I
Quem atravessa o IP5 soma ao desconforto rodoviário a desolação das vistas: escarpas e outeiros, queimados pelo último incêndio, feitos cabeçorros amarelecidos com tranças de cinzas; sucatas dispersas transformadas em espantalhos cadaverosos; casas sem vida e desordenadas na solidão montureira com telhados desfeitos ou de janotismo importado; retalhos de fraco cultivo, desemparceirados numa fruição individualista de rendimentos minguados; florestas descuidadas, tentações de piromaníacos e pasto de ardores estivais; pedreiras a céu aberto emolduradas por entulhos; automóveis apodrecidos ao lado de oficinas esventradas; só as maias, as mimosas, as urzes e os córregos maninhos, como pérolas na feição, se salvam.
Ao avistar de Vilar Formoso, sobressaem, à direita de quem vai, as casinhas brancas que se foram ajustando conforme os negócios fronteiriços e a fixação dos que ali criaram raízes desde os tempos em que atravessar uma linha fronteiriça importava bons ganhos extras. Entra-se em Espanha mais facilmente do que numa portagem de autoestrada.
Fuentes de Onoro, com as suas casas de tijolo velho e as vendas de quinquilharias e caramelos, é um apeadeiro triste de filme a preto e branco. Até Salamanca, por uma estrada desafogada mas perigosa de tires a cruzarem-se, a vista consola-se por campos de interessado amanho, salpicados de árvores aparadas em desenhos de pássaros e ninhos de cegonha verdadeiros e outros a fazer de conta; rebanhos, à volta de charcos, segando pastagens numa calma que serena a pressa. Para trás, como um flash de viagem, ficam os bairros de casinhas geminadas pintados com cores frescas e as torres das Catedrais a assinalarem a reconquista cristã. Ciudad Rodrigo, de escurecidas muralhas graníticas e um Parador de luxo, é um intervalo nos altos e baixos dos descampados a estenderem-se na distância que beija a falda dos montes. Por perto, os choupos e os salgueiros não contêm os leitos das ribeiras, ampliados pelas chuvas de Abril; clubes e hostales manhosos esperam a freguesia da noite; os gumes paralelos da linha ferroviária rasgam a fertilidade da terra; animais bravos, gozo de redondéis, no lindo Vale de Carpinteros, ruminam a espera no meio da erva entre pocilgas e estufas junto de uma finca de um D. Paco qualquer; compridos braços metálicos de aparelhos de rega lembram aeroplanos à espera de voarem; perdido entre muros de restos de pedras que definem posses e de silos gigantes, guardiões de poupanças, um cemitério – numa oposição à susceptibilidade - é uma desolação mortal, mesmo que a proximidade de Sancti Espiritis lhe dê algum afago.
Por um castelo de nuvens ferrosas espreita um anúncio de sol primaveril que acentua os contornos da paisagem. Na ponte de Zamora há quem espie a correnteza do Douro e o entulho formado pelas levadas. Com a entrada na autovia de Castilla logo nos surge Tordesilhas, agora sem mundos para dividir. O Arquivo Geral de Simancas esconde segredos por desvendar. Palência repleta de vestígios mouriscos, Miranda del Duero em hiato de Inverno e Torquemada, com o seu fantasma fugido de Sevilha, passam-se na vertigem do correr.
Nas terras Del Cid, Burgos é um cogumelo arquitectónico em que a imponência da sua Catedral emerge numa convulsiva afirmação de Crença; a sua contemplação remorde um pecador e deve deliciar um santo. Pela autopista del Norte, desviando para Logrono, com a meta em Zaragoza, Pancorbo – quase uma mera representação toponímica – apanha-nos sob uma chuva diluviana, que, esmigalhando-se no asfalto, produz uma vaporização tão espessa que mais aparenta uma névoa de montanha. Um céu de chumbo antecipa a noite por volta dos medonhos Desfiladeros com os seus túneis, canais medulares na espessura orográfica.
As Comunidades de La Rioja e de Aragon demarcam regionalismos, mas unem-se na sua fúria patriótica quando a bandeira do Reino flutua ou o seu nome é caçoado. Ao atravessar estes espaços de uma Espanha profunda, orgulhosa e pleiteada, não podemos deixar de pensar como foi possível, durante três anos, este povo matar-se, cego por paixões ideológicas, cobaia, ao fim e ao cabo, de totalitarismos contrários. Se Primo de Rivera começou e Franco acabou, ninguém se livra do julgamento da História. Nada lhes ficaram a dever, na vingança e na morte, Largo Caballero ou Juan Negrin. Não sei sei foi por estas bandas, com as cordilheiras do Ebro a escurecerem as planuras, que andaram Emílio Mola ou Queipo de Llano a fuzilar sem dó nem piedade e se, em algum destes cimos, tombou Federico Burrel com a sua mauzer erguida; ou a Divisão Brunete chegou, por caminhos paralelos a este, às portas de Zaragoza onde estaciona na sua Academia General. Abarco, ao lusco-fusco, a largueza deste chão quase inóspito, com Sória plantada na raridade, uma capelinha erguida num penhasco em cumprimento de alguma promessa de Virgem ou de Santo. Surpreendo-me com o touro da Osborne, por analogia ao embuçado da Sandeman, e imagino o sangue aqui vertido.
Em Zaragoza, após centenas de quilómetros com ligeiras paragens para uns cortados de café fraco e umas sandes caseiras, é tempo de estender o corpo. Mesmo ao lado do Ebro, a desfilar louco sob as pontes, e César Augusto a nomear a avenida do estacionamento, a noite não tinha estrelas; as únicas certezas de luminosidade vinham das torres da Basílica de Nossa Senhora do Pilar a enfrentarem as truculências terrenas.
(Continua)