2/07/07

CACIMBO


Do "Cacimbo"- http://textocompleto.blogspot.com:80/ e em homenagem a todos os "Heróis Esquecidos" da guerra colonial em África:

Aerograma
Mueda, 10 de Março de 1972
Meu amor,
Hoje morreu o Rivelino.
Disseram que morreu.
É irremediável, mas queria falar disto a alguém.
Sabes? Quando morre alguém nós ficamos um pouco mais sós. Por isso te escrevo, um dia quando te conhecer, quando nos amarmos e quando eu precisar de dizer isto outra vez a alguém, entrego-te este aerograma, para me fazeres companhia.
Aqui onde estou, a meio mundo de ti e a meia vida de te conhecer, há uma guerra e todos os dias morre alguém, é como se deus fizesse connosco o que eu estou a fazer agora com aquelas latas de cerveja alinhadas na vedação.
Hoje a lata em que Deus acertou chama-se Rivelino e eu precisava de chorar um pouco.
Eu choro sempre que morre alguém, mesmo que morram várias pessoas por dia.
É a minha maneira de não aprender a morte; mesmo que não me apeteça chorar, choro.
É uma espécie de exercício para não me esquecer que sou humano.
De vez em quando interrompo este aerograma e dou um tiro numa lata de cerveja e não vejo que prazer pode dar isso.
É por pura curiosidade que o faço, para ver o que pode ter sentido deus quando o Rivelino morreu.
Falhei.
Não é fácil acertar numa lata de cerveja com uma G3 a esta distância.
Se aquela lata fosse o Rivelino eu hoje talvez não tivesse chorado, talvez não estivesse a escrever este aerograma e talvez não te viesse um dia a conhecer.
Mas o Rivelino morreu e eu sinto que é imperioso não deixar que isso passe em vão.
Aponto de novo a G3 e a lata de Laurentina aguarda ao longe que a minha pontaria volte a falhar.
Eu enchi as latas de areia e quando lhes acerto em cheio elas explodem.
É mais divertido assim, pensei eu, do que com uma lata vazia.
Mas quando se trata de destruição e de morte não vejo que o espectáculo divirta mais.
Será por isso que dizem que deus pôs uma alma dentro de nós, será que é para ela explodir quando morremos, para ser mais divertido?
Não faças caso.
Eu sei muito bem que não é deus que faz connosco o que eu faço com as latas de cerveja; são pessoas como eu que fazem isso, pessoas que aceitaram a missão de nos irmos abatendo uns aos outros por um motivo de que já nem sequer nos lembramos.
Quando esta guerra acabar ninguém se lembrará mais do Rivelino, então um dia, quando eu me sentir tão só como hoje e me apetecer dar tiros em latas de cerveja, eu hei-de encontrar este aerograma e dar-to-ei como se tu fosses a minha correspondente de guerra e nessa altura a solidão desvanecer-se-á um pouco.
Mas tenho que te encontrar primeiro, tenho que ir tentando pela vida fora até ter a certeza que és tu a destinatária deste aerograma.
Saberei que és tu se ao olhar-te não me apetecer chorar ninguém, como senão tivesse havido uma guerra, como se eu não tivesse feito com homens como eu, o que agora faço com as latas de cerveja.
E então sentirei um apelo enorme para te contar tudo isto, como se a música de um piano se soltasse, retinindo pérola a pérola sobre o pesado mármore do silêncio e acordasse em mim o riso e a inocência.
Se fores tu, lembraremos o Rivelino como uma criança inocente antes de lhe terem dado a missão que só é costume desculpar aos deuses e que na verdade nos transforma a todos em predadores ou em presas, em projécteis ou em alvos.
Se fores tu, terei a certeza que não aprendi a lição da morte, e este aerograma terá finalmente a sua destinatária.
Com todo o meu amor,
Manuel
© Manuel Bastos

PEMBA - Julgamento do “Horizonte” terá (?) lugar hoje.


O tribunal judicial da cidade de Pemba deverá julgar hoje, o semanário “Horizonte”, publicado na capital provincial de Cabo Delgado, no Processo 965/06, que envolve o jornal e uma Organização Não-Governamental (ONG) nacional denominada UMOKAZI, que alega ter sido difamada num artigo publicado na edição número 164, de 3 de Fevereiro de 2006, que falava da má gestão e incapacidade dos seus gestores.
A UMOKAZI pede pela difamação um valor de 12 milhões de meticais, para reparar os danos morais resultantes da publicação da referida peça jornalística, que, por outro lado, acredita tê-la deixado uma má imagem junto dos doadores e outros parceiros.
O julgamento teria lugar no dia 25 de Janeiro passado, mas o “Horizonte” pediu adiamento para que conseguisse constituir advogado, se bem que ia à audiência em desvantagem, pelo que, sem meios financeiros, muitas vezes mesmo para aguentar com a edição do próprio jornal, solicitou ajuda a diferentes pessoas e organizações, tendo encontrado acolhimento no MISA-Moçambique, capítulo nacional do Instituto de Comunicação Social da África Austral de que todos os jornalistas do periódico são membros.
Entretanto, ao fim da tarde de ontem, o “Notícias” soube que o advogado contratado pelo MISA-Moçambique, Dr. André Cumbe, disse não poder deslocar-se a Pemba para participar na audiência de discussão do julgamento marcada para hoje, por ter tomado conhecimento tardiamente da sua constituição.
Cumbe requereu já o respectivo adiamento por um período de 8 dias, para, segundo ele, melhor conhecimento dos autos, gesto que diz ser legal e justo. Este facto poderá, se o tribunal o entender, levar a mais um adiamento para 15 de Fevereiro corrente.

Maputo, Quarta-Feira, 7 de Fevereiro de 2007:: Notícias

Moçambique - Movimento "Amigos das Florestas".


Um conjuntos de cidadãos, provenientes dos mais diversos sectores da sociedade, preocupados com a situação de desflorestamento em curso no país, reuniu-se recentemente na cidade de Maputo, tendo tomado a decisão de unir esforços para, no próximo dia 21 de Março de 2007, organizar e realizar uma Marcha Comemorativa do Dia Internacional das Florestas, criando ainda aquele que será adiante designado como movimento "Amigos das Florestas".
Trata-se de uma forma de apelar à suspensão imediata do abate indiscriminado das florestas moçambicanas, exigindo, em alternativa, uma gestão sustentável dos recursos florestais.
Como se sabe, após dados tornados públicos recentemente, as nossas florestas estão a conhecer um ritmo imparável e assustador de destruição, conduzindo ao pior dos cenários num futuro que se receia bem próximo: um país sem floresta, tal como aliás já aconteceu em algumas nações africanas - Gana, Nigéria e Costa do Marfim.
A nossa madeira está a ser exportada a preço muito baixo para a China, sem que haja lugar a qualquer tipo de processamento, havendo lugar à violação de uma série de diplomas legais.
Há fortes indícios de práticas de corrupção por parte de alguns funcionários do Aparelho do Estado, bem como de operadores privados, nacionais e estrangeiros.
Mesmo os casos em que a exploração está a ser realizada nos termos do regime de concessão florestal, as notícias não são em nada animadoras, pois os concessionários, regra geral, actuam como os titulares de licença simples: cortam, procedem a um pseudo-florestamento para ingles ver, não instalam qualquer industria de processamento, não cumprem planos de maneio.
Para a província da Zambézia, por exemplo, calcula-se que dentro de 5 a 10 anos já não haverá floresta.
Para além deste caso, há registo de ilegalidades a ter lugar nas províncias de Cabo Delgado, Sofala, Nampula, Tete e Manica.
Nem as florestas sagradas das comunidades escapam.
A nossa madeira está a sair via porto (opção oficial), mas também clandestinamente, através, por exemplo, do rio Rovuma em direcção à Tanzania (opção não oficial).
Vigora a política do "corte e foge", pouco ou nada fica para as comunidades locais (salvo honrosas excepções), pouco fica para o país (muito mais ganharíamos se fizessemos uma gestão sustentável das florestas - teríamos desenvolvimento económico, desenvolvimento social e protecção do ambiente, os três pilares do desenvolvimento sustentável) e muito ganham aqueles que compram (a nossa madeira é processada na China, gerando postos de trabalho, e reexportada para diversos locais do mundo, gerando receitas bastante significativas).
Se nada fizermos de imediato, corremos o risco de vir a assistir às inúmeras consequencias de semelhante inércia: erosão, perda de biodiversidade, desertificação, alteração da hidrologia, alterações climáticas, etc.
Em termos conclusivos, o nosso comportamento está, directa ou indirectamente, a contribuir para a geração de mais pobreza absoluta.
Há que fazer qualquer coisa!
Por isso junte-se a nós, partilhando ideias, reenviando a informação, consciencializando o próximo e mobilizando toda e qualquer pessoa que queira viver num país com florestas protegidas.

Carlos Serra, jurista, membro fundador da Justiça Ambiental (Amigos das Florestas)

2/05/07

ÁFRICA - Disparidade tecnológica aumenta.


As conexões de banda larga com a Internet na África devem mais que duplicar até 2011, mas o continente está ficando ainda mais para trás do restante do mundo, porque os governos não estão promovendo a abertura de mercados e a redução de custos do setor.
As conexões de Internet de alta velocidade na África, incluindo DSL, WiMax e tecnologias sem fio como a telefonia móvel 3G, provavelmente chegarão à marca dos sete milhões até 2011, ante três milhões atualmente, de acordo com um recente relatório do grupo sul-africano de pesquisa BMI-TechKnowledge.
Esse total se compara a quase 70 milhões de conexões banda larga já instaladas na União Européia.
A disparidade significa que os serviços de banda larga continuarão inacessíveis para a maioria dos africanos, o que provavelmente limitará o investimento estrangeiro no setor.
"A África ficou muito para trás do restante do mundo, e parece que a disparidade só aumentará, a menos que alguma coisa seja feita", disse à Reuters Richard Hurst, co-autor do relatório e analista de telecomunicações na BMI.
Menos de um por cento dos africanos têm acesso a serviços de banda larga, devido a uma falta de conectividade internacional e a monopólios complexos, ante 22% dos norte-americanos e 30% dos europeus ocidentais, segundo Hurst. Mais de três quartos das conexões africanas de Internet são discadas.
Os norte-africanos são o grupo mais familiarizado com a Internet, no continente, porque os governos da região liberalizaram os setores de telecomunicações, enquanto os provedores de acesso à Internet têm acesso a diversos cabos submarinos de telecomunicações, graças à proximidade entre a região e a Europa.
Mas na África Oriental, a banda larga é virtualmente inexistente, porque não há cabo submarino que ligue a região ao resto do mundo, o que força os provedores locais a depender de conexões via satélite, dispendiosas e pouco confiáveis.
Os países da África Oriental deveriam estar construindo um cabo submarino, mas o projeto está paralisado. Embora outras empresas, entre as quais a indiana Reliance Communications, tenham expressado interesse em instalar um sistema rival de cabos, o projeto deve demorar.

Reuters - In Terra