segunda-feira, 10 de maio de 2010

Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Estrada do Tempo... A Ponte-cais !

O dia de "S. Vapor".

Na ex-Porto Amélia da nossa meninice, além de todos os outros, celebrava-se mais um santo: “S. Vapor”.

O seu dia era sempre que ao porto chegava um navio e o impacto na vida local variava em função da importância e origem deste.

Os de longo curso, idos de Lisboa, eram os que mais alteravam a rotina. As idas a bordo eram como que um regresso ao berço e um enganar da saudade.

Faziam-se compras, umas legais outras nem tanto, de artigos que não seriam muito diferentes dos encontrados localmente, mas… tinham o condão de vir da Metrópole…

Bebiam-se umas “Sagres”, que não seriam melhores que as “Laurentinas”, “Manicas” ou “2M” do quotidiano, mas estas… vinham da Metrópole…

Jantava-se a bordo e havia bailarico... com orquestra da Metrópole…

Era aquele “cordão umbilical”, que só os portugueses conseguem manter por toda uma vida.

Nesses dias, tirava-se a naftalina aos fatos domingueiros só usados em ocasiões especiais. Uma delas a Passagem do Ano (só até à meia-noite). Depois dessa hora, o cenário era outro. Talvez um dia falemos disso.

Parecido com o dia de “S. Vapor”, mas com intensidade e efeitos nada comparáveis, só os dias de chegada do avião da Deta.

Quando chegava… pois eram bastante frequentes as “avarias” provocadas pelas melhores condições de alojamento que, naquele tempo, as tripulações encontravam em Nampula ou no Lumbo.
- António Coelho - Luxemburgo, 17/11/01.

Fotos dos navios Janina, Porto Amélia, Infante D. Henrique e Príncipe Perfeito colhidas do sítio Navios Mercantes Portugueses.

O Dia de "S. Vapor" II.
 
Já, na Estrada do Tempo, tentei dar uma idéia do que era o “Dia de São Vapor”.
 
Das peripécias a ele ligadas, uma há que julgo merecedora de ser aqui relembrada.
 
Aconteceu no início dos anos 60, se a memória me não atraiçoa em 62, aquando das viagens inaugurais dos navios Infante D. Henrique e Príncipe Perfeito.
 
O aproximar do dia da chegada de um deles despertou a habitual efervescência, mas bastante ampliada, por razões óbvias...
 
O luxo e dimensão do “bicho”, se atracava ou se ficava ao largo, por quanto tempo estaria entre nós, haveria ou não possibilidade de o visitar... tudo era assunto de conversa e contribuía para aumentar a expectativa geral.
 
Chegou, finalmente, o grande dia. Por precaução, o Comandante decidiu ficar ao largo apesar de (constou-se...) o Piloto da barra garantir que as condições de acostagem eram seguras.
 
Assim, houve que mobilizar umas quantas embarcações ligeiras, para fazer o transporte de passageiros, visitantes e alguma carga.
 
Além dos “gasolinas” cedidos pela Capitania do Porto e de umas quantas lanchas, veio de Mocímboa o Gaspar com o seu barco.
 
Chegado o dia, foi a bordo quem quis e/ou quem pode.
 
Um dos visitantes, na ânsia de afogar a sede (crónica) que o afligia, foi um pouco além do razoável e, fatal como o destino, a visão e o sentido de equilíbrio ressentiram-se.
 
No regresso, aproximando-se o “gasolina” do local onde o pessoal iria desembarcar, o nosso “herói” avaliou mal a distância. Saltou para a escada que só ele via próxima e, como imaginam, foi ao charco.
 
A sorte, a perícia dos tripulantes e a ajuda dos presentes reduziram os prejuízos a um fato molhado e uns quantos papeis ensopados. Papéis que, para a pessoa em causa, eram de “extrema importância”. Tratava-se de “Vales” do bar do Carneiro & Morais, que o nosso amigo saldara nessa tarde, como religiosamente fazia a cada fim de mês.
- António Coelho - Luxemburgo, 14 /12/2001.
 
Meu à parte - Para quem não se lembra, o Tó Coelho está recordando a figura típica do saudoso Zacarias, funcionário da Companhia Comercial João Ferreira dos Santos.
 
(Transferência de arquivos do sitio "Pemba" que será desativado em breve

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