12/11/08

Ronda pela net: Retrato - Eleições e turismo em Moçambique.

Li hà momentos no "mielamundi" em post "Chroniques du Mozambique" que tento reproduzir em língua portuguesa:

AS ELEIÇÕES:
Moçambique centrou a atenção nas eleições municipais acontecidas no final do mês. Propaganda, T-shirts, loincloths, bandeiras e cartazes distribuídos nas ruas. A disputa foi jogada entre a Frelimo e a Renamo. O jogo aconteceu entre o partido que levou o país à falência após a independência, ao querer implementar uma política social radical (Frelimo) e o partido revolucionário que tem destruído estradas, escolas, pontes, hospitais, etc. e mergulhou o país em 17 anos de guerra civil (Renamo)...

Cada uma das partes tem a sua quota de apoiantes. Deve ser dito que a Frelimo oferece tanque cheio de gasolina para todos os automobilistas e motociclistas que desejem pendurar uma bandeira em seu carro ou motorizada e patrocinou comícios por todo o lado com música africana oferecida por artistas da moda e com as mulheres a cantar e dançar em uma campanha politizada. Como você diria? É compra de voto ????.... Na campanha de sons e de cores a Frelimo, pareceu levar a melhor... Talvez porque é o partido dominante...

POLICIA:
O policial no meio da estrada, na sua bela camisa branca também é estressante para motoristas e turistas como nós...

A regra de ouro é sorrir e sempre ter à mão um pedaço de goma de mascar, um cigarro, uma caneta para oferecer como cortesia... Muito cansativo... Mas às vezes pode calhar-lhe um policial que toma vitaminas... Desta vez ele nos fez estacionar ao lado. E decidiu ser rigoroso na inspecção do veículo. Testa tudo... o pisca da direita, o da esquerda, faróis, pára-brisas... tudo funciona, nada a argumentar. Mas o mais divertido foi o seu zelo enquanto a dois metros tínhamos um parque de autocarros apinhados de público, sem pára-brisas da frente ou da retaguarda e luzes, sem parafusos, faróis e pisca-pica pendurados por um fio ao longo da "carrosserie"...

POVO:
Em Moçambique contato humano é algo especial. Antes de você dizer "Olá", já lhe é pedido dinheiro. Pequeno, grande, jovem ou velho é sempre direto ao dizer "dar-me 100 balles". Se você precisa de ajuda você tem de comprá-la... O que faz com que você entenda que, para além do preço acordado, uma gratificação suplementar será bem-vinda.... Só as mulheres nunca pedem nada... Elas não têm o tempo...!

Felizmente a atmosfera é cordial e quando tentamos explicar em nosso Português com sotaque que o dinheiro não cai do céu e da necessidade de se trabalhar com sacrifício para o conseguir, riem na nossa cara... Fecham a mão do "patrao"(significando avareza) e desejam "boa viagem."....

O roubo parece ser um esporte nacional... desde a base até ao alto da pirâmide vêm a corrupção, roubo, fraude, que são praticadas com impunidade. O administrador da cidade expropria dos seus cidadãos para apoderar-se gratuitamente das melhores terras,... o empresário retém os salários dos funcionários mais de 6 meses para ter capital e fazer negócios com carros do Dubai, os enfermeiros roubam drogas nos hospitais... Porquê ficará mal então roubar algumas telhas do telhado do vizinho para consertar o seu?...

AS FANTASIAS DE UM VIAJANTE PERANTE A REALIDADE:
A viagem começa no sofá da casa, com uma bela fotografia ou um livro/guia de viagens em suas mãos.
Os editores e programas de TV sabem como"vender" o sonho...
Imaginamos, projetamos, construímos um "mundo"...
E é assim que forjamos uma imagem de Moçambique: um diamante bruto a ser descoberto... praias paradisiacas, gente verdadeira.
E partimos... Mais de 15 dias por estradas de Moçambique. Desde as margens do Lago Niassa até ao arquipélago Quirimbas, litoral norte. Esperamos 15 dias antes de encontrar água corrente (e, portanto, um chuveiro) e 18 dias antes de conseguir água quente. Em 2/3 do norte do país, não há quase nenhuma infra-estrutura para turistas.... Mas o país é imenso, difícil de percorrer autónomamente, de áreas "de interesse" ainda muito pouco desenvolvidas. Uma ilha "Património Mundial" em ruínas, praias onde o lixo permanece e o viajante, após tanto esforço e cansaço em horas de carro ou em transportes públicos, depara-se com praias onde todos defecam de manhã até à noite. E é assediado em cada paragem por aqueles que procuram dinheiro, doces, etç...

Moçambique está longe de ter o brilho que vendem como "paraíso". Não!... Moçambique aparece em revistas turisticas direcionadas para aqueles que têm dinheiro onde lhes é apresentado em pacotes luxuosos a comodidade de avião privado, arquipélagos reservados e fechados de praias de águas turquesa, com turistas que se deslocam acima da miséria, do roubo e de praias-lixeira, de Camping's onde o turista mais simples recebe uma lata de água salobra para o chuveiro.

Moçambique vende felicidade para quem tem dinheiro, mas não para viajante comum, ecológico, amante da natureza e do contato sem muros com o povo, além de menos abonado financeiramente.

12/10/08

Retalhos da História de Cabo Delgado: Breves notas sobre a população do Distrito de Cabo Delgado em 1858.

Por Carlos Lopes Bento (1)

No ano em que Pemba, (antiga Porto Amélia) está a comemorar os seus 50 anos de elevação a cidade, entendi, como forma de lhe prestar homenagem, bem como a todos aqueles que, de algum modo, contribuíram, através dos anos, para o seu engrandecimento, trazer a público alguns dados sobre a população, que há 150 anos povoava o distrito de Cabo Delgado e como se distribuía geograficamente.

Segundo a informação fornecida pelo então Governador interino João da Cunha Carvalho, relativa ao ano de 1858, o distrito estava dividido em sete Capitanias, a saber:
Estas sete capitanias, duas insulares- Ibo e Querimba- e cinco situadas, junto à costa marítima, em terras firmes ou continentais, de que faziam parte 34 núcleos populacionais, eram habitadas por 23 361 pessoas, distribuídas por 9.776 fogos, das quais 11.996 eram do sexo masculino e 11 365 do sexo feminino. Este total de população incluía: “indígenas, livres e libertos, europeus, asiáticos e escravos”. Com excepção da do Ibo, nas restantes Capitania existia como autoridades locais: 1 capitão-mor, 1 sargento-mor e 1 cabo das terras, que era o chefe de polícia.

As capitanias mais povoadas eram a de Quissanga, com 8.749 habitantes e a do Ibo, com 5.448.

Situavam-se próximas uma da outra, sendo a primeira a principal porta entrada e de saída do comércio da Vila do Ibo.

Estas duas povoações tinham mais do dobro da população total do distrito, seguindo-se a de Mocimboa situada mais a norte.

A capitania mais a sul e mais próxima da baía de Pemba era a de Arimba, situada a sul da de Querimba.

Geograficamente, de sul para norte, existiam as capitanias de: Arimba, Querimba, Ibo, Quissanga, Olumbua, Pangane e Mocimboa. Daqui se deduz que, então, o Distrito de Cabo Delgado tinha como limites: a norte, Mocimboa e a sul, Arimba. Para além deles, encontravam-se as “Terras sujeitas ao governo de Régulos”:

- A norte, tínhamos, defronte da ponta denominada Cabo Delgado, a povoação de Tungue, um pouco a norte da baía do mesmo nome, que era habitada por Suaílis e Mujojos, dependentes politicamente do Sultão de Tungue, Amade Sultane.

- A sul, situava-se a baia de Pemba em redor da qual dominavam os régulos Said-Aly, Mugabo, Motica e Mazeze, entre outros, estendendo-se a jurisdição deste até ao rio Lúrio, limite sul do território do distrito de Cabo Delgado.

Quanto à origem étnica e religião da população, as informações fornecidas em 1858, apenas, se referem às ilhas do Ibo e de Querimba: Na primeira estavam incluídos: 11 europeus, 3 filhos de Goa, 23 gentios entre batiás e baneanes e na segunda, 3 europeus.

Anos antes, em 1855, o governador Jerómino Romero, - responsável pela instalação da Colónia Agrícola de Pemba, verificada a partir de 1857, na sua obra “Memória Acerca do Distrito de Cabo Delgado” - fornece-nos alguma informação sobre a população, livre e escrava, do seu Distrito, que incluía cristãos, mouros, baneanes e batiás.

Numa simples análise dos dados fornecidos em 1855 e 1858 verifica-se uma grande diferença nas frequências relativas à totalidade da população do Distrito, que, num diminuto espaço de tempo, passou de 6.607 para 23.361 habitantes. Ela deverá estar relacionada com a aplicação da Portaria nº 315, de 15.10.1855, que estabeleceu o Registo Civil em Moçambique, determinando “a inscrição de todos os habitantes da cada circunscrição administrativa e se note com toda a regularidade o movimento da população de todos os pontos de vista”. No seu artº 1º determinava-se que:

“Todo o chefe de família formulará, segundo um modelo que deverá ir receber da autoridade, uma relação nominal de todas as pessoas, de qualquer condição que sejam, das quais se compuser a sua família, no dia 31 de Dezembro do corrente ano, designando a sua respectiva idade, religião, estado, ocupação, &, como irá mencionado no mesmo modelo, a qual relação entregará à competente autoridade no dia 1º de Janeiro de 1856, ou nos dias imediatos segundo a distância a que estiver a sua morada”.

Aqui deixo estas breves notas para que as gerações mais novas, de Moçambique e de Portugal, conheçam mais alguns dos traços da sua História comum.
(1)- Prof. univ. e antropólogo.

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