6/19/09

Para a História do Ensino em Moçambique - parte 4

(Clique na imagem para ampliar. Imagem original daqui..)

PARA A HISTÓRIA DO ENSINO EM MOÇAMBIQUE - ESCOLAS E ALUNOS DE CABO DELGADO HÁ 150 ANOS: MATÉRIAS, FREQUÊNCIA, APROVEITAMENTO E PROBLEMAS .
Por Carlos Lopes Bento(1)
(Continuação daqui)

IV PARTE
Sistema de Ensino e matérias lecionadas.
1857-2º Sem.

As matérias de Ensino e o sistema seguido durante o Semestre, foram os mesmos que nos outros se tem seguido, a saber:
- Ler, Escrever e Contar;
- Doutrina Cristã, Moral e Civilidade;
- Gramática Portuguesa, Análise e Regência gramatical;
- Aritmética propriamente dita;
- Ortografia e Caligrafia prática;
- Noções da Historia Sagrada, do Velho e Novo Testamento;
- Noções de Geometria, Geografia e Historia ge¬ral e de Portugal;
- E desde 7 de Dezembro próximo passado, em que lhe foi dada, por substituto João Ferreira do Costa Sampaio, têm também tido regularmente o Ensino de Francês e Inglês.
Tudo pelo sistema de Ensino Simultâneo Normal.

Todos os alunos da Escola frequentaram as três pri¬meiras matérias, e frequentam por escala e segundo os seus adiantamentos as que se lhe vão seguindo. Uns 21 alunos frequentaram Gramática Portuguesa, e, destes, uns 8 se exercitaram em análise e regência gramatical, em ortografia prática, em noções de Geometria, de Geografia, de Historia Sagrada e de Portugal. Uns 30, com mais ou menos aproveitamento, se exercitaram em caligrafia prática, e os mais, segundo o adiantamento ou progressos que vão apresentando, foram passando das classes inferiores para as superiores da escrita. Uns 12 alunos na Escola, que desenvolvem operações maiores de Aritmética, em maior ou menor escala, segundo o adiantamento que vão apresentando; e além destes, muitos desenvolvem as quatro espécies fundamentais, e outros se exercitam nelas.

Finalmente, de entre os alunos, alguns há, que tendo frequentado todas as matérias de Ensino Primaria superior, que se ensinam nesta Escola, se aperfeiçoam nelas e se adiantam em contabilidade; e, destes, uns 6 frequentavam ao mesmo tempo a Língua Francesa, e 1 a Inglesa, com aproveitamento, e pelo seu desenvolvimento em todas as matérias, perguntados, não envergonharão o Professor que os ensinou, nem farão desmerecer o seu tra¬balho e método de Ensino, enfim, todos os alunos que se acham em circunstâncias disso, passam de umas matérias às outras sucessivamente.

1858-1º Sem.
O sistema de ensino tem sido o mesmo seguido nos anteriores semestres: o ensino simultâneo normal; e as matérias ensinadas durante o semestre, as mesmas do semestre anterior, a saber:
- Ler, Escrever, Contar;
- Doutrina Cristã, Moral e Civilidade;
- Gramática Portuguesa;
- Análise e Regência;
- Caligrafia e Ortografia, prática;
- Aritmética propriamente dita;
- História Sagrada, do Velho e Novo Testamento;
- Noções de Geometria, de Geografia e História em geral e de Portugal; e
- Francês.

Aproveitamento.
1857-2º Sem.
E pode com verdade dizer-se, que, no geral, todos, têm tido aproveitamento, tanto quanto as circunstâncias especiais deste País, e a qualidade dos Escolantes o permite.
Este aproveitamento seria indubitavelmente maior, e mais fácil de conseguir, se a Escola tivesse um Ajudante competente, porque, o número de alunos e de matérias que ensina, e tem de ensinar, como Escola graduada, altamente o reclama, pois é sabido e conhecido, que quando os alunos duma Escola excedem a 30, já ela para ter bom e regular andamento, carece de um Ajudante.
1858-1º Sem.
Todos os alunos, no geral, frequentaram, regularmente, tiveram na verdade bom aproveitamento, tanto quanto as circunstâncias especiais do País o permitem.(139)
E cinco houve, dos mais adiantados, que frequentaram com vantagem o Francês. E um que frequentou o Inglês, enquanto o substituto lhe pode dar lição.
É verdade que este aproveitamento será indubitavelmente maior e mais fácil de conseguir, e mesmo teria melhor andamento a Escola, se o seu professor tivesse um ajudante competente; porque o número de alunos e de matérias que ensina e tem de ensinar altamente o reclamam; pois é verdade reconhecida que quando os alunos de uma escola excedam a 30, já ela, para ter bom andamento, carece de ajudante.

Falta de assuidade e suas consequências
1857-2º Sem.
A pouca assiduidade dos alunos deste País e as amiudadas faltas que comentem, a sua pouca inclinação, no geral para o estudo, são também um tropeço não pequeno para o encarregado da educação e instrução da mocidade; porque, já pelas amiudadas doenças que afligem as crianças neste País, já porque mui a miúdo perdem semanas inteiras de aplicação, por irem para o Continente com as famílias que para aí vão curar das suas culturas; e já, finalmente, por eles não serem aplicados, pela maior parte fazem longas e amiudadas faltas, que não há remédio senão tolerar e dissimular, atentas as circunstâncias especiais do País. Faltas estas que forçam o Professor a ensinar aos estudantes, por duas, três e quatro vezes o que já es¬tava ensinado e aprendido. E que aumentam consideravelmente o trabalho do Professor, e fazem com que os alunos percam os seus lugares de classe, e fazem, finalmente, com que seja impossível explicar as matérias por classe: o que tão conveniente e recomendado é em todos os sistemas de Ensino.

1858-1º Sem.
Muito é para lastimar também a pouca assiduidade dos alunos e as amiudadas e longas faltas que cometem e a pouca inclinação que têm para o estudo, no geral, faltas que não há remédio, senão tolerar e dissimular, atentas as circunstâncias especiais que se dão. Doutro modo, nenhum aluno haveria na Escola. Inquestionavelmente reconhece-se que é condição e hábito dos Povos menos ilustrados. Condição e hábito que só com o tempo, paciência e perseverança se pode pouco a pouco suavizar.
Não é porém menos verdade que estes factos paralisam completamente os esforços dos Professores e forma, sem contradição, um grande tropeço para o encarregado da instrução da mocidade.
Porque já, pelas amiudadas doenças que afligem as crianças neste País, já, por muito amiúdo perdem semanas e meses de frequência, por irem para o continente com as famílias que para ali vão tratar das suas culturas, já, finalmente, por serem pouco aplicadas e terem, no geral, pouco gosto pelo estudo, cometem, como disse, largas e amiudadas faltas, que não é possível deixar de tolerar em vistas das circunstâncias que se dão.
Infelizmente, porém, estas faltas forçam o Professor a ensinar aos estudantes por duas, três, quatro ou mais vezes o que já estava ensinado e aprendido; Fazem que o estudante tenha de andar na escola triplicado tempo, do que andaria se estes factos não se dessem, aumentando consideravelmente o trabalho do Professor e fazem com que os alunos percam os seus lugares de classe; Finalmente que seja impossível explicar aos alunos as matérias por classes, o que é de tão reconhecida e recomendada utilidade.

Localização, funcionalidade do edifício e serviço de limpeza.
1857-2º Sem.
A localidade da Escola e seu edifício também não é o mais conveniente, nem se presta aos fins para que estão servindo. É pouco central e adequada e, além disso, carece de reparos e arranjos, especialmente, a clarabóia que lhe dá a principal claridade, que, por mal construída, por mais consertos que se lhe façam, introduz sempre na Escola toda a água que em qualquer dia de chuva lhe cai em cima, e alaga a bancada principal dos alunos, o que alem de inconveniente há-de acabar um dia de arruinar completamente o terraço e inutilizar a Escola.(30)
O serviço e limpeza da Escola também não é feito, nem o pode ser com a regularidade necessária, por não haver quem o faça.
A Escola, actualmente, não tem nenhum servente efectivo, como teve sempre, para ser empregado neste serviço, não podendo deixar de ter, ao menos um servente constante, para lhe fazer a limpeza.

1858-1º Sem.
A localidade da escola e seu edifício não é também a mais conveniente e pouco se presta para os fins. É pouco central e adequada e muito carece de reparos, porque o centro do seu terraço está ameaçando ruína, como já foi visto pelo Inspector das Obras Públicas; e a não ser os pontaletes colocados, necessariamente, já teria havido um desastre. E nos dias em que há chuva, alaga e põe em completa desordem toda a Escola pela imensa quantidade de água que mete dentro dela, o que é negócio que reclama providências.

Em 26 de Maio de 1860, o Boletim Oficial de Moçambique publica o “Mapa do Movimento dos alunos da Escola Principal de Instrução Primária da Província de Moçambique, durante o 2º semestre do ano de 1859, declarando quantos são os alunos europeus, nativos e asiáticos que frequentaram a Escola no dito semestre e a religião a que cada pertence”, datado de 15.4.1860 e assinado pelo Professor Guilherme Henrique Dias Cardoso. Dele extraíram-se os seguintes dados:

  • Existiam em 1.7.1859, 44 alunos, sendo:
    -4 Europeus Cristãos da cidade de Moçambique;
    -24 Cristãos Nativos: 17 da cidade de Moçambique, 1 Inhambane, 2 Sofala, 2 de Tete e 2 do Ibo:
    -16 Mouros Nativos: 13 da cidade de Moçambique, 1 de Lourenço Marques, 2 Inhambane.
  • Entraram no 2º Semestre de 1859, 12 alunos, sendo:
    -2 Europeus Cristãos da cidade de Moçambique;
    -5 Cristãos Nativos: 4 da cidade de Moçambique e 1 Quelimane;
    -4 Mouros Nativos da cidade de Moçambique;
    -1 Asiático Cristão da cidade de Moçambique.
  • Saíram no 2º Semestre de 1859, 13 alunos, sendo:
    -2 Europeus Cristãos da cidade de Moçambique;
    -5 Cristãos Nativos: 2 da cidade de Moçambique e 2 Tete;
    -6 Mouros Nativos: 5 da cidade de Moçambique e 1 de Lourenço Marques.
  • Existiam em 31.12.1859, 43 alunos, sendo:
    -4 Europeus Cristãos da cidade de Moçambique;
    -24 Cristãos Nativos: 18 da cidade de Moçambique, 1 Inhambane, 2 Sofala, 1 Quelimane e 2 do Ibo;
    -14 Mouros Nativos: 12 da cidade de Moçambique e 2 Inhambane;
    -1 Asiático Cristão da cidade de Moçambique.
  • Os alunos saídos tiveram os seguintes destinos:
    -3 foram para Lisboa na Fragata
    -2 embarcaram para aprender pilotagem
    -3 foram aprender ofícios
    -4 voltaram para as famílias
    -1 foi riscado por incorrigível.
1) - Prof. Univ. e Antropólogo.
(continua)

  • Para a História do Ensino em Moçambique - Parte 3 - Aqui!
  • Para a História do Ensino em Moçambique - Parte 2 - Aqui!
  • Para a História do Ensino em Moçambique - Parte 1 - Aqui!
  • Post's do ForEver PEMBA para a consulta em "Pesquisas" sobre Carlos Bento, Quirimbas, Ibo, História de cabo Delgado - Aqui!

6/18/09

Pemba na galeria de Sanne Houlind - flickr!

(Clique na imagem para ampliar)

Esta segunda imagem da interessante "galeria de Sanne Houlind" mostra um bairro da cidade de Pemba. E, o que nos chama a atenção, é o crescimento desorganizado da cidade, notório na imagem, e o perigoso lixo que se vai acumulando pelas vielas à volta das habitações populares... Velhos costumes a dispensar com urgência e atitudes rigorosas, necessárias que se esperam dos gestores municipais, no plano urbanistico, para que Pemba não se transforme (se não é que já se transformou) num centro de doenças e insalubridade e numa, a breve prazo, decadente, caótica, pretensa cidade turística.
  • Galeria de Sanne Houlin no flickr em slide-show:



6/17/09

Ilha do Ibo na galeria de Sanne Houlind - flicKr!

Passem por Aqui, revejam a histórica Ilha do Ibo e não só!

6/14/09

Ronda pela net: Jornalismo brasileiro relembra o Moçambicano Eusébio - Pantera Negra...

Encontrei hoje na net.
Transcrevo pela dimensão deste ídolo grandioso e ao mesmo tempo simples que faz parte das memórias de nossa adolescência.
Por mérito, continua a ser, para mim e muitos de nós, o NÙMERO UM do desporto português, moçambicano e além fronteiras. Tanto é assim que o brasileiro GloboEsporte.com dedica-lhe reportagem neste dia 14 de Junho.
Aqui fica, com a devida vénia à "Globo", porque vale a pena ler e é homenagem a este gigante do futebol luso-africano que sempre recordaremos, gratos por todas as alegrias que nos fez viver:

""Amigos do Pantera Negra relembram histórico do maior craque do futebol português e revelam que apelido do jogador quando criança era 'Didi'. - Eusébio conseguiu reconhecimento internacional e títulos jogando pelo Benfica e pela seleção portuguesa durante as décadas de 60 e 70, mas a glória é compartilhada pelo povo de Moçambique, terra natal do craque, que reencontram o ídolo que costuma fazer visitas freqüentes aos amigos.

- Ele vem sempre aqui. A última vez foi em janeiro e quando chega é aquela festa. Ele jogava com os dois pés, corria muito e, tecnicamente, era o melhor. Tinha um chute mortífero impressionante. A qualquer distância o “gajo” marcava. - contou Bessa, ex-companheiro de Eusébio no Sporting do Moçambique no começo da década de 60. Segundo ele, Eusébio - que nasceu no dia 25 de janeiro de 1942 quando Moçambique era ainda uma colônia portuguesa - está no mesmo patamar que Pelé e Maradona. - Se for para citar outros grandes comparados a ele, lembro apenas desses dois.

Guerra complica o futebol no Moçambique - Além do Sporting do Moçambique, o companheiro de Eusébio jogou em grandes clubes do país como o Textáfrica e Ferroviário na época em que o futebol tinha uma exposição muito maior. Hoje, a paixão dos moçambicanos permanece, mas o esporte ainda se reergue, junto com todo o país que ficou em ruínas com a guerra civil (1976/1992).

- A guerra atrasou muito o nosso país. Não podíamos viajar, jogar, disputar torneios por conta dos conflitos - conta Bessa. Nessa época, Eusébio já estava bem longe e quase pendurando as chuteiras (1979) após, entre muitas conquistas, ser considerado o melhor jogador do Mundial de 1966. Atualmente, 17 anos após o término do conflito, o esporte caminha para o crescimento.

- Acho que o futebol moçambicano está melhorando. Muitos jogadores vão para o exterior e adquirem mais experiência. O Dominguez, por exemplo, é um deles - afirmou Bessa sobre o jogador que está no futebol sul-africano.

“Os Brasileiros”, o primeiro time de Eusébio - Natural de Maputo, Eusébio começou a dar seus primeiros dribles no bairro de Mafalala, região bem pobre, a cerca de 15 minutos do centro da capital (que na época, ainda se chamava Lourenço Marques).

- Ele praticamente nasceu jogando bola. Quantas vezes deixava de ir ao colégio só para jogar futebol! Era uma ligação impressionante! Eusébio sempre foi simples, uma pessoa muito boa e um fenômeno nos gramados – afirmou Alfredo da Silva, amigo de infância de Eusébio que serviu como guia da reportagem do GLOBOESPORTE.COM em Mafalala. A primeira equipe de Eusébio foi um time amador de garotos que tinha um nome bastante sugestivo: “Os Brasileiros”. Cada jogador tinha um apelido que se referia a algum jogador canarinho da época. Eusébio, por exemplo, foi apelidado de Didi.""
- GloboEsporte.com, 14 de Junho de 2009, 10h05.

  • Eusébio da Silva Ferreira - Aqui!
  • Bessa, amigo de Eusébio, mostra fotos antigas do eterno craque do Benfica - Aqui!
  • Alfredo, outro amigo de infância de Eusébio - Aqui!
  • FOTO: Eusébio tira ‘casquinha’ da taça - Aqui!
  • Em Roma, Eusébio lembra rivalidade com Pelé ao comparar Messi e C. Ronaldo - Aqui!

Helsinki, Finland, 12-13 June 2009: Is Mozambique’s elite moving from corruption to development?

By Joseph Hanlon and Marcelo Mosse:

6/13/09

Tem coisa errada lá pelo Conselho Municipal de Pemba...

Cem dias à frente do município de Pemba: Sadique Yacub ainda não recebeu património do Conselho Municipal - O atual Presidente do Conselho Municipal de Pemba, Sadique Yacub, ainda não recebeu o património da municipalidade, porque o seu antecessor, Agostinho Ntauale, não lho facilita, cerca de 100 dias depois de tomar posse naquele cargo, para que foi eleito nas “autárquicas” de Novembro de 2008. Até aqui apenas tem o termo de mandato que enumera os bens existentes, mas tal não foi seguido de um outro procedimento, que seria a sua verificação, pelo que se considera não ter havido a entrega total do poder ao novo gestor da capital provincial de Cabo Delgado.

O “Notícias” há cerca de um mês que foi tacteando à volta deste caso e traz aqui as principais declarações dos intervenientes, a partir da confirmação que obteve de Sadique Âssamo Yacub, de que “é verdade que apenas recebi o termo de mandato, que como sabe pode se considerar um cheque, que neste caso pode ser sem provisão, porque só tem valor depois de uma boa cobrança”.

Depois da cerimónia solene de tomada de posse, Agostinho Ntauale não mais voltou a pisar o Conselho Municipal para a entrega física dos bens patrimoniais da edilidade, inviabilizando o processo que deveria ser normal de passagem do poder ao novel presidente.

A mudança de assinaturas em bancos não obedeceu ao procedimento normal de um pedido, via carta oficial, assinada pelos anteriores sacadores, se bem que o antigo presidente assim não quis, obrigando a que as contas fossem abertas com as assinaturas dos novos titulares, com base nas actas de tomada de posse, igualmente legais.

Aliás, obtivemos a confirmação de que no processo de entrega do termo de mandato Ntauale terá-se recusado a assinar cheques que seriam para salários para o mês de Janeiro.

Sadique Yacub queixou-se às entidades responsáveis em Cabo Delgado, incluindo ao partido de que os dois fazem parte, a Frelimo, do que resultou um encontro no qual Ntauale saiu a comprometer-se que faria a entrega exigida nos dias subsequentes.

Entrementes, a nova equipa vai sabendo que o município tinha em banco apenas 14.000,00Mt (catorze mil meticais) de saldo e debate-se com dívidas deixadas pelo elenco de Agostinho Ntauale, no valor exacto de 7.000.000,00Mt (sete milhões de meticais) a favor de terceiros, incluindo outras sem declarações fiáveis, que se situam em 2.000.000,00Mt.

Sadique Yacub confirma ao nosso Jornal informações que já trazíamos, segundo as quais há bens que constam do termo do mandato que os actuais gestores do município não localizam simplesmente por não existem. E que as chaves da viatura oficial foram-lhe entregues pelo motorista.

“Preocupa-nos o facto de se tratar de bens públicos. Eu já recebi o termo de mandato e não está a haver a tal oportunidade de mos serem apresentados”, lamenta o actual presidente do Conselho Municipal de Pemba.

UM MILHÃO QUE SUMIU? - O municipio recebeu durante o mandato de Agostinho Ntauale 1.000.000,00Mt (um milhão de meticais) destinados à reabilitação da residência oficial do presidente, que Assubugy Meagy, a quem este substituira, em 2003, havia secundarizado por achar extremamente oneroso. Hoje o imóvel continua sem ter sido reabilitado.

“A casa não foi reabilitada, alegando que com o dinheiro comprou material de construção, que bem gostaríamos de localizar quando fosse para nos apresentar os bens patrimoniais da edilidade”, disse.

Visitámos o referido armazém, de diminutas dimensões, onde encontrámos muito papelão, cortinas e algumas outras aquisições que cabem em três caixas que não convencem que tenham custado a totalidade do dinheiro que o Governo provincial transferira para a edilidade.

O município adquiriu aparelhos de ar condicionado, em número não revelado, congeladores e geradores que não estão na sua posse, alegadamente porque o ex-presidente levou-os para a sua residência.

O actual presidente anda na sua própria viatura, porque a oficial está a contas com as autoridades judiciais por causa de uma dívida resultante duma execução não paga em 2000 devido a um acidente em que então se envolvera. O valor inicialmente estava fixado em 15.000,00Mt, que se está dilatando a cada dia que passa, hoje situado em 200.000,00Mt.

“Aqui a questão não é pagar, mas sim inteirar-me do que tenha acontecido, pois é necessário saber em mãos de quem é que estava o carro quando se deu o acidente. Pagar por pagar não ajuda, senão passarei a ser pagador de problemas que nem sequer me são correctamente encaminhados”, respondeu-nos Sadique Yacub, em face da nossa pergunta sobre se o município não tinha dinheiro para pagar a multa.

Entretanto, algumas famílias do bairro de Chiwiba, uma das zonas destinada à construção de empreendimentos turísticos de luxo, estão a acossar a edilidade por terem sido retiradas das suas áreas para projectos do Grupo Siderúrgico e Metalo-Mecânico FERPINTA, do norte de Portugal, aparentemente sem terem sido indemnizadas para assegurarem o seu futuro.

O nosso Jornal, que há menos de um mês esteve na cidade de S. João da Madeira, onde se localiza o grupo, há 35 quilómetros do Porto, soube que o valor estipulado havia sido transferido na totalidade para o município já faz tempo e o administrador daquele complexo industrial, Paulo Pinho Teixeira, assegurou-nos ter enviado para Agostinho Ntauale o dinheiro para sanar as dificuldades que decorreriam da movimentação das famílias, no valor de 680.000,00Mt.

Enquanto não se dão os passos normais para uma boa passagem de testemunho vão chegando ao gabinete do presidente cheques devolvidos, sem cobertura, de novo que lesam a terceiros. Pelo menos dois foram identificados, nomeadamente a favor da gasolineira ÊXITO, no valor de 80.000,00Mt e a um talho, na quantia de 90.000,00Mt.

“Estas duas dívidas tivemos que pagar agora neste mandato”, esclarece Sadique Yacub.

SUPER-WIMBE, UMA OUTRA DISPUTA QUE VAI NASCER - O Restaurante Super-Wimbe, localizado na Praia do Wimbe, encontra-se fechado há mais de um ano. Era explorado por um cidadão que sem ter violado os dispositivos contratuais viu-se preterido através da quebra unilateral do contrato, meteu o caso nas instâncias judiciais que não havendo consenso decidiram por devolver o imóvel ao Conselho Municipal.

As novas autoridades municipais, ao querer lidar com este “dossier”, decidem devolver ao arrendatário, mas colidem com uma realidade às avessas. Na verdade, sem ter rescindido o contrato com aquele, o restaurante acabou sendo arrendado a uma cidadã, de relações familiares do antigo presidente, ao valor de 800,00Mt ao mês, contra os 1 555,00Mt que aquele cidadão pagava.

“Neste caso decidimos repor a justiça, devolvendo-o ao antigo arrendatário, depois de verificarmos que ele não havia violado nenhum dispositivo contratual, com todas as rendas em dia. Sucede que recebemos aqui um convite ao presidente para ir participar na inauguração do restaurante, pela nova arrendatária e nós simplesmente recusámos e desaconselhamo-los a irem à frente com a pretensão”.

O nosso Jornal tem informações de que diferentes equipas auditoras cruzam-se em Pemba, desde a Inspecção Regional-Norte, bem assim a Provincial ligada ao Plano e Finanças, que deixam recomendações que não estão a ser cumpridas por falta da colaboração do ex-presidente.

OPINIÃO DO REPRESENTANTE DO ESTADO - A nossa reportagem procurou o representante do Estado no município de Pemba, Gabriel Adolfo, colhendo o seu posicionamento em face do desrespeito a que estão votadas as normas estatais, bem como por causa dos indícios que parecem bastantes para trazer dúvidas de que tenha havido desvios em que se inclui parte do património comum.

“É preciso aclarar, em princípio, que se trata de um processo interno, pois o público é aquele que todos assistimos, da tomada de posse. É verdade que dali seguir-se-iam outros procedimentos, incluindo a entrega do património”, disse.

Gabriel Adolfo, que é jurista, disse por outro lado não caber a si a responsabilidade de intervir nesse tipo de situações porque os municípios não são subordinados à representação do Estado nos seus territórios, mas sim é uma relação de colaboração. Há-de ser por isso que não recebeu nenhuma informação oficial do que está a acontecer.

“Não fui notificado de nada, até porque nem devia, mas posso comentar sobre o que se ouve por aí, que coincide com o que o vosso jornal me está a perguntar. Também posso estranhar que isso esteja a acontecer, quando estávamos à espera que a transição fosse a mais pacífica possível, que passaria pela oferta da experiência que um tem e o outro precisa, enfim, algum aconselhamento sobre os aspectos da governação municipal”.

O QUE DIZ O EX-PRESIDENTE? - Perante este conjunto de situações, Agostinho Ntauale diz-se surpreendido e ter pouco a dizer, alegando que os órgãos locais são regidos por lei e controlados pelo Governo do dia e durante os cinco anos em que esteve à frente do município de Pemba a corresponder com a orientação do seu partido sente ter servido os munícipes conforme as suas capacidades.

“Chegou o tempo de a nível do meu partido haver quem me podia suceder, o que é salutar e penso que o novo presidente está a mostrar as suas capacidade, que louvo e admiro, vendo o que está a acontecer na recolha do lixo e as modificações que começaram na Praça 25 de Setembro”.

Em relação aos bens que não foram formal e fisicamente entregues, Ntauale disse que quis fazê-lo, mas foi aconselhado pelos presentes à cerimónia em que tal ia acontecer a não ler tudo, porque seria fastidioso e porque “eu não era funcionário do Conselho Municipal, dirigia uma órgão colegial, não estava sozinho, e os outros, conforme as áreas iriam apresentar o que houvesse por apresentar”.

“Penso que isso aconteceu, talvez o novo presidente quisesse que fosse eu a fazê-lo”, diz Ntauale, que acrescenta que a responsabilidade de quem toma posse é a partir do dia em que isso tem lugar.

Confirmou ter recebido o dinheiro para a reabilitação da residência oficial e que com ele comprou material de construção e “alguma coisa que foi feita lá na casa”.

Confirmou ainda ter recebido dinheiro da FERPINTA, cujos valores foram transferidos para a conta do Concelho Municipal para a facilitação do pagamento das taxas de uso e aproveitamento do solo urbano e benfeitorias das comunidades locais, que entretanto uma das áreas não o recebeu devido a uma informação segundo a qual os populares alteraram por excesso os inicialmente acordados. Mas o Grupo FERPINTA já está licenciado.

Por isso, na opinião do ex-presidente do município de Pemba, nada há a temer, porque todos os actos administrativos foram feitos, incluindo a entrega do relatório do fim do mandato “aprovado pela Assembleia Municipal, de que o actual presidente fazia parte e foi visto a “pente fino”. Esse relatório tem como parte integrante a lista dos bens existentes”.

O assunto relativo ao “Super-Wimbe” Ntauale diz caber às novas autoridades dar o destino que entenderem, depois que o tribunal decidiu pelo retorno ao município, o legítimo dono daquela infra-estrutura.

O MAE SABE DO QUE ESTÁ A ACONTECER EM PEMBA - Dada a invulgar desavença entre as antigas e as novas autoridades municipais, o nosso jornal procurou quem no Ministério da Administração Estatal se pronunciasse à volta deste imbróglio, tendo localizado o director nacional do Desenvolvimento Autárquico, Joaquim Macumbi, que disse que este caso é do seu conhecimento.

“O que podemos dizer neste momento é que o novo presidente vá à frente, continue com o trabalho que está a fazer e está a ser louvado pelos próprios munícipes. Vá para frente e as instituições competentes chamarão a si a responsabilidade sobre o que aconteceu antes dele tomar posse”, disse.

Macumbi acrescentou que o assunto está a ser seguido com cuidado e encarregar-se-ão do que passou o Tribunal Administrativo, a Inspecção Administrativa local do Estado, a Inspecção-Geral das Finanças e os órgãos de tutela.

“Temos conhecimento, haverá correcções e o devido esclarecimento do que terá acontecido na verdade”, finalizou.
- Pedro Nacuo, Maputo, Sábado, 13 de Junho de 2009, Notícias.