terça-feira, 5 de abril de 2005

Uma viagem na OCAPA...


Transferindo "post" do ForEver Pemba 3:

"Moçambique - Cabo Delgado - anos sessenta - Glória de Sant'Anna
A noite está tranquila de mar manso que sussura. O silêncio instalou-se no trinar dos insectos. Tudo se prepara para o sono deslizante e indefeso.
O anúncio chega inesperado. Há feridos junto do Rovuma, o rio fronteira ao norte. Das transmissões pede-se incessantemente um avião da OCAPA (1). E a torre de controle do aeroporto, que se ergue pintada de muito feio a substituir já de cimento a antiga palhota do Alto Jingone, a torre mantém-se em "stand by".
A organização de carreiras aéreas tem a finalidade de manter rotas diárias de transporte de passageiros, bagagem e correio em todo o Cabo Delgado. E faz implicitamente a aproximação de populações isoladas no tempo das chuvas quando as estradas se tornam quase ribeiras ou passadeiras de matope. Quando toda a baixa do rio M 'salo se alaga e o batelão preso por cordas é uma jangada inútil.
Há pequenos campos de aviação e o cuidado de os manter operacionais.
Porém a OCAPA não foge a pôr no ar o transporte indicado para casos urgentes.
Mas qual dos pilotos acede a ir a esta hora pelo escuro a dentro até à zona referida ?
Qualquer deles o fará. E vai o que é solteiro (2) que espontaneamente se oferece. É um excelente piloto e a camaradagem na orgânica da empresa é verdadeira.
A noite desdobra-se morna, preguiçosa, de uma beleza intensa e insensível.
Os apelos mantêm-se a um ritmo angustiado. Estão dadas as cordenadas do lugar. Não há grande extensão de campo aberto. Há árvores. O piloto não conhece o terreno.
O avião está na pista. Descola. O plioto pede o máximo de faróis, lampiões, luzes que iluminem o local e incidam na margem do Rovuma, no limite da água.
Mantém-se constante o contato pela rádio: frases breves. Interrupções. Perguntas.
O tempo toma uma pesadíssima e incalculável medida.
E do meio da noite o aviso: "É aqui. Vou aterrar. Seja o que Deus quiser."
.. ..
Pela madrugada é o regresso. A ambulância espera.
Todos estão cansados.
Cansados os que intervieram neste voo cego.
Cansados os que todos os dias ao nascer do sol olham o fio branco do horizonte e com raiva ou amargura mas sem palavras, votam ao fim da guerra.
=============
(1) - Organização de carreiras Aéreas de Porto Amélia, empreendimento pioneiro da iniciativa do Arquitecto Andrade Paes. Operava com dois monomotores e um bimotor "mininor". Fazia também intercâmbio com os aviões bimotor da empresa de Mr. Lebret (das Ilhas Comores), para promoção do turismo en tre Moçambique e essas Ilhas.
(2) - José Quental - ex piloto da Força Aerea Portuguesa.

(In Ao Ritmo da Memória - recolha de algumas crónicas publicadas no jornal Letras & Letras do Porto)

Posted by Hello

Nenhum comentário: