terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O MAPIKO

O mapiko foi desde sempre a figura mais importante da cultura makonde, simbolo vivo de um espirito humano usado pelos homens para dominar pelo medo, mediante bailarinos mascarados, as mulheres e os jovens ainda não iniciados nos ritos de iniciação, contribuindo não só para integrar as crianças no grupo dos adultos, como ajudando a estabelecer o equilíbrio entre o grupo dos homens e o das mulheres. O mapiko foi e continua a ser uma actividade lúdica que tem conquistado muitos adeptos e serve de pretexto ao longo dos tempos para servir de uma actividade competitiva, onde determina-se os melhores grupos cujo mérito advém no facto dos grupos pautarem pela linha da originalidade na dança e máscara. Contudo, em tempos muito recuados as actividades competitivas do mapiko originaram conflitos sangrentos entre grupos rivais desta dança que simboliza o povo makonde. As vitimas destes conflitos, na sua maioria jovens, acabavam morrendo muitas das vezes devido a gravidade dos ferimentos que eram feitos pelos batuques conhecidos por vinganga e outros viam-se salvos graças aos préstimos dos vakulaula que magicamente e usando o método de takatuka transferiam as feridas de um ponto do corpo para o outro que não representasse perigo de morte para a vítima. Este comportamento de jovens daquela época deixou marcas profundas na história do percurso do povo makonde, onde algumas linhagens, como por exemplo, vanachuluma e vamboei chegaram a cortar as suas relações sociais durante muito tempo devido a um triste e trágico episódio sucedido em tempos muito passados, conforme passo a narrar:

Era uma atarde de domingo. O dia ia ao fim e a luz do sol desaparecia pouco-a-pouco anunciando a chegada da noite. O terreiro da aldeia dos vanachuluma achava-se cheio de gente que desde ao princípio da tarde assistia a competição de mapiko. O som dos tambores, de quando em vez intercalado pelo som do lipalapanda, avivava a povoação provocando um barulho ensurdecedor, próprio de ambiente festivo.

Tinha vindo na aldeia o grupo de mapiko de jovens vamboei que depois da actuação dos anfitriões foi convidado a mostrar o que mais sabia na arte de dançar o mapiko. Rapidamente, vinganga e ntodje soaram impetuosamente irrompendo o terreiro da aldeia de forma rude e um lipiko mboei saltou para o meio da roda humana dançando com estilo e conhecimento e acompanhando com perfeição o tam-tam dos tambores. Uma salva de palma encheu o terreiro e o intusiasmo apossou-se aos espectadores criando rastos de inveja no grupo de mapiko local. Decorridos alguns minutos, os tambores calaram-se e o grupo de percussionistas começou a cantar com ímpeto cânticos antigos enquanto o lipiko se dirigia às crianças e mulheres procurando domina-las pelo medo. Pouco depois, o som dos tambores voltou a fazer-se presente pondo em delírio os espectadores que acompanhando os cânticos dos percussionistas, batiam as palmas e ululavam de contentamento pela exibição espectacular do jovem lipiko mboei.

Passado algum momento, os tambores cessaram e o lipiko recolheu-se numa palhota que se encontrava nas imediações para descansar. Os percussionistas levaram os batuques ao lume para aquecer a pele que já se achava abrandada e, nesse instante, Apediupinde, um jovem da linhagem vanachuluma e percussionista do grupo juvenil local de mapiko, atravessou o centro da roda humana e bem perto do rosto de um dos jovens mboei, que na altura aquecia chinganga ao lume, disse com desdém:

- Nós somos o melhor grupo de mapiko do planalto. – Passou a mão à cabeça e acrescentou. – Vocês não passam de um bando de mulheres que finge ser homem com todas suas propriedades somáticas e psíquicas.

O jovem de chinganga ergueu-se, olhou para o interlocutor com ar de desconsideração e continuou a aquecer o batuque sem dizer uma palavra se quer. Apediupinde girou os calcanhares e voltou a atravessar o meio da multidão dizendo maldições inúteis com a testa vincada de profundas rugas devido ao facto do público nachuluma aplaudir e simpatizar-se pelo grupo juvenil mboei.

O som dos tambores voltou a irromper novamente o terreiro acompanhado do som lipalapanda que cortou o ar, vezes sem conta, chegando a ouvir-se nas povoações vizinhas do interior da floresta. O lipiko atirou-se ao meio da roda humana e recomeçou a dançar fazendo gestos para os espectadores. Dançou durante muito tempo afastado dos espectadores e depois, aproximou-se a um pequeno aglomerado de crianças. Os petizes fastaram-se desesperadamente assustados pela máscara envergada pelo lipiko. Apediupinde aproximou-se sorrateiramente o lipiko e empurrou-o energicamente caindo de seguida nos braços do público que imediatamente repudiou a atitude. Ngole, um jovem mboei, tomou o chinganga que tocava, correu rapidamente ao encontro de Apediupinde com o olhar rude e lábio inferior apertado entre os dentes. Assim que se encontrou perto, arremessou o chinganga cantra Apediupinde atingindo-o a testa. O público correu em debandada e num abrir e fechar de olho desenrolou-se uma luta feia entre jovens dos dois grupos de mapiko.

Nisto, Apediupinde levou a mão à testa e de súbito, um jato de sangue regou a mão ensanguentando-a total e imediatamente. A cabeça andou-lhe a roda, deu três passos incertos e no fim, tombou no chão beijando violentamente a terra castanha do terreiro. Entretanto, Ngole foi agarrado pelos jovens nachuluma e acidentalmente uma catana atravessou-lhe a nuca. O jovem caiu por terra estrebuchando e regando-a de sangue quente. Vendo o sucedido os outros vamboei fugiram a sete pés.

Durante um instante breve como relâmpago, Apediupinde foi levado a casa de nkulaula, onde foi tratado com ervas e feito atravessar o meio da rachadura da nala para fazer takatuka. Quando passou para o outro lado da árvore, a ferida desapareceu misteriosamente da testa e veio alojar-se no braço. Depois, foi conduzido a casa, onde ficou a convalescer.

No entanto, ao anoitecer aquele dia, os parentes do Ngole removeram o corpo e dias depois o nkulungwa dos vanachuluma reuniu os jovens da sua povoação no terreiro, onde repudiou a atitude vergonhosa protagonizada contra os vamboei e proibiu o uso da violência e a realização de competições juvenis de mapiko na sua povoação.
Dali em diante, jamais ocorreu um incidente similar no planalto makonde, contudo, o sucedido originou uma grande rivalidade disfarsada entre os jovens das duas linhagens que só veio a conhecer o seu término com a chegada dos portugueses.
- Allman Ndyoko, 10/03/2008.


GLOSSÁRIO
Vakulaula –
O plural de nkulaula que significa curandeiro;
Vinganga – O plural de chinganga que quer dizer batuques pequenos, achatados e meio delgados;
Nkulaula – Curandeiro;
Takatuka – Método tradicional que consiste na remoção mágica de uma ferida de um ponto do corpo para o outro que coloca em perigo a vida do paciente;
Ntodje – Batuque delgado;
Nkulungwa – Chefe da povoação;
Vamboei – Plural de mboei que significa pessoas da linhagem mboei;
Mboei – Alguém da linhagem mboei;
Vanachuluma – O plural de nachuluma que quer dizer pessoas da linhagem nachuluma;
Nachuluma – Alguém pertencente a linhagem nachuluma;
Lipiko – Dançarino de mapiko geralmente mascarado;
Mapikos – O plural de lipiko e também assim se chama a dança de máscara feita pelos makondes de Moçambique;
Ñala – Árvore através da qual o curandeiro usa para fazer curativos ao doente através do uso do método de takatuka.

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