terça-feira, 19 de maio de 2009

Eu sou de Pemba, tenho 30 anos e sou divorciada. Tenho uma filha de sete anos...

(Clique na imagem para ampliar. Imagem original daqui e daqui)

Eu sou de Pemba, tenho 30 anos e sou divorciada. Tenho uma filha de sete anos. Demorou muito para eu descobrir que tinha o HIV. Comecei a ficar doente em 2004 e fiquei um ano e meio com febres, tudo doía. As pernas não me ajudavam, eu já não andava. Estava sempre com manchas no corpo, comichão nos braços e nas pernas.

Na época eu era casada com um tanzaniano. Tive duas filhas e as duas morreram com menos de dois anos. Eu fazia pré-natal, mas não acusava nada. Fiquei um ano hospitalizada, mas ninguém nunca dizia o que havia de errado comigo. Eu pedia, exigia, implorava e nada.

Voltei da Tanzânia para Moçambique. Meus tios me receberam e cuidaram de mim. Comecei a receber tratamento no hospital e quem me atendeu foi um médico tanzaniano. Perguntei para ele se poderia ser HIV e ele disse que não, que ele ia me tratar e eu ia sarar. Acho que o teste voltou positivo, mas ele não queria me dizer.

No meio tempo eu também fazia tratamentos tradicionais. Minha família já tinha perdido as esperanças. Um dia uma prima sugeriu: “Mana, tem uma doença que faz o teste, era bom que fôssemos lá no hospital de dia. Pode ser que não seja, mas vamos tentar.”

Quando me disseram que eu era positiva, não acreditei. Eu já tinha ouvido falar o que era HIV, mas pensava “Isso não pode acontecer”. Naquele dia, um paciente no hospital me disse: “Não te sintas triste, eu também estou a fazer tratamento. Vais ficar bem.”

Não faço idéia de como fui infectada, mas meu marido era negociante, ele tinha outras mulheres durante as viagens. Quando descobri que era seropositiva nós já estávamos separados. Eu mesma pedi: “Não quero te privar. Estou doente e não sei até quando fico assim. Enquanto eu não sei o que eu tenho, eu te liberto.”

Comecei a fazer o tratamento. Em três meses eu me sentia a recuperar. Passei a ter uma apetite forte de comida. Me sentia bem. No hospital, um enfermeiro me falou de uma associação de pessoas vivendo com HIV chamada Kaheria (“Você não dizia?...” na língua macúa), para eu não ficar isolada. Fui, inscrevi-me, dediquei-me e passei a ajudar outras pessoas. Virei activista.

Preciso me sentir mais firme antes. As pessoas têm muita confiança em mim e me pedem para ajudar em várias situações. Sei, por exemplo, de um casal em que os dois são seropositivos, mas um não sabe da condição do outro. Os dois vieram me contar, mas não têm coragem de dizer para o parceiro.

Numa outra ocasião, a esposa escondeu os remédios do marido, porque desconfiava que os comprimidos não eram para dor de estômago, como ele dizia. Ela queria que ele ficasse aflito e contasse a verdade para ela. Ela não sabia que ele tinha o vírus, mas eu aconselhei que ela devolvesse os remédios, porque se ele morresse, ela seria cúmplice.

Em outro caso, havia um pastor que ia se juntar com uma moça, mas ele não sabia que ela era seropositiva. Ela escondia os remédios no plástico de calcinhas. Um dia ele apanhou os remédios, que reconheceu porque um amigo havia morrido de SIDA. A moça mentiu: “Não são meus, são da Patrícia”. Ela foi correndo até minha casa, me contou a história e pediu que eu fingisse ir até a casa dela buscar os remédios. Quando cheguei lá, o pastor tinha jogado os remédios na latrina, porque achou que fossem meus. Ele me pediu desculpas.

Como activista, eu tenho preparo para conversar com as pessoas. Quando alguém me traz uma situação assim, eu sempre posso mostrar qual o caminho. Apesar disso, eu mesma ainda não tive coragem de abrir minha condição para todos. Já apareci na televisão falando sobre o trabalho como activista na Kaheria. Sou uma figura pública, leio mensagens para motivar as pessoas para fazer o teste voluntário, mas as pessoas não sabem que eu sou seropositiva. Apenas algumas poucas pessoas sabem, e elas não me discriminam. Outras não acreditam, dizem “Ela é gorda e bonita, não é verdade”. Mas mesmo assim ainda não acho que está na hora de me revelar: preciso me sentir mais firme antes. Mas acredito que eu seja alguém que está a contribuir com a sociedade.
- Pemba, Maio 2009, Patrícia - PlusNews.

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