domingo, 27 de agosto de 2006

MEMÓRIAS - Guerra em Moçambique.



Do "Bar da Tininha" - Yahoo:

Sobre as áreas infestadas de terroristas - Nuno Rocha 1968.
O homem que viu eclodir o terrorismo no Norte de Moçambique falou hoje comigo demoradamente.
Foi o tenente Vicente quem mo apresentou:— Aqui tem o sr. China.
Ele sabe tudo sobre o início do terrorismo em Moçambique.
O sr. China é um homem de cinquenta e sete anos.
É paquistanês e veio estabelecer-se em Mueda há doze.
É agora o proprietário de uma loja onde se vende de tudo e que se situa à saída do campo militar. É amigo dos soldados que vêem nele uma espécie de contacto com o mundo exterior.— Pelo menos ele não é tropa — disse-me o tenente Vicente. — Ao fim do dia estamos fartos de falar dos problemas da guerra e o China constitui um escape.
Contam algumas histórias do China, que tem duas filhas, uma delas ainda solteira.
Diz-se que o China oferecerá um «Mercedes» e ainda 600 contos a quem desposar a jovem.
Mas também se diz que a sua proposta não será jamais aceite, pois a filha do China nada deve à beleza e muito menos à inteligência...
Há também quem diga que o China é simultaneamente aliado aos «turras» — designação por que são conhecidos os terroristas — e dos soldados portugueses.
Por causa dessas afirmações, o China já foi duas vezes chamado.
Mas de ambas conseguiu provar que nada tem a ver com os «turras».— Eu quero que me deixem viver em paz — disse ele. — Tenho aqui os meus negócios e é aqui que penso terminar os meus dias.
Entre um copo de «whisky» e uns petiscos que só o China sabe preparar, foi-me descrevendo o início do terrorismo:— Pode dizer-se que tudo começou em 20 de Agosto de 1964 quando mataram o padre Daniel, um sacerdote holandês da Missão de Nangulolo, que tinha chegado há dois meses.
Parece que os «turras» o mataram por engano, julgando tratar-se do administrador de Mueda, mas eu não creio.
Eles estavam dispostos a matar tudo que fosse branco.
O assassínio deu-se a três quilómetros de Nangulolo, quando o padre Daniel regressava da caça. Mas antes, em 8 de Agosto, já um branco tinha aparecido morto.
Era o Lopes, que foi atingido a tiro na rampa de Nacatare.
No entanto, só quando mataram o padre Daniel é que os «turras» disseram que a guerra tinha começado.
A pouco e pouco as populações das aldeias desapareciam para irem juntar-se no mato aos chefes do terrorismo.
E o China continuou:— No dia seguinte ao da morte do padre eu fui à Missão e notei lá uma grande preocupação. Um dos padres chamou-me e disse-me em voz baixa:
«China: está armado?»
Eu respondi:
«—Sim. Há qualquer coisa?»
«— Perigo» — disse-me o padre, afastando-se para que alguns negros que estavam ali não ouvissem o que ele dissera.
Pouco depois o mesmo padre chamou-me outra vez e disse-me:
«— Pegue nesta carta e vá entregá-la ao administrador. Há grande perigo. Eu já pedi que viesse um batalhão.»
O China disse-me depois que ficou seriamente preocupado:— De há muito que andavam rumores no ar mas nós não acreditávamos.
O administrador era o mais incrédulo e dizia sempre:
«Deixem-se disso. São boatos. Não há nada. Está tudo tranquilo.»
E o China prosseguiu, depois de uma pausa:— Em 29 de Setembro de 1964 Mueda foi atacada durante a noite.
Vivemos momentos de terror.
Mas a tropa já cá estava.
Depois, nunca mais tivemos sossego.
A guerra nunca mais acabou.
O China não se sente tranquilo.
Ele vive na zona quente, está no coração da guerra que atinge o Norte moçambicano.
In GUERRA EM MOÇAMBIQUE, do jornalista Nuno Rocha, editado em 1968.
NOTA:- Conheci pessoalmente esta família.
A filha aqui referida ainda está viva (Aifa de seu nome) e neste momento está em Portugal. Entretanto casou com um ex-militar, de apelido Santos, ficando vários anos em Mueda e agora tem residência em Pemba.
Também chamo a atenção de que o "China", na sua descrição do início da luta armada, não falar do ataque ao Chai (25.09.1964).
É que, 4 anos depois, tal só seria importante para a FRELIMO, pois, além do "barulho", nada mais ali aconteceu até àquele momento.
Fernando Gil - MACUA DE MOÇAMBIQUE
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Recordações de Mueda
Estive no distrito de Cabo Delgado no ano de 1972 ao serviço da empresa Azevedo Campos de Braga.
Parti de Lourenço Marques a dirigir uma frota de 10 camiões Berliet GLR cujo o destino era Macomia.
Demorou-se na viagem 21 dias, dado que fomos surpreendidos com o lamaçal na estrada depois da ponte em cima do rio Save.
Atravessamos o batelão em Mopeia, estamos no distrito da Zambézia; depois Nampula e Macomia.
Em Macomia o Azevedo Campos tinha adjudicado a construção da estrada até ao Mucojo junto ao Índico.
Macomia era a fronteira que dividia as etnias Macondes e os Macuas.
Na área de Macomia a paz era mais ou menos relativa embora, zona considerada 100% de guerra.
Passado uns três meses fui destacado para encarregado da central de britagem, junto à base área, em Mueda.
Seria para activar às máquinas, de britagem, que a Tâmega tinha ali deixado depois de ter asfaltado o aeroporto.
A central de britagem seria utilizada para produzir brita para asfaltar a estrada de Mueda-Mocímboa da Paria.
O "rachão" (pedra em bruto viria das "águas") ao fundo do planalto de Mueda cuja nascente era guardada por militares.
Mueda era de facto a terra de guerra, embora, não houvessem ataques na vila.
Não posso avaliar quantos soldados ali estariam estacionados, mas penso uns dois mil.
No aquartelamento da Força Aérea, pilotos, oficiais e praças talvez uns quinhentos.
A Azevedo Campos empregava cerca de uns 100 trabalhadores e seis motoristas.
Tive que construir o acampamento de casas de bambus e barro amassado para os trabalhadores e motoristas.
Um abrigo no interior das casas que constituía um poço coberto com toros grossos de árvores e um cano para respirar.
De Junho até Setembro a vida seguia mais ou menos tranquila em Mueda.
De quando em quando era visitado por um agente da DGS de nome Martins a pedir-me informações de quem eu suspeitava dentro dos trabalhadores macondes (que era todo o pessoal).
Nunca incriminei ou indiquei algum embora no grupo do pessoal havia suspeitos.
Ali estava em causa a minha segurança se porventura fosse indicar este ou aquele.
Acontecia que no fim do mês quando procedia ao pagamento, no dia seguinte, 50% do pessoal desaparecia e vinha passado uns três quatro dias.
A desculpa: "patrão estive doente, minha mãe faleceu etc.etc..
A Força Aérea operava com aviões de uma hélice T3 (?), jactos Fiats, umas avionetes (não me recordo o nome), os hélios Alluett.
Em Mueda havia dois estabelecimentos comerciais o do Santos, português e no lado oposto o do China, de raça indiana.
Qualquer um destes estabelecimentos estava sempre cheio.
O China tinha a filha a Aifa muito "vaidosa" (não deixava de ser boa rapariga), bem feita de corpo e, apetecível para um homem na casa dos trinta que era eu.
O China fornecia a farinha, peixe, óleo e cigarros ao meu pessoal, sob o meu aval que com as facturas que me entregava no fim do mês descontava a importância, no acto do pagamento, aos trabalhadores.
Fiz, como era natural, a corte à Aifa mas como resposta diz-me: namorava com o Santos da Cantina que mais tarde, já na Rodésia (com quem mantive, esporádica correspondência por alguns meses) disse-me estar grávida do Santos.
A Aifa comprometida apresentou-me uma rapariga de Mocimboa da Praia, de raça indiana, mas já com sangue muito diluído devido a cruzamento com a etnia Macua com quem viria a viver, amancebado, uns 4 meses.
A paz foi disturbada em 17 ou 18 de Setembro (uns dias antes do aniversário da FRELIMO que é a 25) e Mueda, praticamente, sem tropas (sob o comando do General Henrique Calado) que tinham partido em colunas para o mato para abastecer guarnições.
Ao fim da tarde desse dia eu e dois motoristas (um europeu casado com uma senhora mista e um preto o João Pedro de Mocímboa da Praia) íamos afagar a alma com umas "bazucas de cerveja Manica" à cantina do Santos, no fundo, a uns 300 metros do nosso acampamento. Caminhávamos e, seguíamos, junto à bataria área do lado esquerdo da pista do aeroporto e vimos o céu riscado como se fosse num lançamento de fogo de artifício num arraial em Portugal.
De momento não ligamos ao tracejado luminoso e dissemos uns para os outros: "a nossa tropa está a bater a zona"... Mas passado momentos não muito distante de nós houve o primeiro rebentamento e a coisa era mesmo para destruir os aviões, no solo da Força Aérea.
Os três fugimos para a bateria, descemos para "casa mata" da peça, onde havia caixotes de granadas anti-aéreas e designado nas caixas terem sido produzidas nos anos de 1944.
Havia uns dois soldados a tomar conta da peça e surge pouco depois um oficial, miliciano, com a patente de alferes.
Ouviam os rebentamentos dos foguetes da Frelimo no exterior.
Os dois soldados junto à bataria não conseguiam colocar o motor a funcionar, que iria accionar a bomba hidráulica da peça para a orientar em várias direcções.
Eu, como um louco, gritava gritava no abrigo: Atirem! Atirem, Atirem... e a bataria, descarregada, não tinha carga para dar o "start" ao motor.
Pegou à manivela e começou a disparar tiros sem alvo já que estes não se conheciam.
Também não era a peça indicada, dado que era para disparar contra aviões.
Ali servia apenas para actuar psicologicamente.
Ao outro dia emprestei uma bataria para que a peça funcionasse sem o auxílio de manivela.
No momento dos lançamento dos foguetes de 138 milimetros o sargento piloto aviador, Vilela da Mota, nascido na Beira e na casa dos 20 anos, levantou voo com um avião de uma hélice, um T3 (?) e meteu-se na linha de fogo e foi abatido pouco depois de ter levantado voo.
A consternação naquela noite foi total e um abatimento de moral, inclusivamente, nos pilotos da força aérea, com quem eu jogava a "lerpa" na messe dos sargentos da FAP.
Ao outro dia chegaram os comandos de Montepuez (onde eram treinados os comandos naturais de Moçambique) com seis hélios.
Entre eles estavam dois amigos meus de Quelimane e combinei com eles que pela tarde, do dia seguinte, havia uma "churrascada" para a "malta" no acampamento do Azevedo Campos. Naquela manhã ao nascer do dia os seis hélios partiram para a famosa base Beira e ali iriam bater o terreno e descobrir de onde estaria a rampa de lançamento dos foguetes 138 milimetros. Por volta das 2 horas da tarde começamos a preparar as galinhas com bastante "chindungo" (piri-piri), para a grande merenda que iria ser regada dois garrafões de 5 litros, branco Aveleda.
Fora da cozinha, a mulher do encarregado da pedreira, pendurava roupa num cordel.
Nós os homens muito afadigados com a assadela dos frangos.
De momento ouvimos a senhora: ai,ai,ai,ai!
Saímos todos para fora e olhamos para o atmosfera e vimos um hélio às voltas no ar, desgovernado, entrou em pirueta e despenhou-se junto à pista do aeroporto.
Quando bateu no solo, explodiu, levantou-se uma nuvem de fumo e seis comandos e o piloto foram recolhidos em sacos plástico.
Felizmente os meus amigos de Quelimane não vinham no hélio acidentado.
Merendamos, abatidos, pouco comemos e bebemos, muito para que as nossas tritezas fossem compensadas com o alcoól.
Fui transferido de Mueda para Mocimboa da Praia e dali para Diaca.
A estrada de Mueda para Mocimboa tinha duas frentes de trabalho.
Diaca era bem mais perigosa que Mueda.
A zona estava infestada de "frelimos" que matavam tanto soldados como civis.
Em Dezembro do mesmo ano, partia para a Rodésia de Ian Smith e despedi-me de Moçambique até hoje de onde tinha vivido parte da minha mocidade.
Deixei lá os meus verdes anos e uns 300 e poucos escudos no Banco Totta & Açores.
Com vagar voltarei ao tema.

José Gomes Martins
P.S. Quem me ler que não repare para gralhas ou outros erros dado que o texto não foi revisado. Foi escrito numa penada como se costuma dizer.

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