domingo, 28 de junho de 2015

SAUDADE AFRICANA - Manuel Coutinho Nogueira Borges

EM MEMÓRIA DE UM AMIGO QUE PARTIU HÁ 3 ANOS
Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Portugal. Faleceu em 27 de Junho de 2012. Extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória":
Onde está a África da minha saudade que conheci quando ainda não sabia que o futuro nunca é o que sonhamos?

África tão longe e tão longa que a recordação parece não ter contornos e o tempo passado permanece em cada dia que a mágoa nos aleija a alma. Acarto comigo um fardo de angústia que me isola no meio de muita gente, aquela solidão feita da repugnância do que se ouve e vê, da ingratidão que não se merece, da violência dos gestos e das palavras, da profanização sacralizada como se, na vida, só valesse o exponencial de todas as manhas.

É na invocação africana que se me diluem a podridão envolvente, a incapacidade da rotina, os olhares mal encarados, a indiferença das bocas fechadas.

Onde está a África dos meus clamores, das lágrimas escondidas nas sombras das noites de escuta?

África da surpresa por amigos esventrados, estendidos nas caixas dum Unimog ou de uma Berliet, e eu, com o seu fio de ouro nas mãos, sem articular uma frase, garganta presa pela afonia, estômago à beira do vómito, a fugir de ver o sangue e os rostos desfigurados, e os camuflados cheios do esterco da morte inglória, e as botas furadas pelos restos do chumbo, e o cérebro tomado por agulhas a picarem-me por todo o lado, por tudo que é corpo e consciência, e a olhar em meu redor sem uma luz na noite a ensinar-me o caminho, sem um som no fim da terra vermelha para me provocar o andar, sem (meu Deus!) uma esperança de que os mortos inocentes pudessem renascer para o meu convívio.

Onde está a África das cantinas no esconso da selva, das trovoadas e das chuvas apanhando-me nos descampados da savana, das queimadas fantasmagóricas nas noites despertas, perscrutando as curvas e os trilhos da traição, dos luares arrebatadores contemplados por entre os mosquiteiros já gastos pelo uso de muitos rostos, os uivos das hienas, atordoadas pelo cio e pela fome, arrepiando-me todo, acelerando o coração, alagando-me de suor, puxando a G-3, aconchegando o caqui, retesando os nervos com o dedo no gatilho?

Onde está a África das manhãs de maresia nas praias de todas as bandeiras azuis, sem ventos nem garrafões ou ossos de frango nas areias; praias tão quentes e tão finas que até parecia que um homem as pisava pela primeira vez, as suas águas tinham lábios de espuma que nos beijavam sempre em ternuras sem fim, corais como conchas vivas de um sonho irrepetível; palmares enormes como naves de catedrais góticas por onde o sol entrava, coado pelos vitrais da folhagem tão fresca, resplandecente e pura como a virgindade de uma criança?

Onde está a África das presunções fardadas, das madrinhas de guerra, das filmagens da Televisão com «um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de propriedades», dos dias de São Vapor com cubas libres e «quem me dera regressar no Pátria!», dos calendários de mulatas nuas repletos de cruzes nos dias já passados, da obrigação de atravessar rios em almadias à procura de esconderijos de armas em ilhas paradisíacas, dos Postos Administrativos onde os sipaios nos deitavam sorrisos pepsodentes, dos funerais com danças de despedida e dos bifes de antílope a enfartaram barrigas vazias de tanta ração de combate?

Onde está a África das noites estreladas num céu tão belo e tão esmagador que dava vontade de ter asas para voar para a lua redonda como uma bola de cristal; noites de ritmos endiabrados, sensuais e espasmódicos, que o sangue fervia nas veias e rejubilava nas têmporas?

Quando o dia clareava e o fogo redondo subia na terra, um feitiço nos ludibriava com a ilusão de paz na vastidão da selva.
- Porto, *M. Nogueira Borges - do livro "Lagar da Memória".
  • Outros textos de Manuel Coutinho Nogueira Borges neste blogue!
*Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua - Portugal. Faleceu em 27 de Junho de 2012. Extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória". Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". 

terça-feira, 2 de junho de 2015

POESIA E SAUDADE - GLÓRIA DE SANT'ANNA PARTIU HÁ SEIS ANOS

No aniversário de falecimento de GLÓRIA DE SANT'ANNA - Escrito há 6 anos no Bar da Tininha - ""Partiu esta madrugada (02/06/2009) nossa Querida Professora, Amiga e Poetisa, Glória de Sant'Anna. 

A notícia veio até mim por simples texto: 

"... É com profunda dor, que te venho anunciar o falecimento da nossa Mãe. 
Morreu às 4 horas da madrugada do dia de hoje..." 

Não é fácil falar ou comentar quando o coração fica amargurado com mais esta passagem da vida que envolve e atinge um ser humano de valor sentimental imensurável para muitos de nós que aprendemos a caminhar na vida amparados pela força e ensinamentos recebidos de suas delicadas mãos, sempre dadas às nossas, desde os tempos da infância. 

Só consigo dizer que jamais esquecerei seu olhar terno, suave, sua voz tranquila, meiga mas firme e de palavras inteligentes, doces, sempre doces, repletas de poesia e sabedoria... 

Jamais deixarei de a considerar minha Querida Professora, quase uma segunda Mãe... 

Jamais deixarei de a considerar a minha Querida e Eterna Poetisa do Mar Azul de Pemba... 

E é com lágrimas nos olhos, com imensa tristeza, com uma tremenda saudade sem fim, que, aqui longe, a revejo no meu imaginário no meu último abraço, no meu último adeus terreno, ciente que a reencontrarei em meus sonhos e na poesia de todos os entardeceres que aprendi a descobrir na beleza de seus versos e na generosidade emanada de seu coração de poetisa, professora e Mãe. 
- J. L. Gabão, 02 de Junho de 2009.
Homenagem à poetisa Glória de Sant’Anna
Jornal JOÃO SEMANA (1/6/2010)
TEXTO: Pinto Soares
""""... ... ... 
Jaime Ferraz Gabão, em homenagem justíssima, escreveu, para a sua rubrica “Postal da Régua”, um artigo sobre a figura e a obra da consagrada poetisa Glória de Sant’Anna – trabalho que veio a lume, nestas páginas, na edição de 23/2/1990.

Nele afirma o estimado colega (trabalhámos, durante anos, no mesmo Jornal) e prezado Amigo (de longa data), que o signatário conheceu, muito bem, em terras de África, mais concretamente em Moçambique, essa extraordinária mulher que era, no Índico, uma das figuras representativas do florescente meio literário: com nome feito e prestígio invejável, conquistado mercê de uma obra que continua a ressumar a qualidade de outrora.

Nunca ninguém pôs em dúvida as qualidades excepcionais, nem a cultura de tão destacada princesa, que se distinguia, sobretudo na poesia – uma poesia fresca, luminosa, com substância e mensagem, recriadora –, também, frequentemente, repertório das suas vivências e daquilo que, atenta, circunvagando o olhar, presenciava e retinha, emprestando-lhe a elegância do seu verbo, não descurando o pormenor nem, tão-pouco, o cromatismo.

Segui, de perto, a trajectória de Glória de Sant’Anna, não pude trazer os seus livros – com pesar – ,li as críticas, sempre favoráveis, que lhe eram tecidas, a colaboração que oferecia a publicações diversas, e, mantive, em Nampula, um afável relacionamento com o seu marido, Andrade Paes, arquitecto, piloto de aviões, sabedor e corajoso, amigo de Carvalho Durão, do Catoja & Saldanha, firma sita na rua fronteira à Delegação do “Diário de Moçambique”, que eu chefiava, em instalações alugadas por Manuel Justino Sargento, “O Napoleão de Macuana”, segundo o juiz Paiva.

Glória de Sant’Anna deslocava-se com frequência de Porto Amélia a Nampula, sendo natural que, volvidos anos de tanto sofrimento para quem amava África e em particular aos habitantes de Pemba tanto se dedicou sem restrições de alma e coração, haja esquecido o cabouqueiro que um dia, afrontando o poder, se apresentou a sufrágio sem outros apoios do que aqueles que nunca lhe faltaram da parte do povo simples, mais tarde envenenado na sua candura e vítima de credulidade congénita, a macerá-lo numa guerra desumana e cruel, cujo termo ainda não se vislumbra.

Agradece, Glória de Sant’Anna, a divulgação, nestas páginas, da sua personalidade e da sua obra, graças ao dedicado empenho de Jaime Ferraz Gabão. Sentindo-nos honrados, auguramos que ela persista, enriquecendo as letras nacionais com o seu talento e forma especialíssima de versejar.

– “Não me recordo do seu nome. Muitos anos passaram…”

De Matosinhos para Válega, com ternura, “aquele abraço, a disponibilidade do JM e do seu Director – para Glória de Sant’Anna, um nome grande, respeitado, com lugar na literatura de Moçambique, nas antologias, no coração das suas gentes, na memória dos seus intelectuais.” """"

  • Sobre GLÓRIA DE SANT'ANNA neste blogue
  • Sobre GLÓRIA DE SANT'ANNA no Google
  • Sobre GLÓRIA DE SANT'ANNA na Wikipédia
  • Sobre GLÓRIA DE SANT'ANNA no FaceBook

quarta-feira, 29 de abril de 2015

José de Castro Cabral (Nikére) faleceu em 29 de Abril de 1969 em Lisboa com 72 anos

De origem fidalga, nasceu em 2 de Janeiro de 1897 (há 118 anos) na Freguesia de Paulistas em Lisboa José de Castro Cabral, mais conhecido na antiga Porto Amélia e todo o Cabo Delgado por Administrador José de Castro ou "Nikére".
(Em sua casa no palmar da praia da Inos)

Filho de José Augusto Coelho Leite Pereira de Castro e Maria Luisa de Castro Cabral Soares de Albergaria faleceu em 29 de Abril de 1969 também em Lisboa, com 72 anos.
Clique nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão (que teve o privilégio de o conhecer e com ele conviver pessoalmente na então Porto Amélia entre 1957/59) para o blogue "ForEver PEMBA". Fotos dos arquivos de Jaime Ferraz Rodrigues Gabão em Portugal. Faleceu em 29 de Abril de 1969Atualização em Janeiro, Abril, Agosto de 2013 e Abril de 2014.

sábado, 18 de abril de 2015

Faleceu o Padre Valente ! - Histórico de vida

E já se passaram 7 anos!
Histórico de vida do Padre Joaquim Antunes Lopes Valente, Professor e Amigo falecido no passado dia 18 deste mês no Lar de Santa Teresinha de Cucujães. 
.
O Padre Joaquim Antunes Lopes Valente nasceu em 30 de Outubro de 1926, no Louriçal do Campo, Concelho de Castelo Branco, Diocese da Guarda.
Entrou no Seminário das Missões de Tomar em 1940.
Fez a sua primeira Consagração Missionária em 15 de Setembro de 1950.
O último ano de Teologia foi passado como Prefeito e Professor em Tomar (1952-1953).
Foi ordenado sacerdote em 26 de Julho de 1953, no Seminário de Cucujães.
De 1953 a 1955 cursou Direito Canónico na Universidade Católica de Salamanca (Espanha).
Foi Director e Professor dos Teólogos e Vice‑Reitor de Cucujães.
Em 29 de Outubro de 1957 partiu para a recém‑criada Diocese de Porto Amélia (Pemba), no norte de Moçambique.
Foi Secretário da Diocese, Vigário Geral e Director do Colégio diocesano São Paulo. Foi um dos mais próximos colaboradores do primeiro Bispo da Diocese, D. José dos Santos Garcia.
Tomou parte nas Assembleias Gerais da Sociedade Missionária da Boa Nova em 1968 e 1974, 1986 e 1990.
Em Abril de 1975 regressou a Portugal.
Em Abril de 1977 parte para o Brasil, para a Paróquia de Alto Piquiri (Paraná, Brasil).
Pouco depois, toma posse da Paróquia de Sete Quedas (Mato Grosso do Sul).
Era uma paróquia nova onde teve de construir quase tudo: Igreja, casa paroquial, centro catequético. Dedicou-se muito à formação de Leigos e à evangelização pela rádio.
Além de Pároco, foi também Superior Regional dos nossos Missionários no sul do Brasil.
Colaborou com Tribunal eclesiástico do Mato Grosso do Sul.
Em Agosto de 2001, regressa a Portugal muito doente (diabetes e outras complicações). Restabeleceu-se no Louriçal do Campo em casa da sua irmã Mariana.
Os últimos anos foram passados no Seminário de Cernache e no nosso Lar de Santa Teresinha, onde acaba de falecer.
O Seminário das Missões de Cucujães promoveu as exéquias no dia 19 de Abril, às onze horas. Foram presididas por D. José dos Santos Garcia que, apesar dos seus 95 anos, veio de Aldeia do Souto. Agradeceu a Deus a vida deste colaborador com quem sempre podia contar como homem fiel e dedicado.
A celebração do Funeral foi no dia 20 de Abril em Louriçal do Campo, presidida pelo sr. Bispo da Guarda, D. Manuel Felício da Rocha.
Louvou a família do P. Joaquim Valente, uma família de padres e religiosas e a paixão do P. Joaquim pela Missão, que o levou a dedicar-se profundamente ao povo moçambicano e a recomeçar tudo no Brasil onde fez longo trabalho.
Participaram uma dúzia de padres, todo o povo do Louriçal e amigos de várias partes do país.
(P. M. N. - 22/04/08).

Em 18 de Abril de 2008 partiu o Padre VALENTE!

E já se passaram 7 anos!
A notícia chegou a minha cx. postal assim bem simples, resumida, dura:
  • Acabei de receber a notícia do falecimento do Sr.Padre Valente. Aconteceu hoje, 18.04.08, por volta das 18H30 em Cucujães, onde estava a residir há pouco tempo. O seu funeral vai realizar-se na sua terra natal - Louriçal do Campo, concelho de Castelo Branco - no próximo Domingo, 20.04.08, pelas 15 horas. E assim mais um amigo nos deixou. Que Deus lhe dê o eterno descanso. M. C.
O Padre Joaquim Antunes Lopes Valente marcou a vida de muitos de nós que vivenciamos a adolescência dos anos 60/70 na então Porto Amélia. Fundou e dirigiu nessa época, por decisão do Bispo de Porto Amélia D. José dos Santos Garcia (que reside na Aldeia do Souto - Guarda - Portugal com 95 anos de idade) o Colégio de São Paulo, pertencente à Diocese de Porto Amélia hoje Pemba. E espelhamos em nosso comportamento como adultos já maduros, onde quer que estejamos situados no nosso dia a dia, muito do que apreendemos nessa instituição pioneira em Cabo Delgado e do que o pulso firme do Padre Valente nos transmitia com sua personalidade um tanto rude, de poucos sorrisos mas constantemente generosa. É assim que o recordo e, em nossos convívios virtuais e reais, sua figura é citada com respeito, amizade. E agora o será mais ainda e com saudade ! Que descanse em paz e Abençoe lá do Alto seus "lapussos"!
O que diz um de seus ex-alunos do Colégio Liceal de São Paulo:
  • Morreu o homem que foi responsavel pelo funcionamento da primeira instituição de ensino secundario em Cabo Delgado. Eu, os alunos do Colégio Liceal de Sao Paulo e a cidade de Pemba devemos-lhe muito. Logo após a Independência de Mocambique veio revelar-se, que a obra do padre Joaquim Antunes Lopes Valente, o grande homem que hoje choramos, viria a contribuir significamente até mesmo para o implantação do novo país ao provedenciar quadros de alto nivel para a gestão e afirmação da jovem nação.
    Aproveito o ensejo para afirmar aqui o que vários colegas já me ouviram dizer muitas vezes: - Os dirigentes e altos funcionarios provenientes do nosso Colégio, fazem parte de um grupo, infelizmente não tao numeroso quanto desejariamos, de responsáveis íntegros deste jovem pais. Não vou mencioná-los porque além de competentes e honestos são também humildes. Quem sabe uma outra qualidade consolidada num Colegio tão competentemente dirigido pelo padre Valente.
    Tenho esperanca que outros com mais jeito para estas coisas ponham aqui nestas paginas claramente o quanto devemos a este grande missionario a quem Moçambique deve muito.
    Minha solidariedade para a familia enlutada. - C. M.