4/03/09

O Dr. RUI FERREIRA PINTO DO CARMO faleceu...

Pela Amiga M. E. soubemos que faleceu no passado dia 29 de Março o Dr. Rui Ferreira Pinto do Carmo.
Saudades e amigos inúmeros deixou em Porto Amélia (Pemba). Cuidou, sem olhar a cores e classes sociais, da saúde e vida de muitos moçambicanos de ontem e seus descendentes do Moçambique de hoje. E de todos nós que com ele convivemos.
Assim o recorda Maria Helena Vilas Boas, Amiga e companheira de nossos folguedos de adolescentes em Porto Amélia:

""DR.RUI FERREIRA PINTO CARMO
Como o recordo com tanta saudade!

Foi médico contratado da Companhia Agrícola da Nangororo, na década de 1950/60, onde por lá aparecia para detectar possíveis casos da "doença do sono", doença essa que era transmitida pela picada da mosca tsétsé.

O Dr. Carmo,- nome pelo qual era vulgarmente conhecido entre todas as classes sociais -, possuía o curso de medicina tropical; como tal, era muito solicitado por todos aqueles que habitavam a cidade de Porto Amélia e arredores, que a ele recorriam buscando remédio para os seus males.

Era um homem muito comunicativo, franco e acima de tudo...muito simples!

Com os seus calções brancos e a sua balalaica a condizer, deslocava-se sempre com o seu passo lesto. Era um homem activo que levava uma vida muito regrada.

Pessoa de grande saber, não só adquirido nos livros por onde estudou, mas que soube valorizar os seus já vastos conhecimentos pelo contacto diário que tinha com os seus doentes e que não eram assim tão poucos!

Era frontal e directo!

Recordo-me de uma breve passagem em que a minha irmã, tal como tantos outros jovens da sua idade, contraiu na Nangororo a paralisia infantil. Os meus pais fizeram tudo para a salvar da situação, experimentaram todos os unguentos possíveis e imaginários mas nada!

E o Dr. Carmo foi directo para a minha Mãe ao dizer-lhe que dali só um milagre, pois que da medicina não esperasse mais nada!

E o milagre aconteceu...pois que a minha irmã foi das poucas para não dizer a única que conseguiu ficar a andar normalmente sem deficiências!

Homem profundamente católico, todos os domingos lá ia com a sua esposa - a D.Agostinha - até à igreja de S.Paulo, assistir à missa dominical.

Muito amigo dos pobres - um autêntico João Semana - era rara a semana que não abordava o meu marido na empresa João Ferreira dos Santos, tentando adquirir géneros alimentícios que já na altura escasseavam, para com eles, abastecer os seus colaboradores no Centro de Saúde da Doença do Sono e no hospital também.

Ele foi o médico que me valeu aquando do nascimento da minha filha, já depois do 25 de Abril de 1974!

Em grande sofrimento desde as 4,30 da madrugada, tentando inutilmente que o médico avençado do BNU me viesse analisar já que a parteira só me recomendava paciência, muita paciência, pedi ao meu marido que o chamasse urgentemente...e ele veio! Mal chegou perguntou à parteira em voz dura se já tinha alertado o médico para a minha situação e depois vira-se para mim e diz-me estas palavras:

Então menina... vamos a isto?

Sei que me mandou dar umas injecções para me provocar o parto e a minha filha passados uns minutos via a luz do dia... e nessa noite permaneci numa "maternidade" ao fundo do hospital!

No dia seguinte lá estava ele ao raiar do sol, a saber de mim! E mal me examinou e à minha pequenita, virou-se para o meu marido e alertou-o que nos retirasse logo de lá e fôssemos para casa.

Para qualquer coisa estava ao dispor...

Pela tardinha, a D.Agostinha sentava-se na varanda da sua casa, situada mesmo ao lado da firma Vieira & Baptista e, como pessoa prendada que era, ora a via ler, ora a fazer os seus bordados ou conversando com as suas amigas.

Mais tarde tive o privilégio de o ver, por mais do que uma vez, no convívio dos naturais e residentes de Cabo Delgado. Uma das vezes, ainda foi ele que socorreu a minha saudosa Mãe quando a mesma desmaiou e ficou no chão inanimada. Foi ele quem chamou a ambulância e a acompanhou até ao hospital de Vila Nova de Ourém! Enquanto não lhe diagnosticaram o problema ele não a abandonou...e já de volta com ela ainda nos alertou: Cuidado com o coração dela, pois ao mais pequeno problema, poderá não resistir.

No último encontro em que o vi e o abracei, já a sua esposa tinha falecido e ele estava casado com outra senhora. Comia muito pouco. Dizia ele que era na boca que residia a nossa saúde... e enquanto o pessoal se atirava às chamussas e outras iguarias moçambicanas e indianas, ele, sentado ao pé de mim, descascava pausadamente uma maçã "bravo de esmolfe", muito cheirosa e perguntava-me se queria um bocado da mesma!

Sempre delicado, sempre humano!
Nessa última vez que o vi, abordou todos os que se encontravam no largo onde agora existe o novo Santuário e ia distribuindo um santinho a cada um de nós! Ainda conservo na lembrança que, estando eu com a Irene Coelho em amena cavaqueira, ele abeirou-se de ambas e para além do santinho nos disse:
- Que Ela vos acompanhe pela vida fora!

Há dias conversando com a minha cardiologista que é natural de Caldelas -, uma localidade que possui uma estância termal aqui no norte de Portugal - tomei conhecimento que ela estagiou com o Dr. Pinto do Carmo!

Fiquei estupefacta! Como poderia ser? Ele até nem era cardiologista!!! Mas ela esclareceu-me, explicando que sendo natural de Caldelas, mal parecia não fazer um estágio nas termas para acrescentar ao seu curriculum... e descreveu-me o Dr. Rui Pinto do Carmo tal como ele sempre o foi.

Um homem, activo, competente, amigo do seu amigo, sempre vocacionado para a sua área - a medicina -!

Esta foi a minha homenagem a um ser humano exemplar, isento de ambições, de orgulho, de vaidades.

Enfim, um homem simples, inteligente, despido de preconceitos, do qual qualquer pembense se deve orgulhar!""
- Lena Vilas Boas Sousa, 06/01/09 - Bar da Tininha-Multiply.

Jamais esqueceremos o "Dr. Carmo da mosca do sono", como era conhecido em todo o Cabo Delgado ou o "Dr. Preto" em Balama.... Paz a sua alma!

Buscando no tempo, lá pelo Douro:A tragédia de Riobom - 27 de Maio de 1959.

(Clique na imagem para ampliar)
Em atenção aos "vareiros" que nos lêm e visitam por esse mundo virtual afora, alguns post's irei trazendo de um outro blogue ("Escritos do Douro") onde se fala do Douro em Portugal, da cidade de Peso da Régua, de sua história e cultura, de personagens que marcam e dão exemplo e de outras coisas mais que não só da "vinha e do vinho do Porto", de Pemba e Moçambique...

A tragédia de Riobom.
A foto em presença mostra o momento de uma grande tragédia, no lugar de Rio Bom, na freguesia de Cambres, em Lamego, no dia 27 de Maio de 1959, onde seis pessoas perderam a vida.

E mostra, também, quanto outrora era secundarizada a protecção individual do bombeiro, vendo-se esta limitada ao uso de capacete de latão, o qual, inclusive, à data do registo fotográfico, 27 de Maio de 1959, já havia sido recomendado, a nível nacional, como inadequado para trabalho, nomeadamente pela Liga dos Bombeiros Portugueses, devido a factores de fraca resistência.

Em plena acção vê-se um bombeiro de Peso da Régua. De archote na mão, outra marca da ausência de meios apropriados à situação de socorro, aliás, tal como o tipo de fardamento (fato-macaco e calçado normal), prescruta entre os destroços do que foi a povoação de Riobom, freguesia de Cambres, com a intenção de ainda salvar vidas e bens, sob o olhar de um popular que parece procurar algo.

Em 30 de Maio de 1959, o jornal da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua, intitulado “Vida por Vida”, deu conta do trágico acontecimento e da complexidade em que decorreu a acção dos "soldados da paz", nos seguintes termos:

"O Lugar de Riobom (…) viu-se tragicamente atingido por uma violenta tromba de água que deixou atrás de si rastos de desgraça e prejuízos materiais que ascenderam a milhares de contos.Seriam 21.45 horas, de 27 de Maio do corrente ano (1959), quando o nosso amigo e sócio contribuinte Elísio Valente(…) solicitou a intervenção dos nossos bombeiros para prestar serviço no desmoronamento de uma casa, devido às águas das chuvas.

Imediatamente e sem alarmes de maior, seguiu um piquete para o lugar de Riobom e, qual foi a maior admiração dos bombeiros, ao depararem na noite escura com a vastidão de uma catástrofe que, passo a passo, se verificava e cada vez maiores proporções atingia. Seguiu-se o pedido de reforços, e então a nossa vila viveu horas de amargura, ao saber da triste sorte dos seus vizinhos de Riobom.

Foi à luz de archotes e através de um espantoso lamaçal que todos os bombeiros procuraram as vítimas, sempre na angustiosa incerteza de haver maior gente em situação crítica no seio da noite e da tempestade.

Os nossos bombeiros, trabalhando sob o comando do Subchefe Claudino, iniciaram os trabalhos às 21.45 h do dia 27 e só as 5.00 h, do dia 28 regressaram ao quartel.

Foram dramáticos todos os serviços de salvamento e de certo modo arriscados. Por via disso, um dos bombeiros pertencentes à composição n.º 2, teve que ser socorrido no Hospital D. Luiz I, devido a várias escoriações. -Peso da Régua, Março de 2009, José Alfredo Almeida.

- Outros textos publicados sobre os Bombeiros Voluntários de Peso da Régua e sua História:

  • Manuel Maria de Magalhães: O Primeiro Comandante... - Aqui!
  • A Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • A cheia do rio Douro de 1962 - Aqui!
  • O Baptismo do Marçal - Aqui!
  • Um discurso do Dr. Camilo de Araújo Correia - Aqui!
  • Um momento alto da vida do comandante Carlos dos Santos (1959-1990) - Aqui!
  • Os Bombeiros do Peso da Régua e... o seu menino - Aqui!
  • Os Bombeiros da Régua em Coimbra, 1940-50 - Aqui!
  • Os Bombeiros da Velha Guarda do Peso da Régua - Aqui!

- Link's:

  • Portal dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua (no Sapo) - Aqui!
  • Novo portal dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • Exposição Virtual dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua - Aqui!
  • A Peso da Régua de nossas raízes - Aqui!