terça-feira, 14 de agosto de 2007

Ronda pela imprensa lusa: O que escreve Albano Loureiro.

Artigo publicado no diário "O Primeiro de Janeiro" do Porto - Agosto/2007.
O autor é o advogado e "macua" de Porto Amélia/Pemba Dr. Albano Loureiro, filho dos antigos residentes de nossa cidade, Sr. Loureiro do A. Teixeira e da Professora D. Ana Alcina, sobrinha do Administrador do posto de Metuge (na época colonial), próximo a Bandar e à Companhia Agricola de Muaguide, Sr. Fernandes Pinto :
OPINIÃO - Monotonia - Por Albano Loureiro*
Estar longe de casa na aldeia globalizada de hoje, já não é desculpa para se desconhecer o que se passa na nossa pacata terrinha. Mas julgo que todos experimentam esta sensação de diferença entre aquilo que nos chega quando estamos longe, ou o que percepcionamos quando estamos por cá. Com esta coisa da net, então tudo é mais evidente. Por alguns dias na Catalunha, olho os meios de comunicação locais e, de Portugal, chegam notícias sobre o caso Maddie. Bem sopesadas, com alguma estupefacção mas sem grande alarido, até porque a aparente inversão dos acontecimentos é quase inacreditável. Do BCP, nem palavra. Creio mesmo que não sabem o que é. Se lhes perguntasse, quase aposto, atentas as letrinhas, julgariam tratar-se de alguma sucursal do pomposíssimo “blau grana” do tipo “Barcelona Club de Portugal”. Mas não se ficam por aqui. Será que não se deram conta de quem preside à União Europeia? Oh senhores, somos nós, os portugas e “su” chefe maior, José Sócrates. Santa ignorância. Viro a agulha para os jornais, rádios e televisões portuguesas com a ajuda do Wireless. Ah, cheguei, estou de volta ao cume da pirâmide. O mundo gira à volta de Portugal e dos portugueses. Não há casos de polícia como os nossos, não há bancos maiores que os nossos e se não fosse Portugal, a Europa não era conhecida. Na questão da pequenita inglesa, já estamos a ganhar aos tablóides ingleses que parecem feitos por aprendizes da função se comparados com os nossos enormes jornalistas de investigação, tal é a grandeza dos seus comentários. Sobretudo a grandeza do espaço que ocupam sem nada dizerem. Depois a questão do BCP. O maior banco privado português tem a seus pés o sistema financeiro do mundo que está a tremer com os problemas da informática que impediram a continuação da Assembleia. Aliás nunca me tinha ocorrido que uma Assembleia desta importância pudesse ser suspensa por questões de informática. Se bem conheço as regras daquela instituição, os responsáveis pela área em causa podem preparar os trastes pois não devem ficar lá por muito tempo. Ou então, não havia problema nenhum e tudo não passou de pretexto para saída airosa ou adiamento da contenda até melhor oportunidade. Já vejo a banca mundial em testes contínuos dos seus sistemas de informação, prevenindo situações idênticas às ocorridas nesta proeminente instituição bancária classificada para baixo dos cem maiores bancos do mundo. Muito para baixo.E dos nossos líderes políticos o que alcanço é que … estão de férias. Bom, mas são as férias mais importantes do mundo. De resto, é precisamente porque estão de férias que tudo corre mais parado, quiçá, melhor. Volto à comunicação social local do sítio em que me encontro. Não é diferente. Um energúmeno alvejou a tiro a filha de dezoito meses e depois suicidou-se, tudo por causa de divergências com a Mãe. O caso de polícia deles é o melhor e mais entusiasmante. Longas dissertações de jornalistas, comentadores e investigadores para explicarem o sucedido. Horas de antena para não dizerem nada que não se soubesse, ou para dizerem coisa nenhuma. Em poucos dias, dois apagões na segunda cidade de Espanha. Os políticos fazem um festim. Como cá, a culpa morre solteira. A oposição diz que o Governo não reconhece erros e despreza os cidadãos. O governo responde que a culpa é da oposição que não tratou da rede eléctrica quando era governo e deixou esta pesada herança. Esta coisa da globalização também teve este efeito de tornar tudo igual porque todos se espiam uns aos outros e vão copiando o que ouvem e vêem. Políticos, polícias, jornalistas e tudo o mais, até o turista em férias, se tornaram uniformes, monótonos e sensaborões. Bem queria eu ser diferente mas também me deixei levar na moda. Há contudo nesta monotonia um traço comum. Um egocentrismo implacável bem contrário à tão propalada solidariedade entre todos. Afinal vivemos cada vez mais para nós e dos nossos problemas. Tudo o resto é paisagem.

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