4/28/09

PEMBA: Madeira apreendida será vendida em hasta pública

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A madeira apreendida em finais do ano passado pertença de quatro operadoras do ramo florestal em Cabo Delgado, que pretendiam exportá-la sem o competente processamento imposto por lei, vai ser vendida em hasta pública, segundo confirmou ao nosso Jornal o chefe dos Serviços Provinciais de Florestas e Fauna Bravia, Castro Rassul, que adiantou que o processo já foi entregue ao juízo das execuções fiscais.

Esta revelação contraria a posição que havia sido tomada pelas Alfândegas, em Pemba, que em despachos separados procedia à entrega dos contentores com a madeira apreendida às empresas prevaricadoras, alegando terem pago a totalidade das multas resultantes da infracção cometida.

“Por despacho de indiciação exarado a 17 de Fevereiro de 2009, pelo Tribunal Aduaneiro, referente ao processo (…) procede-se à entrega dos contentores de madeira à firma, em virtude desta ter pago a totalidade as multas resultantes da infracção cometida” lê-se no termo de entrega, com o mesmo teor, mas dirigido individualmente às empresas supostamente violadoras da lei.

No caso estão envolvidos a King Wey Lda, Moçambique Development, Lda, Pacific International, Lda, Tienhe e a Mofid, Lda, que já se julgadas libertas pela decisão das Alfândegas.

A fonte das Florestas e Fauna Bravia disse que o seu sector, depois que tomou conhecimento da decisão alfandegária optou por interpor recurso ao Tribunal Supremo que repôs a legalidade, para o que o produto seja vendido em hasta pública e o valor daí resultante reverter a favor do Estado.

A apreensão dos contentores de madeira que iam à exportação ilegal, ocorreu em Dezembro passado, quando por decisão da Agricultura, a Pacific International viu abortada a sua tentativa de exportar 18 contentores, dando lugar a que esta também denunciasse a Mofid, Lda, que no mesmo navio transportava 75, igualmente de madeira não serrada e as autoridades descobriram que o mesmo acontecia com as outras empresas.
- Maputo, Terça-Feira, 28 de Abril de 2009:: Notícias.

  • Outros post's que noticiam e denunciam o saque-destruição nas florestas de Cabo Delgado e Moçambique - Aqui!

4/24/09

Pemba: Uma crónica sobre quadros & mais quadros...

... Ou, como diriam em terras de Vera Cruz, A farra dos Quadros!!!

- Com a devida vénia a Pedro Nacuo:

EXTRAS - Quadros.
Na quarta-feira, estive mais uma vez no nosso minúsculo mas bonito e acolhedor aeroporto de Pemba, não para cumprir um dos rituais em pequenas cidades, que é exactamente ir ao aeroporto, porque é lá onde parece que vemos uma outra realidade, no aeroporto experimenta-se um outro ambiente e lá se encontram e reencontram pessoas para recordar velhas amizades ou fazer novas. Desta vez era para acompanhar uma colega de serviço, por sinal minha chefe.

Mas o aeroporto da quarta-feira passada tinha outra particularidade: estava cheio de pessoas de Cabo Delgado, vestidas da mesma maneira, cor e a falar a mesma linguagem, para além de emprestar ao ambiente aquele frenesim que quando o partido maioritário está encontrado deixa mostrar.Eram quadros do partido no poder, que iam a Maputo reunir-se para e falar de como (de novo) vão ganhar as eleições que se avizinham e fartei-me de apresentar à minha chefe aqueles de quem provavelmente tivesse ouvido alguma vez falar, que vinham de todos os pontos da província e de Pemba.

São tantos assim, os quadros que a Frelimo tem?

Esta pergunta, apresentada em jeito de brincadeira, chamou a resposta de um amigo, depois que o avião levantou o voo, que também brincou dizendo que “a maioria é ardósia”. A seguir convidou-me a ler o “notícias” da semana anterior, para ir à publicidade onde se convocavam assembleias gerais de algumas empresas. Apontou uma página onde havia anúncios assinados pelos presidentes dos Conselhos da Administração ou de Mesa da Assembleia. Eram irmãos, pelo menos em três anúncios.

Um aparecia em dois como presidente de Mesa da Assembleia Geral e outro numa só. E disse mais: estes são presidentes de mais de nove empresas, em Moçambique, quer seja do Conselho da Administração quer seja dos Conselhos Fiscais ou outros órgãos sociais, para além de serem muitas vezes directores e permanentemente representantes do povo na magna casa, onde também chefiam comissões. Estes é que são quadros deste país!

O meu confidente diz que quadros são aqueles ministros que, perante uma situação em que qualquer um dos colegas deixa de o ser, são chamados a acumular as pastas, que as juntam com as outras atribuições socioeconómicas e políticas que já têm desde muito tempo. Na opinião do meu contrário, não são tantos quadros assim, como os que vimos na quarta-feira!...

Diz que não há quadros que cheguem ao número de 112 que vimos a embarcar para uma reunião de todo o país e pediu-me que não confundisse um encontro de camaradas com uma reunião de quadros, porque “ num país os quadros são poucos, os outros são ardósias” e eles são definidos conforme as conveniências.

Diz que não seria num país cheio de quadros em que numa mesma pessoa cabe: a presidência do Conselho da Administração duma empresa pública, a direcção duma empresa pública, a direcção duma instituição do Estado, a chefia duma Comissão Parlamentar, a presidência de um Conselho Fiscal, a presidência duma modalidade desportiva e a presidência duma organização de conterrâneos…

Não é num país cheio de quadros onde hoje se é PCA duma determinada empresa pública e que terminado o mandato, fica-se de férias… até uma nova nomeação, desta feita, de novo PCA doutra empresa pública. A isso chama-se, falta de quadros!

É falta de quadros indicar dirigente político, na terra, quem dá aulas, umas vezes no Marte outras vezes no Neptuno e estudante no Urano. E se terra significar Moçambique, aí teremos muito poucos ainda, se bem que, são muito poucos os deputados que são apenas políticos. Eles são muita coisa junta. Há muito subemprego no país, visto que cada um ganha por teoricamente fazer muita coisa, mas não rende em nenhuma delas o mínimo aceitável. Ganha-se por se ser oficial na reserva, por ser antigo combatente, por ser deputado, por ser presidente do conselho de administração, director duma empresa, adjunto em outras quatro empresas, financeiro de mais uma, assessor duma determinada firma, consultor numa ONG, presidente do Conselho Fiscal em mais outra associação. Tudo isso numa mesma pessoa, que volta e meia tem a papelada a tramitar visando a criação de mais empresas e sociedades. Esses, sim, são quadros, que conseguem fazer tudo o que seria feito por todos!
- Pedro Nacuo, Abril de 2009:: Notícias.

Buscando no tempo, lá pelo Douro: Os bombeiros no Cais Fluvial da Régua.

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Em atenção aos "vareiros" que nos lêm e visitam por esse mundo virtual afora, alguns post's irei trazendo de um outro blogue ("Escritos do Douro") onde se fala do Douro em Portugal, da cidade de Peso da Régua, de sua história e cultura, de personagens que marcam e dão exemplo e de outras coisas mais que não só da "vinha e do vinho do Porto", de Pemba e Moçambique...

Nesta excelente imagem, de meados de 1980, vê-se uma instrução de alguns elementos do Corpo de bombeiros do Peso da Régua, junto à margem do rio Douro, no cais fluvial (sem a actual recuperação feita pelo ainda Instituto de Navegabilidade do Douro, presidido pelo saudoso Eng. Mário Ferreira) em exercícios de manobras, com as bombas e as mangueiras, ligadas a dois veículos de combate aos fogos urbanos.

“Voluntários por opção, mas profissionais na acção” é o que se pede a todos os bombeiros. Entre os bombeiros, é comum dizer-se que só “salva quem sabe”.

Em sociedades, cada vez com maiores riscos e perigos, os bombeiros precisam de ter melhores conhecimentos técnicos, mais formação, cursos de matérias específicas, completados com frequentes exercícios de instrução.

Os bombeiros voluntários estão actualmente sujeitos à avaliação do desempenho das actividades que prestam nesta área da protecção civil e do socorro, com as estruturas operacionais cada vez mais qualificadas, competentes e responsáveis, orientadas por objectivos de qualidade.

Destaca-se nesta foto, o emblemático Chevrolet, modelo Viking 60, com um motor de 4637 cm³, de 8 cilindros, baptizado na Associação com o nome de S. Faustino, sendo mais conhecido por o “Nevoeiro” (assim designado pela razão de a bomba ao lançar a água fazer uma espécie de nuvem).Este veículo de origem americana transporta no seu interior dez bombeiros e está equipado com depósito de água de 1.800 litro, material de incêndios e uma potente bomba Darley. Adquirido à General Motors de Portugal, Lda., em Novembro de 1960, pela avultada quantia de 397 contos, com comparticipação do Estado, era considerado, como então se dizia, “um carro que não encontra hoje similar no país.”

Ainda hoje, se a completar os seus 50 anos de actividade nos bombeiros, esse pronto-socorro tem todas as condições para prestar qualquer serviço de combate ao fogos urbanos, (precisamos da ajuda de um benemérito para a sua reparação de chapa e nova pintura, será que alguém nos pode ajudar?) como nos seus velhos tempos, o das memórias da nossa infância, quando o contemplávamos ao vê-lo passar em alta velocidade, com a sirene a tocar e luzes a assinalar sua urgência.

Para se valorizar a importância da formação dos bombeiros reproduzimos um artigo (ligeiramente adaptado) da autoria do nosso amigo Eng. Álvaro Ribeiro, Comandante dos Bombeiros Voluntários da Cruz Branca, de Vila Real, onde aponta estas ideias:

“Ao longo dos tempos os Corpos de Bombeiros procuram dar respostas às necessidades das populações. Primeiro, com exclusiva participação no combate aos incêndios urbanos e industriais, socorros a náufragos, depois na área da saúde na vertente de transporte de doentes e na emergência pré-hospitalar e, no inicio da década de 80, como responsáveis directos pelo combates aos fogos florestais.
A mobilização dos efectivos operacionais era feitas pelas badaladas dos sinos das igrejas, posteriormente passou-se aos silvos das sirenes e hoje já se utiliza os meios de SMS e outros.
A velha figura do quarteleiro deu lugar a operadores de central de comunicações e aos motoristas que garantem o serviço de saúde e/ou incêndios.
A tecnologia entra facilmente na área da protecção e socorro. São por isso necessários conhecimentos profundos e treinos para manusear equipamentos, alguns com elevada sofisticação.
A sociedade exige um serviço profissional, independentemente de quem o faz, se é sapador ou voluntário. Para dar resposta a uma sociedade que vive com a informação a todos os instantes, é preciso dispôs de tempo para a formação, treino regular e participar nas actividades operacionais e de representação.”
- Peso da Régua, Abril de 2009, José Alfredo Almeida.

- Outros textos publicados neste blogue sobre os Bombeiros Voluntários de Peso da Régua e sua História:
  • O Padre Manuel Lacerda, capelão do Bombeiros do Peso da Régua - Aqui!
  • A Ordem Militar de Cristo - Uma grande condecoração para os Bombeiros de Peso da Régua - Aqui!
  • OsBombeiros no Largo da Estação - Aqui!
  • A Tragédia de Riobom - Aqui!
  • Manuel Maria de Magalhães: O Primeiro Comandante... - Aqui!
  • A Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • A cheia do rio Douro de 1962 - Aqui!
  • O Baptismo do Marçal - Aqui!
  • Um discurso do Dr. Camilo de Araújo Correia - Aqui!
  • Um momento alto da vida do comandante Carlos dos Santos (1959-1990) - Aqui!
  • Os Bombeiros do Peso da Régua e... o seu menino - Aqui!
  • Os Bombeiros da Régua em Coimbra, 1940-50 - Aqui!
  • Os Bombeiros da Velha Guarda do Peso da Régua - Aqui!

- Link's:

  • Portal dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua (no Sapo) - Aqui!
  • Novo portal dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • Exposição Virtual dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • A Peso da Régua de nossas raízes - Aqui!

4/22/09

Histórias perdidas no tempo de PEMBA - ARMANDO CEPÊDA!

Não me canso de ler e reler...
Lembra uma personalidade saudosa, entre outras que já "partiram", que marcava o quotidiano da então Porto Amélia.
De porte altivo, bonacheirão, mas sério, chegava a "atemorizar" com seu ar discreto, de sorriso escondido que nem se notava, muitos de nós, crianças ladinas que enchiam de alegria as rua da cidade de então... Eu era um deles... Nem chegava perto!
Não era de muitas "conversas"... só para alguns amigos mais próximos que reconheciam seu grande coração e que apreciavam escutar, sentados numa mesa do "Marítimo", do "Vasco" ou até da "Pensão Cepeda" suas "aventuras africanas". Assim, envolvido num cenário imaginário, salutar e que atravessa oceanos, escrito como ninguém o faria por meu também já saudoso Amigo e escritor do Douro, Dr. Camilo, aqui repito este texto que nos leva a uma Porto Amélia tão importante no tempo de todos nós:

Quando recordo o tempo de Porto Amélia, muitas vezes me salta na memória o meu amigo Armando Cepêda.

Era um homem largo, inteligente e bondoso. No carão de pugilista a linha dos olhos e a linha da boca traçavam, a miúdo, um sorriso paralelo a deixar transparecer uma acomodada filosofia de vida.

Era casado com D. Maria, senhora absoluta da Pensão Miramar. E digo senhora absoluta porque ali quem mandava era ela. Nem o marido nem os filhos davam a mínima ordem naquela nau de tripulação negra, capaz de todas as preguiças e descuidos. Com dois berros e dois cascudos aquela criadagem indolente andava numa roda viva. D. Maria era uma senhora robusta, de língua solta com sotaque do Porto.

Parecia um salpico, na costa de Moçambique, do pincel genial de Abel Salazar, em momento de inspiração tripeira. Armando Cepêda mandava na sua oficina de reparação de motores de que era especialista em Diesel. A oficina ficava na Rampa, aquela encosta medonha que nem a bordadura de acácias rubras conseguia suavizar. Medonha e obrigatória na ligação da parte alta com a parte baixa de Porto Amélia.

Passei muitas horas naquela oficina entre carcaças da mais diversa maquinaria avariada, à espera que Armando Cepêda lhe restituísse a serventia perdida. E dava gosto ver aqueles dinossauros sair de um sono pesado e regressar ruidosamente à floresta, com uma palmada na anca. Uma palmada que só o meu amigo Cepêda sabia dar.

Conseguíamos conversa entre roncos de motor e marteladas de todos os sons. E tudo servia para dois dedos de conversa, a fazer sede para dois goles de cerveja. Guardo ainda um cinzeiro de pé alto que Armando Cepêda me fez numa pausa do serviço. É a estilização de uma cobra erguida na ponta do rabo a equilibrar meio coco na fúria da cabeça.

Antes e depois de jantar, Armando Cepêda derramava o corpanzil naquelas cadeiras do jardinzinho da pensão à espera de todos os cansaços, de todos os tédios e nostalgias. Recordo ainda o perfume adocicado das magnólias que o calor da noite parecia libertar suavemente.

Os hóspedes vinham chegando, um a um, à roda das cadeiras e a eles se juntavam residentes de Porto Amélia para dois dedos de conversa. Pessoas vindas de toda a parte pelas mais variadas razões, algumas delas muito roladas pelas mais diversas geografias. Comerciantes, agricultores, médicos, funcionários públicos, engenheiros, militares, todos enleados naquele fio de nostalgia tropical que parece igualar todos os homens.

As palavras iam ficando mais espaçadas e moles com o andar daquelas noites suadas. Mas se a conversa caía sobre o mato, Armando Cepêda erguia-se um pouco da posição quase horizontal, para, pouco a pouco, dominar o assunto.

E todos nos erguíamos um pouco também para o ouvir contar histórias de camiões atolados no matope, dos perigos e dos encantos do mato. E de caça. Armando Cepêda não era, digamos, um caçador de safaris. Era caçador solitário, muitas vezes por exigência da esposa, quando a despensa fraquejava. Apertado por ela, Armando Cepêda ia ao mato abater um javali como quem vai ao fundo da capoeira buscar um frango.

Por duas vezes o acompanhei nesta caça de subsistência. A ele e ao Jacinto dos Caminhos de Ferro devo o conhecimento do mato. Sem eles a minha África teria sido pouco mais do que uma África de cidade. Jacinto era uma velha glória do Benfica. Ter sido guarda-redes das primeiras categorias era uma recordação que lhe fazia ainda rebrilhar os olhos. Jacinto era um caçador tão metódico como apaixonado. Dois pisteíros negros, o velho Land Rover, um bom farolim e a arma escolhida para o tipo de caça determinado. E eu, às vezes, graças a Deus! Sim, dou graças a Deus por ter vivido o emocionante espectáculo de andar a esmo pelo mato, com o jeep aos solavancos, farolim a esquadrinhar os espaços mais suspeitos e a surpreender os animais na intimidade da noite.

Inesquecíveis aquelas imbabalas saltitantes e graciosas como bailarinas a fugir ao palco de luz que lhes ofereciamos. E aquela sensação de liberdade plena que se experimenta, ao descansar nas quinandas, ouvindo o crepitar da fogueira e do falajar dos negros contra o silêncio profundo do céu? Sempre me pareceu que Jacinto, mesmo a mexer na burocracia do seu emprego, tinha os olhos no mato. Tanto que, mal deixava a secretária, caía no quarto a pintar. A pintar o mato; sempre com animais em primeiro plano e, tão recortados, que pareciam postos ali depois do quadro pronto. Não era um bom pintor. As telas eram o seu mato teórico para onde gostava de ir, a qualquer hora. Uma vez, só porque me demorei um pouco mais a ver três gnus a pastar, ofereceu-me o quadro. Na bagunça do regresso, o quadro perdeu-se. E tenho pena. Estaria hoje numa das minhas paredes com as saudades da África a retocá-lo todos os dias.

De uma vez o Jacinto convidou também para a caça o Dr. Manuel Jóia, médico do «Bartolomeu Dias», ancorado na baía de Porto Amélia, em patrulha da costa de Moçambique. Foi o seu baptismo de mato. O grande entusiasmo com tudo o que ia acontecendo redobrou quando, ele próprio, abateu um javali. Entre as seis e as dez da manhã é fácil encontrá-los nas áreas da sua predilecção. Passam como carruagens de um comboio rápido. Jacinto aconselhou:

— Aponte a um dos primeiros... Pode ser que acerte num dos últimos...

E o Manuel Jóia acertou, julgando, a princípio, não ter acertado. O raio do bicho com um rombo na barriga ainda se fartou de correr como se nada fosse com ele! Depois lá caiu como se tivesse caído do comboio.

No «Bartolomeu Dias» os oficiais comeram javali até lhe chegarem com um dedo e festejaram o seu médico como um herói da selva.

Voltemos ao meu amigo Armando Cepêda. Ele era, como já lhes disse, um caçador solitário. Saía antes da madrugada e regressava antes do entardecer. Da segunda vez que fui com ele «à carne» aconteceu uma coisa que me apetece contar.

O sítio escolhido para o abate foi uma velha machamba de milho abandonada, entre Porto Amélia e Mecufi.

— Aqui é um sítio bom por causa dos restos do milho e não há macacos a denunciar a nossa presença com a gritaria — disse o Armando Cepêda, saindo da picada.

Não havia meia hora de sol, quando apareceu um javali do outro lado da pequena veiga que dominávamos completamente de onde nos haviamos instalado. Era um animal relativamente pequeno, a grunhir e a estraçalhar a um e outro lado do focinho temeroso.

Parecia nada recear e, no entanto, toda aquela energia de patas e focinho parava, de vez em quando, como se tivesse havido um curto-circuito. Depois de uns segundos de imobilização total, a fúria do javali restabelecia-se para, daí a pouco, sofrer nova pausa.

— O bicho está desconfiado... eles são muito desconfiados... — disse Armando Cepêda, à boca pequena, sem tirar os olhos do javali.

Como vinha na nossa direcção, a certa altura ficou a uma boa distância de tiro.

—Então?!—perguntei baixinho.

— Quanto mais perto o abatermos, menos custa a arrastar para o jeep...

— Pois é... — disse, reconhecendo a minha inexperiência.

Armando Cepêda sorriu aquele sorriso de linhas paralelas.

Quando o javali ficou a uns trinta metros, perguntou-me se queria atirar.

— E se falho e não aparece mais nenhum? Não podemos aparecer à D. Maria de mãos a abanar!...

— Deus nos livre!... Ninguém a aturava!...

Soaram dois tiros com intervalo de um segundo. O javali caiu no meio da erva como um saco de batatas.

Com um arame atado às patas de trás e um pau atravessado na outra ponta foi fácil arrastá-lo até ao jeep.

O «mata-bicho» à sombra daquela mangueira isolada no mato rasteiro, ainda hoje me sabe. D. Maria era uma senhora farta. Arranjou-nos um farnel que dava para atravessarmos a África. Fígado de cebolada, meio metro de omelete, carne assada, queijo, muito pão, cerveja e água mineral. Do começar ao palitar, foi uma larga hora a comer. A comer e a contar coisas.

No fim de arrumar a tralha, com o método e a lentidão que o caracterizavam, disse o Armando Cepêda, já todo contente com a ideia:

— Vamos cumprimentar o meu amigo Rosas! É chefe de posto aqui perto. Vai ficar todo contente!

Era realmente ali perto e o senhor Rosas ficou todo contente. Quis logo que nos sentássemos na varanda e foi dizendo:

— Vindes em boa altura! Tenho uma esplêndida carne de búfalo novo; vou já arranjar uns bifes e umas costeletas...

— Para mim, não! — cortei, aflito.

— Ora essa!... Por quê?! — admirou-se o senhor Rosas.

— Desculpe... é que acabámos agora mesmo de comer este mundo e o outro...

—Bem... Bem!—respondeu desalentado, mas logo a berrar lá para dentro:

— Hassan!

Apareceu um negro, a limpar as mãos, a fazer vénias e a sorrir de orelha a orelha.

— Prepara uns bifinhos e umas costeletas daquela carne... com aquele molho... Tu sabes como é.

Hassan sabia como era. Meia hora depois, apareceu na varanda com uma travessa enorme no meio de uma pequena mesa portátil, já posta para três pessoas. O cheiro da carne apanhou-me de surpresa. Era de tal maneiras agradável e penetrante que até as glândulas salivares me doeram!

— Vai uma pontinha, doutor, só para provar? — perguntou-me o senhor Rosas de olhinho irónico.

— Isso cheira pela vida... — consegui dizer em plena vertigem.

A pontinha de carne que o senhor Rosas me pôs no prato «só para provar» foi uma costeleta do tamanho de uma raquete de ping-pong espessa, suculenta e aromática...

A princípio com uma certa cerimónia e depois com uma certa gula lá fui andando pela costeleta fora. Acabei a «raquete» como mandam as regras: pegando-lhe pelo cabo... Quando pousei o osso rapado, diz-me o senhor Rosas com sorriso de vitória:

— Então, doutor, estava boa?

A vitória não foi do senhor Rosas. Foi da África. Daquele sentir tudo de novo, como uma estreia dos sentidos, em cada momento que passava.

Conheci Megama Abdul Kamal muito antes de o vir a encontrar, frequentemente, na Pensão Miramar. Megama era régulo do Chiure, com influência religiosa numa larga faixa de terreno entre o Rovuma e o Lúrio. Homem abastado, senhor de terras e camiões, era também transportador habitual da grande companhia algodoeira Sagal.

Fui a sua casa a convite do Armando Cepêda, chamado a consertar o motor de um poço. Nas apresentações vi que eram grandes amigos. Julgo que, por isso, Megama me olhou logo com respeito e franqueza, sem duvidosa humildade dos negros daquele tempo.

O motor ficou composto num instante. Nós levámos mais tempo... Megama quis que provássemos de todos os seus petiscos. Seu era também o café, da planta à chávena. A mâozada firme e confiante com que nos despedimos havia de repetir-se, vezes sem conta, por todo o meu tempo de Porto Amélia.

No regresso ao jeep, ouvi falas e risinhos por detrás de uma paliçada. Notando a minha estranheza, Armando Cepêda logo me esclareceu:

— São as mulheres de Megama...

Na cidade, vim a saber pelo Jaime Ferraz que deveriam ser umas sete... Em Porto Amélia o Jaime sabia um pouco de tudo!

Um dia, Megama apareceu no Hospital Militar todo dobrado e cheio de dores. Era uma hérnia estrangulada, há três dias... Os cirurgiões costumam «berrar» com os doentes por virem tão tarde, em evidentes situações de solução cirúrgica. Mas o Dr. Manuel Simões Coelho não berrou. Tratava-se de Megama Abdul Kamal! E por se tratar de tão importante personagem o post-operatório teve aspectos de peregrinação.

Vinham negros de toda a parte, trazidos por aquele fio invisível que é o sentimento religioso, temperado na fé e na obediência.

Com o vai e vem da gentiaga, a vida do hospital acabou por se perturbar. Ao ponto de, pelo terceiro dia, o Simões Coelho me pedir:

— Tu, que és todo amigo do Megama, podes garantir-lhe que está livre de perigo, que tudo vai correr bem... e pedir-lhe que faça constar as suas melhoras, a ver se acaba esse corrilório!...

Assim fiz. Megama compreendeu e actuou muito bem. As visitas acabaram de um dia para o outro. Nem umas só voltou a aparecer! Ainda hoje me espanta o extraordinário poder de comunicação dos negros naquelas lonjuras primitivas, sem rádio, sem telefone e sem correio.

Armando Cepêda era um caso curioso de fotógrafo. Nem amador, nem profissional. Era fotógrafo de ocasião, para ganhar uns cobres suplementares. Essa ocasião surgia quando os indígenas precisavam de retrato para a caderneta. Dava-lhe jeito aproveitar os domingos, que no mato não têm qualquer significado. Era sempre recebido nas aldeias com grandes manifestações de contentamento. Nas pausas da algazarra, fotografava quatro negros de cada vez, sentados numa tábua. Depois, no «estúdio», a tesoura lá os separava. No domingo seguinte, a caminho de outra, passava pela aldeia fotografada e distribuía os retratos. Havia corridinhas e gritos de alegria, com todos a querer ver a cara de cada um no retalhinho de papel.

Um dia houve um pequeno acidente... Toda a gente parecia satisfeita, quando apareceu uma reclamação, já com o jeep a ronronar a partida.

— Patrão!... Patrão!... esta não é do nosso!

— Não é tua?! É tua, sim senhor!! — garantiu Armando Cepêda olhando para o negro e para o retrato.

—Não é!... Não é!... Nosso não tem chapéu!

Armando Cepêda sabia lidar com os negros. O grande respeito e admiração que lhes infundia emanava do seu grande espírito de justiça e bondade. Além disso, era um branco forte, compunha máquinas e matava leões.

Não teve a mínima dificuldade em desfazer o equívico. Pôs a mão no ombro do negro e sossegou-o, assim:

— Ah!... o chapéu?... Fui eu que pus. É saguate! (brinde, oferta)

Os olhos do negro rebrilharam com aquela gorjeta inesperada. Depois vieram as palavras de gratidão de uma boca babada de riso:

— Brigado, patrão!... Brigado, patrão!...

E partiu, a misturar-se com os outros. Talvez a fazer-lhes inveja.
- Do "Livro de Andanças" do escritor da Régua e do Douro Camilo de Araújo Correia. Extraído do site "Pemba-Peso da Régua - Histórias Perdidas".

4/21/09

Moçambique - Purificação das águas através de semente de uma planta.

16 projectos de desenvolvimento na área da ciência e tecnologia em Moçambique.

O governo moçambicano atribuiu hoje 16 milhões de meticais (431 mil euros) a 16 projectos locais de desenvolvimento na área da ciência e tecnologia, um deles de purificação das águas através da semente de uma planta. Os projectos foram atribuídos através de um Fundo Nacional de Investigação, criado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em 2005 e que já atribuiu verbas a projectos como o da investigação em búfalos de doenças de animais transmissíveis aos homens.

Hoje receberam apoios projectos como o desenvolvimento da cultura intensa na planície de Xai-Xai (província de Gaza), para apoiar 150 crianças órfãs, o regadio de Moidumbe (Cabo Delgado) ou as energias renováveis em Panda (Inhambane).

O Ministério apoiou também um projecto de desenvolvimento da cultura da Moringa oleífera em Mabalane, província de Gaza, que para já vai dar emprego a 30 pessoas, pretendendo-se sensibilizar 32 mil pessoas para a importância do cultivo da planta. Segundo o administrador de Mabalane, Manuel Macamo, a cólera e a diarreia matam 600 pessoas por mês no distrito, na maior parte dos casos por falta de água potável. No distrito, adiantou, só 25 por cento da população conhece a cultura da Moringa, uma planta que se adapta bem a ambientes secos, como é a província de Gaza. A Moringa, uma planta originária do norte da Índia e com alto teor de vitaminas A, C e Cálcio, pode ser utilizada como purificador natural através das sementes trituradas, substituindo os purificantes químicos, caros e nem sempre disponíveis, salientou Manuel Macamo.

Mortes por água não potável.
O responsável frisou que o uso da Moringa como purificador de água pode reduzir substancialmente o número de mortes atribuídas à ingestão de água não potável, além de que a planta pode comer-se e pode ser utilizada, folhas e polpa, como adubo. Os frutos, as folhas e as sementes torradas podem ser consumidos e o óleo obtido das sementes para preparar alimentos e ainda para fazer sabonetes e combustível para candeeiros. A cerimónia de hoje foi presidida pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Venâncio Massingue, que lembrou o compromisso do governo de até 2010 disponibilizar um por cento do PIB para a área da Ciência e Tecnologia. A Ciência e Tecnologia recebia há quatro anos 0,23 por cento do PIB, percentagem que passou para 0,8 por cento no ano passado, disse o ministro.
- 20/04/2009 - "Ciência Hoje"

4/18/09

OS LEÕES DO DIABO - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão).

(Clique na imagem para ampliar - Imagem original do ForEver PEMBA)

Era madrugada. Uma chuva miúda caía obliqua e desinteressada sobre a vasta e densa floresta de Ninga. O vento soprava levemente enquanto os pássaros encolhidos nos ninhos, construídos nos galhos de árvores frondosas e seculares, chilreavam anunciando o alvorecer. As sombras da noite desapareciam lenta e pausadamente como se despedissem do ambiente, rumo ao outro lado do mundo.

Algum tempo depois, os aldeões de Ninga acordaram, pausadamente e um de cada vez, como é lógico, todos ressacados pelo terror de um casal de leões que decidira, há sensivelmente um mês, atormentar a pacata aldeia em protesto a actos pouco toleráveis para os felinos, uma vez que, vezes sem conta estes viam seus rastos seguidos pelos aldeões sempre que abatessem uma presa, e, como consequência era-lhes roubada a carne comprometendo assim a sua subsistência. Sem alternativa, os felinos viam-se atentados a atacar os seres humanos, principalmente, as mulheres que passavam a maior parte do dia no campo cultivando com os filhos às costas. Já viciados pela carne humana, os felinos viam o retrocesso dificultado, uma vez que, consideravam o Homem uma presa fácil. Daí que, dia-após-dia, vários casos mortais causados por ataques de leões eram reportados na aldeia semeando o terror entre os aldeões.

No entanto, naquela manhã de chuva miúda Cosme acordou sobressaltado. O coração batia-lhe forte e a respiração tornava-se cada vez mais arquejante. Sentou-se a beira da cama ainda perplexo e incrédulo correu os olhos à volta do aposento, como se procurasse algo misterioso que vira há escassos momentos, e no fim, passou a palma da mão esquerda na face limpando o suor que lhe escorria pela face abaixo. Suspirou profundamente como se com o suspiro quisesse manifestar o alívio de se ver salvo de um perigo real; Acordou a mulher que dormia profundamente abraçada ao bebé e quando sentou-se no meio da cama abraçou-a expansivamente. Admirada, a mulher limitou-se a olha-lo como se este estivesse em exposição. Cosme olhou a mulher nos olhos no meio da penumbra e no final, com a voz enrouquecida, disse:

- Tive um mau sonho. - Calou-se. Pareceu ordenar as ideias e depois prosseguiu. - Vi um homem correndo na floresta apavorado. Passou por mim dizendo algo imperceptível e mais adiante, próximo a uma clareira foi subitamente atacado por dois leopardos e caiu no chão inerte. De seguida, arrastaram-no para o coração da floresta olhando-me nos olhos como se quisesse me dizer algo. Dali, um estranho redemoinho fez-se presente no meio da clareira levantando para o céu tudo quanto havia solto no chão e do nada ouviu-se o pranto de um bebé e acordei assustado.

Cosme calou-se. Baixou os olhos, manteu-se pensativo e visivelmente dominado pelo sonho.

- Penso que é normal. - Sossegou a esposa. - Deve ser o reflexo da situação que vivemos na aldeia nos dias que correm.

- Não. - Atalhou meneando a cabeça. - Isto não vem atoa... deve ser algum aviso dos antepassados.

- Como?

- Algo estranho vai acontecer nos próximos dias com alguém da nossa família.

- Deus me livre! - Disse a mulher amarrando a capulana à parte superior dos seios. - Bate a boca... Isso é besteira e nada disso vai acontecer, salvo se fôr obra de feiticeiro.

- Está bem! - Cosme ergueu-se da cama. Vestiu-se rapidamente e fez movimento para caminhar em direcção ao quintal. - Façamos de conta que é definitivamente uma bobagem; Mas cá por mim, o caso é sério...

A mulher abanou a cabeça, abandonou a cama e começou a preparar-se para a nova jornada do dia na machamba.

Já no quintal, Cosme alimentou os porcos, patos e as galinhas. Afiou a catana, juntou os instrumentos da machamba e sentou-se num tronco acendendo o tabaco com um pedaço de lenha acesa, que ao longo da noite resistira à intempérie no meio da cinza da fogueira, feita na varanda da palhota.

Pouco depois, Cosme vociferou:

- Óh, mulher vamos embora. Está ficando tarde...

- Já vou, pai de Nené. - Respondeu a mulher na palhota e continuou. - Estou a separar o milho para a sementeira...

- Seja rápida. O tempo não espera à ninguém.

Dito isto, Cosme continuou a fumar o tabaco enrolado no papel caquí. De quando em vez, aspirava voluptuosamente o fumo envadindo temporariamente o espaço em que se achava acomodado e, noutras vezes, tirava a fumaça pelas narinas e, imprimindo uma dose de pressão, a fumaça esbranquiçada formava duas linhas grossas que se diluiam lentamente no espaço.

No entanto, tossiu duas vezes e, finalmente, a mulher apareceu na porta com o bebé às costas e uma enorme peneira sobre a cabeça. Atravessou a porta fechando-a nas costas; Já no meio do quintal tomou a enxada e caminhou colocando-a no ombro. Em silêncio, Cosme ergueu-se, apagou o tabaco na areia e emitando o gesto da mulher, levou uma catana na mão e armou-se de arco e flecha.

No limiar da aldeia, o casal parou para saudar uma família amiga que se dirigia à machamba que ficava no lado sul da aldeia.

- Óh, Cosme! Como vai a família? - Quis saber um idoso de barbas desleixadas que vinha também na companhia da família.

- De saúde estamos bem. Os porcos, as galinhas, os patos e outros animais lá de casa estão de saúde graças aquele - Apontou no céu num ponto impreciso e acrescentou - que nos fez e criou...

- Isso alegra-nos ouvir. - Disse uma mulher que parecia esposa do velhote de barbas desleixadas.

- A porca pariu quatro crias e a família alargou. - Informou Cosme visivelmente emocionado.

- A notícia é confortante... - Retorquiu o velhote pousando uma trouxa no chão.

- Acompanhou a notícia de ontem à tarde? - Inquiriu a mulher que vinha com o velhote.

- Não. - Atalhou Cosme aguçado pela curiosidade. - O que sucedeu desta vez nesta nossa linda aldeia?

- Ontem às seis da noite, nas casas próximas ao terreiro, uma mulher de meia idade foi atacada por um casal de leões ao afastar-se da palhota para fazer necessidade menor. O marido, que se encontrava sentado na varanda da palhota, apenas ouviu um grito de aflição e quando acudiu era tarde! O homem apenas apanhou um pedaço de lenço que a mulher trazia na cabeça e todo estava ensanguentado!

- E os vizinhos? Que fizeram nesse momento?

- Quando os vizinhos acudiram puseram-se imediatamente ao encalço do rasto no meio da escuridão já pesada e no bosque próximo ao velho cemitério, no meio do capim, acharam a cabeça e o braço da mulher e logo presumiram que os leões haviam arrastado o resto do corpo. De manhã só apanharam algumas peças insignificantes do corpo.

- Isso é triste e incrível se tivermos em conta que a zona há um tempo atrás era aparentemente despida de situações similares e de um momento para o outro, como vindo do nada, aparece-nos situações de leões...

- Este cenário não é normal, caro Cosme! - Concluiu o ancião consternado. - Creio que estes leões são movidos por um feiticeiro que tem problema com um familiar ou alguém qualquer. Esse feiticeiro transforma-se em leão juntamente com outra pessoa de sexo feminino, que pode até ser esposa, afim de atacar seus inimigos.

- Até que isso pode ser verdade! - Observou Cosme. - Pois, os leões de Deus não atacam pessoas.

- Mas que fazer?! - Inquiriu o ancião erguendo sua trouxa e fazendo movimento para caminhar.

- Os aldeões devem reunir-se para estudar esta situação... - Respondeu Cosme.

- Adeus, Cosme.

- Adeus, meu velho.

O ancião iniciou a caminhada juntamente com a família que lhe aguardava pacientemente a beira do caminho, entre capim verde e seco.

- Tenha um bom dia de trabalho e veja se regressas cedo a casa!

- Não se preocupe, meu velho. Eu estou já preparado para o que vier. Eu é que surpreenderei os leões antes deles pensarem em fazer o que fôr comigo ou com a minha família.

- Deus te ouça. - Gritou o velhote de costas viradas para o seu interlocutor.

As famílias separaram-se e o casal mergulhou-se na floresta com destino a machamba que distava há cinco centenas de metros da povoação. Enquanto caminhava no meio da floresta densa seguindo um caminho serpenteante que se perdia pela mata adentro e que se cruzava com outras tantas que conduziam à diversos destinos dentro da floresta, Cosme e sua companheira iam ouvindo o chilreio dos pássaros, o trautear incessante das cigarras, o barulho de macacos empoleirados nos galhos das árvores e as vozes entrecortadas dos aldeões que se entregavam ao labor nos campos distantes e verdejantes.

Volvidos alguns momentos, chegaram a machamba. A mulher pousou no centro do campo a peneira que trazia à cabeça. Enclinou o corpo para afrente, desamarrou o bebé no colo e voltou a amarra-lo com tenacidade. De seguida, começou a trabalhar a terra cantarolando feliz com a vida. Em silêncio, Cosme afastou-se da machamba enternando-se na floresta afim de arranjar algumas estaca para concertar o curral de porcos na sua casa.

Passado algum momento, Cosme ouviu um forte grito de aflição e saiu da floresta correndo a sete pés para acudir. Ao chegar na machamba deparou-se somente com a capulana ensanguentada e o bebé a chorar no chão, todo coberto de lama. Tomou o bebé e com a catana no punho precipitou-se a seguir os rastos com vingança na alma.

- Floraaaaa! - Cosme soltou um grito rouco de raiva e continuou. - Floraaaa! Cadê você!...

Vinte metros da machamba e próximo a um arbusto, parou repentinamente: um casal de leões disputava o pescoço da Flora abocanhando-a vezes sem conta e sem vida. Ao aperceber a presença do homem, o macho parou e rosnando fez frente ao estranho exibindo seus dentes afiados e olhos amarelos.

- Daqui não saio sem a minha Flora. - Disse Cosme em voz alta e segurando firmemente a catana com a mão direita. - Sei que vocês não são leões de Deus e por isso, daqui não saio sem o que é meu...

O leão continuou a rosnar procurando amedrontar o homem e reduzindo paulatinamente a distância que lhes separava. Com um movimento lento e atento, Cosme recuou alguns passos procurando controlar os ânimos do felino. De repente, a fêmea desapareceu pelo mato arrastando o corpo morto da mulher, e, vendo esta atitude, o macho seguiu-a desaparecendo ambos pela mata densa. Inconformado, Cosme seguiu-os novamente, como um búfalo ferido, varrendo com a catana tudo quanto era obstâculo à sua frente e próximo a um riacho viu os felinos galgando uma pequena elevação sem a presa. Apercebendo-se disso, Cosme procurou avistar o corpo e de súbito viu-o preso nos espinhos de duas árvores tombadas à beira do rio e do lado onde se achava. Correu desesperado até junto ao corpo, onde desamarrou uma das capulanas que ainda restava e, ensanguentada, serviu-se para amarrar nas costas o bebé que não parava de chorar. Atento a tudo, ergueu o corpo tombado; Calmamente, rodou pelos calcanhares e procurou voltar a aldeia com o cadáver nos braços.

Caminhou durante muito tempo olhando para atrás e às vezes parando desconfiando ser seguido. Já próximo ao limiar da aldeia parou para descansar. Nesse momento, deitou a vista em redor e há uma centena de metros viu o casal de leões atravessando o caminho em diagonal, dirigindo-se lentamente ao lado sul da povoação muito atento ao homem e a presa. Desconfiado, Cosme retomou a marcha e nas primeiras casas da povoação foi recebido por homens e mulheres no meio de gritos de espanto e pavor.
- Allman Ndyoko (Francisco Absalão), Abril 2009 - Extrato do livro Contos de Infância Distante.

O Autor:

  • Francisco Absalão;
  • Nome artístico -Allman Ndyoko;
  • Nasceu em 11 de Abril de 1977 na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado em Moçambique;
  • Residência actual - Maputo;

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