sexta-feira, 2 de outubro de 2009

As Moças - Um conto de Allman Ndyoko (Francisco Absalão)

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:: Allman Ndyoko pode ser lido em "Contos e Poesias do Índico"::

Nunes devorou com gosto o peitoral e a asa do frango e batatas fritas, à moda KFC, e com o pão integral limpou no prato uma pobre nódoa de molho de tomate e maionese e saiu do Take away rotando e transpirando. Limpou a boca com as costas da mão direita e precipitou-se a apanhar o “chapa” que lhe levaria lá para as bandas do Xiquelene, bairro periférico de Maputo. Ao acomodar-se, ao lado de uma janela, como era hábito, abriu-a até a metade para arejar.

Era fim da tarde. Tarde muito quente, de calor húmido e incómodo. Lá fora do “chapa” o barulho dos motores misturados ao murmúrio dos populares que faziam da paragem de Benfica o seu ponto de trânsito com destino aos diversos bairros suburbanos, como são os casos de: Matendene, Zimpeto, Malhazine, Magoanine, Hulene e outros, era ensurdecedor. Entretanto, o motorista fez duas acelerações absurdas para chamar atenção dos passageiros e arrancou bruscamente para que um outro “chapa” não o vedasse a passagem e parou na única e estreita saída condicionando o trânsito e provocando um mar de protestos que se manifestou por meio de de buzinadelas de outros automobilistas como se quisessem chamar à quem de direito a restaurar a ordem e paz através de repreensão daquele acto deliberado que é característica, já de barba branca, de muitos chapeiros da praça.

- Xiquelene, Xiquelene sentado! – Gritou o cobrador totalmente indiferente aos actos de protesto dos demais automobilistas que ansiavam retirar-se daquele ponto infernal de trânsito.

Despreocupados também, os passageiros iam subindo ao carro sem pressa e pouco-a-pouco os acentos lotaram e finalmente a saída ficou transitável e o cheiro da fumaça resultante da queima do diesel nos motores dos “chapas” e os protestos ensurdecedores desvaneceram. Já em anadamento, o cobrador, um jovem de uns vinte e poucos anos de idade e com aparência de um drogado, fechou a porta do Toyota Hiace arastando-a e provocando um chiado de arrepiar os dentes.

O carro deslizou veloz no asfalto e na rotunda da Missão Roque descreveu à direita obrigando os passageiros a inclinar-se para o lado direito e no fim, tomou a direcção de Magoanine.

- Estamos a pedir reduzires a velocidade, senhor motorista. - Gritou uma rapariga dos seus desaseis anos de idade sentada no último banco traseiro do “chapa” na companhia de três amigas que falavam em voz excessivamente audível. Riu animada pelo seu grito e acrescentou. - Nós outros, senhor motorista, temos ainda filhos menores por criar... veja se não incurta a nossa vida.

As raparigas riram todas satisfeitas com a advertência feita ao motorista e continuaram falando em voz excessivamente audível. Já próximo à paragem de Malhazine, uma das raparigas vociferou:

- “Quebrador”!

O jovem cobrador torceu o pescoço e inquiriu com a cabeça.

- Diz-me quantos passageiros estão neste “chapa” e quanto vão pagar.

- O que tu queres fazer com essa informação? - Quís saber o cobrador esboçando uma expressão facial de poucos amigos.

- Quero pagar-lhes o “chapa”, porque vejo que muitos deles têm cara de pobreza.

As quatro raparigas desataram a rir animadas, sabe-se lá com que raio de droga.

- Não é muito dinheiro, passageira. – Respondeu depois o cobrador brincalhão. – São apenas cem meticais... só.

- Tá bem. – Respondeu uma delas com uma voz rouca.

Uma das raparigas que parecia a mais nova, ligou um dos toques do seu Nokia 1200 e pôs-se a cantarolar algo despido de nexo. E, como combinação se tratasse, os restantes passageiros, todos mais velhos que as raparigas sem educação, voltaram-se para elas e de forma desordenada, pediram:

- Deixem-nos viajar em paz, por favor!

- Não estamos neste carro a viajar de favor. - Acrescentou um deles que ostentava uma calva tímida e uns cabelos grisalhos.

-Senhor motorista! - Gritou umas das raparigas que parecia ter uns quinze anos. – Pára o “chapa” para descer quem não aguenta viajar connosco.

Desataram novamente a rir e a assobiar cantarolando uma música do Zico.

- Esta geração, esta geração! – Lamentou o homem de calva tímida abanando a cabeça. – Muito novas e com muita vida pela frente, mas estão entregues às bebidas alcóolicas.

-É uma geração perdida. - Concluiu Nunes intimidando as meninas com um esboço facial feio.

O truque de um esboço facial feio pareceu ter dado certo, pois, temporariamente o barulho das meninas cessou. Mas, momentos depois, voltou a eclodir o barulho já com intensidade aborrecedora.

- Porra pá, Zaida, fizemos mal termos fugido aquele “kôta”. – Disse uma das raparigas denotando cansaço e ar de quem passou o dia se enchendo a cara. – Até este momento, se tivessemos ficado a “matrecar” o gajo, estariamos a beber “maningue” ampolas de cerveja.

- Viram aquela carne assada que esquecemos de levar? – Inquiriu uma das moças com lábios molhados e aparentando ter ficado com água na boca.

- A Tininha é que é culpada, porque logo que aquele senhor começou a querer as partes íntimas e a pegar-lhe torta e direita veio com a estória de fugirmos dalí.

-Não se preocupem minhas amigas. – Sossegou Tininha, pelo visto, a mais fala barato de todas. – O “kôta” pensava que ia pegar-me e molhar-me de prazer de borla, mas eu, Tininha, lhe mostrei que sou mais esperta que ele.

-Hemmmm? – Inquiriram as amigas visivelmente felizes,

-“Bati-lhe” quinhentos “paus”, minhas “sister’s” e temos “taco” para chupar tantas cervejas que quisermos.

- Por falar nisso, agora tou a lembrar-me que na minha bolsa – Zaida ergueu uma bolsa preta e agitou-a. – ainda temos meia garrafa de whisky.

O “chapa” parou na paragem da primeira rua. Nunes desceu e o carro arrancou enquanto as raparigas continuavam em alvoroço provocando com palavrões qualquer automobilista que, naquele momento, ousasse ultrapassar o “chapa” que transportava as raparigas mal-educadas. Parou na margem direita do asfalto e esperou que uma fila enorme de carros interrompesse a marcha, e quando assim aconteceu, atravessou o asfalto com prudência e mergulhou-se no meio das primeiras casas de Hulene “B” pensando na situação de vulnerabilidade ao alcóol e a infecção por doenças sexualmente transmissíveis em que aquelas adolescentes se expunham, achando que tudo o que faziam era o melhor pra as suas jovens vidas, ignorando visivelmente todos perigos que aquele estilo de vida podia transportar.
- Allman Ndyoko, 21/09/2009.

- Vocabulário:
Kota - Pessoa mais velha, que pode ser pai, mãe, tia, etc.
Chapa - Autocarro de transporte semi-colectivo de passageiros.
KFC - Loja de origem estadunidense com filiais na África do Sul, especializada em venda de frangos confeccionados.
Matrecar - Enganar, aldrabar...
Maningue - É um termo moçambicano que quer dizer muito.
Bater - Levar algo sem o consentimento do proprietário, roubar...
Sister’s - Irmãs ou amigas, isto no contexto moçambicano.
Take away - Local onde se confeccionam comidas rápidas.
Quebrador - É a forma pejorativa de denominar o cobrador dos transportes semi-colectivos.
Paus – É um calão usado com frequência pelos jovens moçambicanos para quantificar o dinheiro (metical) ao invés de chamá-lo pelo nome.
Taco – Dinheiro. É também um calão usado pela juventude moçambicana.

- O Autor Francisco Absalão:
Nome artístico -Allman Ndyoko;
Nasceu - Em 11 de Abril de 1977 na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado em Moçambique;
Residência actual - Maputo.
- Produto da nova vaga de escritores moçambicanos dos anos 90, cursou História da Literatura Portuguesa, promovido pelo Instituto Camões em parceria com a Faculdade de Letras da Universidade Eduardo Mondlane. Tem textos literários publicados em antologias, como: Histórias do Mar (2005) e Esperança e Certeza II (2008). Venceu os seguintes concursos de contos: Historias do Mar (2005), Contos e Bandas Desenhadas - promovido pelo Instituto Camôes em Maputo/Moçambique (2006). Podem encontrar textos literários de sua autoria em seu blogue particular "Contos e Poesias do Índico" e publicados em várias revistas e jornais electrónicos no Brasil, com destaque para a editora online Blocos e Recanto das Letras.

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