4/06/10

A PROMESSA CUMPRIDA

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A velha urbe flaviense recolhia-se às abas da Serra Amarela, vinda das bandas do Gerês, elevada nas redondezas do Quartel, protegendo a veiga produtiva, até se perder em domínios castelhanos. Fazia um frio de rachar e a neve branqueava as agulhas daquela.

Era uma cidade-quase-vila, de velhas pedras lambidas pela história e pelas águas do Tâmega, com uma ponte onde não se apagavam as marcas dos tropéis romanos, um castelo esquecido de rivalidades fronteiriças, invernos tristes e desconfortáveis, ruas desertas e janelas sem rostos. Tinha, contudo, o delicioso aconchego de província, as gentes festejavam os olhares e fraternizavam-se na proximidade. Os mais afoitos, quando os serões televisivos nacionais ou espanhóis não convidavam a ficar em casa, juntavam-se nos Cafés e no único Cinema. Cidade simples, sem afectações cosmopolitas, todos se conheciam a ponto de o carteiro distribuir a correspondência sem olhar para os números de polícia. Estranhos eram os militares que, ciclicamente, desciam dos comboios a abarrotar, acartando malas e garrafões, para tirocinarem na especialidade de caçadores, partindo, depois dela, anónimos e espaçados, para os barcos da lisboeta Alcântara, o destino marcado nos matos africanos. Mas, enquanto permaneciam, depois de um breve acomodar, misturavam-se satisfeitos na convivência civil, recebidos com carinho pela idiossincrasia local e a compreensão dos ditames que os obrigavam. O movimento comercial gerado era mais uma consequência do que uma exclusivista razão de interesse. Às vezes, ficavam raparigas à espera de carta, mas não se incomodavam muito quando elas não vinham porque havia sempre comboios a chegar à estação. Vendiam-se, da vizinha Galiza, caramelos e bebidas, roupas e perfumes que não precisavam de trilhar os desvios do contrabando; as gentes, de ambos os lados, cruzavam-se como se do mesmo mapa fizessem parte que a raia abria-se aos rostos e familiaridades acostumadas.

Luís, enfiado na cama, olhava, pelo janelo gradeado, a chuva repetitiva. Mexeu-se no beliche e aconchegou os cobertores. Precisava de dormir pois ainda teria um turno para fazer, mas, o sono não pegava. Na Casa da Guarda, o silêncio só era quebrado pela tosse do Sargento Féteira. Quantas noites destas, sem pregar olho, teria de passar nos anos que lhe faltavam para regressar à vida civil? África esperava-o. África, para ele era aquilo que o Aspirante lhe explicava na instrução, o que ouvia falar aos que já por látinham passado o mato, as picadas, as emboscadas, os cercos, os tiros, os corpos estropiados, o ter que matar para viver.

O Sargento voltou a tossir, parecia que lhe saltavam os bofes.

O que lhe convinha era a sorte do Ribeiro que, ainda no último domingo, entre uns copos, lhe voltara a repetir a mesma conversa: apanhara com duas granadas nas pernas e nenhuma rebentara. Caramba!, o tipo não andaria com aquela ladainha toda só para impressionar e se armar em valente? Ele nem era nada de especial, conhecia-o bem, uma vez até lhe veio pedir ajuda para uma questão antiga com o Zé da Formiga, que andava sempre a ameaça-lo que um dia lhe cortava o pescoço. Se calhar nem um tiro dera e para se enfatuar arrazoava aquilo.

O Sargento tossiu novamente, agora mais demorado, pareciam arrancos dos pulmões.

Coitado, o homem estava todo roto. Ele também dizia que as madrugadas africanas é que o puseram assim, o nevoeiro de lá era tramado, metia-se nos ossos e dava umas febres que até podiam matar. Havia de perguntar ao Ribeiro como era isso do cachimbo ou cacimbo, toda a gente o nomeava. O que ele mais queria não podia afiançá-lo: voltar vivo. Se morresse, que fosse num instante, sem dar tempo para se aperceber; assim: “um tiro, tau, e já foste”. O Aspirante Correia, que era da sua terra e lhe dava boleia aos fins de semana, bem lhe dizia para não ser pessimista e pensar em gajas boas para se distrair, sem se amarrar a nenhuma, e que haveriam de regressar os dois com os amigos e a família a botarem foguetes. De uma coisa ele não desistiria: viesse lá quem viesse, naquele corpo só poria a pata quem se antecipasse na sorte ou no fogo. Custava-lhe deixar a Mãe que passava a vida a dizer: «Mal tu partas, ponho luto e só o tiro quando regressares.» Pareceu-lhe que a chuva entrara na caserna e lhe inundava os olhos. Puxou o lençol sebado e limpou o rosto. O Pai não lhe custaria tanto, sempre bêbedo, dando mau viver, a entrar em casa aos berros, gritando que estava farto de trabalhar sem que o dinheiro chegasse, que o que gastava em vinho era um migalho de nada.

O Sargento teve outro ataque de tosse, aquilo dava-lhe como se um relógio despertador lhe marcasse os tempos de descanso e de tosseira.

Quando viesse também teria aquela tosse como a esgana de um cão? O Féteira não era mau tipo, um chico sempre com os regulamentos na boca, a ameaçar porradas a torto e a direito, aos berros de «vocês não me fodam! Eu quero é chegar ao meu tempo sem problemas e, depois, mandar-vos todos p’ró caralho! Ouviram ou querem que vá ao micro?!».

Mas o que lhe importava, agora, era a sua próxima licença de Natal, comer o bacalhau e as rabanadas da Mãe, mesmo que o Pai só pedisse vinho. Quem sabe se seria o último? Em África, diziam, não havia Natais nem nada, aquilo era sempre igual e tinha que se estar sempre com os olhos abertos para não se ser apanhado com as calças na mão.

O Cabo da Guarda nem precisou de o chamar. Mal o viu entrar no cubículo, levantou-se, vestiu o capote, enfiou o capacete, pegou na G-3, esperou que os outros se arranjassem e lá foi para o seu terço de sentinela. O bofetão da madrugada devolveu-lhe a realidade. Bateu várias vezes com as botas no chão, esfregou as mãos, bufou-lhes, e, trocada a senha, plantou-se na guarita. A manhã estava vai-que-não-vai para nascer, o rascunho do sol ganhava definição, já havia barulhos e vozes domésticas nas casas rentes ao muro. Sua Mãe, a esta hora, devia estar a preparar-se para ir ao Corgo lavar a roupa; o Pai, esse, só pelas sete costumava terminar a cura da borracheira para a reiniciar com um naco de broa, uma fatia de presunto e um copo de aguardente que a Tia Francisca do Alto – secular e durázia governanta da quinta em que ele, por intercessão dela, trabalhava aos dias – lhe dava, às escondidas dos patrões, com o carinho condoído por alguém que substitui o filho que não se teve.

Luís, no seu posto de inútil vigilância, pedia que o sol se apressasse e sonhava com o dia da sua licença de Natal. Ele ignorava que aquele seria - felizmente que ninguém sabe quando é – o seu último Natal.

Luís morreu, num dia de Novembro de mil novecentos e sessenta e oito, na serra Mapé, ali onde a Frelimo não suportava a tropa do puto. O destacamento de que fazia parte, incumbido de subir a serra para dar protecção aos fuzileiros que terminavam a nomadização, descia para Macomia com a miragem de uma semana de descanso na praia de Wimbe. Uma bazucada não lhe deu tempo para chamar pela Mãe. Morreu
como quisera: “tau, já foste!”. A granada embateu no ponto em que a porta se ajusta ao tejadilho, ricocheteou para o interior da cabina da Berliet e, num estoiro de fim do mundo, desfarelou-os, a ele e ao condutor, enquanto o resto da coluna, saltando das viaturas, despejava carregadores e filhos da puta à toa numa resposta de desespero e raiva à emboscada. Foi enterrado, a aguardar vez para um calado regresso em urna de chumbo, no cemitério de Porto Amélia, debruçado para o Índico. Não soube se a serra Mapé era Amarela e se o Natal africano tinha frio e neve.

O Aspirante Correia, já Alferes, enquanto o acompanhava, sentado no Unimog a cair aos bocados, ao lado da urna, olhava a medalha que ele lhe entregara, numa premonição inocente, para «no caso de eu marar, veja se a entrega à minha Mãe».

Cumpriu o que lhe prometera. Numa tardinha de Abril, quando os cavadores se recolhiam para o caldo e o apresigo, viu, da janela, como um dó, o luto da Silvina com um caneco de água à cabeça. Hesitou outra vez - há dias que se consumia na irresolução -, mas, queria livrar-se daquele carrego. - «Tem de ser hoje!». - Saiu de casa e interrompeu-lhe o caminho.

- D. Silvina – pigarreou -, tenho-me esquecido de lhe entregar uma coisa que o Luís me pediu.

- Nem a quero ver, senhor – disse-lhe numa voz enregelada, deixando-o paralisado pela rapidez da compreensão do seu intuito. - Agradeço-lhe a sua boa vontade, mas já nada adianta para a minha vida. – Os olhos não tinham lágrimas, só um frio caliginoso. - Enterre-a ou deite-a fora, dei-lha em vida não a quero na morte.

- Compreendo-a - gaguejou com receio de se abater - , mas tenho que cumprir a promessa. – E empolou a palavra num apelo a escrúpulos religiosos.

Silvina olhou-o num instante que lhe pareceu implorativo (não decifrou se a água que lhe cobria os olhos escorria do caneco ou lhe nascia no peito), abriu a mão direita e disse: - «Deixe-a ver.» Meteu- a no bolso do avental e retomou o andar.

A medalha - nunca o esqueceria - tinha uma imagem da Senhora da Graça e no verso uma frase: «Oferece a tua Mãe.»
- Por M. Nogueira Borges in Lagar da Memória
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4/03/10

HERÓI OCULTO - Herculino Loureiro













Oxala pudesses escutar
Sem necessidade dos teus ouvidos…
Oxala um dia possas falar
E ser entendido
Para alem da tua voz!...
Oxala que possas abraçar o Mundo
Sem necessidade dos teus braços!

Oxala, Oxala!

Oxala venhas a voar
Sem mesmo ter asas...
Oxala tudo pudesses aprender
Sem precisares de sofrer...

Oxala, Oxala!

Oxala pudesses ouvir
A Grande Voz do Silencio
Que nunca para de aconselhar
E nunca é escutado para nada!

Oxala, Oxala!

Oxala pudesses ser
Essa Fonte inesgotavel
De Luz, de Verdade e de Vida
Onde todos os Homens
(Errantes, Ignorantes, Famintos e Sedentos)
Pudessem saciar a Ansia
De Conhecimento, Justiça,Liberdade , Paz e Amor!

Oxala, Oxala!

Oxala pudesses despertar esse HEROI:
O CRISTO ha muito adormecido
Dentro de Ti!

Oxala, Oxala!

- Herculino Loureiro.

4/01/10

O FALSO ALARME - Um conto de Allman Ndyoko

:: Allman Ndyoco pode ser lido em "Contos e Poesias do Índico" ::
 
Estavámos no longínquo ano de 1984, se a memória não me induz ao erro. Quino, Chiquito, Bacar, Saíde e Aidar haviam passado toda manhã no recinto do Jardim Infantil, próximo ao Estádio Municipal, brincando “pega – pega” e pulando habilmente nos ramos das numerosas amendoeiras que assomavam naquele pequeno mundo infantil. Brincavam incansavelmente com a ânsia de matar o tempo para assistir a grande partida de futebol entre a Associação Desportiva de Pemba e Textáfrica, equipa fabril do planalto de Manica. Era uma partida importante do Campeonato Nacional de Futebol, e isto provava-se pela chegada massiva de adeptos de todos quadrantes da baia, no recinto desportivo. Nos três principais portões do estádio eram visíveis bichas infindáveis de adeptos que entravam para o interior, a maioria com receptores colados ao ouvido. Era o tempo em que o futebol constituia o passatempo predilecto do pembenses.

Desceram das árvores. Em silêncio pularam o muro do jardim e pararam no passeio para traçar a estratégia de entrada, enquanto o sol decaía vagarosamente enchendo de brilho as cores castanha e vermelha da terra. As equipas defrontantes ainda não tinham descido ao pelado, mas a enchente era demasiada de tal ordem que, para qualquer incáuto, parecia o jogo ter iniciado.

- Vamos tentar a sorte. – Disse Quino enfiado num fato-macaco de jeans encardido. – Cada um de nós deverá pedir boleia alguém mais velho com bilhete de acesso ao estádio.

- Para isso devemos distribuír-nos nos três portões do estádio. – Observou Bacar, filho de árbitro Bacar Tarupa.

- Penso que sim, apesar de tu não precisares disso por seu pai ser árbitro. – Retorquiu Quino rindo-se de lado e ocultando a boca, em sinal de gozo.

- O facto do meu pai ser árbitro penso que não quer dizer nada, porque, por exemplo agora, não posso entrar no estádio porque ele já está dentro do campo. – Contra-atacou Bacar sorrindo.

- Mas os porteiros todos te conhecem até de cheiro. – Disse Chiquito brincalhão.

Riram todos satisfeitos. Depois de breves instantes de silêncio, Bacar, cabisbaixo e pensativo, disse:

- Tenho uma opinião importante e ideias interessantes para resolvermos o problema que nos preocupa. Não podemos tentar a sorte no portão três, porque está lá o carasco nhê Ibrahimo, inimigo da criançada em dias de futebol. E se nos portões um e dois não tivermos sucesso, temos quatro saídas à nossa disposição.

- Quais? – Quiseram saber os amigos em coro.

- Muito simples! – Bacar fez um suspense que durou breves instantes. – Podemos ver o jogo apartir do terraço do prédio da LAM ou dos galhos das árvores mais altas emergidas em volta do estádio; pulando o muro do estádio do lado mais baixo ou aguardando até ao período dos últimos trinta minutos que normalmente servem para a abertura dos portões para facilitar a saída atempada e ordenada dos adeptos.

As propostas foram analisadas rapidamente. No final, reavivando a esperança da malta, Aidar disse:

- Penso que nhê Ibrahimo já não é problema para agente. Ele deve-me alguns favores...

O pronunciamento do Aidar suscitou uma enorme curiosidade que podia-se ler nos olhos brilhantes de cada um. E com uma expressão corporal de quem cobra pormenores, ficaram alí, naquele momento, devorando-o e com vontade imensurável de pegá-lo pelo colarinho da camisa até vomitar o inígma. Porém, nada disso foi necessário, pois, os gestos inofensivos, mas expressivos, da malta venceram o momento enigmático.

- Durante as noites da semana passada, o nhê Ibrahimo serviu-se de mim para chamar sua amante que é minha vizinha.

- Já estou a ver quem é! – Rematou Chiquito em jeito de brincadeira.

A malta riu-se.

- A ideia é extraordinária! – Disse Quino acariciando levemente o queixo liso com os dedos polegar e indicador da mão esquerda. – E não há nada melhor que pensar e...
- Realizarrr...! – Acudiram-o os amigos em coro.
- Mãos à obra! – Gritou Saíde fazendo uma vénia grotesca com um braço apontado ao estádio.

Sairam do passeio às corridas com a esperança de ver-se no interior do campo. Enquanto corriam ao encontro da fila de adeptos e simples espectadores do portão três, na entrada da bancada de sombra a equipa da casa ia entrando e descendo aos balneários no meio de um ambiente de festa e encorajamento, caracterizado por assobios e apláusos desordenados dos adeptos. Nisto, alcançaram a fila. Desrespeitando à sequência estabelecida e abusando ingenuamente a confiança imaginária do nhê Ibrahimo, emergiram agarradinhos e em fila indiana defronte do portão com os olhos prenhe de esperança. Nhê Ibrahimo reconheceu imediatamente o seu pequeno confidente. Com a mão erguida e em forma de facão, separou-o dos demais amigos. Aidar reclamou imobilizando-se e fazendo uma careta de protesto. O protesto foi imediatamente aceite e a malta viu-se, finalmente, no interior do estádio.

O jogo tinha começado e a equipa da casa contra-atacava com vigorosidade chegando a alcançar diversas vezes a grande área adversária, mas sem sucesso. Todavia, a ausadia de alcançar a baliza adversária alimentava aos adeptos de Pemba a esperança de uma possível victória e a atitude da equipa prosseguiu até um quarto do fim da segunda parte da partida, quando subitamente um adepto da equipa Pembense, advinhando uma possível derrota para a sua equipa, aproximou-se à baliza do guarda-redes Zé Luís e, apontando algo nas malhas, saiu desesperadamente gritando em macua:

- “Inhanca”, “inhanca”, “inhanca”... – amuleto, amuleto, amuleto...

A noticia correu as bancadas com velocidade de uma ave de rapina; Em escassos instantes o pelado foi invadido por uma legião de adeptos furiosos que interrompeu a partida imediatamente e escorraçou os jogadores da Textáfrica à pedrada. A fúria dos adeptos Pembenses, que achavam que o amuleto descoberto impedia-lhes de ganhar a partida, foi tão forte de tal modo que o corpo policial, destacado para garantir a segurança e tranquilidade públicas no local do jogo, viu-se incapaz de suster as acções dos furiosos.

No entanto, os jogadores visitantes conseguiram, milagrosamente, abandonar o recinto desportivo e para escapar-se das investidas dos furiosos, procuraram alcançar o Hotel Cabo Delgado, que dista alguns metros do estádio, correndo em debandada. Por sorte, ninguém feriu-se gravamente, mas a situação criou um grande susto aos visitantes.

Na verdade, o que o adepto boateiro vira era um pequeno rolo de linha preta com algumas agulhas que um dos trabalhadores do estádio perdera, na manhã daquele dia, quando montava as redes das balizas. Todavia, o incidente fez correr rios de tinta na imprensa nacional e foi veemente repudiado nos mais diversos meios de comunicação social. E, de lá para cá, como resultado do trabalho da imprensa e do bom senso dos populares, jamais voltou a suceder algo de género no pelado do município da terceira baia mais linda do mundo; Mas o sucedido naquele ano ainda habita o imaginário do povo, principalmente, dos mais velhos e serve de exemplo para os mais novos perpetuarem a boa convivência dentro dos campos de jogos.
- Allman Ndyoko, 21/03/2010.

SELVA EM PAZ - Capítulos III e IV

(Clique na imagem para ampliar. Imagem recolhida da net)

Capítulo III - Distinguem-se as feições dos homens ao redor do pequeno fogo em que se cozem as batatas para acompanhar as sardinhas de conserva. A lua vai nascendo encantada, mas medrosa. A vegetação é uma copa interminável onde os restos do sol se espalham como pinceladas de sangue de um artista desesperado, cinzas de um incêndio da imortalidade dos tempos. O escurecer, mais do que triste, é embriagador, algo insidioso, a proclama dum sufoco qual mortalha de uma inocência, um peso de agonia. De quando em quando, relâmpagos riscam o céu, grafites rápidos e secos descobrindo a prenhez das nuvens esbranquiçadas, os trovões ribombam quais monstros pré-históricos; é um tolher de espanto, um esmagamento que nos pendura nos fios da timidez. Sobe até o cimo da achada uma viração fria que revolve a folhagem e o pó como se aquela nascesse debaixo das nossas botas. Há quem sobreponha aos dolmens as esverdeadas camisolas de gola alta, se enrole apressadamente aos mosquiteiros e aos sacos de dormir. Há uma soledade de túmulo. Ouvem-se algumas pieiras de brônquios tabaqueiros ou debilitados pelo relento. As estrelas, pirilampos minúsculos, chegam aos poucos, a justificar a noite, mas os prenúncios de chuva não se concretizam. Para sul, uma queimada enorme elevasse num triunfo vermelho, aparentemente descontrolada, a toada das cigarras espalha lembranças de uma inocência perdida.

Come-se para enganar, um mastigar silencioso, uma formalidade obrigatória. Na contraluz, as gargantas têm os movimentos dos engolires contrafeitos. Há assobios, por entre cigarros, no canto do alpendre; olhares de vidro reflectidos nas brasas, esperando que elas se extingam; um portátil sintonizado no emissor regional do Rádio Clube de Moçambique a responder aos discos pedidos. Então ele, o Alferes desta história, sem nada para dizer ou fingir alentos, olha para a patina do horizonte onde umas nuvens metalizadas dão uma miragem de água; pergunta por que é o mundo assim, vigiando-se o que pertence a todos, como se houvesse feudos de teimosias, ganâncias de posses, disputas de glórias feitas razões de sobrevivência; pensa que todas as guerras são forjadas por eunucos esquizofrênicos, ditadores assexuados, estupores purulentos; e nós – nós que obedecemos - balimos, feitos carneiros do pasto, mas não gritamos como gente nem desfazemos essa escória do mando para vivermos livres e em paz.

Um cacimbo húmido começa a envolver a terra, uma espécie de moinha leitosa que embebe os camuflados. O pessoal está sujo, adormece com as côdeas, o óleo dos suores e o chumbo do cansaço. Ouvem-se, distantes, tambores de batuque: talvez se encomendem aos cazumbiris, se comemore a desfloração de uma cafusa, se implore Maomé numa morte desconsolada ou se espantem os espíritos de doença maligna. O piar ávido de um milhano lacera a noite e um calafrio estremece os corpos.

Enquanto os homens já dormem, ele sonha com um mundo onde o amor não seja uma paga mas uma dádiva, os barulhos das lutas sejam substituídos pelos esvoaçar das aves entre palmeiras, todos os homens caminhem de caras levantadas sem receios de serem cuspidos, as vinganças e as perseguições não existam nem nos corações nem nos dicionários. A lua, de um ouro de poesia, de paz e de reconciliação, beija-lhe o rosto.

Recosta-se no assento do Unimog. Fuma LM. Não tem sono. Manda acomodar os plantões. Ele substituí-los-á na atalaia. Agarra-se ao volante e imagina-o leme de avião. Puxa-o para si. A viatura levanta como um condor. Voa silenciosa sobre o mato, de bico-motor apontado à fita de zinco tangente à Terra, até pousar, com a leveza de uma pena, num quintal onde uma Mãe, de preto vestida, espera de braços e sorriso abertos.

Capítulo IV - Andávamos há cinco horas. O calor apertava, criando riachos aquosos. Dois furos, quase seguidos, arreliaram-nos a paciência. Os solavancos na picada obrigavam-nos a pulos marsupiais. Tínhamos que estar no acampamento antes da lua nascer. Lá arranjaríamos um pisteiro. Um javali destrambelhado obrigou-nos a nova paragem. Saltei da caixa do Land- Rover, levei a carabina à cara e apontei. O bicho, estacado, contemplou-me. Estremeci. Aquele deu meia volta e desatou à desfilada.

- Então, não atiraste? – gritou o Zulmiro.

- O tipo não deixou... – gaguejo.

Continuamos aos saltos. Ergui-me, oferecendo-me ao entardecer. De quando em vez, um preto desmontava da sua ginga para saudar. «Cuidado, agarrem-se!», gritou o condutor. Finquei-me, e passou-se o pontão só com um estrago: a garrafa termos do café partiu-se. Um bando de macacos guinchou sobre as nossas cabeças, pendurando-se nos braços das mangueiras.

Chegados ao acampamento, falámos e bebemos cerveja com um caçador profissional: baixote, entroncado, tez de chocolate, abundante calvície, falares e modos desembaraçados. Emprestou-nos um pneu sobresselente, agradecemos o acolhimento, mas, não nos arranjou um piloto.

A noite germinava. Apetecia ser filho daquele mundo e rebolar no capim aljofarado, chamar a bicharada e levantar com ela um salmo de glorificação. O condutor bateu com a mão na porta: «Leopardo!» Dois olhos amarelos, como anéis de médico, estavam hipnotizados. Tiraram-me a arma das mãos; nem me mexi, narcotizado por aquele olhar que, pareceu-me, no súbito, ter a frieza do hábito e o ímpeto do ódio. Um uivo cortante, um arrepio de neve, os pêlos eriçados, um sangue de pânico. O tiro falhara.

- O gajo levou chumbo - julgou Zulmiro, caçador fanático quando as contabilidades do algodão lhe davam uma folga.

Continuámos a marcha e, deixando a picada, virámos à esquerda por um trilho que rasgava o mato denso a roçar o Land-Rover. Alguns ramos, mais inclinados, obrigavam nos a baixar as cabeças e os abanões eram maiores.

Ligou-se o farolim à bateria e apagaram-se os faróis.

- Agora nada de atirar ao calha! – advertiu o Chefe para quem uma caçada era um memória brasonada.

Procurei posição certa, juntamente com o Justino, de férias administrativas, e começamos a acompanhar, de um lado para o outro, o jacto do holofote. Ansiávamos a planície, «lá a caça é maningue!». A vegetação emaranhada não dava grandes esperanças. Ao bater cavo duma mão no tecto, a viatura estacou. O tiro partiu seco, tal uma chicotada, e o eco enrolou-se na lonjura. O Justino saltou e, guiado pelo foco e pelos gemidos de animal ferido, procurou, procurou, até, acabrunhado, regressar à caixa do jeep.

- Começo a não gostar desta merda! – verrinou o contabilista. - Primeiro um javali porque ele não deixou, depois um leopardo, e logo um LEOPARDO, a fazer pouco; agora um chango que vai à vida... Grande gaita... Mais valia ter vindo sozinho...

Ninguém lhe respondeu. Como um comboio saído de um túnel, entrámos na savana. Esmagadora! O céu - um arco majestoso tecido por nuvens de algodão em rama, tapando e destapando as estrelas – dava-nos a percepção de pequenez indescritível numa visão sem tamanho. A partir daqui já nada mais interessava. Podia o Zulmiro lançar os seus protestos à azelhice dos seus acompanhantes, matarem-se, ou não, alguns bravios, cobiçar troféus para demonstração futura. Com aquele arrebatamento da terra feito de odores húmidos e ferventes de vida, importava venerar a criação, deixar que a noite soltasse as suas insídias, mostrasse os seus duendes e aplacasse os impulsos humanos.

O chango, a quem, desta vez, a sorte não sorrira, em aflitivos estremeções, tentou erguer-se, remirou os olhos enevoados e tombou, finalmente, vencido. O ventre só deixou de latejar quando o corpo retezou. Senti um incómodo de traição, um remorso de desforço, uma inutilidade de ofensa. Içamo-lo para a caixa da viatura. Descarreguei a arma e segurei-a debaixo do seu corpo. Acenderam uma fogueira para corrigir hipotéticos erros de orientação. Sentei-me, encostado ao animal, e puxei de um cigarro. O cacimbo gelava-me os ossos. Vesti uma camisola grossa. O paludismo viria mais tarde e nem as pastilhas LM me salvariam da sezão. Deixei-me ir, envolvido por aquele assombro, pelo inexplicável do universo feito sobrenaturalidade que inutiliza as heresias. Aconcheguei-me mais ao chango até sentir o calor da sua penugem, o seu cheiro selvático de esterco e capim colado ao dorso, a quentura ainda recente do seu sangue; entorpecido por este apoio, em contraste com o rocio da madrugada, adormeci. Não sei quanto tempo assim estive. Acordei com os berros do Zulmiro por terem perdido outra pantera. Quando me soergui, a lua tinha uma turvação violácea e os olhos do chango continuavam abertos feitos dois espantos a perguntarem-me: «Porquê?»

Algumas queimadas dispersas pareciam destroços fumegantes de um exército vencido.
Fim.
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3/31/10

Moçambique - OS MADJERMANES... e o governo !

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MEMÓRIAS DE CABO DELGADO - SUBLEVAÇÃO DAS POPULAÇÕES NEGRAS, NA VILA DO IBO, DE 26 DE JANEIRO DE 1883

Por Carlos Lopes Bento(1)

Na continuação de escritos anteriores, dedicados a divulgar a História das Ilhas de Querimba, divulgo mais um facto histórico relacionado com bicentenária Vila do IBO.

"Na noite de 26 de Janeiro de 1883, foi alterada a ordem pública na Vila do Ibo pela sublevação armada de numerosos pretos com a intenções de atacarem as casas a alta hora da noite, em que todos estivessem no seu melhor repouso e estabelecendo anarquia, assassinarem os principais moradores com o intuito de saquearem as casas e procederem à pilhagem ..." Segundo informações dos capitães-mor de Querimba, Bringano, M´funvo e Terras Firmes(2), então em funções, muitos habitantes negros de suas terras teriam sido convidados, pelos conterrâneos do Ibo, para deitar guerra à Vila com o intuito de matar todos os brancos e roubar todos os seus bens.

Para concretização do plano gizado, saíram das respectivas terras, - ter-se-iam juntado em Quissanga - e dirigiram-se ao Ibo, no dia 25, para se juntarem à força rebelde da Vila.

As coisas, contudo, não lhe correram de feição. Ao chegarem ao porto do Ibo foram surpreendidos por uma força militar e pelos moradores, que os recebeu a tiro, tendo havido, de parte a parte, fogo intenso, entre as seis e meia da tarde e as nove da noite.

Os que não morreram em combate fugiram em direcção às suas terra, muitos dos quais acabariam por se afogar, ao atravessarem os vários canais que separam a Vila das terras do Continente, devido à maré cheia existente na ocasião. Alguns, por estarem feridos, viriam a falecer entre os densos mangais que envolvem a ilha do Ibo. Muitos regressariam às suas terras, onde relataram o acontecido.

Nesse combate, entre mortos e feridos, terão perdido a vida, entre as forças consideradas rebeldes, mais de cem pessoas, não se verificando, da parte da força militar ou da população da Vila do Ibo, qualquer baixa.

Até agora não encontrei na documentação portuguesa, não só a indicação no número total de elementos - do continente e demais ilhas e da ilha do Ibo - que terá aderido a esta operação, nem das suas verdadeiras razões, como também do nome do chefe rebelde por ela responsável, que ficou conhecida por “guerra dos pretos”.

Segundo informação que obtive no Ibo, em 1970, da parte de um respeitável geronta, da venerável família Morais: a revolta teria sido chefiado por um negro de nome Quiuaroara, que veio de Quissanga, há mais de cem anos, com muita gente armada, que com a ajuda dos escravos da Vila do Ibo, pretendia apoderar-se das mulheres dos brancos do Ibo e de seus haveres.

O dia 26 de Janeiro de 1883 foi a uma Sexta-Feira, dia especial para as populações que professam a religião Islâmica. Então a maioria das populações das Terras Firmes já professava a religião Islâmica. Existirá aqui alguma interrelação?

Haverá estudiosos, curiosos ou naturais das Ilhas de Querimba e seus descendentes, que possam adiantar mais alguma coisa sobre o tema hoje abordado? Desde já os meus agradecimentos.

(1) - Antropólogo e antigo administrador do Concelho do Ibo. Por se tratar de um texto de divulgação não menciono as fontes que lhe serviram de base.

(2) - Nessa data desempenhavam esses cargos, as seguintes individualidades: Cap.mor de Querimba, Manuel Justiniano Baptista; de Bringano e M´Funvo, Constantino António Resende e Sarg-Mor das mesmas terras, Francisco Diogo Baptista; das Terras Firmes, Joaquim Monteiro Baptista.