terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Aioé !

(Clique na imagem para ampliar)

Trago nos olhos a lonjura das savanas e no coração a saudade da inocência.
Tenho o cérebro a estalar de memórias das picadas vermelhas e nas mãos o cheiro do capim.
Repercutem-se-me na alma os ruídos das noites de vigia e sua-me o corpo pela angustia do não-regresso.
Olho o mar.
É grande, sem tamanho, os rigores do fim do dia a chorarem no horizonte.
Não tem estradas que me levem à terra morena e já não há Niassas nem Impérios que acompanhem os peixes voadores.
Da terra morena vêm-me notícias de fome a de guerra como castigo imposto por homens que lutaram só por si.
O mar não traz os sons de África, nem a fragrância das queimadas ao entardecer.
Não há lassidão - só lixo - na quietude das areias desertas, e um desapego de víola cigana que geme (ou grita?) para os lados do acampamento onde se fazem cestos com os vimes da solidão.
Do lado de cá ao mar não há tembas de pó com embondeiros crucificados.
Nem veredas de acácias rubras ou coqueiros de brincos dourados.
Não há crianças de sorrisos brancos e olhos doces.
Nem seduções de batuques em terreiros de flores.
Nem descobertas de frutos, palhotas de bambu ou almadias com peixes prateados.
Não há velhos, com cabelos de arame farpado, fumando a liamba do esquecimento, nem velhas de cigarro ao contrário, guardando a cinza como um borralho contra o frio.
Nem sequer o silêncio das horas sem relógio e raparigas estilhaçando, por entre dentes de raízes da selva, o riso do encantamento.
África de insondáveis mistérios, terra de fogo e céu de mar, desejos (in)satisfeitos no veludo sensual dos corpos, na virgindade da natureza-primeira, nos apelos distantes do frêmito e da racionalização enlouquecida.
Manhãs nascidas num espanto tão súbito que o dia chega a parecer uma constância sem penumbra, uma orgia de calor e de suor num mundo de carne despida.
Do lado de cá do mar não há musas africanas cozinhando a mandioca nas brasas da paciência.
Nem batinas brancas evangelizando as primaveras da inocência.
Nem um sol a morrer como se a vida abraçasse a morte num beijo de eternidade.
Não há, não há mesmo, a melancolia das folhas da selva anunciando - como gotas condensadas num vento funerário - a chegada da reclusão do fim da tarde.
Aioé! Amigos que deixaram os sonhos nos caminhos vermelhos do sangue, os braços desfeitos nas minas da traição.
Aioé! Embondeiros de Cabo Delgado, palmares da Zambézia, negras de corpo afeito às noites dos remorsos brancos, batuques de febres enfeitiçadas.
África: Aioé!
- Porto, 03/07/04, M. Nogueira Borges - "Miradouro"
  • Outros textos de Manuel Coutinho Nogueira Borges neste blogue!

Nenhum comentário: