheiro Maconde, enquanto que Mariano Matsinhe e Sérgio Vieira dizem que o “general” terá sido mal entendido...

O general na reserva, Alberto Joaquim Chipande, tido pelos autores dos manuais escolares oficiais ainda em uso em Moçambique, como o homem que deu o “primeiro tiro” que tornou irreversível a insurreição contra o colonialismo português pela Independência Nacional, alegadamente em Chai, a 25 de Setembro de 1964, no que é agora a província de Cabo Delgado, voltou a reafirmar, ontem, durante a abertura da Quarta Reunião Ordinária do Comité Central do Partido Frelimo, o direito dos “antigos combatentes” da luta de libertação armada “serem ricos”.

As afirmações de Chipande, foram ontem proferidas e noticiadas como manchete no noticiário da televisão privada STV.

Chipande, no estilo de um “general” que não recua em combate, respondia a perguntas de insistência. Queriam saber dele, se mantinha o mesmo posicionamento de há duas semanas, aquando da apresentação dos novos corpos gerentes do Corredor de Desenvolvimento do Norte (CdN), onde foi entronizado, como novo presidente do Concelho de Administração do CdN o proeminente jovem “empresário de sucesso”, Celso Correira.

“Mantenho tudo o que disse e repitam, de dois em dois minutos, de hora em hora e de semana a semana”, afirmou peremptório o general frelimista do Planalto de Mueda e ex-ministro da Defesa de Samora Machel.

- General amnésico?
No ano passado, em entrevista que deu à revista «TVzine», que tem como editora a assessora de imprensa do presidente da República Armando Guebuza, a “jornalista” Marlene Magaia, o general na reserva, Joaquim Alberto Chipande, pese o facto de estar envolvido em vários interesses empresariais, quando questionando por Jorge Jacinto, se era ou não empresário disse e passamos a citar: “não me considero empresário; sou um político e por vezes a forma de servir melhor é apoiar projectos que são a favor do desenvolvimento e em que posso dar um contributo, se solicitado”.

Na mesma entrevista foi focada a sua participação no Corredor de Nacala, mas o discurso de Alberto Chipande não mudou de tom e disse: “Não sei se sou empresário por estar nesse projecto, considero-me sim um político que vive a política que o país precisa” (sic).

Importa sublinhar aqui, que uma das «holdings» de que o General que “vive a política que o país precisa” é sócio – o «Grupo Mecula» – de acordo com o relatório do Tribunal Administrativo (TA) de 2007 tem ainda uma dívida de 8,72 milhões de meticais novos (saldo de 31 de Dezembro de 2005), após ter reembolsado nesse ano cerca de 310 mil MT (então foram 310 milhões da Velha Família), ao Tesouro moçambicano.

- Os interesses empresariais de Chipande.
A estreia do cidadão Alberto Joaquim Chipande nas lides empresariais, ou “na política que o país precisa”, como ele prefere dizer, deu-se a 3 de Agosto de 1995 quando a título individual associou-se à «Newpalm Internacional, Limitada» e constituiriam as «Madeiras Rovuma, Limitada» com um capital inicial de 10.000,00 MT da Velha Família (hoje 1.000,00 MT, com o USD a 29,50 MT).

O objecto social da «Madeiras Rovuma» é, entre outros o “comercio geral, compreendendo a importação, exportação, comissões e consignações...”.

Uma vez mais, no ano seguinte, 1996, associado à «Newpalm Internacional, Limitada» e a um “camarada” seu no partido Frelimo, Mateus Kathupa (actual porta-voz da Comissão Permanente da Assembleia da República e PCA da Petromoc, a petrolífera moçambicana), constituem a «CADELMAR-Mármores de Cabo Delgado, Limitada», empresa que, curiosamente, tal como a «Madeiras Rovuma», tem também como objecto social, “comércio geral, compreendendo a importação, exportação, comissões...”. O capital social, também foi o mesmo que o da empresa anterior: 10.000, 00 MT da Velha Família (1.000,00 MT, hoje).


No dia 6 de Maio do ano de 1996, o general na reserva Alberto Joaquim Chipande constitui, com Raimundo Maico Diomba (actualmente governador provincial) e Isabel Maria Verde, a «ROMOCA – Rovuma Madeiras de Cabo Delgado, Limitada». Sessenta mil meticais (60.000,00 MT da Velha Família), foi o capital inicial da «ROMACA» que tem como objecto social, o “abate e transformação de madeira com vista à comercialização nos mercados externo e interno”.


Como informação adicional publicitada no «Boletim da República» de 14 de Agosto de 1996, na introdução também aparecem como sócios os cidadãos José Carlos Verde Bráz e Guilhermino Gouzalez Teixeira.


Ainda em 1996, Chipande junta-se à «Moçambique Holdings, Limitada» e formam a «Agro-Indústria de Cabo Delgado, Limitada». Para a época o capital social é de deixar boquiaberto qualquer um e espantar qualquer moçambicano: apenas (!) 3.000.000.000,00 MT (três biliões), ou seja, actuais três milhões (3.000.000,00 MT) da Nova Família, em moeda corrente (1 USD=29,50 MT).


O objecto social desta última empresa é, entre outros, o “Desenvolvimento da indústria de exploração do capim, comercialização e desenvolvimento da cultura do caju”.
Depois de um interregno de três anos, conforme apurou a investigação do «Canal de Moçambique», o general Chipande volta às sociedades em 1999. Desta feita na área dos transportes, formando, com Carlos Adolfo Capellato, o «Grupo Mecula, Limitada».
Esta empresa que tem como objecto social “Transporte de mercadorias; Turismo; Distribuição de combustíveis...” e tem como capital social 2.400.000,00 MT, actualmente 2.400,00 MT.

No ano seguinte, o general Chipande, que foi o primeiro ministro a exercer a pasta da Defesa num governo de Moçambique independente, que por sinal cantava que “nossa Pátria será túmulo do capitalismo e da exploração”, associa-se a Valige Tauabo e constituem a «CIST, LDA - Consultoria, Imobiliária, Investimento, Serviços e Turismo», tendo como capital social 1.565.000,00 MT, ou seja actuais 1.565,00 MTn. O objecto social desta empresa é “desenvolver consultorias em áreas de auditoria, gestão, marketing, construção civil...”.

Caso para dizer, vale a pena viver a política e ao mesmo tempo questionar se um indivíduo com tamanhos interesses empresariais não pode levar o rótulo de “empresário”.
Os factos parecem indiciar que tinha razão Ahmed Sekou Touré quando disse: “metam-se na política, o resto vos será dado por acréscimo”.

- Contradiçoes dos “Camaradas”.
A STV quis saber de alguns dos pares de “primeira hora” de Chipande se estavam de acordo com as declarações do seu velho camarada. Quiseram saber, mais concretamente se concordavam que é legitimo ser rico só pelo facto de “terem libertado a pátria”. Dito de outra maneira: Chpipande defende que pelo facto de ter ajudado a libertar o País agora tem direito a ser uma espécie de dono da terra e dos outros homens. O que pensam os seus “camaradas”.


Jorge Rebelo, um dos questionados e, hoje tido na contra-mão da ideologia vigente no partido Frelimo, disse que os propósitos da luta não eram esses que Chipnade agora defende.
Entretanto, já Mariamo Matsinhe acredita que “Ele (Chipnade) foi mal compreendido”. Já Sérgio Vieira, a quem o falecido e reputado jornalista Miguéis Lopes Júnior, chamava, nos seus artigos, de “coronel das beatas” lembrando as “torturas” nas masmorras sob seu comando, entrou no mesmo diapasão de Matsinhe ao concordar que Chipande terá sido mal entendido pelo opinião pública. Serve de referência dizer que Sérgio Vieira, juntamente com Jacinto Veloso e outros, subscreveram um documento várias vezes reportado neste e outros jornais, em que se assumiram como os mandatários de Samora Machel, e informarem ao país e ao mundo o fuzilamento de Joana Simeão, Uria Simango, Lazaro Nkavandame, e muitos outros.""- (Luís Nhachote) - CANALMOZ - 21.08.2009, transcrito do "Moçambique para Todos".

Um comentário:

Tibério disse...

Sendo governado, liderado e administrado por esse tipo de "herói" e seus "camaradas" de ideologia marxista e atitudes capitalistas alheias ao social, não é de surpreender que, depois de 34 anos como país independente, Moçambique continue mergulhado na pobreza, no compadrio, no medo, na violência e na corrupção e tão mal ou pior que em tempos coloniais.
Uma VERGONHA!