quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Retorno - Um conto de Allman Ndyoko

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Um vento forte fustigou levantando uma nuvem de poeira e os vestes de Mbalale, que imediatamente esvoaçaram na direcção do vento. Volvido algum momento, o vento parou. Uma neblina cobriu o ambiente e uma escada longa, dourada e sem corrimão surgiu na sua frente elevando-se até ao céu coberto de nuvens brancas e espessas. Um impulso inexplicável impeliu Mbalale a subir os degraus. Vagarosamente e ausente de si, foi subindo a escada que parecia sem fim e à medida que galgava ia sentindo o corpo gélido, equilibrado e quase sem anomalias. Uma paz interior invadiu o coração e a memória de acontecimentos recentes se esvaiu como um relâmpago. Em sua volta, à escassos metros donde se encontrava caminhando, sem saber para onde, seres humanos voadores trajados de branco e com as costas pregadas de asas lhe vigiavam cautelosamente acompanhando o seu percurso.

Entretanto, chegou a um ponto onde as nuvens viam-se em baixo a uma distância consideravelmente longa. Contudo, prosseguiu a marcha mesmo sem saber o destino e mais adiante, encontrou um homem alto, robusto e de capuz empunhando um cajado. Ele achava-se parado no meio do percurso, onde a escada se dividia em duas partes tomando direcções opostas. Nesse ponto, iniciavam dois caminhos de terra cor branca como as areias da praia. Nas extremidades desses caminhos achava-se uma infinidade de flores que se estendiam na terra formando um tapete colorido de beleza incomparável. Ao aproximar-se do sujeito, Mabalale parou e logo foi-lhe ordenado a seguir o caminho que conduzia à direita. Enquanto marchava no novo caminho coberto de céu azul, Mbalale ouviu vozes de gente cantando em uníssono cânticos desconhecidos, mas belos e contagiantes. Doutro caminho que ia à esquerda chegavam-lhe aos ouvidos gemidos de gente, gritos de socorro, estalidos de chicote e sons de correntes metálicas arrastadas no chão pavimentado e pedregoso. Porém, prosseguiu a marcha até a uma cancela guardada por homens robustos e valentes, onde parou aguardando ordem. Nesse instante, deitou a vista do lado oposto à cancela e viu uma multidão de gente sentado no chão aguardando a chamada para o ponto donde vinham as vozes dos cânticos belos e confortantes. Nessa multidão, Mbalale viu seus parentes mortos há muitos anos também sentados junto à multidão. Ficou perplexo e de queixo caido. Esbugalhou os olhos e nesse instante ouviu deles:

- Ninguém te chamou. A tua hora ainda está por vir...

Enquanto diziam isto em coro, repetidas vezes e de cabeça cabisbaixa, um guarda da cancela tocou as costas do Mbalale com um cajado e ordenou-o a retornar. Sem resistência e muito indiferente, Mbalale voltou a percorrer o caminho que havia andado e mais adiante encontrou um homem com um capuz parado na berma. O homem interrompeu o marchante e logo disse-lhe:

- Siga este caminho. – Apontou para um ponto que descia e no fim via-se uma floresta densa e escura. – Mais adiante encontrarás alguém perto de um lago e essa pessoa te servirá água numa cabaça. Não bebas e prossiga a marcha. Mais em frente, voltarás a encontrar outra pessoa que também encontra-se ao lado de um lago de água limpa, fresca e reluzente e quando servir-te aceita-a, beba e prossiga. Entendeu?

- Entendi! – Respondeu Mbalale uma vez mais ausente de si.

Na verdade, mais em frente encontrou o primeiro homem de capuz preto que imediatamente lhe serviu água de forma astuta, mas Mbalale recusou a oferta conforme havia lhe instruido o guarda da cancela. Já adiante, encontrou o outro homem de capuz branco que lhe serviu água numa cabaça. Mbalale aceitou a oferta e antes de levar a cabaça aos lábios, tratou de olhar para o lago e viu que tinha águas limpas e reluzentes. Então, bebeu o líquido seguramente e quando engoliu a última gota da cabaça viu-se no cemitério, no meio de uma clareira, onde gente da sua povoação lhe rodeava chorando e preparados para o sepultar. Desfez-se dos panos que lhe envolviam e alguns aldeões fugiram a sete pés medrosos pelo retorno misterioso do ex-finado ao mundo dos vivos, naquela tarde de Junho de sol avermelhado... 
- Allman Ndyoko, Pemba 09/04/2008.

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