sexta-feira, 14 de maio de 2010

De Porto Amélia a Pemba: Família Andrade Paes - parte 2

Já alguma vez arrancou uma planta útil da terra? Não o faça. Eu sei o que sente uma planta arrancada sem culpa do seu chão.
Glória de Sant'Anna - poetisa do mar azul de Pemba, Amaranto.

Moçambique - Cabo Delgado - Anos cinquenta - "VAMOS A PALMA?"
Vamos. Vamos rodando mais para o norte no que se considera o melhor carro para solavancos - o pequeno e útil 'carocha'.
É tempo seco. O perigo do matope não existe. Há sim a paisagem intensa de verdes e de água plana apenas mormurante do rio com nenúfares lilazes. E os pássaros gritadores colorindo de riscos de fulgor o largo espaço aberto. A baixa do M'salo preocupa-me porque é uma enorme extensão percorrida por caça grossa que ali vem beber ao pôr do sol, desafiando os olhos sornas dos grandes crocodilos. Mas o pôr do sol vem muito longe ainda. (É hora dos animais beberem. Ninguém sai de casa. - digo eu algumas vezes às crianças.) Pára-se para o batelão puxado por cordas. Sai-se. Há uma grandiosidade de princípio do mundo no silêncio de mil olhos escondidos. Algo me identifica com o sangue vegetal vibrante e vivo.
Já alguém reparou que nos troncos rugosos há uma aura suave de calor?

"Disseste alguma coisa?"
"Não. Não disse."

Está passado o M'salo e os rastos dos animais nas margens.
São ravinas, agora. Terreno onde a luz chispa vagamente, e que os antílopes e outros, vêm lamber porque é área de sal e gema. Uma vez por outra juntam-se em manadas e saciam-se.
Terra de macondes. Os artistas guerreiros cujas mulheres faladoras e descontraídas de repente me sorriem. E algumas aconchegando-se, apalpam o pano do meu vestido para ver como é. E conversam. E riem.
Nas mais novas o disco de pau preto ainda pequeno inserido no lábio superior, dá-lhes uma expressão de amuo.

(Foi em Pemba que vi o primeiro maconde. Novo, alto, de rosto tatuado e sorriso largo aberto sobre os dentes em serrilha.
Olhou os quadros dos pintores brancos postos nas paredes, com uma seriedade curiosa.
Aliás ele tinha sido convidado a ver outra forma de arte. E frente a um óleo estendeu a mão e percorreu a textura. Um dedo cauteloso e atento.
Ele, como eu, ouviu a explicação breve do dono da casa sobre técnicas e formas e materiais usados pelos artistas em concepções de estética.
Dias depois voltou sempre com aquela maneira de sorrir, trazendo a mulher tão nova como ele, bonita e de rosto liso.
E como marco de um ínicio de amizade, ofereceu um pequeno jacaré de marfim que esculpira na missão cristã onde estudou.)

Em casa do chefe de posto somos convidados a comer e a ficar. (Este hábito africano de portas abertas para a hospitalidade).
A dona da casa tem olhos verdes e cabelo preto encaracolado. Nasceu-lhe há pouco o primeiro filho.

"Palma é a solidão, é o extremo de tudo. Estou cansada. Tão cansada que nem pode supôr" - diz ela que na manhã seguinte na praia de areia muito fina, me adverte num sobressalto nervoso:
"Nunca se sente debaixo de um coqueiro! Um côco maduro cai sozinho!"

Há risadas espontâneas.
Quantos anos passaram já desde que os palmares são meus conhecidos? A sombra das longas folhas, a casca fibrosa do fruto melhor do que uma escova para dar brilho ao chão, a magnífica e fresca 'água do lenho' - bebida do côco verde.
A conversa incide sobre assuntos diversos: o decorrer dos dias; contentamentos; e descontetamentos, que não levarão muito tempo a surgir à tona da estrutura social.
Um cipaio aproxima-se dizendo que andam elefantes por perto.

"Vamos afugentá-los para não destruirem as culturas", diz o chefe de posto. "Alguém quer vir?"

Eu deixo-me ficar com Elsa sempre queixosa, mas que tem um bom senso de humor.
Continuo na tranquilidade da praia fresca de sabor salgado em terra de macondes, de entre os quais poucos anos depois e em tempo de guerra haverá um novo amigo escultor.
- Glória de Sant'Anna, Ao Ritmo da Memória - recolha de algumas crónocas publicadas no jornal Letras & Letras do Porto.
É madrugada e o n'pure voltou e canta
para o vermelho-laranja do horizonte
e o silêncio em volta dos telhados
é longo e doce
Uma linha de fumo branco sobe
da fogueira do guarda envolto na capulana escura
e a folhagem parada freme de súbito
ao grito do n'pure

Em redor dos troncos tombaram
as primeiras-tímidas flores da acácia rubra
durante a noite (penso)
ou soltas pelas asas leves do n'pure
In "Amaranto"
com tuas flores rubras farei brincos pulseiras e colares
para dar às sereias 
que na alta maré cheia
em noites brancas de lua
saem da água 
para cantar

""Para o Jaime: ...É o que chamo "o fio da amizade". Um fio que não quebra e une em espontaneidade, em memórias, pelos tempos dos tempos..."" - 28/04/2001, Glória de Sant'Anna.

SALABAI
(aí tens Salabai negra o poema que te prometi)
Salabai - podia ser o vento
deslizando nas folhas
Salabai - podia ser a chuva
tombada em leves gotas
Salabai - a palavra
que se ouve e se sonda
mas Salabai tem os olhos egípcios
na face quase negra
e perpassa sorrindo
na luz que surpreende
dia a dia hora a hora
(afinal Salabai é muito mais que tudo
o refrão matinal de uma canção de roda)
- In "Amaranto".
POEMA DÉCIMO TERCEIRO
A negra tombou entre os agrestes ramos
e um súbito espanto.

(está morta
e as aves cantam)

Do seu ventre aberto ao sol que se inclina
esvai-se o longo fio que a tecia.

(está morta
e o vento desliza)

Da face suspensa na folhagem magoada
descai o lenço que se desata.

(está morta
sob a claridade)

...toda já outra sobre o trilho que seguia
ausente das marcas de ódio que pisava
guarda entre os dedos longos da mão abandonada
sinais do áspero matope que a recolherá.

(está morta e as aves cantam
e a tarde se consome toda igual)
In "Amaranto"



BATUQUE
A negra salta e não cansa.

Entre o denso mar pálido
e a clara poeira,
a corda balança.

A negra se ergue e sorri.

Entre o leve céu pálido
e as dolentes árvores
e o tambor que vibra.

A negra se ergue e é esguia.

Dentro do batuque
e da ritmada corda
e do morto dia.

Não há segredo na boca tranquila da negra,
nem antigas e vãs perguntas que se percam,
nem místicas dúvidas ou esquecidos gestos.

Ela se ergue como uma lança,
e entre o céu e a poeira
simplesmente
dança.
- GLÓRIA DE SANT'ANNA-LIVRO DE ÁGUA (1961)- Sugerido por Andrea A. Paes.

VIAGEM
Na última vaga que a contém e arrasta
a casquinha é de ouro, de vento ou de água.

Nem âncora a amarra,
nem vela a segura,
mas o pescador
cheira a sal e a espuma.

Na última vaga que a contém e solta
a casquinha é de água, de vento ou de ouro.

Nem mastro a segura,
nem leme a norteia,
mas o pescador
cheira a sal e a areia.

(E o pescador cheira a sal e a areia
e deixa tombar sobre os búzios claros
os peixes de vidro que traz do mar largo.

E o pescador cheira a sal e a espuma
e deixa tombar sobre a areia húmida
seu longo cansaço).

A casquinha solta da última vaga,
espera sob as nuvens translúcidas,
pousada na areia como uma concha de nácar.
- GLÓRIA DE SANT'ANNA-LIVRO DE ÁGUA (1961) - Sugerido por Andrea A. Paes.
A CANÇÃO DO NEGRO
O negro canta
num timbre agudo
(agudo e rápido)
que surpreende.

Não fala: canta
num tom selvático
(denso e selvático)
alto e estrindente.

E o ritmo é tanto
tão bem marcado,
tão ansioso e
dilacerante,
que me parece
que está (sózinho)
cantando as mágoas
de toda a gente.
- GLÓRIA DE SANT'ANNA-UM DENSO AZUL SILÊNCIO - 1965 - Sugerido por Andrea A. Paes.
(Transferência de arquivos do sitio "Pemba/Régua" que foi desativado.)

Um comentário:

iap disse...

Jaime
Fico-te muito grata pela lembrança.
Um beijo e um abraço amigo,
Inez