2/13/08

Liberdade de Imprensa em Moçambique - Manifestações de 5 de Fevereiro confirmam a existência de censura nos media moçambicanos.

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As manifestações populares havidas na passada terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008, nas cidades de Maputo e Matola, não só trouxeram um pesado fardo para a economia do país como também mostraram quão forte é ainda o controlo governamental sobre os órgãos de comunicação social públicos e privados.
A cobertura dos incidentes foi muito condicionada.
O MISA-Moçambique e o Centro de Integridade Pública estiveram atentos à forma como os incidentes foram reportados pelos diversos órgãos de comunicação social e, com base em observação directa e recurso a entrevistas com jornalistas e editores, apurámos o seguinte:
• Logo nas primeiras horas da manhã, a STV começou a reportar a revolta popular com directos a partir dos locais em que a violência era mais notória. Por volta das 9.30 horas, este canal trazia algumas incidências, ajudando muitos cidadãos a se precaveram. Mas os directos da STV foram bruscamente interrompidos por volta das 10 horas, tendo o canal passado a transmitir uma telenovela;
• No canal público, a TVM, ao longo da manhã, as revoltas não foram notícia. Ao invés de informar sobre os acontecimentos, a TVM transmitia reportagens sobre o CAN (Taça das Nações Africanas em futebol);
• No seu Jornal da Tarde dessa terça-feira, a TVM não dedicou um minuto sequer às manifestações, que haviam iniciado cedo pela manhã, embora alguns repórteres daquela estação pública se tivessem feito à rua com o propósito de documentarem o que estava a acontecer;
• À noite, no Telejornal, quando os telespectadores esperavam que o canal público trouxesse um retrato detalhado dos acontecimentos, a TVM abordou o assunto de uma forma marginal, negligenciando o facto de que, no domínio da informação, aquele era um assunto de inquestionável destaque;
• Segundo apurámos, um veterano jornalista da TVM hoje fora da Chefia da Redacção terá recebido “ordens superiores” para vigiar “conteúdos noticiosos subversivos”;
• Na Rádio Moçambique (RM), repórteres que se encontravam em vários pontos das cidades de Maputo e Matola foram obrigados, na tarde daquela terça-feira, a interromper as reportagens em directo que vinham fazendo desde as primeiras horas e instruídos a recolherem à Redacção, supostamente como forma de se evitar um alegado “efeito dominó” dos acontecimentos;
• No decurso do Jornal da Manhã de terça-feira, o jornalista Emílio Manhique anunciou que, no seu talk show denominado “Café da Manhã” do dia seguinte, quarta-feira, teria como convidado o sociólogo Carlos Serra, para fazer comentários sobre as manifestações populares. Mas, ao princípio da tarde do mesmo dia, Serra recebeu uma chamada da RM, através da qual foi informado que o o convite tinha sido cancelado “por ordens superiores”. Na quarta, no lugar de o Café da Manhã debater os incidentes do dia anterior, o tema de destaque foi o HIV/Sida. Isto levou a que muitos ouvintes da RM telefonassem para a estação manifestando-se decepcionados com rádio pública, dado que o assunto do momento eram as manifestações;
• O Jornal Notícias, que tem como um dos accionistas principais o Banco de Moçambique, também não escapou a este esforçou de omitir as evidência. Logo que se aperceberam da revolta, os executivos editoriais do jornal destacaram várias equipas de reportagem para a rua, mas as peças produzidas foram editadas numa perspectiva de escamotear a realidade. No dia seguinte, o jornal apresentava textos onde se destacavam frases do tipo “…quando populares e oportunistas se manifestaram de forma violenta, a pretexto de protestarem contra a subida das tarifas dos semi-colectivos…”, e “…entre pequenos exércitos de desempregados e gente de conduta duvidosa…”, etc, etc. Estes e outros factos mostram que a cobertura noticiosa de acontecimentos sensíveis continua a ser alvo de controlo governamental, privando a opinião pública de ter acesso a informação. No caso vertente, a informação sobre o que estava a acontecer em vários pontos do Grande Maputo era vital para que os cidadãos desprevenidos tomassem conhecimento dos lugares onde a revolta era mais violenta, evitando assim se exporem a riscos. Por outro lado, muitos populares prestaram declarações a jornalistas, mas elas não foram transmitidas, vendo assim a sua liberdade de se expressarem mutilada. Estas marcas de censura são perniciosas para a sociedade moçambicana. No caso da TVM, a mão do Governo no controlo editorial mostra que a noção de serviço público com que a estação opera não significa colocá-la ao serviço do povo (e dos contribuintes) , informando com isenção e rigor. Estes condicionalismos a que o trabalho dos jornalistas está sujeito traduz-se numa clara violação à Constituição da República de Moçambique (CRM), nomeadamente no seu artigo 48º, que versa sobre Liberdades de Expressão e Informação, e à Lei de Imprensa (Lei 18/91 de 10 de Agosto). A Constituição é clara quando refere que “todos os cidadãos têm direito à liberdade de expressão, à liberdade de imprensa, bem como o direito à informação” e que “o exercício da liberdade de expressão, que compreende nomeadamente a faculdade de divulgar o próprio pensamento por todos os meios legais, e o exercício do direito à informação, não podem ser limitados por censura”. O relato dos actos da revolta da passada terça-feira era do interesse público, pois a mesma afectou negativamente vários sectores da sociedade moçambicana, tanto mais que na mesma ocasião que a revolta percorria as ruas do Grande Maputo, a comunicação por telemóvel tornou-se, estranhamente, difícil ou mesmo impossível. A forma como alguns órgãos de comunicação social se portaram, omitindo uma revolta evidente ou escamoteando a sua dimensão e as suas causas, sugere um cada vez maior controlo governamental sobre o sector. Esta governamentalização actua no sentido contrário ao plasmado na Constituição da República e na Lei de Imprensa, nomeadamente porque coarcta o acesso à informação. Avaliações recentes, como o espelha o Relatório de 2006 do MISA-Moçambique sobre Liberdade de Imprensa publicado no ano passado, mostram um crescente aumento da vigia das autoridades do Estado sobre os media, destacando-se a censura, o que em estado a deteriorar o ambiente de trabalho dos jornalistas.
O MISA-Moçambique e o CIP apelam a quem de direito para que se não intrometa no trabalho dos jornalistas e dos seus órgãos de comunicação social, por tal se traduzir em violação crassa à CRM e à Lei de Imprensa.
Maputo, 10 de Fevereiro de 2008
MISA-Moçambique e CIP
"Newspapers are owned by individuals and corporations, but freedom of the press belongs to the people",Anon
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Ericino de Salema
MISA-Mozambique
Information and Research Officer
Telephone:+258-21-302833
Facsmile:+258-21-302842
PriCell:+258-82-3200770
Mobile: +258-82-7992520
In - Misa Moçambique e Moçambique Para Todos
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Só nos resta acrescentar - LAMENTÁVEL, porque denigre a apregoada "democracia" moçambicana. E nos faz recordar o saudoso jornalista Carlos Cardoso e sua coragem indomável, atreita a qualquer submissão aos "poderosos" e a vaidades pessoais tão em uso na mídia impressa e virtual.
Não deixou, aparente e infelizmente, legatários de seu vasto, didático manual "O que é ser jornalista" ! Só algumas anêmicas tentativas de "plágio"...

2/12/08

ForEver PEMBA - Por onde andamos nos últimos 60 minutos...

Por onde "andou" o ForEver PEMBA nos últimos sessenta minutos aproximadamente...
Fonte SiteMeter.

Liberdade de Imprensa em Moçambique - Recordando a Declaração do Wimbi

Declaração de Wimbe
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Nós, representantes de organizações da sociedade civil moçambicana, rádios comunitárias e jornais locais da zona Norte do País, reunidos na Praia de Wimbe (Pamba), Província da Cabo Delgado, de 28 a 30 de Setembro, de 2006, sob o tema “Imprensa e a Sociedade Civil no Alargamento do espaço Democrático – Uma acção do PEPSA Moçambique”, tendo profundamente debatido as várias experiências individuais e colectivas relativas às pré-condições necessárias para um exercício democrático salutar em Moçambique, constatámos:
.1. - Que em várias partes do País e, particularmente, nas províncias do Norte de Moçambique, a participação cívica dos cidadãos na vida pública é ainda bastante deficitária; em várias partes dessas províncias, o espaço público está monopolizado pela máquina do partido no poder, máquina essa que chega a dificultar e a hostilizar a contribuição doutras forças vivas da sociedade;
.2. - Que o papel dos media, embora crucial para o desenvolvimento democrático, é ainda incipiente, sobretudo nas zonas rurais, onde publicações independentes não conseguem chegar e onde as rádios comunitárias existentes enfrentam várias dificuldades materiais e possuem um limitado espaço de liberdade de expressão para dar voz às diversas sensibilidades locais;
.3. - Que é ainda muito fraca a colaboração e protecção mútua entre os media e as várias organizações da sociedade civil actuando no mesmo espaço social e territorial, o que leva a dispersão de esforços e ao reduzido impacto social do movimento da sociedade civil em Moçambique;
.4. - Que as várias iniciativas de educação e capacitação democráticas existentes no País continuam grandemente limitadas aos centros urbanos, negligenciando as zonas rurais, onde as populações apresentam maiores carências de informação e de material educativo sobre os direitos e deveres dos cidadãos e sobre a importância da participação democrática na vida pública do País;
Assim, preocupados com o cenário acima apresentado, o qual não corresponde às nossas expectativas sobre o desenvolvimento de um espaço democrático inclusivo e participado, nós, representantes de organizações da sociedade civil, rádios comunitárias e jornais locais da zona Norte de Moçambique recomendamos as seguintes acções a serem levadas a cabo por nós mesmos e por demais cidadãos interessados em alargar o espaço democrático em Moçambique:
.1. - Maior circulação, primeiro entre nós mesmos, de informação sobre o que fazemos, como fazemos e onde fazemos, e que áreas do nossotrabalho precisam de que tipo de ajuda externa;
.2. - Estabelecimento de redes de comunicação e de apoio entre os media e organizações da sociedade civil, com vista a facilitar acções de cooperação, de denúncia de abusos e violações de direitos, e de protecção mútua entre essas organizações;
.3. - Coordenação de acções de pressão para que os órgãos públicos de comunicação social abram mais espaço a diversas vozes da sociedade moçambicana, cumprindo o seu dever plasmado na Lei de Imprensa, que recomenda a reflexão de pluralismo político, social e cultural na programação desses órgãos de comunicação social;
.4. - Identificação e apoio de organizações de base com potencial para gerar debates e circulação de informação sobre os direitos e os deveres dos cidadãos num Estado democrático, bem como a urgência do fomento da participação pública dos cidadãos nos distritos;
.5. - As organizações com melhores condições devem produzir e/ou adquirir e circular pelas demais organizações, sobretudo as de base e rádios comunitárias, brochuras, panfletos, jornais independentes e outros materiais capazes de contribuir para maior educação democrática e fomento da participação cívica dos cidadãos nos distritos.
Estamos conscientes do longo caminho que o processo democrático ainda vai enfrentar em Moçambique, no entanto, sentimo-nos encorajados a continuar a insistir que toda a Democracia só triunfa se contar com uma acção consciente e persistente dos cidadãos em todos os processos públicos.
Praia de Wimbe, 30 de Setembro de 2006

2/11/08

"Hotel Califórnia" em madrugada macua...

(Clique na imagem para ampliar)
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Imagem do álbum "Pemba 2008" de Paulo Pires Teixeira onde poderá ver mais de 200 fotos de Pemba e região realizadas em Janeiro 2008. Encontrará este álbum no grupo "Pemba-Bar da Tininha/MSN" - aqui !
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Visite e inscreva-se no grupo de discussão "Pemba-Bar da Tininha" - aqui !
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Hotel Califórnia - António Pita Oliveira
Estou há três horas a conduzir nesta estrada infernal.
Os buracos alternam com pedaços de asfalto, só para lembrar que em tempos o alcatrão passou por aqui.
A noite está escura e o jeep tem apenas um máximo, que aponta para o céu.
Fazer a viagem só com médios torna-a mais arriscada, mas diminuir a velocidade está fora de questão.
Somos sete pessoas num carro com lotação para quatro.
Estivemos numa festa em Pemba, Cabo Delgado, e regressamos a Nampula.
Centenas de quilómetros ainda nos separam do destino.
Jota dormita agarrado a Naíssa, e ela faz-lhe festas no cabelo.
Myra, uma brasileira globetrotter, diz de vez em quando:
- “Ó cara, o negócio é o seguinte. Não dá para ir mais devagar?”
Há duas horas que conversamos pois o resto dos habitantes daquele Toyota velho e ferrugento dorme.
A festa em Pemba foi forte.
A alternativa alcoólica era dualista: ou cerveja 2M ou whiskey Cardhu.
Claro que a cerveja ficou lá quase toda.
Myra não se cala e ainda faltam cinco horas para chegar ao destino.
A minha sorte é que a sua voz é musical.
A conversa entra em aspectos pessoais. Humm. Mas de vez em quando lá vem com “ó cara...”.
Myra vem do Quénia e quer estar na cidade do Cabo, África do Sul, dentro de duas semanas.
Conheci-a há 12 horas, quando chocamos ao virar de uma esquina no centro da cidade de Pemba. Depois do choque, começou a conversa.
Para ser franco, estamos a falar há 12 horas.
E o leitor de cassetes do carro não pára de tocar o álbum dos Eagles “Hotel Califórnia”.
É a única cassete que ainda toca, pois todas as outras passaram à história.
A noite continua escura e o céu muito brilhante.
De vez em quanto, os silêncios entre nós tornam-se cúmplices.
Myra tem 23 anos e para quebrar o silêncio cantarola “welcome to the Hotel Califórnia...”.
Aliás cantamos os dois, os únicos sobreviventes daquela nave de alcoólicos.
Depois de uma curva mais apertada, assinalada por dois buracos gigantes, eis que aparece mais uma recta enorme.
Ao longe, uma ligeira luz começou a tomar forma.
- “Espero que seja uma cantina. Se for, queres beber um copo, Myra?”
- ”Legal, cara.”
Era mesmo.
Uma casa rústica, iluminada no exterior por uma luz amarela, assinala um verdadeiro oásis.
São três da manhã.
Dois camiões estão parados num descampado que deve ser o parque de estacionamento.
Entrámos.
O ambiente é dominado por uma lâmpada vermelha de 40 watts.
Três pessoas conversam numa mesa do fundo.
Dois pares dançam ao som de uma música suave do Roberto Carlos.
Myra sorriu.
- “Roberto, aqui?”
O bar só tem cerveja 2M e whisky Glenwood.
Não arriscamos fazer misturas.
A música mudou e agora pertence a Caetano, que canta com aquela voz inconfundível.
Fomos dançar.
Havia “uma história pra contar/De um mundo tão distante/Debaixo dos caracóis dos seus cabelos/Um soluço e a vontade/De ficar mais um instante...”
E ficámos.
A praia é mesmo ao lado e mergulhamos na areia.
Depois do amor, o mar brilhante chama para um banho revigorante.
Duas horas depois voltamos ao bar.
Apenas um par dança.
Um camionista de fato-macaco e a empregada de vinte e poucos anos.
O som era familiar.
“Hotel Califórnia”.
Está mesmo a perseguir-me.
Fomos também dançar.
Myra está linda, com os seus caracóis.
Perguntei se havia quartos.
- ”Sim, temos apenas um vago”
O quarto é revestido a canas de bambu e tem uma janela mesmo virada para o mar, cuja brisa entra sem cerimónias.
Do lado esquerdo, numa placa pode ler-se: “California Lodge”.
Aquele casebre rústico tem um nome simpático.
Sorrio e vou para a cama, que não tem rede mosquiteira.
- “É bom estar na Califórnia”, disse Myra.
- “Só espero que os mosquitos estejam ocupados, a fazer amor ou surf.”
- “Quem se importa”?
Semanário Savana de 08/02/2008

2/09/08

Amenizando seu final-de-semana - Recordando BONANZA.

(Imagem original daqui)
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Em Março de 2005 escrevi aqui:
Quem não lembra de "Bonanza", de Lorne Greene, de Michael Landon, Dan Blocker, Pernell Roberts e das previsíveis, quase ingénuas "aventuras" assistidas a "preto-e-branco" (a TV em Portugal, à época, ainda não era colorida), quando estudante no Porto, em noites de sábado, lá pelos cafés da estação de Campanhã onde residia minha Avó paterna ???...
Pois é...e hoje, com as "facilidades" permitidas pela net e levado pela nostalgia própria da idade, resolvi dedicar aos meus Amigos de sempre e daquela época o "acordar" ou reacender de algumas apetitosas emoções que nos levarão ao tempo de nossa mágica adolescência...Digo mágica porque foi única, temperada pelo sol das desenhadas pradarias e pelo imaginário a que nos transportaram esses "heróis" de aventuras onde imperavam a decência, a ética, o sentimento de honra, o romantismo, o compromisso, a bravura, o respeito pelo ser humano, a preocupação com o próximo e a "vergonha-na-cara" tão escassas nos dias de hoje.
Bonanza mantém ainda hoje a posição de segunda maior série de tevê no tipo faroeste, em termos de longevidade, com 431 episódios distribuídos em 14 temporadas, perdendo apenas para Gunsmoke - A Lei do Revólver, do calmo mas durão delegado da cidade de Dodge City - Kansas - Matt Dillon, da qual foram produzidos 635 episódios, distribuídos em 20 temporadas.
Ninguém poderia imaginar que a quase marca de um bilhão de telespectadores algum dia seria atingida em todo o mundo. Nem se poderia vislumbrar que a série seria o tremendo sucesso que é até os dias atuais.
Aqui ficam pois e para amenizar o final-de-semana, dois videos. Outros existem. É só ir até ao YouTube e aproveitar esta "viagem no tempo":
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(Para evitar sobreposição de sons, não esqueça de "desligar" a "Last.FM" no lado direito do menu deste blogue.)

Banco de Dados - Armando Guebuza: de marxista a empresário...

Para que se anote e, segundo Sabrina Hassanali do "Correio da Manhã" de hoje - 09/02/2008:
Ministro 24-20’.
É assim que muitos portugueses o recordam.
Quando assumiu a pasta da Administração Interna, no primeiro governo pós-independência liderado por Samora Machel, uma das suas primeiras medidas foi a expulsão de portugueses.
Ordenou-lhes que abandonassem a terra em que nasceram ou que adoptaram como sua em apenas 24 horas e juntassem todos os pertences acumulados durante uma vida de trabalho nuns parcos 20 quilos de bagagem.
Hoje, enquanto presidente da República de Moçambique, Armando Guebuza parece ter substituído o radicalismo feroz do passado pelo pragmatismo e acolhe bem, inclusivamente, o regresso daqueles que partiram forçados porque afinal uma nação emergente precisa de todos para crescer e sair da lista dos mais pobres.
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A ordem de expulsão de portugueses não foi a única mancha no seu vasto currículo político.
Pertencente ao núcleo duro do partido, convenceu o moderado presidente Machel a adoptar políticas radicais, de má memória para muitos moçambicanos.
Foi o caso do impopular programa ‘Operação Produção’, que consistia em enviar desempregados das áreas urbanas e os que eram apanhados sem documentos em rusgas nocturnas para zonas rurais no Norte do país, onde nasceu.
A maioria dos que foram integrados neste polémico programa nunca chegaria a regressar e muitos viriam a morrer de fome.
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‘GUEBUSINESS’
Quando o regime renunciou ao marxismo-leninismo para abraçar a economia de mercado e o multipartidarismo, Guebuza enterrou o passado marxista e mergulhou no mundo dos negócios tornando-se um empresário de sucesso.
A lista de negócios em que se tem envolvido é tão longa – desde turismo à construção civil, passando por importações-exportações, gráfica e até imprensa – que ganhou a alcunha de ‘Guebusiness’.
Os seus críticos afirmam que se tornou no maior representante do capitalismo emergente e questionam o seu enriquecimento.
Numa entrevista, quando lhe perguntaram como o tinha conseguido, respondeu orgulhoso: “Ganhei dinheiro com a criação de patos.”
Os seus negócios não o afastaram da carreira política.
Em 2002 conseguiu ser eleito secretário-geral do partido, abrindo caminho para a ambicionada candidatura à presidência.
Quando assumiu a chefia de Estado, em 2005, prometeu continuar com a política económica do seu antecessor e combater a pobreza, a corrupção, a criminalidade e a burocracia.
Três anos volvidos ainda pouco conseguiu cumprir do que prometeu.
É inquestionável que tem implementado reformas e que reforçou a recuperação económica, atraindo novos investimentos.
Conseguiu também uma taxa de crescimento extraordinária que lhe tem valido louvores de instituições financeiras internacionais.
Mas especialistas alertam que este megacrescimento económico assenta demasiado em megaprojectos, que não têm grande impacto social e pouco contribuem para reduzir a pobreza.
De acordo com a ONU, 40% dos moçambicanos vivem com menos do equivalente a um dólar por dia.
E esta situação tem gerado tensões sociais, como os recentes protestos contra o aumento dos transportes.
O combate à corrupção também não está a correr muito bem.
Ela persiste nas instituições e nem um caso foi levado à Justiça, cuja saúde inspira igualmente cuidados.
Guebuza tem um árduo trabalho pela frente, mas há que lhe dar o crédito de ter sabido ser o garante da democracia e também da estabilidade, crucial para os investidores.
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LÍDER SINDICAL
Filho de um enfermeiro, Armando Emílio Guebuza nasceu em Murrupula, na província de Nampula, a 20 de Janeiro de 1943 (65 anos).
Cedo se envolveu na política.
Aos 20 anos era presidente do sindicato estudantil criado por Eduardo Mondlane, líder da independência, e juntou-se à Frelimo.
No ano seguinte foi estudar para a Ucrânia.
Ocupou altos cargos governamentais antes de assumir a chefia de Estado, em 2005.
É casado e tem quatro filhos.
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MAIS SORRIDENTE
Armando Guebuza tem sido muitas vezes criticado pelos seus conterrâneos por ser taciturno e demasiado formal no contacto com o povo.
De facto, não era muito fácil vê-lo distribuir sorrisos.
Mas os mais atentos têm vindo a notar uma mudança que, segundo algumas fontes bem informadas, se deve a conselheiros apostados em fazer passar uma imagem afável do presidente moçambicano.
Note-se que a sua mulher, Maria da Luz, é, em contrapartida, uma pessoa comunicativa e de trato simpático. Características que a têm ajudado na campanha contra a sida, em que se tem empenhado activamente.
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APOIO TOTAL AO INVESTIMENTO CHINÊS
O maciço investimento chinês em África, incluindo Moçambique, tem suscitado preocupações não só por parte dos moçambicanos, como também por parte dos parceiros ocidentais, incluindo o maior deles, a UE.
A questão chegou a ser levantada na cimeira UE-África, que decorreu no ano passado em Lisboa e, nessa altura, o presidente moçambicano deixou claro que o investimento chinês continuará a ser bem acolhido e que os africanos sabem o que fazem.
“Vejo África como continente independente, maduro e responsável. Assim sendo, quando África entra em negociações e faz acordos com outras entidades, fá-lo enquanto um parceiro maduro”, declarou.
A China tem investimentos de Norte a Sul de Moçambique em áreas como a construção e a reconstrução de infra-estruturas, exploração de minerais, como cobre e carvão, ou a produção de alumínio.
Recentemente, a imprensa local denunciou abusos cometidos por empresas chinesas, nomeadamente o abate ilegal de madeira no Norte do país.