11/15/10

O QUARTO ALUGADO


Entre a aparência exterior – aparência porque existe mais o que não se vê do que o que se vê – e a revisitação da memória, havia um mundo de ilusões mortas. Sabia que o regresso físico aos espaços e aos tempos antigos já não seria possível. Era um homem cheio de incertezas e, talvez, por isso, tímido. Vivia o contencioso da vida - essa consumição incoerente em que se julga já não perspectivar retornos -, uma desencantada impossibilidade de emendar os passos. Ficava-lhe o sorriso da anuência; perdida a hora da anulabilidade, restava-lhe permanecer no testemunho. Aprendera na leitura e nos exemplos esparsos que a suportação – o estado em que nos calamos na esterilidade dos conflitos de saldo - vai, cada vez mais, sustentando-nos, como se só depois da morte se alcançasse a rectidão e em vida a parcialidade. Em muitos dos seus dias sentia uma vertigem imensurável. Não era a trascâmara dum pessimismo representado, escondendo, desde a génese, uma metamorfose, antes a procura de uma resposta - solução que substituísse os tiques da sobrevivência. Onde esse ponto na terra em que a paz seja branca? Um sítio sem olhares de desforço e sem a aniquilação dos sentimentos? Um pequeno lugar em que nos sentemos e o fim seja sempre fim, quietude total, o silêncio seja o silêncio de si próprio, a vida e a morte uma mesma coisa na compreensão de um absoluto em que não há nada a definir? Um sítio sem ser e sem ter porque simplesmente não existe, apenas uma imanência que se (a)larga às solicitações? Desejava não afunilar os dias, a sumarização dos modos e dos pensamentos que, se não contrariada, despega os laços quotidianos. Lembrava-se dos sonhos da infância - esses vigores inocentes de contornos amarelecidos - como se viáveis na idade adulta. Não se esquecia, contudo, que as vidas nunca são cheias. Se, como alguém disse, «uma

vida plena é um sonho de adolescente realizado na idade madura», não ignorava que as impossibilidades também se definem porque são elas, afinal, que melhor sossegam as necessidades... O ansiado desusa-se quando saltam os anos, pois entre uma vontade e a sua concretização tem de haver uma coincidência temporal fora da qual nada se fundamenta, e a consciência move-se e modifica-se nos trilhos da matéria e da alma humanas. Como a lembrança.

Conheceu-o no Porto, num colégio de filhos da burguesia citadina que se estendia das Antas até à Foz, de missas solenes, aulas rigorosas e padres mal encarados que julgavam, assim, disciplinar o sangue novo. Atraíram-nos as sombras dos olhares e a timidez dos gestos. Descobriram-se com os mesmos gostos e as mesmas rebeldias. Não aceitavam o País sombrio como uma prisão, nem os seus mandantes como carcereiros. O sol parecia-lhes emprestado e eles queriam-no quite. Sabiam que a guerra os esperava e não estavam dispostos a faze-la pela teimosia de velhos ditadores com pêlos no coração. Juntaram carteiras e repartiram a repugnância. Nos tempos mortos, sem aulas, desciam Santa Catarina, até ao Tribunal de Polícia, para verem o juiz aplicar as leis que condenavam miseráveis que roubavam para enganar a fome. Sonhavam ser advogados duma justiça gratuita ou revolucionários duma sociedade igualitária. Detestavam tanto os dedos repletos de anéis  quanto os rostos desnutridos das crianças das ilhas, juravam acabar com as vaidades dos faustosos e com os velhos carregados de papelão. O combate era o mesmo: contra a ostentação e a pobreza que ambas desfaziam o equilíbrio. Naquele meio, enquanto os colegas discutiam Jaguares e Lotus, festas particulares e engates na Avenida Brasil, casas no Moledo e palácios em Gondarém, fumavam Marlboro comprado no contrabando de Leixões, vestiam as roupas das boutiques e propalavam as prosperidades paternas que iam de consultórios afamados de Sá da Bandeira a fábricas prestigiadas de Riba D’Ave, eles encolhiam a ruralidade como se transportassem uma rareza provocatória. Não se sentiam rejeitados, mas, anotados numa diferença de casta. Eram os parolos que falavam axim, tinham a visão da verdura primaveril ou da palidez outonal e não o cinzento disfarçado pelo comodato da aparência; comiam batatas e sabiam como se plantavam, tratavam e colhiam, não as esmagavam em puré de menor esforço.

Vivia num quarto alugado, numa esquina das ruas de Santa Catarina e Firmeza, onde almoçava e jantava na companhia dum casal descompensado: ela, alta, rosto cheio de ruge, busto disforme em relação às ancas sumidas como duas canas; ele, curvado, velho prematuro, faces de delta, lábios secos a chuparem sempre um português suave sem filtro, olhos suplicantes pelo fim do mês. Chamava-se Alzira, a matrona, e, até, o nome - sempre lhe pareceu isso - condizia com a sua vanglória. Ele, Francisco - que, como sabemos, é título de santo arrependido de doideiras antigas -, gemia-lhe (ou ruminava-lhe?), num despropósito manso, juras de amor sempre que ela abria a porta, pelo tarde, quase noite, e entrava, apressada, com cara de desplante, para servir uma omolete de fiambre com arroz aquecido, sobrado do almoço. João detestava-a toda: o corpo em funil, o rosto de mercearia, o desprezo com que tratava o marido. Tinha um ar marcial, impróprio de homem quanto mais de mulher, e via-se que fazia da casa um uso forçado. Só a pena que sentia pelo homem, queimando a reforma dos STCP em cigarros, o impedia de se mudar. Acrescia que o quarto tinha uma vista larga, estendida até à Batalha, de onde apreciava, nos declinares dos dias, aquela agitação de feira com os eléctricos a tilintarem para o Marquês. Também era rápida a derrotina até à Baixa, para, depois de, no Sport, matar a fome com um prego e um fino, se espraiar, Diário de Lisboa debaixo do braço, no jornal luminoso onde passavam as notícias que o ditador do Vimieiro autorizava.

A companhia do Artur – assim se chamava o colega e amigo - não era só o alheamento da rotina, mas, acima de tudo, a comunhão da utopia. Iam à Unicepe ou à Leitura folhear os livros que não podiam comprar, às sessões do Cine Clube, no Batalha, aos domingos de manhã, e reuniam-se na casa dele, em Latino Coelho, entusiasmando-se na leitura de Rosa Luxemburgo, a última edição da Seara Nova ou os Ensaios de António Sérgio. Ele vivia ali com a Mãe, vendo, algumas vezes, por lá, um sujeito alto, com ar de desocupado. Tinha maneiras de aproveitador, enquanto ela cara de berço limpo e afabilidade condizente. O Pai fora um confortado lavrador, na vizinhança de Alijó, até o coração parar na subida de um socalco. A Mãe, professora primária, cansada do luto e de aturar os filhos dos outros, ainda no viço da idade, comprou um andar no Porto depois de vender as vinhas, a casa e os lagares a um irmão que sempre as invejou. O tempo ia passando na contemplação do filho e no remoer de uma viuvez precoce. Senhora de modos colegiais e conhecimentos na escala dominante, não lhe foi difícil beneficiar de um lugar na Escola do Magistério, no cimo da Rampa da Escola Normal, a imperar nos serviços administrativos. A idade, curando feridas, habitua a vida, o que a levou a não se furtar aos ludíbrios da sedução como quem tolera um passatempo sem mais nada para fazer. O Senhor José – assim se chamava o intruso - era essa permissão não realizada, ficando sempre de mãos livres para rectificar um engano. D. Dulce – a Mãe de Artur - avançara na época e colhera da sua experiência no mundo a reserva afectiva e uma serpentária postura social. Os seus olhos tinham uma coloração esbatida de quem espera pouco dos outros. Dizia-lhe algumas vezes: «Sabes, João, estou cansada de dizer ao Artur para viver sem desesperos. Nunca sabemos quanto duramos nem como acabamos. Sois novos, eu também já fui, mas essa é a minha vantagem: poder falar do já conhecido.» Artur, que aliava a sensibilidade nascida à revolta adquirida, não suportava aquela deslealdade materna. Lembrava-se, ainda menino de bibe, do funeral do Pai, das lágrimas, dos soluços e das janelas da casa fechadas durante dias. Alguma coisa não batia certo no seu entendimento: tinha sido tudo fingido ou agora é que era verdade? Dedicava à Mãe aquele respeito que não admite discussões. Não lhe fugindo no desvelo, parecia-lhe, por vezes, que ela usava isso como recompensa chantagista para lhe travar os impulsos. As particularidades das vidas, todas as intimidades, conhecem-se pela confiança que a amizade conquista, como se, sem aquelas, esta não fosse mais do que um frivolidade. Longe de existências muito convividas, de faustos e simulados exageros que são, afinal, rápidos naufrágios em que poucos se prestam ao socorro, João e Artur nada ocultavam, tinham enterrado o egoísmo e alcançado o cimo da relação. Mais do que irmãos, em que tantas vezes se disfarçam invejas de posse ou ciúmes de ascendência, eram almas germinadas por semelhanças de carácter, sem despojos para contender. Todos os dias burilavam a confidência. Sabiam os nomes e as maneiras, os venífluos e as hematoses, as máculas e as santimónias de ambas as sagas familiares, discutiam-nas como se lhes fossem pertença e mútuos os ditames. Artur mastigava a inabilidade de não impedir a presença «daquele gajo»; ter que comer com ele, mesmo esporadicamente; sentir-lhe o cheiro e a peganhosice assassinava-lhe os dias. Libertava-se, ganhando uma euforia de reconquista materna, quando ele batia a porta e dizia «até amanhã!» com um modo de chupim repelente. Não trocavam, ele e a Mãe, uma palavra sobre José. Comportavam-se como se aquilo fosse uma ferida que acabaria por desaparecer. Era uma relação septicémica que um dia tinha que ser, forçosamente, sangrada. Ambos esperavam qual deles seria o primeiro a iniciá-la.

- Quando fores a ver, ponho-me a andar. Deixo a minha Mãe à vontade. Vou lavar pratos para Paris e fico pronto para todos os exames de Francês - disse-lhe, Artur, no feriado de uma aula, no Café Saban.

- Não deves abandonar o que te pertence - retorquiu João, para quem a França era uma miragem literária.

- A minha Mãe já não me pertence desde que o tipo entrou na minha casa. Não devia ter feito aquilo - acentuou, olhando-o bem de frente.

- Não te esqueças do que já te contei: a minha Mãe também ficou viúva aos vinte anos, nasci sem conhecer o meu Pai. Ás vezes, penso muito nisso, como reagiria se ela se voltasse a casar, mas, também, acho que não tenho o direito de a impedir.

- Mas a minha nem se casou... Não se atira ao lixo a memória dos que nos deram o ser – fazendo um gesto largo com os braços.

- Vamos dar uma volta, não falemos mais nesta merda.

- Mas falemos, Artur, os orfãos devem expulsar os seus lutos. Entre a vida que nos deram e a morte que os enterrou há uma recordação incurável.

- Tu não conheceste o teu Pai, é mais fácil a tua posição, nunca o viste.

- Parece-te. Tenho a saudade da sua imagem. Pelas fotografias vê-se que era um homem com olhos tristes como se já adivinhasse a sorte. Há pessoas assim, que nascem para o inevitável.

Lá fora, sob uma chuva miudinha feita choro de uma velhice, os carros subiam e desciam Sá da Bandeira. O Porto, no Inverno, é uma arca frigorífica desconsertada. As pessoas - carregadoras de heróicas paciências - arrastam-se na obrigação de prover o sustento, olhar de zelo e caminhar de funeral. Dentro do Saban, o cheiro a torradas e a café, o fumo dos cigarros, a voz avinhada - «Graiiixa!» - do abrilhanta sapatos, o olhar pasmado de velhos sorumbáticos, as larachas dos que não tinham aulas e, na cave, os ecos das carambolas do bilhar.

- Vais – te habituar à situação – retomou João, dando-lhe uma palmada no braço. - Ele trata-te bem?

- Mostra-se agradável. É um manhoso. No outro dia, à mesa, quando estávamos a jantar, disse que eu precisava de um relógio novo, que este não valia nada. Meteu-me nojo, aquilo soube-me a azeite rançoso, e respondi que o dele é que era uma cebola. A minha Mãe fez aquele sorriso do costume e tocou-me na perna. É o sinal para me calar. Ela pressente o conflito e desespera-se em adiá-lo, entendes? Como não quero feri-la, calo-me.

- Está na hora do Latim – lembrou João.

- E se não fôssemos? – insinuou Artur.

- Vamos, vamos, o Careca dá umas aulas porreiras. Além do mais, temos que treinar as declinações e pedir-lhe ajuda para a tradução daquele poema do Virgílio. Anima-te Artur! – rematou um João sorridente, bufando nas mãos e esfregando-as.

Eram, no entanto, as aulas de Literatura do Braga que mais os estimulava. Riam-se quando descrevia as tragédias ou as catilinárias Camilianas, e sonhavam ser poetas quando discutiam Cesário Verde. O Braga dava aulas no Particular porque se recusara a assinar o papel de renúncia às suas ideias, condição indispensável para
todos os que concorressem ao Ensino Público. Não escondia o seu rancor e, à tarde, depois do almoço, as faces avermelhadas, atirava inflamado: «Lembrem-se que aqueles figurantes do Alexandre Herculano têm um prazer sádico de esticar os que lhe aparecem sem serem do Liceu! Têm que estudar o dobro! Ouviram bem?! Não se riam que, depois, choram!» Fazia uns apontamentos, em fascículos, que todos compravam e lhes serviam para arredondar o ordenado. Modestamente vestido, sempre com o mesmo casaco puído nos cotovelos, o Braga era o ídolo.

Terminadas as aulas, com a noite a nascer, desciam Santa Catarina, mirando as raparigas, iam ao Rialto tomar um café, recapitulavam as lições, sentados nas poltronas, enquanto espreitavam as coxas das miúdas e a hora do jantar não chegava. Contornavam, depois, a Brasileira («Olha o António Pedro!»), subiam a 31 de Janeiro, passavam na Vadeca e ouviam uns discos (aparentando que iam comprar) do Clif Richard e dos Beatles. Nos Correios da Batalha pedia uma chamada para a Mãe, algumas vezes desistindo tal a espera, miravam as empregadas da Janota, espreitavam a montra da Latina, e repetiam Santa Catarina, agora subindo-a, para se
separarem no cruzamento da Rua Firmeza onde o Artur saltava para o eléctrico do Marquês. João voltava para o quarto, revendo a matéria dada até o mastodonte da Alzira o chamar para os restos do almoço. Em algumas tardes de sábado, bafejadas por amenidades (as de domingo repeliam-nas pela balbúrdia formigueira), iam até à Foz. Desciam à Praça e olhavam os títulos da Figueirinhas enquanto o eléctrico que, ao longo da Marginal, desenhava o mais belo trajecto do Porto, não vinha. Apeavam-se em frente da Doce Mar, atravessavam para o outro lado e espreguiçavam-se pela Avenida Brasil. A maresia despertava-os para as lembranças das férias. Subiam ao terraço do Homem do Leme, ladeavam o aquário Vasco da Gama, insinuavam-se pelos trilhos ajardinados, paralelos à avenida Montevideu, mirando os palacetes da burguesia bem sucedida, passavam o Castelo do Queijo, até se quedarem no parapeito em pedaços da praia Internacional. Repetiam o passeio ao contrário e, numa das esplanadas da beira-mar, pediam uma torrada e duas meias de leite. Deixavam-se estar a gozar a soalheira, de olhos fitos na modorra envolvente. Não havia dúvidas: a Foz era a diferença do Porto, a alta roda das mansões e apartamentos insonorizados como num condomínio asséptico. Os adultos confabulavam traições domésticas ou adornavam venturas profissionais, enquanto os filhos fumigavam em bailes de garagens. Os de fora demandavam o Orfeão nas imediações do Passeio Alegre ou a Aurora da Liberdade para os lados de Matosinhos, onde apalpavam criadas de servir ou peixeiras de ancas roliças. Muitos dos moradores distinguiam-se da casta restante, tinham os tiques elitistas da posição, vestiam, falsamente négligés, as melhores marcas das lojas de estilo e passeavam os caniches como objectos de luxo ou eram arrastados pelos podengos de guarda.

João e Artur gostavam de estar ali, pernas esticadas, a contemplar aquele bocejo pastoso, com a brisa, resvés à areia, a distende-los. A hora tinha sido adiantada, anoitecia mais tarde, o sol acariciava, já se viam alguns vendedores de picolés, língua da sogra e batatinha à inglesa. Apetecia aquele ambiente diferente, com raparigas de mini-saias atrevidas, os acompanhantes desejosos de conquistas para anunciar nas segundas-feiras de aulas. João apreciava o jogo da sedução, aquela troca de olhares como um flébil motim interior que distrai corações inconstantes. Elas sentiam-se cobiçadas, relevavam a sensualidade, tricotavam risinhos nervosos e, de través, observavam os efeitos.

- João, posso ir passar a Páscoa contigo? – perguntou Artur, assim sem mais nem menos, acordando-o da modorra.

Não lhe respondeu, num desvelo contemplativo da mesa em frente. Estava agarrado a uns olhos azuis, se não eram azuis assim os ambicionava... No meio da algazarra do grupo, ela parecia absorta, sem acompanhar as risadas, de olhar arrependido por estar ali; o seu rosto era um nórdico postal ilustrado; até o cabelo, deslizando pelos ombros, tinha a cor do caramelo.

- Joããão! – berrou Artur, fixando-o de lado. – Porra!, não podes ver uns joelhos!!!... – chacoteou.

Mas ele escutara a pergunta, ou melhor, pareceu entende-la no fundo do entorpecimento como um despropósito sem ligação com o momento.

- Que disseste?...

- Perguntei se não te importavas que eu fosse passar as férias da Páscoa contigo, lá em cima – fitando, distraído, um barco que, ao largo, aguardava vez em Leixões.

João fixou-o surpreso, não pela ideia, mas pelo significado: “Este tipo deve-se sentir mesmo mal! “.

- Mas qual é o problema? Só tenho é que avisar a minha Mãe. – E calou-se como se achasse tal pedido naturalíssimo.

Quando começou a esfriar, subiram as escadas para o passeio largo da avenida e esperaram o eléctrico. João resolveu recuperar a conversa.

- Queres, então, ir nas férias comigo, é?...

- A minha Mãe deu-me a entender que gostaria de passar uns dias em Lisboa. Temos lá uns primos, eu mal os conheço, moram para os lados da Parede, Oeiras ou coisa parecida, e o gajo vai com ela. Pediu-me para ir com eles, mas não me estás a imaginar nessa viagem, pois não?

- Não sei porquê. Atenção: não estou a insinuar que não quero que vás comigo, vê se entendes, mas a tua Mãe com certeza que gostaria que fosses.

- João... – balbuciou Artur, mirando-o de soslaio, envolto num sorriso de troça.

Meteram-se no eléctrico e, como não havia um único lugar vago, encostaram-se à vedação da plataforma.

- Não há meio de ultrapassares a situação, não é verdade meu cara de caraças? – folgou João. – Não consegues aceitar, pois não?

- Não. Às vezes, bem tento, esforço-me por me iludir, arranjo motivos para dar o caso como adquirido, mas é demasiado. Não te aborreço com estas merdas, pois não?

- Claro que não...

Pouco mais falaram durante o trajecto. Comeram um prego em prato no Estrela, subiram 31 de Janeiro e foram ver o Cowboy Insolente ao Águia Douro.

Estava um sol maravilhoso naquele começo de tarde dum sábado de Abril, quando tomaram o comboio de Barca de Alva. São Bento era uma câmara de eco das pressas feitas de correrias e despedidas. Os migradores do interior, que saíam de casa nas madrugadas de segunda-feira, voltavam para aliviarem os corpos de uma semana
a acartarem argamassa, arrumavam os embrulhos e os garrafões como posses suadas, fotografando os mais próximos, esquadrinhando-lhes as feições; os caixeiros dos concelhos confinantes que, na cidade grande, sonhavam com quinhões de comerciantes sem descendência, gastavam a brevidade do trajecto a lerem o Comércio; as vendedeiras de Contumil, roucas por uma manhã, às portas do Bolhão, a apregoarem as hortaliças e os frangos pica-na-areia, barafustavam por um espaço para as cestas com verdura e penas coladas.
Continua...

- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

11/11/10

Moçambique - HISTÓRIA - TEMPLOS E ESPAÇOS SAGRADOS DAS ILHAS DE QUERIMBA 3ª Parte

TEMPLOS E ESPAÇOS SAGRADOS DAS ILHAS DE QUERIMBA. (3ª Parte)
MEMÓRIAS DAS ILHAS DE QUERIMBA
TEMPLOS E ESPAÇOS
SAGRADOS DAS ILHAS
DE QUERIMBA.
ACHEGAS PARA O SEU
ESTUDO.
(3ª Parte)
Por Carlos Lopes Bento
(Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler. Link para formato "pdf" - http://www.youblisher.com/files/publications/12/67387/pdf.pdf)

Moçambique - HISTÓRIA - TEMPLOS E ESPAÇOS SAGRADOS DAS ILHAS DE QUERIMBA 2ª Parte

MEMÓRIAS DAS ILHAS DE QUERIMBA
TEMPLOS E ESPAÇOS
SAGRADOS DAS ILHAS
DE QUERIMBA.
ACHEGAS PARA O SEU
ESTUDO.
(2ª Parte)
Por Carlos Lopes Bento
(Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler. Link para formato "pdf" - http://www.youblisher.com/files/publications/12/67385/pdf.pdf)

11/06/10

Recordando CARLOS FERNANDO MACHADO DA CRUZ - Pachancho

Carlos Fernando Machado da Cruz - PACHANCHO - Um jovem generoso, cheio de vida e alegria, que perdeu o futuro...

Em 28 de Março de 1974, Carlos Fernando Machado da Cruz (Pachancho) piloto do CR-AOC ETAPA, durante a aproximação nocturna à pista de Mueda com teto e visibilidade reduzidos, para evacuação de um militar, supôe-se que (entre outras hipóteses como a de ter sido alvejado pelos terroristas da Frelimo e atingido, foram aventadas mas não confirmadas na época) entrou em perda antes da cabeceira da pista (lado da povoação) e acabou por embater na copa de uma árvore.
Avião e piloto ficaram carbonizados pelo fogo consequente ao acidente.

Nesse dia estava de folga.

No dia seguinte faria o ultimo vôo para a Etapa e sairia para ingressar como piloto comercial na TAP.

Foi chamado pelas 18:30 (estava em casa da "Avózinha" ao lado do cinema velho de Porto Amélia na parte baixa da cidade) para ir fazer a evacuaçao de um militar de Mueda para Nampula por não haver mais nenhum piloto disponivel.

O acidente foi a 28 de Março à noite, os destroços localizados e o corpo transladado de Mueda para Porto Amélia a 29 de Março e o funeral a 30 de Março, dia do aniversário de seu Pai, Sr. Machado da Cruz.
Ainda recordo o imenso cortejo de carros que se formou nesse final de tarde de 29 de Março de 1974, para acompanhar os restos mortais do Pachancho desde o aeroporto de Porto Amélia até à cidade.

Arrepiava e emocionava ver aquele imenso cordel de luzes ao longo da estrada do aeroporto...
- Clique nas imagens acima para ampliar
- J. L. Gabão em ForEver PEMBA de Março 2007
- Luisa Hingá em Voando em Moçambique  de Março de 2007

(Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler)

11/03/10

UM CONTO ALDEÃO

Alcandorada sobre o rio Douro, dele recebendo as neblinas matinais ou vespertinas, de casas em maioria ao correr do chão, uma ou outra senhorial, quelhos estreitos e lages lambidas pelo decorrer dos séculos, fica a povoação de São Gonçalo, assim chamada em devoção ao seu padroeiro.

Quem a conheceu no remoto, e a vê agora, não a imagina na década de cinquenta, anos poucos depois do fim da segunda grande guerra. Era uma aldeia de invernos enlameados e verões poieirentos. As crianças andavam descalças e vestiam calções rasgados no sítio do cu ou da “pilinha“, dividiam as sardinhas por várias bocas e a fome enegrecia-lhes os olhos. Um tempo de miséria; ainda havia quem morresse de tuberculose ou sífilis, e toda a gente se calava porque o medo lhes tolhia a vontade. Estava na sede concelhia quem recebesse os informes que ditavam o futuro de qualquer nascido, e os poucos chamados de ricos, por possuirem terras, não tinham outro remédio senão seguir-lhes os ditames se queriam vindimar, em cada Outubro, as uvas do remedeio. Um “senhor invísivel“ mandava em tudo, sabia de tudo, era como um Deus de carne e osso, que vivia em Lisboa, num palácio guardado; na escola estava com Cristo ao lado, e tinha em cada terra quem o representava. O regedor era o poder civil, o pároco o espiritual.

S. Gonçalo não fugia a essa tradição, cultivada por uma paciência popular aliada a influências pequeninas, disputadas nos concluios de taberna ou de mesas de cozinha, enquanto se fazia a folha do pessoal. Mas tinha, também, quem se não conformasse com a situação imposta.

Chamava-se Joaquim Faria da Silva, Quinzinho na oralidade do lugar. Era filho da união de Joaquim da Silva e Berta Faria, acolhida sob o mesmo tecto, mas não legalizada no altar da freguesia. Naquele tempo, essas mancebias – como lhes chamavam as devotas, quase sempre disfarçando com os padres-nossos as invejas de tal relação – eram muito contestadas pela gente das saias negras e opas brancas. A pilhéria feminina ou a gravidade masculina disso faziam proveito, adaptando, com versos chocarreiros, cantigas em moda, entoadas às escâncaras ou às escondidas, conforme eram carentes ou abastados os destinatários, na velho hábito da cobardia humana.

Quinzinho crescera nesse meio escuro e doentio. Fizera a quarta classe e começara a trabalhar com o pai nas vinhas para um dia ser Feitor. Não estudara mais porque ler e escrever, nesse tempo, já era um curso. Nunca tivera rédea solta, o pai, distante, julgava, assim, impôr-lhe o respeito; só a mãe lhe acariciava o cabelo e lhe satisfazia a boca, e, entre as escassas largas conquistadas, ia brincamdo com os amigos à patela ou às escondidinhas, aos pinhões ou ao rapa nas datas festivas, pontapeavam a bola, no adro da capela, em jogos a mudar aos seis e acabar aos doze, subia os montes à procura de ninhos. Às vezes, sentia-se deslocado, com a sensação de ter nascido em lugar errado. Comprava sempre o jornal que a Mariazinha trazia da vila, e sentia que lhe faltava mais qualquer coisa. Sob o temor paterno e a suavidade materna lá se fez homem para usar sacho e, a ele amparado, comandar os poucos trabalhadores permanentes e os variados eventuais. O mando pragmatizava-lhe a vida, distraía-lhe os anseios e encurtava-lhe os horizontes. Ao chegar a idade de ir à sorte pagou a licença militar, continuando no tirocínio de lavrador. Em certas alturas parecia-lhe ver olhares de soslaio, ignorando se eram de inveja ou de desdém. Ele sabia que o povo era mau, o falatório um eco surdo de alterados silêncios. Ele trabalhava na vinha, andava com os homens pelos socalcos, mas ia ficar com a fortuna que o pai ajuntara. Fora feito no meio dos bardos, consequência de uma paixão carnal entre o senhor rico e a jornaleira pobre. O padre Saraiva desaprovava aquela casa, arredada do santo sacramento do matrimónio. Joaquim da Silva perfilhara-o e a mais não se achava obrigado; desdenhava do carimbo sacerdotal, continuando as compras das bulas, o pagamento da côngrua e fartas ajudas de sacristia. Já vira muito na sua naturalidade e nas aldeias vizinhas. Só falava quem tinha que se lhe dissesse. Julgando aplacar a ira da autoridade eclesial, a mãe e o filho seguiam todos os preceitos da Santa Madre Igreja.

Tornara-se, ainda jovem e cobiçado pelo mulherio, um mestre no amanho da terra. Acabada a vindima deixava descansar as videiras, mas, em Janeiro, podava-as com carinho, nunca seguindo aqueles que esperavam por Março; o pai sempre lhe dizia «Quem poda em Março é madraço», e neste mês era a primeira cava. Às vezes, em primaveras chuvosas, fazia uma segunda, lá para Agosto, a fazer jus ao ditado «Cava em Agosto enche o tonel de mosto». Não havia trato que lhe escapasse. Era esmerado e um moiro de trabalho. Seguia os vários trâmites agrícolas com a sabedoria de um antigo. Nem a erguida ou a desfolha, a redra ou o sulfato lhe escapavam ao seu rigor. Então, neste último, era piquinhas, preocupava-o o desavinho, o pai falava-lhe algumas vezes dos tempos da filoxera, não se podia descansar do míldio e da maromba que atacavam tanto o moscatel com o malvasia e, até, o alvarelhão. Esquisitava-se na calda boldalesa e usava os pulverizadores as vezes que fossem precisas: olhava para as cepas e radiografava-lhes as necessidades.

Passou também a fitar as mulheres. Aí, a sua radiografia era inconclusiva. Umas matreiravam o olhar com fosforescências de esganação ou de fantasia, de intrepidez ou embaraço. Ele não era nenhum artista de cinema, mas não se podia deitar fora: de estatura meâ, olhos castanhos numa cara oval, com um ar de madureza precoce, apimentava-o a herança que um dia lhe adornaria o saldo, se a lógica comandava a vida. Nunca se agarrara a nenhuma, cada vez mais convencido de que, o que tivesse de ser, seria.

Uma manhã, andava com os homens na vinha do Gato, a Mercedes chamou-o do alto do valado, com uma voz esganiçada e sacudindo-se como se a estivessem a picar. De um fôlego se lhe juntou e soube que a mãe tido tido um ataque. Tão violento ele fora que nem tempo deu para chegar o tabuleiro em que a queriam levar ao médico.

Quinzinho chorou tanto que os seus gritos de espanto e de dor se ouviram nos fundos do vale. A vida acabava-lhe, tudo o que fizera até aí não era real, nada o ajustava ao mundo, um vazio negro e enorme o sugava para um poço de onde não havia retorno. O pai, a quem se agarrava como num vezo fúnebre, deixava cair umas lágrimas e incitava-o à aceitação. O filho é que piorava o amanhã, pouco recebedor dos afectos paternais, habituado ao deleite da mãe, cúmplices os dois do “segredo“ da sua nascença.

As três mulheres permanentes, que trazia, há anos, ao serviço, é que arranjaram Berta Faria, colheram as flores, desembaraçaram os castiçais com as velas, e trouxeram o Cristo revestido a banho de prata que estava no quarto da falecida. Só depois da chegada do caixão a expuseram na sala de visitas.

No dia seguinte, Joaquim da Silva, chamado de lado pelo seu compadre Manuel, a quem baptizara três filhos, quase ia fazer companhia à sua “companheira”: o padre recusava-se a fazer o funeral, nem permitia os estandartes das Irmandades, eles não estavam casados pela Igreja, impossível a sua presença. Aquele recompôs-se, meteu pés ao caminho, e disse ao padre Saraiva que ou alterava a decisão ou o “amaldiçoaria“ até à sua morte. O clérigo ainda teve um instante íntimo de hesitação, fez repentinamente algumas contas, mas há preceitos que, mesmo sem humanidade, são capazes de servir de alibi a almas pusilânimes. Quinzinho, quando soube, não acreditou. Impossível tal desfeita. Sua mãe não merecia um castigo daqueles; sempre fora temente a Deus e seguidora da sua Fé. O seu choro, desta vez, tinha um travo de revolta e ingratidão insuportável. Nado e criado no temor reverencial civil e canónico, esqueceu intentos que o enublaram.

Só passados uns dias decidiu: nunca mais frequentaria a igreja com aquele padre e dele fugiria assim que a distâncuia lhe desse viso. O pai, que já raramente lá fazia poiso, pediu, a todos os santos, vida para lhe fazer o funeral.

Passados uns meses, estava Quinzinho na bicha do pagamento da décima, sentiu uma mão a bater-lhe no ombro. Era o padre Saraiva. Assopapado, com a vontade dividida em como actuar, deixando prevalecer a educação, disse «Olá, Sr Padre...»; este respondeu: «Não te tenho visto na vinha do Senhor.»; aquele, já com o recibo na mão, e como quem se despede aliviado, retorquiu : «O senhor não a sabe cavar. Voltarei depois de o ensinar na minha vinha da Estrada. Ando lá. Apareça.»

Quinzinho saltou para o Castanho, e partiu em passo travado.
- Por M..Nogueira Borges*, 15/07/10 para ForEver PEMBA/Escritos do Douro.
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

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Por Carlos Lopes Bento
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