9/21/07

ÁFRICA - Congoleses não se beijam mais por causa do vírus Ebola.

KINSHASA - Moradores de vilarejos de uma região da República Democrática do Congo não estão mais trocando beijos e apertos de mão por causa do medo de contrair o vírus Ebola, que é altamente contagioso.
O surto da doença em Kampungu, na província de Kansai, no Oeste do país africano, começou em abril deste ano. O vírus provoca febre hemorrágica que não tem cura ou tratamento e mata entre 50% e 90% de suas vítimas.
Foram registrados 385 casos da doença, e 174 pessoas morreram na região.
- As pessoas não se beijam mais quando se encontram. Elas sequer apertam mãos - disse Antoine Bushambu, que trabalha para uma organização de defesa dos direitos humanos congolesa.
O governo teme que o surto se espalhe além da região rural em que atualmente está concentrada.
Reuters - Extra ONLine -Publicada em 21/09/2007 às 08:41

MOÇAMBIQUE: A Sida vista através das lentes das câmeras.

Maputo, 21 Setembro 2007 (PlusNews) - As lentes das câmeras têm o poder de captar as várias facetas do HIV.
A segunda edição do Festival do Filme Documentário Dockanema, realizada na capital moçambicana entre 13 e 24 de Setembro, trouxe alguns desses ângulos em dois documentários sobre a Sida, que integraram uma programação de 83 filmes internacionais.
Com 30 minutos, Growing Stronger, traduzido para o português como Mulheres de Força, entrelaça duas histórias: a de Tendayi Westerhof, modelo e ex-mulher do técnico da selecção nacional de futebol do Zimbabwe Clemens Westerhof, que se assume seropositiva em 2002; e a de Pamela Kanjenzana, uma mulher comum seropositiva num dos povoados no subúrbio de Harare.
A directora do filme é Tsitsi Damgarembga, conhecida escritora zimbabweana e autora da popular novela autobiográfica Nervous Conditions.
O filme Ayelapheki (Não há cura, em língua ndebele, do Zimbabwe), do costa-riquenho Marcos Villalta Pucci, compila o trabalho de vários grupos culturais e artísticos no Malawi, Moçambique e Zimbabwe na luta contra o HIV.
Eles utilizam dança, música tradicional, teatro, rap e hip-hop para informar sobre prevenção.
Empatia, não simpatia
O público compareceu em massa não apenas aos documentários, mas também ao debate público sobre preconceito, organizado num hotel em Maputo após a apresentação de Growing Stronger.
“Não é fácil para uma mulher falar, sobretudo de HIV/Sida. Se um homem assume publicamente sua seropositividade, a sociedade aceita mais facilmente”, disse Westerhof .
“O estigma ainda é forte, apesar da legislação e das campanhas contra a discriminação.”
Segundo ela, a decisão de vir a público foi movida pela necessidade de ganhar não a simpatia, mas a empatia das pessoas.
“É necessário criar um ambiente que apóie as pessoas porque todos são possíveis candidatos do HIV”, declarou.
Depois de ter escrito Unlucky in Love, em 2003, Westerhof acaba de lançar seu segundo livro, Dear Cousin, (Querido primo, em português) onde destaca que o HIV pode ser uma chance para fortalecer as mulheres.
“A educação ainda é muito baixa entre nós, mulheres africanas.
Temos que fortalecer os programas de educação em saúde e reprodução sexual para tomarmos a decisão certa. A questão do preservativo feminino, por exemplo, deve ser mais desenvolvida”, explicou.
Ela continuou: “A mulher deve ter o poder para negociar, para se proteger do HIV, da gravidez indesejada e de outras doenças sexualmente transmissíveis.”
Apoio da media
Durante o debate, a ex-modelo, que fundou em 2003 o Fundo de Personalidades Públicas contra a Sida (Public Personalities Against Aids Trust, em inglês), apelou à imprensa para desenvolver assuntos ligados ao HIV.
“Os media devem estar do lado das pessoas. Devem ajudar a criar um ambiente propício para quem quiser revelar livremente e sem discriminação sua seropositividade”, disse Tendayi.
Para o músico moçambicano Stewart Sukuma, seu país ainda vive numa mentalidade mesquinha.
“Um país onde a imprensa se preocupa com a notícia de Michael Jackson ter perdido o anel numa rua de Nova York, mas não se preocupa com os problemas reais do país, é muito pobre”, afirmou.
Sukuma é um dos artistas moçambicanos activo nas campanhas contra a epidemia, com um CD gravado com canções sobre a Sida.
Ele foi vítima do rumor – falso – de que era seropositivo em 1999, quando regressou dos Estados Unidos por não ter conseguido uma bolsa de estudos.
“Nenhum jornalista me perguntou directamente”, contou.
“Não sou seropositivo, mas este não é o ponto. Vivemos num país com alta taxa de seroprevalência, em que os dirigentes dizem que estão empenhados contra o HIV/Sida, mas até hoje nenhum deles deu a cara.”
Ana Maria Muhai, activista do programa DREAM, disse que o preconceito ainda é o principal obstáculo ao tratamento, pois cria um círculo vicioso de doença e discriminação.
“O que mata verdadeiramente não é o HIV, mas o estigma”, disse.
Westerhof afirma que sua história e a de Muhai têm muito em comum, no tratamento e na esperança:
“Ana Maria e eu somos exemplos vivos de que os ARVs são fundamentais. Ela perdeu peso, mas com o apoio da família, da comunidade e o tratamento está agora ajudando outras pessoas. Estas são as mensagens que devemos passar.”

9/20/07

Arte e sociologia de Moçambique - Referênciando Glória de Sant'Anna, Rafael da Conceição, José Pimentel Teixeira, Andrea Paes...

Encontrei na net e no blogue do JPT, onde são citados Rafael da Conceição (ex aluno de Glória de Sant'Anna), as poetisas Glória de Santanna e Andrea Paes:
"Lied Para Yonnis-Fred e Maelle (Paternidade, Morte e Quotidiano, Construções no Mar, em Terra e no Ar...)", novo livro de Rafael da Conceição, um texto sobre (antropologia d)a morte. Será lançado na próxima terça-feira, 18 de Setembro, pelas 10 horas da manhã. Na Universidade Eduardo Mondlane, campus universitário, anfiteatro 2501 do novo Complexo Pedagógico. O livro será apresentado por Carlos Serra e por José Teixeira...
...Di-lo através do poema, aqui feito epígrafe, “A Nossa Morte é a Vida que Vivemos” de Andrea Paes (recentemente estreada na poesia com o livro “O Mar Verde de Mim e as Terras Brancas Sem Açúcar”, assim seguindo as pisadas de sua mãe Glória de Sant’Anna), no qual se realça interacção inultrapassável do nosso ciclo biográfico, essa presença quotidiana e constante do ocaso…

Passeio de mãos dadas
com a morte.

Passeamos no silêncio
da nossa uniformidade
[incorrigível.

Eu, dentro da minha vontade de viver.
Ela, dentro da vontade
de me ter.

E sorrimos, porque sabemos
da força imanente e[inexorável
de que ambos dependemos
(Andrea Paes)

- A "apresentação" de José Teixeira em texto integral no 'Estendal"
- Alguns poemas de Glória de Sant'Anna
- Alguns trabalhos de Inez Andrade Paes
- Contato comercial com a artista plástica natural de Pemba , Inez Andrade Paes - inezapaes@yahoo.com.br

Diversificando - A banalidade do mal em Auschwitz.

(O oficial SS Karl Hoecker acende uma vela de árvore de Natal em Auschwitz)
Para que o mundo não esqueça...
Mais de 1 milhão de pessoas morreram em Auschwitz, o mais notório campo de extermínio nazista. Enquanto isso acontecia, os oficiais da SS e seus acólitos se divertiam no local. As novas provas imagéticas da inversão moral do Terceiro Reich acabam de ser publicadas pelo Museu do Holocausto em Washington e podem ser vistas aqui.
In - Marcos Guterman* - Sobre Homens e animais.
*jornalista, historiador e editor do estadao.com.br

9/19/07

Cabo Delgado: Disputa por Naminawe no recenseamento.

Uma disputa pelo povoado de Naminawe, entre os distritos de Mecúfi e Pemba-Metuge, está a atrasar o desenvolvimento da região, ao mesmo tempo que desorganiza a acção governativa, conforme queixas apresentadas pela população da Aldeia 3 de Fevereiro, posto administrativo de Murrébué, ao governador Lázaro Mathe, no início da sua visita aquele distrito litoral da província de Cabo Delgado.
Como disseram no recente processo de recenseamento da população e habitação, a aldeia de Naminawe não teve resultados encorajadores, porque perante a identificação da sua presença enquanto divisão administrativa fez com que uns se recenseassem como de Pemba-Metuge e outros como de Mecúfi.
Caetano Minrage, um dos intervenientes no comício orientado pelo governador provincial, disse que a interferência das autoridades do distrito de Metuge desmobiliza, inclusive, as populações no pagamento de impostos, assim como a falta de definição sobre onde colocar uma escola ou posto de Saúde.
Com o mesmo tom, Faque Loba, também interveniente na reunião popular, acha que o problema de Naminawe deve ser resolvido com urgência e revisitando um pouco da história da região, disse tratar-se de uma área sob jurisdição do régulo Nquina e que o problema da disputa vem de há mais de cinco anos, com o conhecimento do anterior administrador do distrito de Mecúfi, ora em Chiúre, Augostinho Manila.
Aquimo Mitilage foi mais longe ao pedir uma intervenção imediata do governador ora em visita ao distrito “porque nos estamos a morder entre nós. Queremos conhecer os limites dos dois distritos para compreendermos o problema de Naminawe”, disse.
No entanto, o governador Lázaro Mathe prometeu resolver ainda nesta semana, no decurso da sua visita que a seguir vai escalar ao distrito conflituoso, Pemba-Metuge, para o qual vai levar consigo o administrador de Mecúfi, Buraimo Dade, na companhia de uma figura influente residente em Pemba.
Lázaro Mathe iniciou desta maneira um périplo de 3 dias ao distrito costeiro de Mecúfi, depois do que fará o mesmo ao vizinho Pemba-Metuge, levando a mensagem de avaliação do cumprimento do programa quinquenal do Governo e a mobilização das populações para o recenseamento eleitoral que se aproxima.
Maputo, Quarta-Feira, 19 de Setembro de 2007:: Notícias

Moçambique - Ponto de Vista...

Fui a Moçambique. Vinte dias para cumprir um sonho antigo. Vi praias lindíssimas, com o mar em tons de esmeralda, areias finas e brancas e, coisa espantosa, as árvores a sair do mar junto à costa. Esta pejada de árvores: acácias, pinheiros africanos, mangueiras, coqueiros e outras que não identifiquei.Mas estive também no interior. No meio de aldeias de colmo, pátios bem varridos, mulheres com os filhos às costas suspensos das capulanas. O mínimo para viver. Uma simpatia que irradiava ao primeiro contacto. Chegavam-se a nós e estendiam invariavelmente as mãos para as apertarmos. As crianças encostavam-se e davam-nos as mãozinhas negras. O toque, uma forma essencial na comunicação africana. Mas vi também muitas coisas confrangedoras, a molestar a nossa consciência de ocidentais bem instalados na vida. Era noite. A sombra de um enorme hospital, antigo seminário nacionalizado pelo governo, projectava-se no vasto terreiro fronteiriço. Entrei pela porta principal e subi as escadas estreitas que me levaram ao coro da igreja agora transformada em enfermaria. Um salão enorme, com um pé direito altíssimo. Em baixo, camas de ferro primitivas e velhas, encostados pés de cama com cabeceiras, em várias filas que se estendiam desde a entrada da igreja até ao altar mor. A luz de alguns candeeiros fosforescentes iluminavam o recinto com uma luz crua. Os doentes cobertos com panos. Um silêncio opressivo. Confesso, senti-me incomodada. E a imagem dos nossos hospitais, mesmo os mais pobres, com camas articuladas, separadas por cortinas a proteger alguma intimidade, um mínimo de conforto a adoçar a tristeza do lugar, passou-me pela mente. Quando me retirei vinha com o coração pesado. Era a primeira imagem que colhia do Marrere onde acabava de chegar e nem um céu pejado de estrelas no céu negro de chumbo conseguiu aliviar o negrume que se instalara em mim. No dia seguinte, a luz de um dia cheio de sol iluminava uma paisagem verde com árvores frondosas: um bosque de mangueiras ao fundo, árvores de sumaúma, papaias e bananeiras. Aqui e ali, cones de formigueiros de terra vermelha. E uma paz campestre a contrastar com a opressão da noite anterior. Fui dar um passeio pelas machambas, alinhadinhas, pejadas de legumes verdes. Espalhadas, palhotas de adobe e colmo, com uma porta e uma janela – as típicas casas macuas – e um terreiro muito varrido. A certa altura, no meio do meu passeio, dei de caras com alguns paus espetados ao alto. “Que significam?” quis saber. “É o lugar onde as famílias vêm venerar os antepassados.” (Em toda a África o culto dos antepassados é muito vivo. Tão forte que mesmo um governo de cariz marxista, por convicção ou por contemporização com as tradições da população, não se coíbe de homenagear os antepassados em alturas especialmente importantes. Por exemplo, por ocasião de uma inauguração.) Nesta região não há fome, disse-me o padre Zé em casa de quem estava instalada. Graças a Deus. Mas no sul do país - eu estava na zona de Nampula - há. Quando visitei a Casa do Gaiato, na região do Maputo, o Padre responsável disse-me que sustentavam uma creche de muitas dezenas de crianças. “Porquê? As mães não estão em casa?” “Não é por isso. É por causa da fome. Ao menos aqui têm uma refeição de boa qualidade e abundante.”! Mas voltando um pouco atrás. Enquanto estive em Nampula fui visitar um convento de freiras que dão a sua vida pela população local. Sítio lindo! Cheio de buganvílias de várias cores e árvores, muitas árvores. Lá perto havia um infantário e uma creche para órfãos. Crianças muitas, a maioria filhos de vítimas da sida que é uma praga em Moçambique. Negrinhos e negrinhas doces que se encostavam a nós e nos apertavam as mãos. A criança mais nova teria não mais de três meses. A mãe morrera de parto e o pai tinha mais quatro filhos. Por isso entregara aquela à caridade da “mamã Júlia”, mulher de cerca de sessenta anos de olhar e fala muito doces. (Em Moçambique as mulheres são tratadas habitualmente por mamãs.) Visitei a casa onde as crianças estão albergadas. Que pobreza! O chão era de cimento, poucos compartimentos com caminhas protegidas por mosquiteiros, um hall de entrada com duas mesas onde estava encastelada a pouca roupa das crianças. Brinquedos, não vi. Um bebé estendido no chão berrava desalmadamente. Cá fora algumas cadeiras de plástico e uma cozinha primitiva. Uma luz baça de um candeeiro (já era noite; naquela região anoitece às cinco e pouco da tarde), iluminava o recinto. “Somos duas mamãs. A outra é portuguesa. Ela cuida dos rapazes. Eu trato das meninas”. “E a comida?” perguntei eu. “Ai isso não falta. As irmãs mandam-nos o que é preciso. Eu só cozinho”. E mais uma vez me saltaram ao espírito imagens do nossa terra. Infantários onde não falta nada, onde há educadoras tecnicamente preparadas para lidar com crianças, brinquedos em abundância, muita higiene e um exagero de programação das actividades que pretendem despertar as crianças para o conhecimento e para a sensibilidade. Aqui, apenas a bondade e a boa vontade de duas mulheres velhas que fazem o que podem, mas podem pouco. Aqui apenas um lugar protegido para dormir e refeições substanciais. A minha visita a Moçambique acabou em Maputo. Uma cidade de contrastes flagrantes. O bairro da Polana Cimento é a zona rica. Casas lindíssimas, ruas cheias de árvores frondosas, avenidas vastíssimas, ruas acolhedoras. Um local onde deve ser delicioso viver. Depois a zona da baixa onde os pavimentos estão esventrados, muitas casas degradadas, mas mesmo assim com muitas coisas bonitas para ver. Um belo jardim no meio da cidade, a estação de caminho de ferro concebida pelo Eiffell, lindísima! O Centro Franco-Moçambicano, edifício moderno cheio de originalidade onde vi uma exposição curiosíssima integrada no projecto “armas pela paz” com esculturas, algumas magistrais, feitas apenas com peças de armas. O museu de arte, com escultura e pintura de traços fortes, corpos retorcidos, muitos rostos e cores intensas no que toca à pintura – mostra uma arte plástica marcadamente africana, completamente distinta da arte europeia. Os inúmeros mercados de rua onde se vende toda a espécie de artesanato africano. E para além de muitas outras coisas interessantes, a avenida marginal, cheia de árvores, ladeando a vasta baía de Maputo. Finalmente a zona pobre: ruas estreitas de terra a abarrotar de casebres, alguns com colmo, mas a maioria coberta de chapa de zinco. Uma pobreza esmagadora. Embora impressione, não admira que todas as casas com melhor aspecto ostentem grades e arame farpado e até, na zona rica, fios electrificados e guardas à porta. Não vi, mas disseram-me que há bandos de crianças que dormem na rua e são elas que normalmente assaltam as pessoas e é delas que a população se protege com semelhante arsenal. Órfãos da guerra? Órfãos da sida? Miséria humana de que os homens se deviam envergonhar. Esta é a Maputo que me encantou por um lado, mas que me entristeceu por outro, seja pela degradação de algumas zonas, seja pelo cancro de miséria que atinge uma boa parte da sua população. Fui a Moçambique e vim com a alma cheia: da sua beleza, da simpatia dos moçambicanos e de tristeza por um país que a guerra empobreceu ao extremo e que só há pouco começa a levantar-se. Oxalá que este ressurgimento seja para todos e não apenas para a camada mais favorecida da população. Este é o meu voto de esperança.
Manuela Salvador Cunha - Professora do Ensino Secundário.
In O Primeiro de Janeiro - Porto de 02/09/07