terça-feira, 4 de maio de 2010

Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Quem são os Makonde? - Parte 2

Do conhecimento das coisas belas nasce o desejo de as reproduzir...
A Arte Em Cabo Delgado - Máscara Maconde - Significado Litúrgico - As máscaras dos macondes traduzem muitos de seus anseios, usos, costumes tradições e também supertições. Os documentos estatuários da iniciação, tanto masculina como feminina, são de grande interesse etnográfico. É no povo Maconde que se encontra o melhor que a arte nativa Moçambicana pode apresentar neste aspecto. Se é certo que a obra retrata a imagem do sentir do artista, de tal modo que ambas se identificam tantas vezes como sendo a sua representação recíproca, com as máscaras litúrgicas nativas sucede outro tanto, visto ambas viverem essa simbiose mística. O artista só recebe a honrosa incumbência da manufatura das máscaras quando se julga e é julgado por todos em estado de pureza. O trabalho a que põe mãos é feito na clausura de sua oficina ou em lugar retirado, nunca sujeito à observação de quem quer que seja; resulta, assim sob o signo do máximo sigilo e segredo. Quando, dias depois, ultima as máscaras, eles e elas são um todo confundível, pois que o espírito representado na obra é o mesmo que se encontra na alma do artista. O mesmo elo os liga: a liturgia do culto. Não há duas máscaras iguais, nem mesmos padrões a caracteriza-las. Tanto as dimensões, como os motivos decorativos são sempre diferentes.

A sua configuração tanto pode ser dolicocéfala como braquicéfala. Cada máscara é pertença pessoal; não está sujeita a troca, venda ou cedência. Por morte, passa, como herança, aos sobrinhos uterinos.

Se já lhe não é atribuído o poder da virtude, ou julgado te-lo perdido em parte, a máscara é sepultada com ceromónias rituais. Ela compartilha nos atos que traduzem o contato do humano com o mundo dos mortos, e em outros quantos mais constituam ritos.

Entre os macondes há dois tipos de máscaras, representando, respectivamente, animais e homens (ou mulheres). As dos animais e dos homens destinam-se, geralmente, a criar climas artificiais de superstição, excitação colectiva e até pavor; têm o nome de “ lipico”. As máscaras que servem ás mulheres utilizam-se para as ceromónias de iniciação, danças, etc, e designam-se por “ natumbeiro”. São de madeira de uma só peça e cobrem toda a cabeça. Não permitem a visão, a não ser pela abertura da boca, para o que são feitas de maneira a ficarem bastante inclinadas para a retaguarda e a permitirem que os raios visuais passem por exata abertura. A posição da máscara faz levantar a cabeça, dando-lhe uma atitude de decisão e arrogância.

Como convêm aos intentos religiosos, sociais e folclóricos, é o passado que inspira o artista.

Nele todo o nativo encontra a fonte das suas energias físicas e espirituais. As feições escultóricas traduzem espíritos bons e maus, todos, porém, dignos de respeito e atenção. Veneração, nobreza, hilaridade, meditação, etc, tudo isso cabe nas várias expressões das máscaras, enriquecidas pela tatuagem, corte de cabelo, barba e outros motivos decorativos. As máscaras femininas distinguem-se por não serem terríficas e trazerem, em geral, adornos clânicos nas orelhas, nos lábios e no nariz; as suas expressões são suaves e dasanuviadas.
O conhecimento que temos da cirurgia plástica, corrente em muitos países, destinada não só a salvar acidentados ou mutilações ou cicatrizes terríveis, mas também com o fim de suprimir defeitos naturais ou reduzir as superfícies de peles ou carnes flácidas, leva-nos a encontrar explicação para a prática de certos povos nativos que se deixam tatuar ou mutilar em operações dolorosas, seguindo técnicas primitivíssimas.

A curiosidade parece satisfazer-se com analogia que, neste particular, os chamados povos cicatrizados e atrasados revelam.

Ora se nos nativos os desenhos caprichosos das tatuagens que incidem nos seios, peito, baixo ventre e coxas das mulheres podem pretender ter por fim realçar predicados femininos, o fato só por exceção é resultante de preocupações do embelezamento, pois a sua razão de ser baseia-se em valores muito mais complexos, se não transcendentes. Há verdadeiramente como que o mistério das tatuagens. Para o desvendar são necessárias observações e diligências aturadas.

Entre os nativos o conhecimento da vida obtém-se por um exame-prova que promove o adolescente à categoria de homem ou de mulher. É mais do que uma cerimônia, pois constitui um período de provação e promoção, considerado o mais importante da vida do nativo e que o leva da situação neutra, inclassificada, à de elemento da comunidade consciente e idónio. Só assim integrado, será mais uma peça pertencente ao corpo e espírito do clã.Trata-se de uma lei imutável que tem duração milenária, que ninguém discute e todos respeitam; que não pode ser profanada nem sequer pela inconfidência para com os estranhos da tribo e menos para com o europeu. Até mesmo entre si o assunto merece-lhes tal respeito que dele se abstêm de falar até ao momento necessário. O sacrifício da dor, e a sua aceitação, sem o menor gesto de protesto, promove-o à categoria de adulto. O ensinamento das dores é o preço de entrada para a sociedade. A recordação do sacrifício terá de perdurar, por isso é nas regiões mais sensíveis e dolorosas que há que suportar a operação.

A tatuagem, as mutilações e deformações associam-se ao ato de circuncisão, quando não tem lugar antes ou depois.

As cerimônias são antecedidas por provas de obediência, de coragem, de valor moral e físico. Mas todos estes aspectos deverão pertencer à mesma estrutura mística que anima e mantém sagrada a tradição. Trata-se de um padrão cultural, de iniciação nos mistérios da vida, que exige conhecimentos, os quais só podem firmar-se, segundo a ética nativa, pela renúncia, sacrifício, jejum, dor, etc. Daí as grandes manifestações festivas que têm lugar após a entrada na sociedade dos circuncidos.

Mas não é só na iniciação que se executam tatuagens e mutilações. Há graus sociais que exigem dos membros, que a elas pertencem, provas de sangue que servem a trazer presente aos olhares de todos, as insígnias desses cargos de privilégio. Assim acontece, por exemplo, aos grandes chefes tribais, e aos chefes menores. A par das tatuagens que recebem, aqueles chefes prestam também provas de resistência física e coragem moral. As credenciais são assim obtidas , delas fazendo parte igualmente, certos objetos, como a lança de autoridade, a catana, o bastão, etc.

Também para artífices ou cargos especializados se usa, por vezes, para os identificar, a tatuagem, bem como para os que se convertem aos islamismo, apostatando da lei consuetudinária. A configuração esquemática das tauagens varia, em geral, segundo o sexo e a parte do corpo onde incide. Obtém-se por picada ou pontuagem, escarificação, feitas por maio de agulhas, estiletes ou ganchos, empregando-se substâncias cáusticas e matérias corantes, à mistura com cinza, que serve, simultaneamente, para obter altos e baixos relevos, dar cor e desinfectar. O fogo é o agente geral que facilita e purifica a operação.

As tatuagens podem ser feitas em fases sucessivas, nomeadamente quando constituem revelação de identidade dos graus da escala social a que os operados são arvorados.

Os desenhos representam figuras geométricas de retângulos, losangos ou quadrados, curvas, retas, aspectos remiformes, cículos, cruzes, espinhas de peixe, etc.. As figurações naturalistas esquematizadas e estilizadas das tatuagens são exclusivas do povo maconde.

O Lagarto e o Crocodilo figuram entre os animais estilizados nelas representadas. Motivos mágicos como o do sardão, combinam-se, em valores decorativos, com os traçados geométricos já mencionados. A par de ornatos de fantasia há símbolos de fertilidade ou de procriação. Palmeiras estilizadas, molhos de mandioca, etc, ganham aspecto de valor artístico em numerosas tatuagens.
A máscara é um produto resultante do espírito tradicional e religioso do nativo. Com o rosto velado por ela, volta-se virtualmete, para o mundo dos antepassados, mundo de respeito e de virtudes, que se chama o mundo das sombras. Então a alegria irrompe dos corações dos presentes e as mais belas exteriorizações da dança e do canto têm lugar para grande satisfação dos sentidos. O bailarino maconde é a figura principal do Mapico. A máscara de madeira cobre-lhe a cabeça. Uma indumentária estranha, imprecisa, sempre diferente veste-lhe o corpo. Ela constitui o seu melhor atavio. As pernas são tapadas pór mais uma cobertura, assemelhando-se a meias, desde os pés até à coxa. Guizos suspensos ajudam, pelo som, a marcar melhor o ritmo. Em cada “Mapico” há vários dançarinos que ora dançam isolados, ora em conjunto. Os cantadores têm também a sua oportunidade de exibir-se e são numerosos entre os rapazes e os homens. Os chifres dos animais, longos e recurvados, servem de instrumento musical para o “Mapico”. Também se utilizam para outros fins de natureza utilitária, nomeadamente para transmissão de mensagens a distância. A sua presença nas danças e cantares como tubas, tem interesse decorativo e suscita apreço na assistência feminina. Para o “Mapico” não há necessidade de grandes preparativos. Todos são comparticipantes, com exceção, em geral, das mulheres. Deste modo, o passatempo distrai rapazes e homens. A mulher e a adolescente são espectadoras contemplativas, que não obstante, se deleitem com as habilidades artísticas dos homens. Durante a sessão há mudanças de papel. Os músicos passam a dançarinos, os dançarinos a cantores, etc.
A arte as estatuária maconde abre perspectivas de compreensão, entendimento e percepção geral a todo o povo do planalto. A mácara tem o seu significado sagrado, é só para os escolhidos do clã. Com ela não se brinca. A sua presença nos “mapicos” não constitui símbolo decorativo ou de entretenimento. Pelo contrário, a pequena estátua de ébano, pau rosa ou madeira branca ou vermelha, que sai das mãos do artista, essa é simples motivo de exteriorização do seu apreço e predileção por usos, costumes, de expressivas demonstrações de agrado e prazer material ou espiritual. Nasce do povo e ao povo se destina. Não é uma alfaia litúrgica, não reproduz o respeito e o culto dos mortos, não faz parte desse mundo implacável, místico, castigador ou dadivoso, mas sempre considerado secreto.

A estatueta é antes uma expressão de humanidade, de harmonia e de beleza formal.

O curandeiro, o mago, o adivinho são ali representados ao mesmo nível das coisas populares, como o homem a tomar café, ou a mulher que é representada a fumar cachimbo, a farinar cereais, a transportar água, a cozinhar, ou o animal em atitudes peculiares, sempre belas, isolado ou com seus filhotes.

Todos os motivos são tratados como espírito artístico, onde a perfeição e a beleza são predicados indespensáveis, indiferente ao julgamento do europeu, ou de outro povo nativo, só exigente consigo mesmo. Há uma determinate estético-erótica quando realça os dotes femininos, mas tal concepção não coloca em segundo lugar o valor da mulher como mãe e elemento indespensável na ordem e economia do lar.

A estilização faz parte do seu labor artístico, sem deformar ou tornar menos real as fihuras, antes lhes dando um todo belo, mais harmônico e sensíve, sem atingir a sobrenaturalidade ou o irrealismo.
BAILADO GUERREIRO

Gestos que parecem descoordenados, não obstante retratarem com fidelidade os movimentos febrilmente ritmados, aparentemente desconexos das danças macondes, que têm lugar durante os mapicos junto das sanzalas. Movimentos verdadeiramente musicais pela perfeita correspondência com os sons da orquesta.Quase pode afirmar-se que não há notas misicais, sem igual correspondência de gestos, desde os mais suaves, ondulantes, menos perceptíveis, os mais rápidos, lançados ou salteados.

Os braços desenham no ar sucessivas linhas quebradas, correspondentes às partes compreendidas entre as articulações do ombro, cotovelo e pulso. Parecem escrever e marcar compassos musicais. As esculturas são ricas na representação destes movimentos de dança de que as nossas, as modernas, são, muitas vezes, apagada ou esbatida cópia.
(Clique nas imagens acima para ampliar)

Fontes:
A arte em Moçambique - Alberto F. M. Pereira - 1966
Os Macondes de Moçambique - Jorge Dias
In - "Moçambique Arquivo Vivo" - grupo do MSN
Colaboração de Armando Silva - Cascais/Lisboa - Portugal

(Transferência de arquivos do sitio "Pemba" que será desativado em breve)

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