segunda-feira, 1 de novembro de 2010

NOVEMBRO

(Gravura editada de imagem recolhida na net)

Quando o céu escurece nas tardes de Novembro,
Lembro:
O silêncio de um quarto alugado
Com uma velha a tossir no do lado
E gente cansada nas ruas do vento.
Quando as plantas apodrecem nas sacadas
- Uma chuva miudinha a entorpecer o mundo -
Abraça-me a saudade de antigas namoradas
- Promessas breves de um segundo -
Como cobertores de Inverno em corpo gelado.
Quando as pombas se arrolam no telhado
E se aproxima a neblina do mar,
A noite, deslizando na ampulheta do dia,
Espera os enjeitados da democracia.
Quando as Avós estendem as roupas dos netos
Nas cordas de uma vida de restos,
De fatalismos há muito arquivados,
Calando passados,
É como se viver
Fosse quase morrer.
Quando as árvores amarelecem
E se despem
Como esqueletos de ossos
Sem a carne da vida,
Os olhos ( os nossos e os vossos )
Choram as esperanças traduzidas
No silêncio das palavras reprimidas.
Quando os pássaros, esbaforidos,
Fogem aflitos
Para a defesa dos beirais,
Defecam no cego que tapa o acordeão
E na mão do pedinte sob os umbrais;
Quando os cauteleiros apregoam a sorte
E os sinos anunciam a morte,
A chuva lava o chão
Para onde irá o meu caixão.

- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua.

Um comentário:

Zé Povinho disse...

Um Novembro bem cinzento, meu caro...
Abraço do Zé