sexta-feira, 3 de abril de 2009

A Guerra Colonial em África na RTP e na ótica de J. Furtado

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""Foi ontem apresentado pela RTP1 o 13º episódio da série A GUERRA, na sua quase totalidade dedicado a Moçambique(FRELIMO).

São todos os intervenientes(entrevistados) sobejamente conhecidos.

De salientar as omissões de uns, a fuga de outros e as contradições entre alguns. Por exemplo, uns falam do relatório da polícia tanzaniana sobre a morte de Eduardo Mondlane, enquanto a viuva diz que nunca o viu.... É um documento importante para a História de Moçambique e da Frelimo...""
  • Post's anteriores deste blogue sobre a série "A Guerra" - aqui 1, aqui 2, aqui 3 e aqui 4!
  • RTP - A Guerra - aqui!
  • Videos e documetários RTP - Guerra Colonial 1961/1974 - aqui!
  • Portal sobre a Guerra Colonial de Portugal em África - aqui!

Acrecento: A História se escreve pelos factos e pela verdade. Ninguém, muito menos "heróis de barro" quebradiço, a conseguirá desvirtuar!

O Dr. RUI FERREIRA PINTO DO CARMO faleceu...

Pela Amiga M. E. soubemos que faleceu no passado dia 29 de Março o Dr. Rui Ferreira Pinto do Carmo.
Saudades e amigos inúmeros deixou em Porto Amélia (Pemba). Cuidou, sem olhar a cores e classes sociais, da saúde e vida de muitos moçambicanos de ontem e seus descendentes do Moçambique de hoje. E de todos nós que com ele convivemos.
Assim o recorda Maria Helena Vilas Boas, Amiga e companheira de nossos folguedos de adolescentes em Porto Amélia:

""DR.RUI FERREIRA PINTO CARMO
Como o recordo com tanta saudade!

Foi médico contratado da Companhia Agrícola da Nangororo, na década de 1950/60, onde por lá aparecia para detectar possíveis casos da "doença do sono", doença essa que era transmitida pela picada da mosca tsétsé.

O Dr. Carmo,- nome pelo qual era vulgarmente conhecido entre todas as classes sociais -, possuía o curso de medicina tropical; como tal, era muito solicitado por todos aqueles que habitavam a cidade de Porto Amélia e arredores, que a ele recorriam buscando remédio para os seus males.

Era um homem muito comunicativo, franco e acima de tudo...muito simples!

Com os seus calções brancos e a sua balalaica a condizer, deslocava-se sempre com o seu passo lesto. Era um homem activo que levava uma vida muito regrada.

Pessoa de grande saber, não só adquirido nos livros por onde estudou, mas que soube valorizar os seus já vastos conhecimentos pelo contacto diário que tinha com os seus doentes e que não eram assim tão poucos!

Era frontal e directo!

Recordo-me de uma breve passagem em que a minha irmã, tal como tantos outros jovens da sua idade, contraiu na Nangororo a paralisia infantil. Os meus pais fizeram tudo para a salvar da situação, experimentaram todos os unguentos possíveis e imaginários mas nada!

E o Dr. Carmo foi directo para a minha Mãe ao dizer-lhe que dali só um milagre, pois que da medicina não esperasse mais nada!

E o milagre aconteceu...pois que a minha irmã foi das poucas para não dizer a única que conseguiu ficar a andar normalmente sem deficiências!

Homem profundamente católico, todos os domingos lá ia com a sua esposa - a D.Agostinha - até à igreja de S.Paulo, assistir à missa dominical.

Muito amigo dos pobres - um autêntico João Semana - era rara a semana que não abordava o meu marido na empresa João Ferreira dos Santos, tentando adquirir géneros alimentícios que já na altura escasseavam, para com eles, abastecer os seus colaboradores no Centro de Saúde da Doença do Sono e no hospital também.

Ele foi o médico que me valeu aquando do nascimento da minha filha, já depois do 25 de Abril de 1974!

Em grande sofrimento desde as 4,30 da madrugada, tentando inutilmente que o médico avençado do BNU me viesse analisar já que a parteira só me recomendava paciência, muita paciência, pedi ao meu marido que o chamasse urgentemente...e ele veio! Mal chegou perguntou à parteira em voz dura se já tinha alertado o médico para a minha situação e depois vira-se para mim e diz-me estas palavras:

Então menina... vamos a isto?

Sei que me mandou dar umas injecções para me provocar o parto e a minha filha passados uns minutos via a luz do dia... e nessa noite permaneci numa "maternidade" ao fundo do hospital!

No dia seguinte lá estava ele ao raiar do sol, a saber de mim! E mal me examinou e à minha pequenita, virou-se para o meu marido e alertou-o que nos retirasse logo de lá e fôssemos para casa.

Para qualquer coisa estava ao dispor...

Pela tardinha, a D.Agostinha sentava-se na varanda da sua casa, situada mesmo ao lado da firma Vieira & Baptista e, como pessoa prendada que era, ora a via ler, ora a fazer os seus bordados ou conversando com as suas amigas.

Mais tarde tive o privilégio de o ver, por mais do que uma vez, no convívio dos naturais e residentes de Cabo Delgado. Uma das vezes, ainda foi ele que socorreu a minha saudosa Mãe quando a mesma desmaiou e ficou no chão inanimada. Foi ele quem chamou a ambulância e a acompanhou até ao hospital de Vila Nova de Ourém! Enquanto não lhe diagnosticaram o problema ele não a abandonou...e já de volta com ela ainda nos alertou: Cuidado com o coração dela, pois ao mais pequeno problema, poderá não resistir.

No último encontro em que o vi e o abracei, já a sua esposa tinha falecido e ele estava casado com outra senhora. Comia muito pouco. Dizia ele que era na boca que residia a nossa saúde... e enquanto o pessoal se atirava às chamussas e outras iguarias moçambicanas e indianas, ele, sentado ao pé de mim, descascava pausadamente uma maçã "bravo de esmolfe", muito cheirosa e perguntava-me se queria um bocado da mesma!

Sempre delicado, sempre humano!
Nessa última vez que o vi, abordou todos os que se encontravam no largo onde agora existe o novo Santuário e ia distribuindo um santinho a cada um de nós! Ainda conservo na lembrança que, estando eu com a Irene Coelho em amena cavaqueira, ele abeirou-se de ambas e para além do santinho nos disse:
- Que Ela vos acompanhe pela vida fora!

Há dias conversando com a minha cardiologista que é natural de Caldelas -, uma localidade que possui uma estância termal aqui no norte de Portugal - tomei conhecimento que ela estagiou com o Dr. Pinto do Carmo!

Fiquei estupefacta! Como poderia ser? Ele até nem era cardiologista!!! Mas ela esclareceu-me, explicando que sendo natural de Caldelas, mal parecia não fazer um estágio nas termas para acrescentar ao seu curriculum... e descreveu-me o Dr. Rui Pinto do Carmo tal como ele sempre o foi.

Um homem, activo, competente, amigo do seu amigo, sempre vocacionado para a sua área - a medicina -!

Esta foi a minha homenagem a um ser humano exemplar, isento de ambições, de orgulho, de vaidades.

Enfim, um homem simples, inteligente, despido de preconceitos, do qual qualquer pembense se deve orgulhar!""
- Lena Vilas Boas Sousa, 06/01/09 - Bar da Tininha-Multiply.

Jamais esqueceremos o "Dr. Carmo da mosca do sono", como era conhecido em todo o Cabo Delgado ou o "Dr. Preto" em Balama.... Paz a sua alma!

Buscando no tempo, lá pelo Douro:A tragédia de Riobom - 27 de Maio de 1959.

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Em atenção aos "vareiros" que nos lêm e visitam por esse mundo virtual afora, alguns post's irei trazendo de um outro blogue ("Escritos do Douro") onde se fala do Douro em Portugal, da cidade de Peso da Régua, de sua história e cultura, de personagens que marcam e dão exemplo e de outras coisas mais que não só da "vinha e do vinho do Porto", de Pemba e Moçambique...

A tragédia de Riobom.
A foto em presença mostra o momento de uma grande tragédia, no lugar de Rio Bom, na freguesia de Cambres, em Lamego, no dia 27 de Maio de 1959, onde seis pessoas perderam a vida.

E mostra, também, quanto outrora era secundarizada a protecção individual do bombeiro, vendo-se esta limitada ao uso de capacete de latão, o qual, inclusive, à data do registo fotográfico, 27 de Maio de 1959, já havia sido recomendado, a nível nacional, como inadequado para trabalho, nomeadamente pela Liga dos Bombeiros Portugueses, devido a factores de fraca resistência.

Em plena acção vê-se um bombeiro de Peso da Régua. De archote na mão, outra marca da ausência de meios apropriados à situação de socorro, aliás, tal como o tipo de fardamento (fato-macaco e calçado normal), prescruta entre os destroços do que foi a povoação de Riobom, freguesia de Cambres, com a intenção de ainda salvar vidas e bens, sob o olhar de um popular que parece procurar algo.

Em 30 de Maio de 1959, o jornal da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua, intitulado “Vida por Vida”, deu conta do trágico acontecimento e da complexidade em que decorreu a acção dos "soldados da paz", nos seguintes termos:

"O Lugar de Riobom (…) viu-se tragicamente atingido por uma violenta tromba de água que deixou atrás de si rastos de desgraça e prejuízos materiais que ascenderam a milhares de contos.Seriam 21.45 horas, de 27 de Maio do corrente ano (1959), quando o nosso amigo e sócio contribuinte Elísio Valente(…) solicitou a intervenção dos nossos bombeiros para prestar serviço no desmoronamento de uma casa, devido às águas das chuvas.

Imediatamente e sem alarmes de maior, seguiu um piquete para o lugar de Riobom e, qual foi a maior admiração dos bombeiros, ao depararem na noite escura com a vastidão de uma catástrofe que, passo a passo, se verificava e cada vez maiores proporções atingia. Seguiu-se o pedido de reforços, e então a nossa vila viveu horas de amargura, ao saber da triste sorte dos seus vizinhos de Riobom.

Foi à luz de archotes e através de um espantoso lamaçal que todos os bombeiros procuraram as vítimas, sempre na angustiosa incerteza de haver maior gente em situação crítica no seio da noite e da tempestade.

Os nossos bombeiros, trabalhando sob o comando do Subchefe Claudino, iniciaram os trabalhos às 21.45 h do dia 27 e só as 5.00 h, do dia 28 regressaram ao quartel.

Foram dramáticos todos os serviços de salvamento e de certo modo arriscados. Por via disso, um dos bombeiros pertencentes à composição n.º 2, teve que ser socorrido no Hospital D. Luiz I, devido a várias escoriações. -Peso da Régua, Março de 2009, José Alfredo Almeida.

- Outros textos publicados sobre os Bombeiros Voluntários de Peso da Régua e sua História:

  • Manuel Maria de Magalhães: O Primeiro Comandante... - Aqui!
  • A Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • A cheia do rio Douro de 1962 - Aqui!
  • O Baptismo do Marçal - Aqui!
  • Um discurso do Dr. Camilo de Araújo Correia - Aqui!
  • Um momento alto da vida do comandante Carlos dos Santos (1959-1990) - Aqui!
  • Os Bombeiros do Peso da Régua e... o seu menino - Aqui!
  • Os Bombeiros da Régua em Coimbra, 1940-50 - Aqui!
  • Os Bombeiros da Velha Guarda do Peso da Régua - Aqui!

- Link's:

  • Portal dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua (no Sapo) - Aqui!
  • Novo portal dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • Exposição Virtual dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • A Peso da Régua de nossas raízes - Aqui!

Diversificando: 53 anos de arquivos da Playboy de graça...

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Para "variar" um pouco a meio das "tormentas" do dia-a-dia e por insinuação do "Velho" onde passaria mais vezes assim sobejasse tempo, fui ao "IDGNow" para ver e ler:

""Playboy libera arquivo com 53 anos de revistas de graça na web - São Paulo - Internautas poderão “folhear” digitalmente - e sem nenhum custo - todas as edições publicadas entre 1954 e 2007, na íntegra.

A Playboy anunciou que vai liberar - de graça - todo o conteúdo de suas revistas editadas entre 1954 a 2007 na internet.

Para isso, a companhia fez um acordo com a Bondi Digital Publishing, que foi contratada para digitalizar, na íntegra, todo o acervo.

Isso quer dizer que, além das fotos de beldades, as versões digitais também têm todos os artigos e anúncios encontrados nas revistas de papel.

Por meio de comunicado, Murat Aktar, co-fundador da Bondi, disse que o trabalho levou cinco anos para ser completado e todas as revistas tiveram suas imagens digitalizadas e seus textos redigitados.

Para exibir as revistas no formato digital, a Bondi criou um visualizador especial, que permite “folhear” as revistas como se elas fossem de papel (uma idéia que está longe de ser uma novidade no meio online).

Para poder ver as revistas, é preciso baixar o Silverlight, plataforma da Microsoft que concorre com o Adobe Flash e permite exibir e distribuir conteúdo multimídia em navegadores.

As revistas podem ser conferidas no endereço http://www.playboyarchive.com/.""
- IDG Now, Março de 2009.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Blogueira Yoani Sánchez: uma pedra no caminho da ditadura comunista cubana!

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Inconformada com a situação política em seu País, a blogueira cubana Yoani Sánchez, sem abdicar do seu direito de permanecer na Ilha, utiliza corajosamente a internet como meio de protesto e luta contra a ditadura comunista imposta pelos caudilhos retrógrados locais. E é matéria de reportagem da IDGNow:

""Blogueira Yoani Sánchez é acusada de provocar administração cubana - São Paulo – Responsável pelo melhor blog de 2008 segundo The Bobs, Yoani Sánchez enaltece web pelas “fendas” na censura do governo.

O Governo de Cuba acusou a blogueira Yoani Sánchez e outros dissidentes do regime de fazerem uma "provocação contra a Revolução Cubana" durante a abertura da 10ª Bienal de Havana, no domingo (29/03).

Durante a abertura da Bienal, Yoani interrompeu uma performance da artista Tania Bruguera para afirmar que a internet estava abrindo "fendas" na censura e no controle da informação em Cuba, segundo a Reuters.

Em comunicado publicado pelo comitê organizador da Bienal, Yoani é classificada como "uma 'dissidente' profissional fabricada pelo poderoso grupo midiático Prisa" e a colocou "a serviço da máquina de propaganda anticubana".

Não é a primeira vez que Yoani e o Governo de Cuba entram em conflito: a blogueira responsável pelo Generación Y, considerado o melhor blog do mundo em 2008 pelo The Bobs, já foi impedida de sair da ilha para receber um prêmio do jornal espanhol El País.

O Generación Y também é bloqueado para os cubanos, o que obriga a blogueira a mandar seus textos para colaboradores por e-mail, que os publicam na ferramenta de blog.

Em seu discurso, Yoani também afirmou que é hora de "pular o muro de controle" imposto pela administração da ilha ao acesso à internet, já classificada por um ministro como "um potro selvagem" que "deve ser controlado".""
- IDG Now, 01 de abril de 2009 às 19h02. Atualizada em 01 de abril de 2009 às 19h37.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Em Pemba um repórter a favor da natureza...

Consciência ecológica nos dias de hoje é tudo. A intranquilidade e preocupação com o futuro de nossos filhos e netos sossegam um pouco quando lemos algo como o que transcrevo abaixo, mais ainda quando provém da distante e quase escondida mas sempre bela Pemba, em Cabo Delgado, lá no norte do país Moçambique... Mas não se iludam os "jovens" da Pemba de hoje: Os recursos do meio ambiente, a vida silvestre e marinha correm perigo com os desmandos do ser humano, deseducado, em crescimento constante, descontrolado invadindo e agredindo o planeta em sua pureza natural. E desaparecerão com a continuidade do aquecimento global, que passa pelo desmatamento, cruza com o lixo e esgoto lançados nas ruas, rios e mares, abrange o abate criminoso e indescriminado dos animais da selva e culmina com a caça e pesca predatórias, sem regras. Pescar em excesso, sem norma ou equílibrio é crime, irresponsabilidade e também causará danos irreparáveis ao planeta e por consequência ao ser humano, afinal primeiro e principal causador de todos os males que afligem a natureza e seus habitantes naturais. Pemba/Cabo Delgado e seu povo têm palavra e muitas atitudes a exercer neste tópico!
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""Cabo Delgado : Como pescar sem destruir? - Todos os dias, pela manhã, temos sempre quem bata à porta para nos sugerir: patrão, o de hoje é muito bom! Ao meio dia temos ainda muitos indivíduos com feixes de peixe, mais uma vez molhado, para parecer que acaba de sair da água. Nuns casos é verdade, noutros não, mas quase sempre temos peixe a ser vendido pelos bairros da cidade de Pemba, a preços altíssimos, razão por que há pessoas que mandam vir de Nampula o peixe do mar que consomem em Pemba. É preferível!

Nas estradas das marginais, canoas sempre a ancorar, logo imediatamente assediados, pelos compradores da primeira mão, na verdade, aqueles que depois chamamo-lhes pescadores quando se fazem aos bairros residenciais da cidade, na verdade, os responsáveis pelo encarecimento do preço do peixe em Pemba, se bem que os pescadores propriamente ditos terminam na costa e regressam à sua faina. Pescador fica aquele que o vende (intermediário) e não o que pescou.

Ao mesmo tempo que somos dados a ver, agora raramente, peixe graúdo, do grupo de marlin, cherewa, serra e outros, somos confrontados com muitas caixas plásticas de peixe miúdo, que a língua popular deu o nome de malhação. A pergunta comum é se é pequeno porque é o seu tamanho normal ou porque foi pescado enquanto miúdo. Ou seja, a rede que foi usada para a sua captura é ou não permitida, conveniente?

Frente aos escritórios do Instuituto de Desenvolvimento de Pesca de Pequena Escala (IDPPE), mais precisamente defronte do Tribunal Judicial da Cidade de Pemba, em todas as manhãs, há um grupo de homens a arrastar uma rede a partir de muito longe do interior do mar, trazendo consigo tudo o que pelo caminho encontra, incluindo, quiçá o peixe que não deveria ser pescado.

O nosso jornal contactou entendidos na matéria com o fito de encontrar uma resposta, de alguma forma firme, sobre se estamos no bom caminho ou não, a esta velocidade já tradicional, tendo em conta que os dados nos indicam o crescimento da população, sem sabermos, todavia, o que se passa com os cardumes. Trata-se duma tentativa de nos imiscuir no assunto que de algum tempo para cá tem sido debatido, mas em surdina, ou seja, é assim que devemos continuar a explorar o peixe que temos na Baía de Pemba e, em Cabo Delgado , em geral?

Em 1929, segundo dados na nossa posse, havia em Pemba 18.500 habitantes, número que subiu, sucessivamente, para 41.306, em 1971, 80 mil em 1991 e actualmente falamos em pouco mais de 100.000 habitantes. Em 1987 havia 200 pescadores, na sua maioria utilizando a rudimentar casquinha, mas acontece que com o aumento populacional a procura do pescado, proporcionalmente aumentou, e, consequentemente, a pesca.

Os Serviços Provinciais de Pesca não respondem claramente à nossa questão, mas fornecem dados que indicam a evolução. Dizem que a província não tendo a produção comercial (entendida como semi-industrial e industrial) ela circunscreve-se na pesca artesanal, que em 2008 registou uma produção fixada em 9.123,90 toneladas de pescado, o que representou uma realização de 226,91 por cento e um crescimento, quando comparado com o período análogo do ano transacto, de 72,41 por cento, pois havia sido produzidas 5.292,10 toneladas.

Estamos perante dados que se referem a uma informação estatística considerada relativamente melhorada, perante aquilo que é visto como adopção de tecnologias melhoradas de pesca e de melhoria do acesso ao crédito para a actividade. Em todos os sete distritos costeiros da província, Palma, Mocímboa da Praia, Macomia, Quissanga, Ibo, Pemba-Metuge e Mecúfi, contam-se 109 projectos que beneficiam a 288 mutuários e o quadro de produção nos sugere uma cada vez maior gula na captura de lagosta, camarão, lulas e chocos, com uma taxa de crescimento na ordem de 509,76 por cento, 449,22 poor cento e 345,98 por cento, respectivamente.

Do mesmo modo, quando quisermos verificar a produção, por exemplo, de camarão, nos últimos três anos, temos uma ascensão de 54,7 toneladas, em 2006 para 315,80 toneladas no ano passado, no mesmo periodo em que a procura pelo caranguejo baixou drasticamente. Neste periodo saiu-se duma produção de 22,8 toneladas para actualmente quedar nos 17,60 toneladas.

Mas postos perante o alarido de indole ambientalista cada vez mais insistente contra a maneira como está a ser explorada a Baía de Pemba, com rede depradadora, intensivamente e todos os dias, o que, segundo defendem tais vozes, destrói a maternidade do pescado, o que parece estar contra a lei, que proíbe pescar com rede de cerco em baías e estuários por embarcações industriais, semi-industriais e artesanais, estas últimas quando têm um convês fechado e motorização interna para a propulsão, os serviços de pescas dizem:

“É preciso clarificar que na Baía de Pemba não operam embarcações de pesca semi-industrial, industrial e de pesca artesanal com convês fechado e motor interno. Talvez o problema seja do elevado esforço de pesca que é exercido por um número significativo de embarcações artesanais (algumas com motores fora de bordo) com o emprego de técnicas e artes nocivas para os recursos pesqueiros e ao ambiente marinho, em geral”.

O sector de pescas em Cabo Delgado, como que a tentar contornar essa probabilidade, tem se desdobrado na promoção dum conselho comunitário de pescas, virado para contribuir na gestão participativa das pescarias, garantir o cumprimento das medidas de gestão, gerir os conflitos resultantes da actividade da pesca, tendo em vista, sobretudo a sustentatibilidade das actividades na sua respectiva área geográfica e a melhoria das condições de vida da população.

Os Serviços de Pescas entendem que são necessários esforços complementares visando a promoção da piscicultura nos distritos, como tem acontecido em Mueda, Muidumbe, Quissanga, Montepuez, Balama e Namuno, onde já foram construídos e povoados 51 tanques, o que se pensa poder não só travar a presssão sobre os recursos marinhos, como tornarão a dieta das populações ainda mais rica.

Domingos Correia, que nega ser entendido na matéria, mas defensor da exploração sustentável dos recursos marinhos, crê que o esforço de pesca centrou-se nos últimos anos na Baía de Pemba e arredores e segundo lhe parece, a falta de fiscalização ou informação fazem com que o local, que ele considera verdadeira maternidade, reservatório de várias espécies, esteja a ser devastado, com elevados efeitos nefastos na manutenção dos cardumes, pela pesca intensiva utilizando a “rede do cerco”.

Ele explica que a Lei das Pescas em vigor, desde 10 de Dezembro de 2003, Decreto 43/03, proíbe o uso da arte “rede de cerco” por embarcações industriais, semi-industriais e artesanais, quando tenham convês fechado e motorização interna para propulsão. Os serviços de pesca negam a existência desse aparato para a pesca na Baía de Pemba, em particular.

Pelas mesmas razões (defesa de espécies) e segundo Domingos Correia, o artigo 101 determina que as mesmas embarcações não devem pescar a profundidades inferiores a 20 metros.

“Acontece que na Baía de Pemba, segundo cartografia do Ministério de Defesa Nacional, os fundos médios são inferiores a 20 metros, e muito antes, conforme a cartografia inglesa de 1939, já se falava em fundos médios inferiores a 15 metros” explica aquele defensor do ambiente marinho, residente há muitos anos na cidade de Pemba.

Sendo assim, conforme a fonte, há que concluir tristemente que com a rede depradadora pesca-se todos os dias, de forma intensiva e em local errado, sendo que não se apresenta nenhuma alternativa nos tempos que correm que não seja, a curto prazo pescar com artes selectivas, e em outros locais.

Albino Magona, delegado do Instituto de Desenvolvimento de Pesca de Pequena Escala, foi citado pela Rádio Moçambique há três semanas a dizer que a “situação é preocupante, mas há acções concertadas e multiformes visando inverter o fenómeno”.

Paralelamente, o IDPPE intervém em toda a província para a obtenção de estatísticas de base, através de censos da pesca artesanal, informação sobre mercados, a introdução de tecnologia pesqueira, desenvolvimento social, infra-estruturas, rede comercial e serviços, entre outros.

Com base nos dados reunidos por esta instituição, o nosso jornal soube que, pelo menos em relação a 2007, em Cabo Delgado, havia 197 centros de pesca, divididos em 3.476 aldeias ou bairros associados, envolvendo 4439 embarcações, 4764 artes de pesca, para atender a 14.261 pescadores.

Há, por outro lado, a necessidade de estabelecimento de infra-estruturas sociais e de apoio que o IDPPE considera de um impacto positivo na qualidade de vida das comunidades, contribuindo para o aumento do acesso aos serviços básicos, como água e proporcionando mais tempo para actividades produtivas, como a pesca. Por outro lado, as vias de acesso facilitam o escoamento dos produtos e o aprovisionamento dos insumos de pesca.

Em Montepuez, distrito interior, foi construido um mercado para a venda de produtos pesqueiros, composto por um alpendre com 33 bancas, um armazém e dois sanitários, que se pensa venha a ser acoplada uma fábrica de gelo e uma câmara frigorífica no ano em curso.

Por outro lado, centros de desembarque vão ser construídos em pelo menos cinco distritos costeiros, constituídos por uma rampa para a acostagem de embarcações, um alpendre com bancas para a realização da primeira venda, uma fábrica de gelo e uma câmara frigorífica.

“O objectivo é que o pescador realize a primeira venda do pescado em condições higiénico-sanitárias apropriadas”, conforme defende Albino Magona.

O nosso jornal soube que tal poderá acontecer nos distritos de Palma, nos postos administrativos de Quionga, Olumbi e na sede distrital. Em Mocímboa da Praia estará instalado apenas na sede, mas em Macomia teremos em Pangane e Ingoane, posto administrativo de Mucojo, enquanto que no distrito de Quissanga estará instalada na respectiva praia e na cidade de Pemba, no bairro de Paquitequete.

O QUE DIZ A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA?
Contatamos a delegação do recentemente instalado Instituto de Investigação Pesqueira (IIP), na pessoa do seu delegado, Pedro Pires, ainda à procura da reposta em relação à questão colocada: será que estamos a pescar de forma sustentável?

Este instituto, segundo fomos informados, realiza a monitoria das pescarias, através do seu sistema nacional de amostragem da pesca artesanal, desde meados de 2005.

Entretanto, conforme Pires, da amostragem realizada um pouco por toda a província de Cabo Delgado, nota-se e confirma-se o aparecimento de espécies de tamanho reduzido.

“Contudo, é prematuro afirmarmos que a actividade pesqueira na baía de Pemba, por exemplo, está a destruir a maternidade do pescado. Por outro lado, de acordo com os resultados da monitoria de pesca artesenal, verifica-se que na Baía a arte mais utilizada é a pesca à linha, que sendo selectiva pensamos que não há sobrexploração de espécies de tamanho menor”, palavras de Pedro Pires, delegado do Instituto de Investigação Pesqueira, que funciona junto ao Centro de Pesquisa Ambiental em Pemba.
- Pedro Nacuo, Maputo, Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, Notícias.