quinta-feira, 25 de março de 2010

SELVA EM PAZ - Capítulo II


Capítulo II - Quando o dia nasceu, alguns ainda se voltaram para o outro lado, no cimento, qual cama fofa, como se apenas um despertar errado lhes interrompesse o sono. Os rumores do dia, derivativos dos usos e costumes que, em qualquer convivência, se decifram em sortilégio universal, iam tomando conta das gentes.

Ao fundo, a selva cerrada, sem visibilidades de caminhos ou uma aberta na espessura, fervia envolta em vaporação, tal uma manta acolchoada a tivesse coberto durante a noite; fazia lembrar uma vista de avião quando este, sobrevoando as nuvens, parece parado...É de manhã cedo que África nos transmite as fragrâncias telúricas da sua intimidade como uma vestal eternamente florada, uma glorificacão ontológica sob um céu tão claro e um ar tão fresco que até emociona; germinal ininterrupta de paixão alucinada, quase violenta, mas sem pressa de concretizar, suavidade de um amor constante, quase quimera, com os séculos para usufruir os aromas que há na terra; Primavera e Verão abraçados como se as eras fossem um só tempo e um só modo numa flutuação de arroubo.

O Chefe de Posto surgiu, bem disposto, com o seu caqui de ferro recente, calções de festos impecáveis, divisas bem salientes nas ombreiras, dando as últimas ordens aos sipaios, inspeccionando o Land-Rover.

- Quando quiser partimos. Tenho que chegar a tempo de dar o mata-bicho àquela malta que está no pontão nº 5 - disse ele, escorreito. – Não podemos ir muito de bala porque entorna-se tudo- acrescentou, explicativo.

Sossegados os estômagos com café, pão recesso e doce de bisnaga, arrancamos debaixo de uma estalaria de motores com o Goês e os seus homens à frente.

Por onde passávamos as reverências eram tantas que chegavam a incomodar: as mulheres, de filhos atados às costas, riam-se e gritavam um dialecto incompreensível a que, no entanto, o jovem do caqui - num alarde poliglota... - correspondia; os homens, menos efusivos, cautelosos quiçá, estremavam as saudações a ligeiros levantares de braços como quem diz «vai andando!»; a canalha, receosa, afastava-se para as bermas. O capim, as mangueiras, cajueiros, maúmas e lusares formavam um emaranhado por onde o sol entrava em serpentinas prateadas; as copas e os ramos abraçavam-se, desprendiam-se, agarra aqui, solta acolá, para, num espanto, surgir uma clareira de machamba e meia dúzia de palhotas; os murrambés, namurires e marriés, surpresos pelo barulho que lhes cortava a consonância, voavam para cantar nos esconsos da floresta; macacos guinchavam de galho em galho e, alguns, quedavam-se, fitando-nos ariscos; javalis, de rumo perdido, atravessavam-se sem saberem para onde atinar; feios e maus, os mabecos atiravam olhos esfomeados; de espaços a espaços, pequeníssimos trilhos de pés descalços segmentavam-se pelos flancos da picada; um cheiro acre, a mato queimado, lembrava fogos de eternidade.

O Chefe monhé – Suliman de seu nome- abrandou a marcha, sinalizou com o braço para pararmos, meteu-se num desvio e estacou de imediato. Envolveu-nos um marulho de suão que, em contraste com a inércia dos fragores anteriores, aparentava um sussurro de maré a esfriar o suor. A uns passos dados, num sobressalto infantil, surgiu uma represa de postal ilustrado. A água era tão transparente que se via o fundo lodoso. Os cívicos Macuas, às ordens do chefe, encheram jerricans. Era uma zona de penumbra, tal a densidade do arvoredo miombo de mbilas, jambires, pau-preto e sândalo.

- É para a brigada cozinhar. É pura como a selva... – respondeu-me Suliman, ao ver o meu olhar de surpresa.

- Parece um bebedouro...

- É a Lagoa Sagrada...

- Lagoa Sagrada?!

- É uma lenda. Esta gente diz que morreu aqui – ninguém sabe há quanto - um leão que perseguia um feiticheiro...

- ...

- Esta malta acredita nestas coisas... Quando o animal se ia mandar ao velho, este fez umas rezas, o leão parou e o quimbanda matou-o com uma punhada... Desde aí, nunca mais, nestas águas, um bicho meteu o focinho... Sempre que alguém aqui passa vai sempre carregado... É água santa!!!... – bradou irónico.

- Como a do Ganges...

- Isso é como comparar um chifre de rinoceronte a uma presa de elefante...- atirou a fingir-se melindrado.

Quando chegámos ao pontão, a meia dúzia de trabalhadores recebeu-nos em alvoroço, embora se percebesse alguma estranheza pela companhia dos camuflados. Havia duas míseras tendas colmadas, uma fogueira gigante com um panelão de igual tamanho em cima de umas pedras enegrecidas, alfaias dispersas e duas canoas na lama da margem. O rio era estreito, mas não se chegava ao outro lado numa braçada.

- Patrão, sô Firrera num dexou tronco. Tá tudo pronto, os riforço tão seco, falta tronco só – pormenorizou o que parecia ser o encarregado.

Suliman olhava em volta, semblante contrariado, enquanto a mandioca, o peixe seco, o vinho, o pão, o arroz, o milho e os jerricans da água eram retirados da caixa do Land-Rover.

- O senhor Ferreira vai ter milando comigo! Depois dizem que os pretos é que não fazem nada! – crocitou, fitando-me, intencionalmente, o indiano. – Vocês já matabicharam? – preocupou-se.

- Si, patrão.

Há acasos que prefiguram artifícios de escrita, a modos que coincidências adrede urdidas para remedeio narrativo. Não é o caso, porque – acreditem ou não – começou-se a ouvir, ao longe, um roncar de motores. Suliman esboçou, duvidoso, um alento; os assalariados, mais crentes, bateram palmas numa agitação de espera certa. Parecia um retumbo a rasgar a imensidão, um compacto tropel paquidérmico à medida que se achegava. Quando os dois camiões, quais quadrúpedes resfolegantes, destrambelharam na angra do rio, a griteira foi tanta que nem a chegada de um Governador Geral...

- Toca a descarregar este, depressinha, que ainda quero ver se chego hoje a Mocuba! – berrou o condutor branco, abrindo a porta, antes de qualquer cumprimento.

- Chi, patrão! Mocuba hoje?! Tão longe, num vai chegar não...- espanta-se um preto.

- Longe ou perto eu é que sei! E, além do mais, não quero ficar muito tempo a cheirar esta catinga toda! – brutalizou, enquanto distribuía mãozadas.

- Senhor Ferreira, não era para ter vindo ontem?... – beliscou Suliman.

- Por mim, era na semana passada, só que em Molivala não se desenrascaram, atasquei a meio, isto nem são picadas nem são nada! É só deste camião! – advertia para os trabalhadores negros. - Cambada de chimpazés!... – salpicava, dirigindo-se à cabine de onde retirou uma geladeira térmica, abriu-a e distribuiu bazukas. - Não chega para este maralhal todo, é um gole para cada! Que é que você – virando-se na minha direcção - anda aqui a fazer, ó Alferes? - acabou por perguntar, depois de limpar as beiças, o madeireiro, meio irónico, meio provocador.

- A passear...O nosso amigo Suliman convidou-me e eu aproveitei...

- Tempo perdido, meu amigo, tempo perdido. Aqui os turras são estes chatos de Chefes de Posto que se julgam sobas desta merda toda...

- ...

Via-se que o Ferreira era um modelo do amancebado com os nepotismos administrativos da interioridade selvática, aquele tipo tarimbado em que os anos de permanência e o desbocamento intestino assoldavam a grosseirice.

- Com essa conversa toda não sei quando lhe vou pagar...- ripostou Suliman.

- Não se preocupe que, em Pebane, há quem o obrigue ou pague na sua vez. Estes monhés são piores que judeus!... – prosseguiu Ferreira na ostentação ordinária.

- Já viu, Alferes, esta modalidade de terrorismo?... – interrogou Suliman, enquanto o Ferreira, virando costas, se afastava para verter águas junto de um pneu. – Está protegido por cima e pensa que pode falar com todos da mesma maneira. Se me quisesse aborrecer...

- Racismo...

- Pior, falta de educação...

O condutor do outro camião, um misto, provavelmente de segunda geração, com aspecto algo polido, permanecia, quedo e mudo, de sorriso ambíguo só interrompido quando levava o gargalo da cerveja à boca. Salientava-se pela cala, como se estivesse ali fora de cena. Tinha um rosto loução e, nos olhos, vestígios de aptidões. Era, naquele ambiente, uma antinomia que, sem forçar, suscitava uma discrição tão recatada que ninguém, até à partida, lhe escutou ou pediu uma palavra.

Foi com indisfarçável e geral prazer que, terminada a descarga, o Ferreira e o seu companheiro (que só, então, lançou um sorriso franco) abalaram.

O regresso da serenidade devolveu Suliman ao seu mando. Guardou, durante uns minutos, um propósito reservado a recuperar do desconcerto inesperado.

- Têm que almoçar? – perguntou. - Trouxe uns bifes de javali. – acrescentou.

- Há uns restos. A gente desenrasca-se. De qualquer modo, e já que oferece, há muitos candidatos...

Recolhemo-nos a uma sombra e comeu-se a reciprocidade que deu para alguns soldados meterem as mãos nas marmitas de mandioca perante a hilaridade dos assalariados.

- Sabe – retomou o Chefe de Posto -, às vezes apetece-me pedir a demissão de funcionário administrativo e ir para Lourenço Marques ajudar os meus pais no comércio. Eu gosto disto, mas estes milandos de brancos desgostam-me. A fingir brincadeira, dizem as coisas mesmo com ganas de ofender. Nem disfarçam.

- Uma ou outra má criação. No geral andam aqui para ganhar a vida. Será que o cacimbo transtorna alguns?...

- Não me diga que acredita nessa história dos cacimbados...

- O clima altera as pessoas... Uma torreira de dia e um arrefecimento à noite que até entra nos ossos....E, depois, este isolamento...

- Ora... Ora... Esta gente já está aqui há mais anos do que eu tenho de vida. As cacimbadelas são um alibi para os destrambelhamentos... O que mata é andar por aí muita gente que ficou rica – não tenho inveja nenhuma, atenção -, criou relações de confiança, comprou poderosos que já partiram e outros que vieram de novo, julgam que fazem o que lhes apetece e a impunidade é tamanha que se transforma numa natureza, entende? – acentuou. – Para ganhar a vida não é preciso afrontar a honestidade – sentenciou.

- Mas olhe – interrompi -, tenha cuidado, as cumplicidades são mais que muitas. Confesso-lhe a minha incomodidade com conversas deste tipo porque nunca sabemos onde elas vão ecoar. E, para lhe ser franco, acho que os brancos de cá são como os de lá. Nunca foi à Metrópole? Deixe-se andar. Não me diga que a boçalidade do Ferreira o perturbou? Ele é só exemplo dele próprio.

- Gosto sempre de falar com a malta que passa por aqui na psico. Vocês parecem todos iguais, obrigados mas vieram, com caras de franqueza e receosos de tudo...

- ...

- No mato não há disso, meu caro... Isto é tão grande, tão sagrado e tão livre que até ficava mal uma denúncia... Refiro-me a esta zona, claro... Sabe que a Frelimo está a abrir uma frente em Tete? - perguntou Suliman, interrompendo a marcha da conversa

- Sei, sei...

- Nas outras, onde nunca estive, já não sei como é...

- É a contra informação militar e o que importa é que as perdas sejam poucas...

- Cabo Delgado?

- Montepuez, Macomia, Miteda, Mueda, por aí. Mas tudo bem que o império é uno e indivisível…

- Vocês são mesmo tirados a stencil...

- ...

- Não quer provar uma chamuça?

- Obrigado, são muito picantes, fazem-me mal.

- Tenho lá um cozinheiro, no Posto, que as faz melhor do que na Índia...

- Quando achar bem, podemos regressar, não queria chegar de noite.

- Já estou a ver que não vou ter sesta...

O regresso teve a moleza que a modorra impunha. A flora destilava e a fauna esticava a preguiça no aconchego das sombras. Só o eco dos motores desflorava aquela calmaria que tinha tanto de sagrado quanto de profano.
Continua.
- Porto, M. Nogueira Borges - do livro "Lagar da Memória".
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