11/03/09

Não Matem A Esperança - M. Nogueira Borges - Capítulo 1

MÃE: ESTE LIVRO FOI ESCRITO COM LÁGRIMAS, VERDADE E AMOR, NAS TUAS MÃOS O COLOCO.

I
Estirou-se na cama. Cansado, chatiado, triste, muito triste, mais triste que o dia cheio de chuva lá fora.

João era um tipo esquisito. Mesmo antes de ir para África usar arma e camuflado. Sempre fora um idealista. Trincava silêncios poéticos, gemia projectos políticos proibidos, juntava-se a um ou outro da sua condição – até ao momento de ser traído – e conversava longamente, dando murros nas paredes, atirando as pedras dos gritos recalcados. As outras pessoas metiam-lhe nojo. Detestava-lhes a rotina dos gestos e dos actos, a hipocrisia dos fingimentos, o egoísmo de quem quer submeter os outros à sua maneira de viver, ao seu comodismo, à sua falsidade. Achava que elas não viviam. Mentiam. Mas não podia dizer nada, esboçar um protesto. Tinha que calar. As pessoas estavam velhas, preconceituadas, atrasadas em tudo, mas acima de tudo, na cultura e no intelecto. Não sabiam raciocinar ou raciocinavam só para eles, acarretando-lhes a inimizade natural de quem não está para os aturar. Mas calar porquê? Cobardemente? Mas ele não existia só no mundo dos seres humanos. Tinha família e ter família, na maioria dos casos, é um aborrecimento porque uma pessoa tem que se atraiçoar. Refugiava-se dentro da sua concha, como o caracol quando lhe tocam. Vinha para o seu quarto. Um quarto alugado ao mês. Um quarto de uma pessoa única: ele. Ele dentro de quatro paredes frias, sem vida, sem revolta, sem dizerem nada. Fumava. Contava o dinheiro. Fazia contas. Quanto poderia gastar amanhã? E depois? Não lhe chegava? Fazia ginástica. Olhava o tecto, olhava o nada.

João pensava:«Isto é um problema. Um tipo quer trabalhar, ganhar algum para cigarros, fazer alguma coisa de jeito e mandam-lhe um pontapé no traseiro. Anda um tipo dois anos lá fora, estudos parados, a criar vícios e outros hábitos, a aturar este e aquele que nunca viu de lado nenhum e chega vendo tudo ao contrário do que sonhara. As palavras são bonitas e sentimentais. São, são. O pior é o resto. As cartas que se escrevem não têm rosto. Por isso é que as palavras são tão bonitas e sentimentais. Às vezes até dá vontade de voltar para lá. Beber água do coco e comer mandioca como o negro e amendoim como o macaco. Arranjar machamba e derreter os ossos no seu amanho. Deixar-se andar até as pessoas dizerem que um homem está «apanhado pelo clima». E há quem se safe. Vêm cá fazer de ricos. Depois voltam mais uns tempos. Vêm de novo e zás. E regressam. Acabam por lá. O calor obriga à cerveja e ao uísque. As barrigas medram. Pode-se ter um, dois, vinte criados. Sem receio de grandes despesas pois a mão de obra é barata. Há praia todo o ano. Anda-se à vontade, em mangas de camisa, e até de tronco nu, mas com calções se não era uma vergonha. O marisco é barato e acompanha-se com álcool gelado. Há sempre festas e festinhas para se encher a pança, em que o burguês mostra que é mais burguês que o outro, em que se dança com as esposas dos outros dentro do maior companheirismo e seriedade. Mas também se trabalha, lá isso é verdade. Mas aquilo é porreiro. «Sim senhor, Patrão!». Eu se fosse para lá só o mato me interessava. O mato metido lá bem para dentro, onde não me cheirasse aos bifes e aos cosméticos das cidades. Viver com a natureza selvagem. Aprender os dialectos. Construía uma palhota, abraçada a um imbondeiro, casava-me com uma negra (se ela quisesse ir à igreja até nem me importava nada) e devia ser giro eu ter filhos chocolates. Abastecia-me no cantineiro mais próximo e que não me enganasse muito, comprava uma ginga, um portátil, e, nas tardes em que não me apetecesse dormir a sesta, escreveria o meu livro de sucesso, intitulado, por exemplo, «Vai para o mato malandro» ou então «A comodidade selvática». Claro, teria que arranjar uma lavra de qualquer coisa para fazer tudo isso e os filhos não andassem de barrigas inchadas. Mas seria bom. Só queria que os negros não me elegessem chefe, nem por Sufrágio Universal. Se o fizessem mudava de sítio.».

Puxou de um cigarro. Olhou o relógio. O próximo só poderia ser fumado daí a quarenta e cinco minutos.

«Mas porque será que não arranjo um emprego compatível? Claro que não vou servir burgueses nos Restaurantes ou nos Cafés, nem atender clientes a quem tem sempre de se dar razão, mesmo quando não a tenham. Trabalhar seis horas por dia e ganhar dois mil escudos por mês! Isso quase que ganha um empregado qualquer, numa semana, em um daqueles países em que até as greves acontessem. E mais: no fim de um ano, se não servisse, ia para a rua! Bonito, sim senhor. E ainda estão os estudos que tenho que prosseguir para amanhã não andar a pedir esmolas. E se eu fosse para o estrangeiro? Lavar pratos, limpar retretes, cortar as ervas dos jardins, cuidar das crianças dos ricos? Nos intervalos tiraria um curso de línguas e pintaria quadros para expôr às portas dos teatros. Juntar-me-ia a uma sueca ou francesa ou a uma qualquer liberal e faríamos amor no palheiro mais próximo duma quinta abandonada. Seria engraçado até ao dia em que um de nós se saturasse e dissesse: «Good bye». Não. Quero ser mais do que isso.».

Foi à janela. Parara de chover. As ruas estavam semilavadas e os automóveis desciam com cuidado. Um polícia, arrogante e espectacular, comandava o trânsito, no fundo.

«Como as pessoas correm, esquivando-se aos encontrões. Sem ordem, sem método. À balda, sem definição. Dir-se-ia que um frio e calculista cérebro electrónico as move, gozando a seu belo prazer o efeito que resulta de as ter lançado na confusão. Para que fim correrá esta gente? Terão algum objectivo? A angústia de perder os tostões com que se vestem e se alimentam, com que vão aos domingos ver o futebol e possam preencher o totobola. A esperança de que um dia seja melhor. E oxalá que sim. O que é preciso é que não matem a esperança, embora muita gente diga que já morreu no determinismo dum contexto social apócrifo. Mas é necessário continuar a acreditar. A minha fé é esta. Não uma fé pagã. É uma fé lúcida mesmo que, por vezes, se fundamente na ilusão como todas as fés. Só queria saber os pensamentos daquele barbeiro velhote que passa as manhãs à porta da barbearia conservadora, onde nem há sequer um secador de cabelo, fazendo uma barba de quando em vez, lendo a página de desporto do jornal. Que é que ele espera? A morte? Mas isso todos esperamos. A morte ceifa tudo. Até as fragas do silêncio das serras se desfazem na morte dos tempos, do vento e da chuva. E aquele arrumador, vesgo que se farta, que torce a boca quando fala e tem sempre uma perisca na orelha? E aquela mulher feia, com varizes nas pernas, que vende pentes, lapiseiras e preventivos para furtar homens às guerras? A vida é uma maçadoria. As gentes arrastam-se. Arrastam-se como o combatente na selva sempre à espera que um tiro lhe rebente os miolos e diga adeus, por uma vez, a todas as cavalgaduras que inventaram as guerras. Mas, afinal, tudo isto é uma guerra. E as cidades são a selva. Uma selva mais civilizada (se o termo é correcto), talvez, mas, por isso mesmo, mais perigosa. A selva da sociedade com bichos de variada espécie que roncam de modos estranhos e não se fazem rogados para morder um qualquer, achincalhar a sua dignidade, matar o seu pensamento, a sua liberdade. Porra!, o sacrifício que um tipo passa para os aturar. Quando há vontade de os mandar ter com as mães – que, ao fim e ao cabo e bem vistas as coisas, não têm culpa de parir tais bestas – e não se pode? E assim se anda...».

O telefone tocou.

- Tou. Olá pá! Diz lá. O quê? Bolas, estou farto disso, pá! Aparece amanhã e depois conversamos. O telefone é pouco próprio, pá. Adeus.

«Este anda iludido coitado. Julga que está no mar da tranquilidade. Lê de manhã à noite e vai a caminho da maluqueira. Ignora que esta porcaria não se explica – consome-se. Ou se vive assim ou então dá-se um tiro na cabeça. Sei lá se é solução. Ainda não pensei nisso a sério.».

Fechou o rádio, mal uma voz começou a fazer propaganda facciosa. Deu um murro na cabeceira da cama. Sorriu. Tirou o sapato direito e atirou-o ao candeeiro. Nenhuma lâmpada se partiu. Aquele ficou só a marcar segundos como o pêndulo de um relógio de sala, daqueles que assinalam os quartos, as meias e as horas com um fadinho monótono e sonolento. Foi buscar o sapato. Enfiou-lhe metade do pé e lançou-o ao tecto. Foi buscar outra vez o sapato e riu-se. Mirou-se ao espelho e disse: «Estás cada vez mais na mesma. Tens montes de estupidez.». Sentou-se junto da máquina de escrever e acabou o poema que há quinze dias aguardava desfecho com os seguintes versos: «Sorri e fala enquanto és criança / Quando fizeres a barba e usares calças compridas a sociedade calar-te-á.». E ficou satisfeito. Pareceu-lhe viril, duma virilidade triste e irremediável, aquele final. Olhou o relógio: Ainda não podia fumar.

«Apetecia-me nadar. Flutuar nas ondas cansadas duma cansada praia africana onde até o amor é cansado. Caramba!, aqueles noites de calor quando um tipo ia para a baía e, todo nú, com a lua envergonhada a ver tal descaramento, se enfiava por ali fora e deixava que a água salgada entrasse para os ouvidos e a sensação doce e gritante de possuir, naqueles instantes, a liberdade no corpo. Correr depois pela praia aos saltos, aos berros de «aioé», e rir, rir alto para as estrelas, sem nada no corpo, sem nada nos dedos da noite, ouvir as palmeiras a chorar a solidão, o tam-tam do batuque, lá ao longe, no meio do mato, festejando rituais de principiantes, corpos de cores diferentes rebolando-se na areia com risos sufocados pelos prazeres da carne, prazeres adquiridos pelo dinheiro. Noites de descontrole natural pelos ambientes dia-a-dia ruminados, noites de lágrimas em que, olhando-se o longínquo das águas, se lembravam os nossos e se gemia: «Mãe, diz a ela que me espere com uma esperança igual à tua!”. E aquela vez em que me deixei cair e esgadanhei a areia até os dedos serem derrotados e gritei: «Não! Mil vezes não!» Mas que lucrei? Quem me ouviu? O nada sem voz, o silêncio das coisas mortas. E agora? Agora que já só cumprimento quem me apetece, sem ser por obrigação? Que vou fazer? Andar por aí a cuspir palavras, salivar complexos, continuar sendo escravo desta miserável sociedade que me persegue e me quer destruir, sorrir quando a minha vontade era dar murros, acenar-que-sim para poder continuar a sentar-me a uma mesa, sujando-me na incoerência por necessidade, masturbando porcamente os meus princípios, ouvir palavras de fingida comiseração? Pois sim. Acordar todas as manhãs num quarto escuro dum terceiro andar, com a chuva a castigar as vidraças, o movimento dos carros, acelerando, travando, apitando, roncando e as pessoas, de umbelas, fugindo ao choque, dançando o tango pluvial, e eu, cá em cima, sentindo o vazio à minha volta, uma indiferença tão fria como a da máquina de escrever sobre a mesa, um hábito de vida sempre igual em que nada de novo sucede nem um exaltado a oferecer pancada.».

João espirra. Tosse. Escarra no penico. Assoa-se. Abre um livro. Começa a ler. Fuma o cigarro que passaram os quarenta e cinco minutos. Levanta-se para ir buscar o lápis vermelho. Sorri e sublinha: «É mais fácil organizar e dirigir uma sociedade de escravos do que uma sociedade de homens livres.».

João poisa o livro na mesinha. Vira-se para o outro lado e adormece com o seu sonho de esperança, enquanto a chuva recomeça e se faz amor, comprado ou grátis, na cidade-selva.
- Continua.
  • MANUEL COUTINHO NOGUEIRA BORGES NASCEU EM SÃO JOÃO DE LOBRIGOS, SANTA MARTA DE PENAGUIÃO, EM 1943. É ALUNO DA FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. CUMPRIU SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO, COMO ALFERES MILICIANO, NA PROVÍNCIA DE MOÇAMBIQUE. COLABOROU EM VÁRIOS JORNAIS: INICIAL, GAZETA DE COIMBRA, DIÁRIO DE LISBOA – JUVENIL, MIRADOURO, NOTÍCIAS DO DOURO, REPÚBLICA-JUVENIL, DIÁRIO (DE LOURENÇO MARQUES), VOZ DA ZAMBÉZIA. NÃO MATEM A ESPERANÇA É O SEU PRIMEIRO LIVRO ESCRITO EM 1970.
«NINGUÉM CONSEGUIRÁ BARRAR O CAMINHO DA VERDADE, E ESTOU PRONTO A MORRER PARA QUE ELA AVANCE.» (SOLJENITSYNE)

«SEJAMOS POIS IMPOPULARES, NO MUNDO DE HOJE, ESSA É A FORMA ÚNICA DE NOS SABERMOS HIPOTÉTICAMENTE CERTOS.» (NELSON DE MATOS)

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