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9/10/10
De Porto Amélia a Pemba-Em busca da História! Documentos... 21
Location:
Montepuez, Mozambique
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
De Porto Amélia a Pemba-Em busca da História! Documentos... 20
Location:
Porto Amelia, Mozambique
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
9/09/10
O HÉLIO !
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UMA CRIANÇA MORTA DEBAIXO DA ESCADA
Debaixo da escada há uma criança morta,
a mãe lhe poupou os sofrimentos pela vida afora.
Os pezinhos não andarão pra trás,
nem brincarão com os duendes
nem sonharão com sapatos,
nem correrão da polícia,
porque há uma criança morta debaixo da escada.
A luz tênue da lua cor-de-rosa
brinda com seu raio cintilante a hora da noite perdida
enquanto num acalento de sussuros
uma mulher em negro vestido
coberta por um manto de mistério
desce a rua deserta murmurando sua desgraça
rumo à escuridão das trevas...
Nos céus da Pátria
um anjo com um facho de luz nas mãos
aponta para a escada,
e um raio desce das nuvens de prata
clareando os degraus,
mostrando o rosto pálido do menino morto
coberto por um lençol da brisa da noite.
Corpo ainda quente,
olhos entreabertos,
mãos postas em penitência
implorando debaixo da escada,
porque há uma criança morta.
Debaixo da escada há uma criança
possuída pelo nosso tempo de hoje...
Amanhã os jornais anunciarão
novas receitas de bolo
em lugar da tragédia da mãe
que não ofereceu o sangue do seu menino aos tiranos,
poupou-lhe os sofrimentos pela vida afora,
as suas mãos infantes
não serão oferecidas às palmatórias
as confissões pelos crimes não cometidos
não serão arrancadas de sua boca com as vísceras,
os testículos não serão chutados pelos coturnos,
não será pendurado no pau-de-arara,
não será levado à solitária,
não sentirá os alfinetes nos sabugos das unhas,
não conversará com o próprio cadáver,
não terá seu nome na Lista dos Desaparecidos,
não se alimentará nas latas de lixo,
não será condenado sem julgamento,
não habitará as sarjetas,
porque debaixo da escada há uma criança morta.
A mãe que impediu os seus sofrimentos
beijou-lhe as faces de anjo
debaixo da escada,
depois lhe falou nos ouvidos:
-Não queria lhe fazer isso, meu menino,
mas não quero que arraste a sua dor pelas trevas,
não quero que seja um morto-vivo
a perambular pela nossa Pátria,
me perdoa por lhe poupar de nossa tragédia,
meu menino...
A mãe em prantos embrenhou-se pela noite,
levando seus murmúrios nos lábios descarnados:
-Não sofrerá dores infames,
não morrerá sem direito a uma cruz,
não viverá sem direito à cidadania...
A mãe consola a sua própria dor,
não precisará implorar pelos tribunais
em busca de justiça,
não baterá nas lápides dos cemitérios
procurando seu menino,
não chorará lágrimas de sangue,
não carregará mais uma cruz...
A mãe que impediu os sofrimentos do seu filho
entregou-se à escuridão das trevas.
Enquanto isso debaixo da escada uma criança sonha...
O autor Maciel de Aguiar
Sebastião Maciel de Aguiar, filho de Walter Aguiar e Odete Maciel de Aguiar, nasceu no município de Conceição da Barra, no Estado do Espírito Santo, em 11/02/1952, onde fez os primeiros estudos no Colégio Joaquim Fonseca, mudando-se com a família para a vizinha cidade de São Mateus e continuando os estudos no Colégio Pio XII Viajou por Minas Gerais e morou por algum tempo no Rio de Janeiro.No final da década de 70 voltou a São Mateus, ao Vale do Cricaré, onde retomou suas pesquisas sobre o negro do tempo da escravidão e seus descendentes. Fruto de seu trabalho de 20 anos foram 30 títulos da série “História dos vencidos”. Poeta e pesquisador, foi incansável defensor das tradições populares do Vale do Cricaré.
Location:
Maputo, Mozambique
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
9/08/10
O ARREPENDIDO
Era uma vez um homem nascido de uma barriga de fome. A parteira da aldeia dera-lhe a primeira palmada e lavara-o num alguidar de barro. Cresceu descalço, de calções rachados no cu, comeu as azedas dos caminhos, fez saltar as pinhas na lareira, dormiu entre mantas de vindima, brincou no quelho com as galinhas, limpou o ranho às folhas das videiras, comeu cachos verdes escondido nas sombras de Agosto, aprendeu a tabuada e a escrever o nome com as mãos estendidas para a palmatória, jogou o monte e o sete e meio no adro da Igreja e chegou a tocar o sino para as missas de domingo.
Nos socalcos, conheceu a enxada da cava, o ferro dos saibramentos, o peso dos pulverizadores, a moderação da espampa e o carrego dos cestos nas fainas de Outubro. Nos terreiros de poeira, ou de lama, namorou com os olhos e com os lábios, dançou nos leilões, embebedou-se ao desafio, mostrou a navalha de ponta e mola, gabou-se de valentias diante de lobisomens nos Quatro Caminhos e das conquistas no Socorro e nos Remédios.
Os ralhos da Mãe e os rezingares constantes do Pai faziam-no olhar para o fundo do vale, onde a estrada, ébria de curvas, lhe sorria a evasão. Farto de brigas, da meia sardinha e um naco de pão ralão, da água-pé da cava, do pulverizador do sulfato e dos cestos atestados de uvas, abalou.
Ainda o sol não arreganhara os dentes a uma lua mal talhada, sem mala ou embrulho, meteu-se a caminho, acalentando os passos da fuga. Na vila ribeirinha ripou os tostões do bolso e tomou o comboio que o levaria à cidade grande. Ruminou sonhos de fato novo, raparigas para apalpar e possuir em becos escuros, filmes de mamas ao léu, Cafés de gente fina, futebol em Estádios maiores do que a sua terra, ruas compridas cheias de gente.
O Revisor pediu-lhe o bilhete com uma voz de alicate. O rio, à sua esquerda, acompanhava-o, mas não era o mesmo que ele conhecia. O seu era manso e dava-lhe peixes para fritar; na sua borda, havia uma barraca onde, nas noites de Verão, adormecia com o seu deslizar como uma brisa de arvoredo. Mesmo nos Invernos em que ele galgava vinhas e transformava as ruas em canais, gostava de ouvir a água ali mesmo à beirinha, no cimo das rampas, sentir-lhe o cheiro a barro, aquele jogo de sobe e desce numa intimidade de risco e de estranheza. Quando ele regressava ao seu lugar, abandonando lama e entulho, partia-se-lhe o coração, desiludido com uma coisa tão linda ser capaz de deixar tanta tristeza. O rio que agora via não tinha fragas à mostra, era espesso e escuro, espremido por gargantas montanhosas e margens de lodos ondulantes; só os laranjais e o casario que trepavam até ao céu o alegravam.
Chegado à cidade, um bruá, sem origem e sem dono, esmurrou-o de espanto. Encostou-se ao varandim exterior, defronte das portas da Estação, entreteve-se a ver as saídas e as entradas, virou-se ao contrário para se rir com tantos carros a quererem passar ao mesmo tempo, como as poedeiras da Mãe à bulha por um grão, e aventurou-se, precavido, desconfiado de uma cilada.
A cidade do sonho era a confusão das gentes, que, de embrulhos nas mãos, corriam como se os tivessem roubado e fugissem, esbaforidas, de uma perseguição; gesticulavam, berravam, empurravam, cuspiam no chão e para o ar, gritavam de punhos erguidos ao mando de alto-falantes que esganiçavam palavras que ele nem percebia; pisavam os jardins, deitavam papeis para os pés e para os cantos. A cidade da lenda era um asilo de aleijados e cegos estendidos nos passeios, grupos de velhos encostados nas esquinas a falarem de futebol e de política ou sentados na solidão de bancos de praças despidas de árvores feitos lagartos ao sol; corpos jovens com caras gastas à espreita de carteiras distraídas; mulheres, de chumaços nos peitos, nas ruas das quinquilharias, a vomitarem palavrões de sexo estragado; rostos enfiados em máscaras a falarem sozinhos, rindo sozinhos, gesticulando sozinhos; loucos, de barbas desprezadas, a darem vivas a Reis de que nunca ouvira falar; velhas andrajosas, de cabelos encodeados, sapatos rotos e bocas sem dentes, sem um riso, sem uma mão de carícia, sem uma boca de ternura; crianças endurecidas por olhos de revolta e de escárnio, de dor e de desprezo, esticando os braços em busca de uma esmola como quem pede desculpa.
Não precisou de se afastar muito. Bastou-lhe subir e descer duas ou três ruas, dar a uma praça com uma estátua de um cavalo de perna alçada e um homem (devia ser alguém importante) em cima a segurar a rédea, para compreender que se enganara na ilusão. Olhou para o alto: o céu pintava-se de ferro velho. Não respirava como na sua aldeia, não ouvia um choro de criança a ecoar nos montes, sentia-se preso, e lá estava a torre da Estação com o relógio a marcar o tempo. Meteu as mãos nos bolsos, contou o dinheiro, comprou um bilhete de regresso, foi a uma taberna, logo ali ao lado, comer uma posta de peixe frito, bebeu uma taça de branco e voltou aos socalcos da sua terra.
- Texto de M. Nogueira Borges* extraído da publicação "Lagar da Memória".
- Também pode ler M. Nogueira Borges no Blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua.
Location:
Porto, Portugal
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
9/06/10
De Porto Amélia a Pemba-Em busca da História! Documentos... 19
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
De Porto Amélia a Pemba-Em busca da História! Documentos... 18
Location:
Quionga, Mozambique
Atravesso o mar sempre azul e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência!
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