10/23/12

UM HOMEM

Aqueles doze dias que me deram, antes do embarque, pareceram a satisfação da última vontade de um condenado. Para dizer a verdade, só o sono me descansou. De dia contava o tempo, olhava o fundo do vale, com o Douro ao fundo, e nunca a estrada me foi tão curta e tão detestada; chegava a pedir o impossível: que ela desaparecesse do mapa. Era uma dor que nunca soube definir: a barriga em espasmos, uma vertigem no olhar, mas o que me custava mais era uma ardência no lado esquerdo do peito; acho, até, que era a angústia transformada em revolta, que, como sabemos, não mata mas dói. Cheguei a pedir que os dias saltassem para me ir embora depressa, acabava-se com aquilo, abandonada, há muito, a ideia de me escapar com o Artur para Paris. Ficava meio mundo a falar que eu me “cortara”, e sei lá se o Salazar não era eterno e nunca mais eu cá voltaria. Minha mãe, sabe Deus como, lá ia aguentando, e havia ali, entre nós, um penoso jogo de disfarçar sentimentos, que chegava a ser desumano.

Mas, quando chegou a hora de me despedir, o mundo desmoronou-se. Julguei mesmo que se encerraria o sofrimento: ficaríamos esticados pelo fatalismo da síncope e o Niassa rumaria a Angola com menos um camuflado. Penso ter escutado o comboio – é melhor usarmos a ironia porque, às vezes, nestas coisas de contos, não se sabe como encurtar a volta a situações intoleráveis –, e lá me despeguei para o carro de praça, que me esperava. Não ouvi mais nada, ou não quiz ouvir. Quando ia na recta, antes da curva que tapava a vista da casa onde nasci, olhei para trás, dei um grito e chamei nomes do piorio aos donos da Nação; o chaufer riu-se, disse-me que , com ele, quando foi para a Guiné, tiveram que o ir buscar ao café, e rematou: « Sr. Gilberto, deixe lá; o senhor vai como oficial, eu fui como soldado. » De repente, não entendi onde estava a vantagem, mas conversar era o que menos me apetecia.

Eu estava habituado a viajar, de comboio, da Régua para o Porto, e vice-versa, mas daquela vez o pouca-terra parecia nunca mais chegar. Pedi a todos os santos para que o Gualter estivesse à minha espera no Embaixador, e abri a mala para tirar um livro dos que levava, juntamente com alguma roupa. Calhou-me o Fio da Navalha. A primeira coisa que li foi a citação introdutória: «DIFÍCIL É ANDAR SOBRE O AGUÇADO FIO DE UMA NAVALHA; É ÁRDUO, DIZEM OS SÁBIOS, É O CAMINHO DA SALVAÇÃO.» Havia de saber quem era o Katha – Upanishad, mas só quando, e se, acabasse a comissão. Foi mais o tempo em que espraiei os olhos pela paisagem do que pelo romance de Maugham, o que me agravou o estado de alma. Imaginei minha mãe, vestida de luto, deitada sobre a cama, com a Laurinda a confortá-la; a minha aldeia, de caminhos e casas sem água e sem luz, com a fome à espreita nos cardenhos dos cavadores, as crianças sem culpa da injustiça dos adultos. Deixaria o meu país sem uma pinga de progresso, triste e desolado, cheio de bufos.- até , se calhar, o velho que se sentava ao meu lado -, uma terra sem uma disparidade na côr, tudo cinzento, até as palavras eram sempre as mesmas, o único contrário era a morte. Lembro-me que enxuguei os olhos, na paragem em Penafiel, quando vi, à janela, uma velhinha, de lenço preto na cabeça, subir com dificuldade para uma carruagem das traseiras. Ali ia eu, adolescente feito à pressa atirador de infantaria, para uma guerra que a teimosia de um ditador velho e de falsete, sem filhos e sem carinhos, transformara em destino patriótico. Os campos, ao longe, cumpriam, na nostalgia do abandono, o calendário primaveril: os rebentos pascais, com as maias em saliência.

Mal o comboio parou em S. Bento, corri como um desalmado, de mala na mão, fazendo uso dos quinze meses de tropa, receoso que o meu amigo já tivesse ido com o pai para Lisboa. Pedi ao engraxador que guardasse a mala, com a promessa de que depois me limparia os sapatos, subi as escadas para o primeiro andar, onde alguma  gente já comia, e só nos bilhares é que o encontrei, encostado a uma janela a ver uma partida de snooker. Fazíamos a festa do costume, quando ele me atirou: «Consegui uma baixa no Hospital Militar. Vou para lá amanhã.» Levei um murro na boca do estômago; aquilo soube-me a traição. Toda a gente se tentava safar, inventando pés chatos ou úlceras repentinas, até água gelada deitavam nos ouvidos para criar ou agravar uma otite, mas isso era mais naqueles que pagavam bons cabritos; ignorava que ele fizesse parte desse esquema, e, para disfarçar, pedi-lhe que me arranjasse uma baixa também. Fomos comer umas tripas à Flor do Congregados, contou-me como o pai se mexera e das esperanças que tinha de ir para os Serviços Auxiliares. Ficou de me escrever ou telefonar para contar como lhe correra a patranha.

No Foguete, a pensar no golpe do Gualter, dei por mim a inebriar-me com o meu heroísmo e, para ser franco,perpassou por mim uma excitação de bandeira ao vento. Por meados de Aveiro, adormeci, ajudado pelo feijão e pelo fino. Em Santa Apolónia, consultadas as horas, hesitei entre ir para o Cais do Sodré ou para a Amadora. A mala das primeiras necessidades determinou a minha recolha decente, matando o tempo na conversa de sala numa messe quase vazia , com a televisão a repetir o Aqui há fantasmas e a emissora nacional a transmitir um Serão para trabalhadores.

Passadas que foram três semanas, já só de ordem unida para reforçar o espírito de corpo, o batalhão estava na Rocha do Conde de Óbidos, disperso com os familiares, numa algazarra ensurdecedora, enquanto não recebia ordem para formar. Eu fazia parte dos que não tinha compromissos desses, assim o pedira. Sem dormir e cheio de café queria que o embarque acelerasse para aproveitar o balanço do Niassa; resolveria dois problemas: não assistiria à despedida dos lenços, e dos gritos, e dos gemidos, e dos desmaios e o sono ficaria em dia ou em noite. Estava a conversar, já não me recordo com quem, quando me baterem nas costas. Virei-me, repentinamente, não fosse o capitão da minha companhia, quando caí nos braços do Gualter. Reparei que, ou estava com uma bebedeira ou louco, as lágrimas cobriam-lhe as faces, «Gilberto, parto daqui a oito dias para a Guiné. Aqueles filhos ...», balbuciou, sempre agarrado a mim. Percebi, então, que a armadura por mim inventada para aquela ocasião estava a derreter-se, provocando-me queimaduras de muitos graus. Toques de clarim e vozes de comando repercutiram no bruá reinante que, a pouco, se esbatia. Sem saber como proceder, apertei-o mais, apressadamente, os diques rebentaram-me, e senti-me verdadeiramente UM HOMEM.
- M. Nogueira Borges*, Porto 23/7/10, para ForEver PEMBA/Escritos do Douro 2010. Atualizado em Outubro de 2012.
  • M. Nogueira Borges no "Escritos do Douro" e no "ForEver PEMBA"
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

10/20/12

JUDITH CARRILHO e ANTÓNIO BAPTISTA CARRILHO

Faleceu hoje - 20 de Outubro de 2012, em Maputo,  D. Judith Carrilho
IMENSAS SAUDADES deste terno casal da Rua Capitão Curado da então Porto Amélia ... ...
"""Vós, que sofreis, porque amais, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele.""""". Victor Hugo
Em MAPUTO:
- LUTO (Via N. Domingues)
A pedido da minha Prima, Nandinha Carrilho (Fernanda Carrilho Madeira), cumpre-me informar-vos do FALECIMENTO há instantes, da sua querida Mãe (Minha Tia JUDITH Carrilho, esposa do também falecido Tio GUI - Sr. António Carrilho, pais dos Francisco Carrilho, José Norberto Carrilho, João Eduardo, Teresa, Matilde e Nandinha).
O Falecimento, ocorreu no Hospital em Maputo, onde se encontrava internada.
Muito obrigada a todos e que a Alma da Tia Judith, se encontre em Paz e em bom lugar.
Clique nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "ForEver PEMBA" em Outubro de 2012. Só é permitida a copia, reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores.

10/11/12

Retalhos: De Porto Amélia a Pemba - Parque Nacional das Quirimbas, no Norte de Moçambique.

Parque Nacional das Quirimbas, no Norte de Moçambique
Por Carlos Lopes Bento

O Parque Nacional das Quirimbas (PNQ) foi declarado no dia 6 de Junho de 2002, pelo Conselho de Ministros. Ele tem a singularidade de ter sido estabelecido em resposta a solicitações das comunidades locais e outros intervenientes. Portanto, o Parque deve ser entendido como uma iniciativa "de baixo para cima", uma tentativa das bases para resolver um sem número de problemas que afetam a Província de Cabo Delgado em geral e a área do PNQ em particular.

O Arquipélago das Quirimbas em Cabo Delgado é uma cadeia de 28 ilhas, que se estendem ao longo de quase 400 km, desde o norte da cidade de Pemba no sul, à cidade de Palma no norte. As 11 ilhas mais ao sul uma uma extensa zona de floresta no continente estão incluídas no Parque, resultando numa área total de 750,639 ha, dos quais 598,402 ha são hábitat's terrestres e 152,237 ha são habitat's marinhos e ilhéus. Esta área é de há muito reconhecida como uma zona de grande beleza paisagística, enorme biodiversidade de significado mundial, e importante patrimônio histórico; a recomendação de que esta área seja declarada um parque nacional vem já de 1971.
A Importância da Área:
Os distritos costeiros e centrais de Cabo Delgado (Macomia, Quissanga, Ibo, e Meluco) têm representados quatro das 200 eco-regiões de importância mundial de acordo com o WWF. Estas 200 eco-regiões são consideradas os melhores exemplares existentes de ecossistemas típicos e também raros. Se o simples fato de um País possuir uma das eco-regiões é já por si assinalável, imagine-se o que significa quatro eco-regiões estarem representadas em uma só Província. As quatro eco-regiões são:

- no. 23... Floresta Costeira do Mosaico de Inhambane-Zanzibar;
- no. 118... Mangais do Leste de África;
- no. 193... Eco-região Marinha do Leste de África;
- no. 55... Floresta de Miombo.

O Arquipélago das Quirimbas, em particular, é considerado pelo WWF como uma área marinha de importância Mundial. A área também foi considerada como tendo potencial para ser nomeada como Patrimônio Mundial da natureza pela UNESCO, e contém a histórica cidade do Ibo, antigo centro comercial de escravos de Árabes / Africanos / Portugueses.

Espécies de importância mundial, incluem quatro dos chamados “big five” (o rinoceronte foi eliminado), substanciais populações de mabecos (wild dogs), dugongos, quatro ou cinco espécies de tartarugas marinhas, uma variedade de espécies de conchas em vias de extinção como a Chariona tritonis e a Tridacna squamosa, a baleia corcunda (Megaptera novaeangliae, ou “Humpback whale”), várias espécies de golfinhos, as árvores de pau preto e sândalo...

Os Elefantes e leões são um problema particular. O número de Elefantes está em expansão e a incidência de ataques de elefantes às machambas também tende a crescer. Mais de setenta ataques de leões foram registrados no Distrito de Macomia em 2000. No mar, espécies como dugongos, tartarugas marinhas e tubarões estão em perigo de sobre-exploração. As extensas áreas de ervas marinhas e florestas de mangal estão também sob pressão severa.

Florestas:
A floresta costeira contém espécies raras e endêmicas que foram relativamente pouco estudadas, enquanto que pelo seu lado a floresta de miombo possui madeiras de valor comercial tais como a mbila (kiyaat), chanfuti, e jambire. O abate comercial destas madeiras tem sido feito exclusivamente por empresas baseadas em Pemba. Entre os ditritos de Ibo e Quissanga desenvolveu-se um mangal que ocupa uma área de 39km2, com 8 espécies de árvores de mangal representadas.

O Governo sempre deu a necessária importância a estas Florestas e em 1996 estabeleceu duas grandes áreas como “Reservas do Estado”, com a intenção de promovê-las a Reservas Florestais. Apesar de os constrangimentos financeiros terem dificultado o desenvolvimento destas reservas, o Governo tem recusado desde então o licenciamento de corte de madeira nestas áreas, até existirem condições para a sua declaração formal como zonas protegidas.

Fauna:
Os Distritos atrás referidos têm sido mencionados em vários estudos como áreas prioritárias de fauna. Três rotas migratórias de Elefantes atravessam a área, seguindo as margens dos Rios Montepuez e Messalo. As montanhas isoladas de granito (inselbergs) de Meluco não só são espetacularmente bonitas como também foram identificadas como centros de endemismo de plantas e animais e servem historicamente como refúgio de elefantes. Os elefantes da zona estão de certa maneira adaptados ao ambiente das montanhas a dar pelas marcas da sua passagem nos mais incríveis locais.
O Ambiente Marinho a Costeiro:
A área costeira possui 11 das ilhas mais a sul do Arquipélago das Quirimbas, numa distância de cerca de 100 Km. (ver mapa). Estas Ilhas formam uma linha quase contínua separadas por canais estreitos, extensões de terra e baías. Já Tinley, em 1971, havia sugerido a proteção desta área com base na riqueza do habitat que suporta uma flora e fauna diversa, incluindo 375 diferente espécies de peixes. O Arquipélago também incluí o Baixo de São Lazaro, um baixo isolado e ainda bem conservado para a pesca desportiva e mergulho a cerca de 42 milhas náuticas da costa.

Os recursos marinhos costeiros estão presentemente sob ameaça de sobre-utilização, enquanto que os recursos de mar aberto estão quase por explorar. Também levam as estas conclusões estudos científicos, consultas com instituições e consultas às comunidades (mais recentemente durante um Seminário na Ilha do Ibo). As principais ameaças resultam de:

- A chegada, a Cabo Delgado, de pescadores vindos da Província de Nampula e Tanzania;
- Uso de artes de pesca destrutivas (rede fina, rede mosquiteira, veneno, extração de corais);
- Perda de valores tradicionais com o resultado de que as práticas tradicionais não são mais respeitadas (antigamente a pesca era feita em ciclos de 12 dias, dos quais 6 dias a pescar e seis dias a descansar; hoje pesca-se todos os dias);
- Falta de controlo por parte das autoridades de fiscalização devido a várias razões entre elas a falta de transporte (barcos).

Os pescadores locais também se referem à falta de condições de comercialização do seu pescado e a falta de equipamento para a pesca de mar alto, razão pela qual existe a sobre-pesca perto da costa. Em termos da atual captura, esta tem vindo a descer desde há muitos anos a níveis extremamente baixos. Isto resulta em que todos os locais de fácil acesso estão sobre-utilizados. Locais menos acessíveis (como o canal de Montepuez com correntes perigosas a a parte de fora da barreira de corais, com correntes e ondas) estão em muito bom estado. Os recifes de corais de baixa profundidade estão também muito danificados pelo fenômeno do El Nino Southern Oscillation ocorrido em 1997/8.

População:
Estes distritos são majoritariamente habitados por povos das etnias Macua e Muani, apesar de Macomia ter populações de Maconde também. Estas populações vivem da agricultura de subsistência, pesca e caça e não existe qualquer indústria. O Distrito do Ibo, por exemplo, não tem uma simples loja. O Distrito de Quissanga, largamente conhecido por ser potencialmente o mais produtivo da Província em termos de agricultura (com 25% de solos de aluvião), não possui um simples trator a funcionar. A esperança de vida na Província é de 37.8 anos, enquanto a mortalidade infantil antes dos cinco anos é de 295 por cada mil nascimentos. O PIB (produto Interno Bruto) per capita era de 141 USD/ano em 2000, mas estima-se que nas zonas rurais seja menos de metade desse valor. A taxa de analfabetismo em adultos é de 75% (estatísticas do Plano Estratégico de Cabo Delgado, 2000-2005).

O desespero econômico e o crescimento populacional criam uma pressão ainda maior sobre as florestas e recursos terrestres. Pelo seu lado, hábitos tradicionais como a queima da mata na época seca e a caça com armadilhas retiram aos recursos naturais a sua capacidade de regeneração. Assim, os recursos de fauna e flora estão e estado contínuo de declínio, o que é inclusivamente reconhecido pelo próprio Governo e comunidades rurais. Outro aspecto crítico é o permanente conflito animais-seres humanos tal como já atrás foi referido.

O Governo de Cabo Delgado e a GECORENA solicitaram ao WWF apoio na criação da área protegida e estão ainda a procurar mais apoio junto de outras organizações. Regulamentos e zoneamento para investimento é uma parte parte do plano que está a ser elaborado. Isto criará um quadro legal e institucional para um desenvolvimento apropriado de turismo no Parque o que contribuirá mais tarde para a sustentabilidade financeira dos esforços de conservação.

A área do Parque inclui assim:
- Uma floresta costeira entre Macomia e Quissanga, como uma fantástica fauna selvagem, incluindo o elefante, o búfalo, o leão e o leopardo;
- A costa Sul do Arquipélago das Quirimbas, incluindo 11 Ilhas, praias de desova de tartarugas marinhas, recifes de coral, ervas marinhas, e imensas florestas de mangal, e, a cerca de 40 milhas da costa, o Baixo de São Lazaro, local de pesca desportiva de classe mundial;
- O corredor de elefantes entre os Rios Messalo e Montepuez e a Reserva de Elefantes de Mputho .

CONTACTOS DE CULTURA PÓS-GÂMICOS NA COSTA ORIENTAL DE ÁFRICA.- O CASO CONCRETO DAS ILHAS DE QUERIMBA OU DE CABO DELGADO.
Por Carlos Lopes Bento

A Costa Oriental de África, considerada o berço de Humanidade, serviu de base a intensos movimentos externos de pessoas e culturas, conhecidos pelo menos desde o século II DC, altura em que a costa africana foi integrada nos fluxos do comércio marítimo do Índico, que conjugados com os movimentos internos de povos africanos, originaram a cultura suaíli ou swahili. Trata-se de uma cultura com padrões típicos, marcadamente marítima, de raíz bantu, mas de ideal islâmico que se enquadra, segundo Allen, na denominada “unidade do Oceano Índico”(1) .

Para este extenso espaço africano, constituído por um vasto conjunto insular e respectivas terras firmes, convergiram, por razões de natureza comercial, política e religiosa e em épocas históricas diferentes, fluxos migratórios provenientes do Oriente, designadamente, da Arábia, Pérsia, Índia, China, e Indonésia, do Ocidente (Portugal, Espanha, França, Holanda e Inglaterra), da América (Brasil, Cuba,....) e da própria África. Dos permanentes cruzamentos inter-genéticos e da constante interpenetração de culturas nasceria a supracitada cultura suaíli(2) e as suas variantes, aliás, sabiamente, observadas e descritas, a partir dos finais do século XV, pelos destemidos nautas portugueses, data a partir da qual passaram a sulcar, regularmente, as agitadas águas do Índico. Os dados então recolhidos , mostram a existência de :
FIG. 1- Parte sul da costa swahili.
Fonte: NEWITT, Malyn, The Southern Swahili ..., p 112

- Sociedades pluri-raciais/pluri-étnicasconstituídas por indivíduos possuidores de várias tonalidades de pele: pretos, baços, ruivos e brancos;
- Uma religião comum assente nos princípios do Alcorão;
- Cidades-Estado com estruturas sociais complexas, estratificadas e relativa autonomia política, governadas por reis mouros, com excepção da Ilha Brava em que o poder político estava nas mãos dos mais antigos da terra;
- Uma produção agrícola variada, com grande riqueza de caça grossa e de produtos aquáticos. De realçar a existência de excedentes destinados, essencialmente: à afirmação do status social; à oferta de presentes; e ao reabastecimento e apoio da navegação e moeda de troca;
- De cidades e vilas com casas assobradadas, com portas e janelas de madeira muito bem lavrada, construídas a pedra e cal;
- De um rico vestuário, de seda e algodão, por vezes bordado a oiro, usado pelas camadas mais abastadas, por homens e mulheres e de jóias, em ouro e prata que embelezavam as encantadores damas suaílis.

Com a presença e domínio português imposto às principais cidades da Costa Oriental de África, através de tratados de vassalagem, desde os princípios do sec. XVI, extinto definitivamente, a partir de 1729- perda definitiva de Mombaça- a cultura suaíli foi enriquecida com muitos traços da cultura portuguesa que, pela sua utilidade e compatibilidade e até prestígio, acabariam por ser integrados nos léxicos do kiswahili(3) e do kimwani, perdurando até aos nossos dias. Recordam-se alguns vocábulos do kiswahili relacionados com: cargos/profissões, meios e instrumentos náuticos, armas , instrumentos de guerra e símbolos de soberania, utensílios de uso doméstico, animais domésticos, edifícios, fortificações e lugares, árvores de fruto, frutos, ferramentas e objectos mecânicos, artigos de vestuário, meios de pagamento, produtos e tecidos(4): almari, amari, bandera, bao, baraza, barakinya, bastola, bata, batela, beramu, bereu, biblia, bibo, bomba, boriti, boya, bulu, busha, chá, chapa, chapeo, dadu, dama, faranga, foronya, fogau, gereza, hospitali, idadi, kanderinya, kapa, kasha, kimau, kitalu, kopa, kopo, korosho, lakir , lesso, limao, machila, meza, m’pera, mvinyo, nahota, padre, pao, parafujo, pera, pesa, pilau, pipa, rateli, riale, roda, rupia, saa, safari, seti, shumburere/sombrero, shupaza, shuka, sukari, tabakelo, tarumbeta, turufu, uru, e yaya(5).
Após a perda sucessiva do domínio português sobre as várias cidades do Indico ocidental, as autoridades portuguesas limitaram o exercício do seu poder colonial , depois de 1729, às terras litorálicas situadas a sul do rio Rovuma, em cujo extremo norte encontramos as Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado. O arquipélago, habitado especialmente por wamwani (gentes da praia), é constituído por cinco dezenas de ilhas e ilhéus, pequenas em território- muitas delas com menos de um quilómetro quadrado - e pobres em solos, quase todos de origem corálica. Apesar destes condicionalismos mas atendendo à sua posição geo-estratégica este conjunto insular, com as terras firmes adjacentes, foi aproveitado, primeiro por árabes e persas e depois por portugueses para aí instalarem alguns dos seus portos de escala e desenvolverem uma importante rede comercial, complementada por algumas práticas agrícolas, armentistas, de construção naval e de pesca.

Antes da era gâmica dependeram as mesmas Ilhas, de acordo com as circunstâncias políticas, de Mombaça e de Quiloa. Passariam, definitivamente, para o domínio português, em 1523, após a sua reconquista pelo capitão Pedro de Castro, perdurando a situação colonial, então, instituída durante 452 anos. Conhecendo-se os fracos recursos humanos e materiais, a debilidade e pouca operacionalidade das estruturas político-administrativas, económicas e religiosas de apoio implantadas, a concorrência sempre crescente de um comércio internacional pouco favorável à coroa portuguesa, os ataques de franceses, sakalava, makhwa e mouros da costa e a resistência oferecida por uma elite local influente e portadora de uma dupla herança cultural, é pertinente interrogarmo-nos como foi possível uma permanência tão prolongada dos Portugueses e do seu domínio nas Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado?

Este verdadeiro “milagre”, que não foi o resultado da força das armas que, aliás, primava pela insuficiência e pela ineficácia, deveu-se principalmente, a uma política, concreta e espontânea, de tolerância, solidariedade, miscigenação, adaptação e convívio pluri-étnico, política essa, aqui e ali com alguns desvios e conflitos, respeitadora das diferenças étnicas e culturais, das crenças e dos valores humanos dos grupos dominados e dos seus modos de vida. Estávamos perante uma prática política, um diálogo intercultural, uma busca permanente de soluções para os problemas comuns, que, só séculos mais tarde, mais precisamente em 1948, viria a ser consagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, a qual não faz distinção entre etnias, culturas ou crenças. Desde há séculos, é legítimo recordá-lo, que os Portugueses consideravam e defendiam o princípio da igualdade como uma relação entre coisas diferentes. Há muito tempo e em muitas partes do Mundo e em contextos históricos e sócio-culturais diversificados que praticavam, na sua vivência do dia-a-dia, o princípio da tolerância: todos diferentes, todos iguais, actualmente, pouco assumido e muito afastado dos corações dos homens.

O homem português, colono modesto, sem grandes letras, por vezes desterrado, com o seu génio criativo e plástico, a sua grande capacidade de improvisar e inovar e o seu caracter individualista e sentido oportunista, soube, habilmente, em novos espaços ecológicos, geográficos e sociais, viver em situações de solidariedade, de contraste, de ambiguidade e de conflito. Teve a capacidade de moldar e de se deixar moldar e de criar novas realidades bio-culturais e de se adaptar a contextos específicos deveras variados.

Com a implantação da situação colonial nas Ilhas iria estabelecer-se no território um novo domínio e diferentes tipos de contactos entre populações biológica e culturalmente heterogéneas, há muito adaptadas a um meio geográfico específico e comprometidas com uma história. Nesta parte norte de Moçambique o colono português conviveu com gentes de outras culturas e religiões (makhwa, mwani, yao, mouros da costa( swahili),...) e aí constituíu famílias mestiças não consagradas nas leis e costumes do Reino- mestiças pela biologia e pela cultura - e originou novas formas sincréticas de família, geradoras de consensos e de solidariedades, que se desviavam, nítidamente, dos modelos da família real cristãmente organizada e aceite. Era frequente reunirem-se num só grupo familiar pessoas de mais de uma religião, etnia e posição social. A prova factual de tal realidade encontramo-la na Relação Geral de População de 1798 relativa às Ilhas: famílias compostas por cristãos, maometanos e gentios, por pessoas livres e por escravos, sendo grande parte delas formadas através da mancebia que as autoridades político-administrativas e religiosas, embora o tentassem, nunca conseguiram eliminar. A título de exemplo dá-se conta dos seguintes registos: uma cristã, de nome Luzia, solteira, com uma filha Ana, gentia e uma mãe maometana, Muana Mungi, com uma filha Ana e duas netas, Tomásia e Catarina, todas cristãs(6). Verificámos ainda uma escrava amancebada com um homem livre( um m´zungo), a qual, por sua vez possuía uma escrava.

Dos processos de fusão biológica e de interpenetração das culturas em contacto, que foram realidades constantes ao longo da colonização portuguesa, resultaram trocas recíprocas entre os grupos em presença, variáveis em intensidade conforme a compatibilidade e utilidade dos traços e complexos de cultura. Relativamente à influência da cultura portuguesa, a maior aceitação verificou-se nos domínios da antroponímia e da cultura material, limitação que estava relacionada com o modo de vida dos habitantes das Ilhas pautado por valores e normas culturais de raiz africana ou afro-asiática, bem diferentes daqueles que o poder colonial procurava impor. Os cristãos, livres e escravos e os seus descendentes mesmo não aderentes à doutrina cristã, e alguns não cristãos adoptaram nomes e apelidos portugueses e indo-portugueses. Os cristãos livres por cultura e tradição ligadas ao sistema de povoamento processado no território. Os cristãos escravos por obrigação imposta no acto do baptismo, também ele de natureza coerciva. Apesar do optimismo de Frei João dos Santos, autor da Etiópia Oriental, que realça a conversão nas Ilhas e terras firmes de l6 000 gentios , desde o inicio da evangelização até l594, data em que deixou de paroquear a freguesia da ilha de Querimba, a realidade, segundo nos conta o Pedro Barreto Resende parece algo diferente:

“O cafres são gente bárbara, natural e muito cruel e pouco dada ao culto divino e só os que são nossos cativos se fazem cristãos por esse respeito, durando-lhe a cristandade enquanto lhe dura o cativeiro, sendo que não repugnam muito a nossa cristandade”.

Embora aderentes a valores sagrados diferentes, em 1798, - os habitantes das Ilhas estavam distribuídos pelos seguintes credos: 48,85% cristãos, 29,43% maometanos e 21,70 % de religião tradicional- verificava-se a existência de contactos permanentes e efectivos entre os membros das várias religiões praticadas. Afirmava-se naquela data que os cristãos que não eram “parentes dos maometanos e deles descendentes, o são dos cafres macuas e macondes”(7). Esta evidência vem mostrar que a política inter-étnica condenada, em l592, pelo dominicano Frei João dos Santos, não teve sucesso. O frade, como chefe religioso e chefe político, não admitia e via com bons olhos alguns usos e costumes e as relações de convivência e de amizade existentes entre cristãos e maometanos:” ... em nossos Domingos e dias santos de guarda virem as mouras visitar as cristãs suas amigas e todas juntas, cantavam, bailavam, comiam e bebiam, tão amigavelmente, como se fossem todas mouras”(8).

No lº quartel do séc. XIX, Frei Bartolomeu dos Mártires confirmava a política de convivência encetada após a imposição do domínio colonial no território verificada a partir de 1523: “Os mouros têm tal ascendente sobre os desgraçados habitantes que até lhes tem pregado e introduzido a sua infame lei, seus costumes depravados e as suas torpezas mais nefandas de maneira que já não é fácil reconhecer as diferenças entre eles”(9).

Como resultado da aculturação e miscigenação espontâneas vamos encontrar na sociedade colonial casos específicos de uma dualidade cultural: uma herança cultural por parte de uma elite local mestiça que se moldou às regras e valores da sociedade dominante, que punha em prática sempre que era preciso relacionar-se com os seus representantes e substituía pelos próprios da sociedade dominada ao regressar ao meio de origem; chefes que participavam nas duas culturas e asseguravam, deste modo, o funcionamento das estruturas coloniais, pondo ao serviço das autoridades coloniais, o seu poder tradicional e as instituições indígenas pré-existentes. Recorda-se o terço dos auxiliares, os prazos da coroa, a cobrança de impostos, o fornecimento de mão-de-obra e de forças militares sempre que estava em jogo a segurança do território e a sobrevivência do domínio colonial; uma mestiçagem, com significado mais cultural do que biológico, bem evidente e clara na antroponímia constante da Relação de l798 supra citada, da qual se respigaram alguns nomes próprios, sobrenomes e apelidos, herança das várias culturas em presença. Encontramos, por um lado, nomes próprios da língua portuguesa com apelidos provenientes de línguas locais(kimwani, kiswahíli, makonde ,makhwa,...): Agostinho Quemissa, Alberto Lupulo, Alexandre Mutema,Ambrósio Macogo, Ana Mulusso, António de Faria Mussupia, Bruno Antunes Oengue, Catarina Muadia, Cristina Muanseni, Domingos Muzuzi , Francisca Muanessa ,João Madudo, Lázaro Mazome, Macaelo Faque, Manuel Morindua, Paulo Botelho Quidava, Roque Cassicazi, Sebastião Malemoca e Sebastião Raimundo Aidoz .Por outro lado, embora mais raros, surgem nomes em que o nome próprio provem das línguas locais e os apelidos do português: Mualenda Gonçalves, Muanassa de Faria, Mucoto Ribeiro, Muenhe Mussa Ribeiro, Tima Simão e Zina Faria(10).
Ao contrário do que acontecia em 1798, durante a nossa estadia nas Ilhas, entre 1969 e l972,constatámos que os nomes de origem afro-suaíli atingiam cerca de 94,50% contra 5,5% provenientes da língua portuguesa. A mudança drástica verificada no período de quase de dois séculos ficou a dever-se à consolidação do Islamismo na Costa Oriental de África, designadamente em Moçambique, e à incapacidade dos Portugueses, através do poder político-administrativo e poder religioso, imporem o seu modelo de sociedade. Contudo, ainda pude verificar, numa análise superficial ao léxico da língua falada pelo povo mwani , o kimwani, a existência de um grande de palavras portuguesas e aportuguesadas que continuavam a fazer parte da linguagem dos Wamwani : alfanete, ambari, armari,ayo, bacia, balança, barbero, bata, biberau, blusa, bolo, brinco, buli, cabido, cadiado, calça, camisa, camisola, capote, caxa, cesto, chicra, colher, copo ya café, copo ya vidro , côr ya café, curuneta, epangaio, fato, ferro yakongomar, fogão ya makala, fogão ya patroli, fronha, fundi ya candieiro, galação, galico, galo garrafão, garufu, gelera, giz, gramafone, kifio ya cozinha, koroso, janelazi, lata, lampeão, leço, loja, mala, malaya zinco, , mala ya m´bawa, manchila, mantega, maquina ya kossoma, marrau, masoldado, m,batata, mpapaia, marmita ya alumínio, meias, mesa, moscaleta, m,pera, nakoda, nanazi, , n caju, orive, paquete, patrol, piresse, prateleira, quadro, rádio, reloyo, reloyo ya kajubera, reloyo ya campaínha, sabau, safrau, , safrau, sucrire, tamangu, tamboro, tampa ya kufinika, tcha kutaya mantega, telhado, termo , tejolo, vestido, ...

Entre a famosa doçaria que faz parte da culinária mwani também encontramos a influência da presença portuguesa, sendo bem conhecido o bolo denominado “biscoito”feito com farinha de mapira, que na forma nada difere do biscoito confeccionado em Portugal.

No princípio do presente século o governador Ernesto de Vilhena dá-nos conta de uma dança cantada de origem portuguesa a “ Margarida” que servia de divertimento aos rapazes em que a letra do refreão incluía um vocabulário misto de português e de kimwani: Ai ué niquareta/ Ai Mussa ladrão/Roubou macarrão(11). A dança da corda , conhecida por Insóbué, tão do agrado da mulher mwani, possivelmente, de origem portuguesa, ainda era divertimento em 1974.


Nas Ilhas de Querimba, após a sua conquista pelos Portugueses, nasceu e desenvolveu-se uma nova realidade sócio-cultural constituída biologicamente pela miscigenação, economicamente pela técnica escravocrata da produção e sociologicamente pela interpenetração de culturas. As famílias mestiças- pela cultura e pela biologia, desempenharam um papel relevante no povoamento, na imposição de um modo de vida próprio, no processo de mobilidade social, na solução de conflitos, na convivência social e na continuidade e revitalização da situação colonial.

Da situação colonial nesta parte norte de Moçambique resultaram processos de aculturação- que foi mais espontânea do que imposta- como a integração, a assimilação e diversos sincretismo: famílias, prazos da coroa, religião, antroponímia ..., que devem merecer a curiosidade e análise sistemática por parte das novas gerações para que se conheçam a riqueza, a diversidade e o significado da vida humana em diferentes contextos e as formas específicas de vida em comum e as inter-relações que se estabeleceram entre a Europa e os outros Continentes na era gâmica(12).

REFERÊNCIAS:
1 - Segundo este autor essa unidade cultural é constituída por três componentes: uma unidade racial resultante de múltiplas e seculares migrações humanas de natureza inter-continental(África, Ásia, Europa e América); uma unidade cultural que se estende da China até à África; e uma unidade religiosa assente no Alcorão cujos princípios doutrinais se adaptaram às diferentes condições ecológicas, políticas, culturais e étnicas e teve a capacidade de ultrapassar as divergências geradas pelos contactos de povos e culturas em diferenciados contextos. Para mais pormenores ver ALLEN,J-”Propuestas de Studios Sobre el Oceano Indico”,in Relaciones Historicas Através de Oceano Indico.Barcelona, 1980, p.p. 164 e segtes e BENTO, Carlos Lopes- As Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado- Situação Colonial, Resistências e Mudança-1742-1822, 2 vols.
2 - NEWITT, Malyn - "The Southern Swahili Cost in the First Century of European Expansion". In Azania, Vol. XIII, 1978, p.p. 111-126.
3 - Os principais dialectos do Kiswahili são: o Kiamu, falado em Kiamo, Kenia e Pate; o Kimvita falado em Mombaça; o Kiunguja falado em em Zanzibar e Pemba(ilhas); o Kimrima falado nas terras firmes de Zamzibar; o Kingarija falado na Grande Cômoro; e o Kimwani falado nas Ilhas de Querimba, Quissanga, Mossimboa, Thungui e cidade de Pemba. Nas línguas do litoral , desde do sul da baía de Pemba até Sofala o prefixo ki foi substituído por e : Émakha,Ésakati, Ékoti, Éshwabo e Iboani ou Éboani.
4 - Vidé PRATA, Pe António Pires- “Influência do Português sobre o Suaíli”, in Bol. do Museu de Nampula, Vol. 2, 1961,p.149-150.
5 - Para mais pormenores consultar : MADAN, A.C.- Suahili dictionary.Oxford, 1903, p.p.442 e SACLEUX, Charles- Dictionnaire Swahili-Français.Paris , 2 Tom. e PRATA, op.cit. p.p.133-175.
6 - Para mais esclarecimentos ver BENTO, op. cit., Vol. I, p., 532.
7 - BENTO, op.cit. Vol.I, p.519.
8 - Idem,Ibid.p. 518-519.
9 - Idem ,Ibid. p.524.
10 - Idem, Ibid. p. 532.
11 - Ver OLIVEIRA, Mário Baptista de-Monografia sobre a Ilha do Ibo. Ibo, dac.,1962, p.223.
12 - Este pequeno trabalho, aqui com pequenas alterações, foi publicado na Revista de Estudos Políticos e Sociais, ISCSP, Lisboa, 2000, p. 119-126. O seu autor, que foi administrador do concelho do Ibo, é antropólogo, doutorado, em Ciências Sociais e Políticas, especialidade História dos Factos Sociais e licenciado em Ciências Antropológicas e Etnológicas pelo I.S.C.S.P., da Universidade Técnica de Lisboa, é professor coordenador do Instituto Superior Politécnico Internacional e professor catedrático convidado, da Universidade Internacional, onde exerce actividade docente e de coordenação de estágios, nas licenciaturas bietápicas em Gestão Turística e Hoteleira e Gestão Bancária e Seguradora. É director do Centro de Investigação Aplicada em Gestão Turística e Hoteleira e do Centro de Estudos de Gestão Turística e Hoteleira. Interessa-se pela Antropologia Africana- Moçambique e pela Antropologia Portuguesa, domínios do turismo e do comportamento organizacional. Faz investigação no domínio da cultura alimentar- Culinária tradicional.
TRABALHOS DO AUTOR:
Entre a múltipla colaboração dispersa por livros e publicações periódicas, realçam-se os seguintes artigos publicados ou em prelo:

- "Problemas Eco-Sociais e a Reconversão da Pesca Artesanal" ( 1980);
- "O Trabalho de Campo na Antropologia e o Desenvolvimento" (1982);
- "O Desenvolvimento das Pescas nas Costas do Algarve-Achegas para o Estudo do seu Passado" (1984);
- "A Historiografia e a Antropologia em África" (1984);
- "O Contributo do Estudo das Práticas Culinárias para um Melhor Conhecimento das Migrações Humanas e dos Fenómenos da Difusão, Mudança e Evolução Culturais - A caso específico da cozinha entre os Wamwani das Ilhas de Querimba / Moçambique (1984);
- "Moínhos e Azenhas em Mouriscas" (1985);
- "As Potencialidades das Fontes Históricas na Pesquisa Antropológica" (1986)
- "O Desenvolvimento das Pescas nas Costas do Algarve-Achegas para o Estudo do seu Passado. Breves Considerações Finais" (1986);
- "A Pesca do rio Tejo. Os Avieiros: Que Padrões de Cultura? Que Factores de Mudança Sócio-Cultural? Que Futuro?" (1987);
- "O Desenvolvimento das Pescas nas Costas do Algarve-Achegas para o Estudo do seu Passado.- Ambiente, Tecnologia e Qualidade de Vida" (1988);
- "A Posição Geo-Política e Estratégica das Ilhas de Querimba. As Fortificações de Alguns dos seus Portos de Escala" (1989);
- «La Femme Mwani e la Famille. Étude Quantitatif des Quelques Comportements des Femmas de l’île d’Ibo» (1990);
- "As Companhas de Ceifeiros Ribatejanos no Alto Alentejo- Uma Forma de Organização Social Extinta" (1991);
- "O 1º Pré-censo de Moçambique- A Relação Geral de População de 1798 das Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado" (1991);
- "Uma Experiência de Desenvolvimento Comunitário na Ilha do Ibo/Moçambique entre 1969 e 1972" (1992);
- "Os Prazos da Coroa nas Ilhas de Querimba e a sua Importância na Consolidação do Domínio Colonial Português” (1997);
- "Ambiente, Cultura e Navegação nas Ilhas de Querimba: Embarcações, Marinheiros e Artes de Navegar" (1998);
- "A Administração Colonial Portuguesa em Moçambique- Um Comando Militar em Mogincual, entre 1886 e 1921" (1999);
- "Situação Colonial nas Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado- Senhorios, Mercadores e Escravos"(Resumo da Tese de doutoramento) (2000);
- “Contactos de Cultura Pós- Gâmica na Costa Oriental de África. O Estudo de um Caso Concreto” (2000);
- "Quem Defende os Interesses dos Pequenos Agricultores do Alto Ribatejo? (2001);
- “A Ilha do Ibo: Gentes e Culturas - Ritos de passagem” (2001);
- “Mouriscas: Terra Pobre, Gente Nobre”. (2002);
- “A Antropologia da Alimentação em Portugal.- Um estudo concreto” (2003);
- “A Cozinha Tradicional na Área do Pinhal e o Desenvolvimento Regional - O Maranho como Prato Emblemático num Processo de Mudança” (2003);
- “A possessão em Moçambique - O Curandeiro N´kanga entre os Wamwuani do Ibo (1969-74)” (2003).
  • Carlos Lopes Bento neste blogue.
  • Carlos Lopes Bento no Google.

Clique nas imagens para ampliar. Transferência de arquivos do sitio "Pemba" que será desativado. Colaboração do Dr. Carlos Lopes Bento. Edição de J. L. Gabão para o blogue "ForEver PEMBA" em Julho de 2012. Atualizado em Outubro de 2012. Só é permitida a copia, reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores.

9/23/12

OS IGNORADOS

Falo-vos da África dos matos sem fim,
Dos ecos perdidos no capim,
Das picadas vermelhas mas livres,
Tão livres como a liberdade.
Em cada curva uma palmeira,
Em cada lugar uma saudade,
Em cada sorriso uma clareira
De brancura e de amizade.

Falo-vos das noites de encantamento,
Das queimadas para lá do pensamento,
Da lua a beijar a baía de Pemba,
Do batuque e das esteiras na temba
Onde o meu corpo se satisfazia
Em outro corpo que, depois, dizia:
« São cinco quinhentas, patrão! »
E eu, cá dentro, aqui onde bate o coração,
Nem sei o que sentia.
Só sei que, depois, voltava
Com mais quinhentas na mão,
Roído pelo tédio e a solidão.

Falo-vos dos poemas proibidos,
Alguns esquecidos,
Outros lembrados
E agora publicados.

Falo-vos dos loucos a berrarem no entardecer,
Das sentinelas a dispararem para a escuridão
Com o medo aos saltos, na indecisão
Da manhã que não se sabe se vai nascer.

Falo-vos dos rios em que lavei o rosto,
Matei a sede ao sol- posto,
Gritei que não queria a guerra,
Mas não desertaria da minha terra.

Falo-vos da África onde não voltarei
Para matar a fome das minhas recordações,
Abraçar os irmãos que deixei
E lamber as feridas de todas as desilusões.

Falo-vos da África dos nossos soldados,
Dos seus sorrisos e dos seus abraços,
Uns, já mortos, outros, vivos-despedaçados,
Mas, todos eles, ignorados.

- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustratrativa acima representa parte do Parque Tsavo no Quénia/África e foi recolhida no site "Viajologia-Época-Viajando com Haroldo Castro". Composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

7/26/12

AS FESTAS DE SÃO JOÃO BATISTA DO IBO, NO ANO DE 1900

PARA A HISTÓRIA DE CABO DELGADO-MOÇAMBIQUE 
AS FESTAS DE SÃO JOÃO BATISTA DO IBO, NO ANO DE 1900 
Carlos Lopes Bento "1"

A leitura do quinzenário O NYASSA, começado a publicar no Ibo, no primeiro dia do ano de 1900, deu-me a conhecer importantes notícias de natureza social, que nos ajudam a compreender melhor a realidade sócio-cultural e económica da vila do Ibo e demais lugares do seu concelho e de Cabo Delgado, no último ano do século XIX.

Comecarei este trabalho de divulgação, pelas notícias publicadas, nos números 11 a 15, da sua folha quinzenal, relativas aos festejos de São João Batista, o Precursor, padroeiro da Vila do Ibo.

Um grupo de militares em serviço na Vila do Ibo, em missão de serviço, lembrou-se deauxiliar a população mais desfavorecida da ilha. Para levar a efeito a sua louvável ebenemérita iniciativa, criou, em Maio de 1900, uma Comissão, para a qual convidoualgumas pessoas ilustres da Vila.

Seguem-se alguns excertos das notícias publicadas, entre Maio e Agosto de 1900:
Clique para ampliar.



"1" - Antropólogo. Administrador dos concelhos dos Macondes, Ibo e Pemba, entre 1967 e 1974. Diretor-Tesoureiro da Sociedade de Geografia de Lisboa.


  • Fotos do Dr. Carlos Lopes Bento sobre a Ilha do Ibo
  • O Dr. Carlos Lopes Bento no Google
  • A Ilha do Ibo no ForEver PEMBA
  • Colaboração do Dr. Carlos Lopes Bento. Edição de J. L. Gabão para o blogue "ForEver PEMBA" em Julho de 2012. Permitida a copia, reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue só com a citação da origem/autores/créditos.

    7/25/12

    Recortes - Moçambique: a maldição da abundância?

    25/7/2012 15:32,  Por Boaventura de Sousa Santos

    A “maldição da abundância” é uma expressão usada para caracterizar os riscos que correm os países pobres onde se descobrem recursos naturais objeto de cobiça internacional. A promessa de abundância decorrente do imenso valor comercial dos recursos e dos investimentos necessários para o concretizar é tão convincente que passa a condicionar o padrão de desenvolvimento económico, social, político e cultural.

    Os riscos desse condicionamento são, entre outros: crescimento do PIB em vez de desenvolvimento social; corrupção generalizada da classe política que, para defender os seus interesses privados, se torna crescentemente autoritária para se poder manter no poder, agora visto como fonte de acumulação primitiva de capital; aumento em vez de redução da pobreza; polarização crescente entre uma pequena minoria super-rica e uma imensa maioria de indigentes; destruição ambiental e sacrifícios incontáveis às populações onde se encontram os recursos em nome de um “progresso” que estas nunca conhecerão; criação de uma cultura consumista que é praticada apenas por uma pequena minoria urbana mas imposta como ideologia a toda a sociedade; supressão do pensamento e das práticas dissidentes da sociedade civil sob o pretexto de serem obstáculos ao desenvolvimento e profetas da desgraça. Em suma, os riscos são que, no final do ciclo da orgia dos recursos, o país esteja mais pobre econômica, social, política e culturalmente do que no seu início. Nisto consiste a maldição da abundância.

    Depois das investigações que conduzi em Moçambique entre 1997 e 2003 visitei o país várias vezes. Da visita que acabo de fazer colho uma dupla impressão que a minha solidariedade com o povo moçambicano transforma em dupla inquietação. A primeira tem precisamente a ver com a orgia dos recursos naturais. As sucessivas descobertas (algumas antigas) de carvão (Moçambique é já o sexto maior produtor de carvão a nível mundial), gás natural, ferro, níquel, talvez petróleo anunciam um El Dorado de rendas extrativistas que podem ter um impacto no país semelhante ao que teve a independência. Fala-se numa segunda independência. Estarão os moçambicanos preparados para fugir à maldição da abundância? Duvido.

    As grandes multinacionais, algumas bem conhecidas dos latino-americanos, como a Rio Tinto e a brasileira Vale do Rio Doce (Vale Moçambique) exercem as suas atividades com muito pouca regulação estatal, celebram contratos que lhe permitem o saque das riquezas moçambicanas com mínimas contribuições para o orçamento de estado (em 2010 a contribuição foi de 0,04%), violam impunemente os direitos humanos das populações onde existem recursos, procedendo ao seu reassentamento (por vezes mais de um num prazo de poucos anos) em condições indignas, com o desrespeito dos lugares sagrados, dos cemitérios, dos ecossistemas que têm organizado a sua vida desde há dezenas ou centenas de anos.

    Sempre que as populações protestam são brutalmente reprimidas pelas forças policiais e militares. A Vale é hoje um alvo central das organizações ecológicas e de direitos humanos pela sua arrogância neo-colonial e pelas cumplicidades que estabeleceu com o governo. Tais cumplicidades assentam por vezes em perigosos conflitos de interesses, entre os interesses do país governado pelo Presidente Guebuza e os interesses das empresas do empresário Guebuza donde podem resultar graves violações dos direitos humanos como quando o ativista ambiental Jeremias Vunjane, que levava consigo para a Conferência da ONU, Rio+20, denúncias dos atropelos da Vale, foi arbitrariamente impedido de entrar no Brasil e deportado (e só regressou depois de muita pressão internacional), ou quando, às organizações sociais é pedida uma autorização do governo para visitar as populações reassentadas como se estas vivessem sob a alçada de um agente soberano estrangeiro.

    São muitos os indícios de que as promessas dos recursos começam a corromper a classe política de alto a baixo e os conflitos no seio desta são entre os que “já comeram “ e os que “querem também comer”. Não é de esperar que nestas condições, os moçambicanos no seu conjunto beneficiem dos recursos. Pelo contrário, pode estar em curso a angolanização de Moçambique. Não será um processo linear porque Moçambique é muito diferente de Angola: a liberdade de imprensa é incomparavelmente superior; a sociedade civil está mais organizada; os novos-ricos têm medo da ostentação porque ela zurzida semanalmente na imprensa e também pelo medo dos sequestros; o sistema judicial, apesar de tudo, é mais independente para atuar; há uma massa crítica de acadêmicos moçambicanos credenciados internacionalmente capazes de fazer análises sérias que mostram que “o rei vai nu”.

    A segunda impressão/inquietação, relacionada com a anterior, consiste em verificar que o impulso para a transição democrática que observara em estadias anteriores parece estancado ou estagnado. A legitimidade revolucionária da Frelimo sobrepõe-se cada vez mais à sua legitimidade democrática (que tem vindo a diminuir em recentes atos eleitorais) com a agravante de estar agora a ser usada para fins bem pouco revolucionários; a partidarização do aparelho de estado aumenta em vez de diminuir; a vigilância sobre a sociedade civil aperta-se sempre que nela se suspeita dissidência; a célula do partido continua a interferir com a liberdade acadêmica do ensino e investigação universitários; mesmo dentro da Frelimo, e, portanto, num contexto controlado, a discussão política é vista como distração ou obstáculo ante os benefícios indiscutidos e indiscutíveis do “desenvolvimento”. Um autoritarismo insidioso disfarçado de empreendorismo e de aversão à política (“não te metas em problemas”) germina na sociedade como erva daninha.

    Ao partir de Moçambique, uma frase do grande escritor moçambicano Eduardo White cravou-se em mim e em mim ficou: “nós que não mudamos de medo por termos medo de o mudar” (Savana, 20-7-2012). Uma frase talvez tão válida para a sociedade moçambicana como para a sociedade portuguesa e para tantas outras acorrentadas às regras de um capitalismo global sem regras.

    - Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). Transcrição do "Jornal do Brasil".