sábado, 31 de março de 2012

Claudino Castro de Abreu: Um Homem de Porto Amélia/Pemba

Claudino de Abreu: Ainda há homens como este?
Transcrição - Rádio Moçambique - Sábado, 31 de Março de 2012 - 15:03 - É difícil estar perante quem se deu a tarefa de manutenção de um cemitério municipal, com trabalhadores permanentes por si pagos, constroi esquadras e oferece-as ao Estado e devolve a este mesmo Estado dinheiro que alguém, num negócio escuro, depositou na sua conta, denunciando assim uma burla das mais badaladas que a sociedade em Cabo Delgado já testemunhou.

Claudino Castro de Abreu, a figura que transporta esta personalidade, pensamos não haja quem vive ou tenha vivido em Pemba, não o conheça, apesar de a sua vida ser muito discreta, quase ausente, mas respeitada por todos os segmentos sociais, políticos, empresariais desta parcela do país e não só .

Desde 2006 tomou sob sua responsabilidade o cemitério municipal de Pemba, onde colocou 8 trabalhadores de limpeza permanentes, que diariamente tratam de o assear, pintando-o e ornando-o, do que resultaram as melhorias do local a que ninguém escapa, para ficar como hoje o é: digno.

Em resposta a uma nossa pergunta, Claudino de Abreu diz que se trata duma inclinação que traz da sua juventude, quando militava num movimento de voluntariado, do tipo escuteiros, mas que se tornou mais acutilante, depois que perdeu a sua esposa e ali foi enterrada.

Claudino, como carinhosa e simplesmente é tratado, de nacionalidade portuguesa, vai todos os dias ao cemitério para ver a campa da sua falecida esposa e ver o trabalho dos trabalhadores que colocou para a sua manutenção, tratando de todos cujas almas ali jazem, como se todos eles fossem seus familiares.

Só depois deste ritual se entrega aos outros afazeres, nomeadamente, cuidar dos seus negócios em diferentes frentes, uma forma de vida que vem do longínquo ano de 1957, quando veio para Moçambique, levado por um primo, Matranque, que se juntou a outro, Tambor, que viviam em Namuno.

Pouco tempo depois, soube da existência do terceiro primo, por sinal mais directo ainda, a viver em Balama, aonde teve que ir e lhe pôs a trabalhar nas suas machambas e a controlar mercados de algodão em diferentes zonas da sua influência, incluindo Mesa, na altura pertencente a Montepuez, hoje distrito de Ancuabe.

“Voltei de novo para Namuno, já como empregado duma loja, na região de Perepere, onde havia um centro de leprosos. Depois de algum tempo fui a Montepuez, já em 1962”, recorda Claudino.

Em 1964 é incorporado para o serviço militar e como praça esteve em Boane, tendo como especialidade as transmissões, função que confessa nunca ter chegado a desempenhar.

Voltou para a então Porto Amélia, hoje Pemba, para fazer a tropa como cantineiro, durante três anos, tendo saído com louvor, precisamente no dia 12 de Setembro de 1966, para no mês seguinte começar a trabalhar no emblemático “Niassa Comercial”, um estabelecimento de comércio geral, na então rua Jerónimo Romero, hoje simplesmente rua do comércio, na baixa da cidade, onde se manteve durante 34 anos.

“Eu, no “Niassa Comercial”, era chefe dos serviços, até ao ano de 1975, ano da proclamação da Independência Nacional. Éramos 16 brancos empregados naquela firma, mas com a independência todos fugiram, incluindo o patrão, ficando eu sozinho, com mais 30 trabalhadores moçambicanos” explica o nosso entrevistado.

Ele não fugiu, segundo justifica, porque “desde a primeira hora acreditei na independência. Até porque uns meses antes estava de férias em Portugal e quando soube da data da independência, tive que regressar para assistir a esse momento especial”.

Não é verdade, como a maioria pensa, que o “Niassa Comercial” tenha alguma vez sido sua firma, apesar de ter ficado à sua frente durante 34 anos, de 1966 a 2000, porque o seu patrão, mesmo antes da independência, não tinha residência fixa em Moçambique.

“Durante este período todo o “Niassa Comercial”, que não chegou a ser intervencionado, porque tinha pés para andar sozinha, teve um relacionamento extraordinário com o governo, que era o nosso melhor cliente, que tinha uma grande consideração pela firma”, faz questão de esclarecer o nosso entrevistado.

Deixou a firma em 2000, na sequência duma desinteligência, que envolvia-o ao patrão, que afinal era familiar da sua falecida esposa, tendo decidido largar o emprego, 34 anos depois, sem pedir sequer salário nem indemnização.

Uma das últimas acções consideradas invulgares, foi terem-no tentado meter na burla que o Estado sofreu, no caso dos funcionários das Finanças, que acabou com a condenação, pelo Tribunal Judicial Provincial de Cabo Delgado, de três dos cinco réus, acusados de desvio de fundos do Estado, de forma continuada e que se saldaram, nos anos 2007/8, num prejuízo que totalizou 43.450.123,56 Meticais.

Os burladores haviam transferido para a conta de Claudino parte considerável desta soma e ele, ciente de que não havia feito nenhum negócio que atingisse aquele valor avultado, devolveu o dinheiro, presumindo que tivesse havido algum um erro. Não quis ficar com o dinheiro à espera que eles viessem para a negociação agendada, que era como faziam com os outros estabelecimentos comerciais e de prestação de serviço. E terá sido a gota que encheu o oceano!

É Claudino de Abreu que, atras de quem esteve a iniciativa e suporte da construção das esquadras policiais, na sede do posto administrativo de Murrébué e na Localidade de Muitua, ambos no distrito de Mecúfi.

Por ocasião da gala de personalidades, edição 2011, recebeu um trofeu da confederação das associações económicas de Cabo Delgado, em reconhecimento das suas qualidades em diferentes áreas, incluindo a empresarial.

Por Pedro Nacuo, jornalista do “Notícias”. Publicado no dia 31 de Março de 2012

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