sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ronda pela Imprensa do Douro: António Lobo Antunes e a escrita mentirosa



Custa-me encontrar um título apropriado à escrita de António Lobo Antunes que, podendo ganhar dinheiro com a profissão de médico, prefere a escrita para envergonhar os portugueses.


Talvez este início de crónica escandalize quem costume venerá-lo. Eu, por maior benevolência que para com ele queira usar não posso, nem devo. Por várias razões, algumas das quais vou enunciar. Porque não gosto de atirar a pedra e esconder a mão.


Este senhor foi mobilizado como médico, para a guerra do Ultramar. Nunca terá sabido manobrar uma G-3 ou mesmo uma Mauser. Certamente nem sequer chegou a conhecer a estrutura de um pelotão, de uma companhia, de um batalhão. Não era operacional mas bota-se a falar como quem pragueja. Refiro-me ao seu mais recente livro: Uma longa viagem com António Lobo Antunes. João Céu e Silva pode reclamar alguns méritos deste tipo de escrita. Foi o entrevistador e a forma como transpõe as conversas confere-lhe alguma energia e vontade de saber até onde o entrevistado é capaz de levar o leitor. Mas as ideias, as frases, os palavrões, os impropérios, as aldrabices - sim as aldrabices - são de Lobo Antunes.


Vejamos o que ele se lembrou de vomitar na página 391:
«Eu tinha talento para matar e para morrer. No meu batalhão éramos seiscentos militares e tivemos cento e cinquenta baixas. Era uma violência indescritível para meninos de vinte e um, vinte e dois ou vinte e três anos que matavam e depois choravam pela gente que morrera. Eu estava numa zona onde havia muitos combates e para poder mudar para uma região mais calma tinha de acumular pontos. Uma arma apreendida ao inimigo valia uns pontos, um prisioneiro ou um inimigo morto outros tantos pontos. E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava, e como quando estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros».


Penso que isto que deixo transcrito da página 391 do seu referido livro, se vivêssemos num país civilizado e culto, com valores básicos a uma sociedade de mente sã e de justiça firme, bastaria para internar este «escriba», porque todo o livro é uma humilhação sistemática e nauseabunda, aos Combatentes Portugueses que prestaram serviço em qualquer palco de operações, além fronteiras. É um severo ataque à Instituição militar e uma infâmia aos comandantes de qualquer ramo das Forças Armadas, de qualquer estrutura hierárquica e de qualquer frente de combate. Isto que Lobo Antunes escreve e lhe permite arrecadar «350 contos por mês da editora» (p. 330), deveria ser motivo de uma averiguação pelo Ministério Público. Porque em democracia, não deve poder dizer-se tudo, só porque há liberdade para isso. Essa liberdade que Lobo Antunes usou para enriquecer à custa o marketing que os mass media repercutem, sem remoques, porque se trata de um médico com irmãos influentes na política, ofendeu um milhão de Combatentes, o Ministério da Defesa, uma juventude desprevenida, porque vai ler estes arrotos literários, na convicção de que foi assim que fez a Guerra, entre 1961 e 1974. E ofende, sobretudo, a alma da Portugalidade porque a «aldeia global» a que pertencemos vai pensar que isto se passou na vida real nos finais do século XX.


Fui combatente, em Angola, uns anos antes de Lobo Antunes. Também, como ele fui alferes miliciano (ranger). Estive numa zona muito mais perigosa do que ele: nos Dembos, com operações no Zemba, na Maria Fernanda, em Nuambuangongo, na Mata Sanga, na Pedra Verde, enfim, no coração da guerra. Nunca um militar, qualquer que fosse a sua graduação ou especialidade, atirou a matar. Essa linguagem dos pontos é pura ficção. E essa de fazer cordões com orelhas de preto, nem ao diabo lembraria. E pior do que tudo é a maldade com que escarrou no seu próprio batalhão que tinha seiscentos militares e registou centena e meia de baixas... Como se isto fosse crível!


Se o seu comandante que na altura deveria ser tenente-coronel, mais o segundo comandante, os capitães, os alferes, os sargentos e os soldados em geral, lerem estas aldrabices e não exigirem uma explicação pública, ficarão na história da guerra do Ultramar como protagonistas de um filme que de realidade não teve ponta por onde se lhe pegue.


Em primeiro lugar esta mentira pública atinge esses heróicos combatentes, tão sérios como todos os outros. Porque não há memória de um único Batalhão ter um décimo das baixas que Lobo Antunes atribui àquele de que ele próprio fez parte. É preciso ter lata para fazer afirmações tão graves sobre profissionais que para serem diferentes deste relatório patológico, basta terem a seu lado a Bandeira Portuguesa e terem jurado servi-la e servir a Pátria com honra, dignidade e humanismo. Não conheço nenhum desses seiscentos militares que acolheram António Lobo Antunes no seu seio e até trataram bem a sua mulher que lhes fez companhia, em pleno mato, segundo escreve nas páginas 249 e 250. Mereciam eles outro respeito e outros elogios. Porque insultos destes ouvimos e lemos muitos, no tempo do PREC. Mas falsidades tão obscenas, nem sequer foram ditas por Otelo Saraiva de Carvalho, quando mandou prender inocentes, com mandados de captura, em branco e até quando ameaçou meter-me e a tantos, no Campo Pequeno para a matança da Páscoa. Estas enormidades não matam o corpo, mas ferem de morte a alma da nossa Epopeia Nacional.
- Dr. Barroso da Fonte, Notícias do Douro, Peso da Régua, 13  de Novembro de 2009.


7 comentários:

jpt disse...

Caro Jaime Gabão permita-me o comentário, e porque a citação não é por si comentada portanto presume-se que é por si aceite.

Não é discutível, sequer, a argumentação literária (tipo, vende porque tem irmãos conhecidos). Seria patética se não fosse pateta [para os mais excitados ALA era um conhecidissimo escritor antes de qualquer familiar seu ter alguma notoriedade pública]. O que me parece inaceitável é a subscrição de uma argumentação que reclama o "internamento" [termo que oscila, propositadamente, entre o prisional e o de hospício] para um escritor por narrar as suas memórias - independentemente de serem ou não verdadeiras.

Certo que esta inadmissível atitude está espetada num jornal [o que é inenarrável] e que um jornal tem responsabilidades que nós bloguistas não temos. Mas a transcrição pura e simples deixa entender uma subscrição do argumento. V. subscreve esta palhaçada de querer prender ou internar os que contam a história de uma forma diferente da sua?

(Finalmente, e até é secundário diante da miséria moral de quem defende este tipo de valores: mas que palhaçada é esta de antigos militares nos virem dizer que nunca atiraram a matar? Andam a brincar? Ou, muito pior, andaram a brincar? Abominável - e ainda para mais num texto que acusa outro de mentir. E vergonhoso - o dr. Barroso da Fonte que foi combatente deve julgar ser honrado fingir que foi o único combatente, e que é o único a falar do que foi a guerra. Um sítio onde os soldados, e muito devidamente, atiram a matar. Que é (também) para isso que lá estão.)

Que horror de texto. A apoucar - e de que maneira - este nosso blog

jpt disse...

Entenda-se: "que palhaçada é esta de antigos militares nos virem dizer que nunca atiraram a matar?" quer dizer "que palhaçada é esta de antigos militares nos virem dizer que os militares portugueses nunca atiraram a matar?".

É o sentido desejado, e algo completamente diferente.

gotaelbr disse...

JPT,

A coisa é bem simples e não desejo, por falta de tempo, alongar a questão:
A guerra colonial é muito discutida, também por quem nunca vivenciou sequer uma guerra de verdade! Portanto sem conhecimento de causa e, na maior parte dos casos, embasados na "história" conveniente (consoante a afinidade politica) e deturpadamente contada por inúmeros "A. L.Antunes" que os há por aí a monte. Alás, a HISTÓRIA ainda está sendo, necessária e oportunamente reescrita, todos os dias, tais as falácias que inúmeros "revolucionários" e quejandos, vinham (e vêm) tentando impingir às novas gerações dos povos envolvidos.
Todas as guerras são violentas... Para mim injustificáveis, blá, blá, blá...!
Mas, porque também estive lá, na época, na tal guerra, vivendo a maioria dos detalhes escabrosos que nem me permito aqui traduzir, concordo com o que o que escreve o Dr. Barroso da Fonte, em seu direito de não concordar com falácias, pois esse sr. A. L. Antunes está mais para "vendedor" de livros de aventura de baixa categoria do que para "historiador" que respeita a verdade, ofendendo sim quem participou "ao vivo e a cores" dessa guerra, desrespeitando em simultâneo e profundamente todos aqueles que, obrigatória ou voluntáriamente, deram "o couro", a saúde e as vidas por algo que é HISTÓRIA e não filme barato de um Rambo qualquer mais virado para palhaço que busca cartaz ou notoriedade.
Com a consideração de sempre.

jpt disse...

Jaime Gabão, eu vou insistir:
1- não venho discutir os méritos literários de António Lobo Antunes (nem me parece que seja isso que está em discussão - até porque me parece que as opiniões sobre ele são neste post e comentário segundas em relação a considerações políticas - o que nunca é bom critério literário, mas enfim)
2 - também não vou discutir a dimensão "revolucionária", sob ponto de vista político, de ALA, se será ou não adequada. Nem tampouco se as suas memórias são ou não verídicas ou fantasiadas.
3 - o que discuto é a pertinência de aplaudirmos, de publicarmos, textos que apelam à prisão ou hospitalização dos narradores (efabulando ou não). É inaceitável, ainda para mais em quem tem a liberdade de publicar (em) jornais e, até, em blogs. É inaceitável enquanto cidadão e é um total contrasenso sob o ponto de vista racional.
4 - contrariamente a si não penso que todas as guerras sejam injustificáveis (seráo lamentáveis, mas isso é outra coisa). Divergimos na opinião. Mas isso não é o fundamental da nossa discordância. O que é inacreditável é dar cobertura a quem - em nome de experiència própria - vem dizer que umas forças armadas que suportaram três longuíssimas guerras não atiravam a matar. Isto não é só estar a mentir, isto não é só estar a mitificar. Isto é estar a apoucar moralmente milhares de soldados que fizeram guerra (justa ou injusta) nas condições de guerra que a guerra tem.

Entenda bem, fingindo cobertura de um toque nacionalista, se há texto que possa humilhar, penalizar, culpabilizar, os soldados dessas guerras são estas "tretas" que no fundo significam que combater (atirar a matar) seria errado e como tal nunca foi feito.

É um rosário de vergonhas este texto. E de paradoxos racionais, de uma incompetência absoluta.

Não insistirei mais em comentar isto - que aliás vale como sintoma e nem tanto pelo objecto em si.

Mas muito lamento que possa haver adesão (qualquer tipo de adesão) a este tipo de discurso. Independentemente do que se possa considerar sobre o objecto-alvo da crítica.

cumprimentos

Carlos disse...

Então os militares não atiravam a matar? Então também não morriam e aquilo era tudo a brincar? Então as minas era só para afugentar a passarada? Então as bombas dos aviões eram só para imitar os foguetes dos santos populares? Então os barcos da marinha quando bombardaevam as matas era só para marcarem a presença?. Então nunca houve querra.

gotaelbr disse...

Não entendo assim JPT.
Se o A. L.Antunes , "discursa" as suas aventuras africanas com a parcialidade de sua própria ótica, "denunciando" exclusivamente as "irregularidades" praticadas por uma das partes, predispõe-se a ter de assimilar (ou não, isso é-me indiferente)a ótica e discurso da outra parte, neste caso representada pelo Barroso da Fonte.
Não podem haver dois pesos nem duas medidas. Nem mocinhos ou bandidos escolhidos a dedo segundo a côr política ou a opinião de cada um.
Também não se trata de adesão a um texto que vc. considera "rosário de vergonhas", já que e em meu ver, também são de pôr a face ao rubro as mentiras que o texto do tal senhor apresenta. E que afrontam, repito mais uma vez, quem por lá andou (guerra). Isto em minha opinião.

Anônimo disse...

Mas, fazer cordões com as orelhas dos negros capturados é de lascar mesmo. Como alguém como o escritor, tem a coragem de fazer um relato desses parecer a coisa mais natural do mundo? É pra deixar mesmo qualquer português ofendido, pois mostra os combatentes como seres irracionais, impiedosos e torturadores. Esta história deveria mesmo ser esclarecida!
João Neves