11/30/10

A MÃE DE TODOS

Alice deixou um dia a aldeia entre as montanhas durienses para servir na casa de um Senhor Doutor do Porto, levando consigo a ilusão de um sonho. Ainda foi à terra, duas ou três vezes, mostrar a roupa da cidade e os brincos que a patroa lhe oferecera. Hoje, porém, talvez já nem saiba como se toma o comboio. Enterrada a Mãe, que o Pai nem conhecera, vendida a leirita de uns almudes, fez um risco no calendário da sua recordação. Gastava as tardes domingueiras no jardim diante da casa onde fazia a comida e as camas, aspirava a alcatifa e sacudia as carpetes, limpava as pratas e entretinha adolescentes rabugentos, até achar o companheiro da sua sina. Afeiçoou-se por um mecânico e foi viver para uma casita mal alevantada dos subúrbios.

Começou cedo a criação; enquanto as marés sobem e descem, viu-se com uma ranchada de filhos. Dava umas horas como mulher-a-dias com a sogra na guarda da canalha. Passava muito tempo no hospital, nas consultas de pediatria, e dava-se, por isso, com enfermeiras e médicos com o à vontade consentido de tantas idas e vindas numa preocupação aflitiva por quem levava ao colo e pelos que deixava sob o olhar da segunda Mãe. Já nem precisava de papel ou de espera, todos lhe toleravam a prioridade, que a uma Mãe procriadora não é só o respeito a mandar, mas, também, uma admiração condoída. Vinha do fim da cidade onde a auto-estrada se estende numa fita preta que se perde, ao longe, com os carros disparados a afundarem-se nas lombas.

O rosto de Alice mostrava canseira, envelhecido antes da razão; as pregas nos olhos e nos cantos da boca traduziam embaraços e noites mal dormidas. Quase que não tinha peitos, chupados pelas bocas da inocência sem culpa de terem nascido a eito. Contudo, por cima desse espelho de privações, um sorriso bonito, muito bonito, tornava-a simpática e afável; era um daqueles sorrisos de quem logo se gosta por não enfatizar as desgraças. Acarinhava os filhos sem pieguices ou obsessões. Sempre «lavadinhos e arranjadinhos», não se escusava de, em pleno átrio, desnudar um seio mirrado para o meter na boca de um mais apressado pela hora do sustento.

Joaquim sujava-se na oficina e em biscates de fim-de-semana para sustentar a prole. Não era gastador nem seroava nos Cafés. Viciado, só no tabaco e no futebol, mas, até nestes, se moderava: fumava Definitivos e o seu clube militava numa distrital sem nome nos jornais de segunda feira. Ia sempre como um fuso para casa, sem o fastio dos casamentos arrastados. Quando a mulher se demorava, esperava sempre que a porta se abrisse. Os vizinhos da ilha não lhe ouviam um ralho ou uma descompostura e, como «casal que não se insulta não se ama», julgavam que apenas se toleravam.

Um dia, porém, as horas passavam e a Alice não chegava. Sabia-a numa consulta com «o mais novinho, de seis mesinhos». Combinou com a Mãe a continuação da vigília e meteu-se a caminho. Encontrou a Mulher na paragem do autocarro, diante do hospital, com dois bebés, um em cada braço.

- Então o autocarro não vem, é?... Estás à espera do 99 como o Samora?!... – troçou.

- Quantos já passaram!... – retorquiu a Alice.

- Espera – espantou-se -, de quem é esse bebé?!

- Foi uma senhora que me encontrou à saída e pediu-me para lhe ficar com ele.

Disse que era só tempo de ir ali, não sei onde, fazer umas compras, já lá vão mais de duas horas e não aparece. Estou preocupada...

- Oh! Mulher... Ela não volta mais! Não vês que o abandonou?!... Deixa lá!... Quem cria nove também cria dez! Vamos embora!

E lá foram, cada um com o seu filho, no autocarro apinhado, a caminho da casita mal erguida nos confins da cidade para continuarem a servir o futuro do mundo.
- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

11/27/10

A Ilha do IBO e a História: Café do Ibo ganha medalha de ouro... em 1906


UMA PÉROLA DE MOÇAMBIQUE - O AFAMADO CAFÉ DO IBO GANHA MEDALHA DE OURO EM LISBOA - Por Carlos Lopes Bento(1).

Considerando o contributo e a mais valia que o saboroso e aromático café do Ibo poderá dar à divulgação do norte de Moçambique, designadamente, de Cabo Delgado e das Ilhas de Querimba, achei oportuno divulgar alguns interessantes dados, extraídos das minhas fichas de leitura e bibliográficas, relativos à sua produção e consumo, nos séculos XIX e XX.

Durante a minha estadia, em Cabo Delgado, de 1967 a 1974, e, especialmente, na ilha do Ibo, onde residi de 1969 a 1972, tive o privilégio de saborear o delicioso café do Ibo, e de o oferecer a muitas centenas de visitantes, nacionais e estrangeiros, que, então, a visitaram, sendo por todos muito apreciado.

O cafezeiro continuava, ainda, na década de 70 do século passado, a crescer ao ritmo natural, - que até se desenvolvia nos solos pedregosos de coral, existentes na parte insular do território -, merecendo poucos ou nenhuns cuidados por parte das populações do distrito, embora algumas tentativas tivessem sido feitas para alterar a situação.
Foi nesse sentido que autoridades portuguesas do Reino procuraram, nos finais do século XVIII, passar da recolecta à cultura do cafezeiro, de modo a introduzir o café no comércio com Lisboa, facto que acarretaria grandes benefícios, tanto para o Reino, como para as Colónias.

De modo a promover e a animar a plantação do café nas Ilhas de Querimba, a Provisão real de 2/3/1800, determinava que, anualmente, delas fossem remetidas 10 arrobas do melhor café, obrigando-se, para tanto, "cada morador e agricultor a plantar tantas árvores, proporcionalmente ao terreno que possuir, persuadindo-os que isto poderá a vir a ser, em pouco tempo, um ramo de comércio, muito útil aos moradores”.

Em 1803 foram enviadas, para o Palácio Real de Queluz, 3 arrobas e 18 arráteis de café das Ilhas remessas que continuariam até 1808, data em que seriam suspensas, pelas dificuldades da sua aquisição nas terras firmes.

Embora se tenham plantado algumas machambas de cafezeiros tanto na parte insular, como continental do território, os resultados, em 1810, ainda não eram visíveis, por vários motivos: a pouca idade dos cafezeiros plantados, que ainda não produziam; as incursões dos Sakalava, que perturbaram essa campanha; e pouco interesse dos agricultores por essa cultura, cujos benefícios imediatos não eram comparáveis, por exemplo, à cultura do coqueiro.

No sentido de ultrapassar todas as dificuldades, uma nova Provisão real, de 1810 recomendava todo o interesse das autoridades para incrementar a cultura do cafezeiro e outros produtos agrícolas, que pudessem constituir-se objectos de exportação e compensar-se os de importação.

As tentativas para introduzir, nas Ilhas e terras firmes, uma agricultura orientada para uma economia de mercado, redundariam em completo fracasso.

Nos meados do século XIX, o governador das Ilhas, Jerónimo Romero, presta-nos as seguintes informações sobre a produção de café:- São escassas as colheitas de café na ilha do Ibo; no Lumbo, margens do rio Cariamacoma achava-se café silvestre; nas margens do rio Lúrio encontram-se espessas matas de cafezeiros silvestres; Em Tungué, as margens do rio Meninguene são ricas em café do mato.

- Era somente na ilha do Ibo e proximidades do rio Cariamacoma que se fazia a cultura de algum café por um ou outro morador curioso, pois, os demais, não davam importância nem se dedicavam a tão útil cultura. Deste modo o cafezeiro produzia, espontaneamente, como qualquer outra planta do mato, sendo a sua apanha dificultada por eles se acharem entre matos cercados de arvoredo e pelo risco dos animais ferozes existentes nestas paragens.

- Então as maiores colheitas de café faziam-se na Ilha do Ibo (12 arrobas), em Criamacoma ou Lumbo (14 ar.), em Fragane (14 ar.), próximo da Quissanga, e em Bringano (10 ar.), a sul da ilha de Querimba.

- Os preços praticados eram, no Ibo, de 5 a 6$000 réis a arroba e o que saía para a ilha de Moçambique poderia atingir os 7$000 réis.
Em 1902, o Governador dos Territórios da Companhia do Niassa Ernesto Jardim de Vilhena dava conta que, no Ibo, anexa à propriedade urbana, nomeadamente, nos quintais os moradores plantavam os seus cafezeiros.

Três anos depois, em 31 de Julho de 1905, Governador dos mesmos Territórios, João dos Santos Pires Viegas, escreveu algumas notas sobre o café, do seu distrito, enviado para a Exposição Colonial de Algodão, Borracha, Cacau e Café.(Abril a Maio de 1906), realizada, na sua sala Algarve, pela Sociedade de Geografia de Lisboa:

“O café dos Territórios da Companhia do Nyassa, geralmente conhecido por “café do Ibo”, tem qualidades de preferência muito superiores a muitas variedades das nossa colónias, mas quase sempre passa despercebido, atendendo à sua quase nula exportação, e esta devido ao nulo desenvolvimento que os filhos do Ibo e de Querimba, senhores de enormíssimos tratos de terreno no litoral, dão ao cultivo do cafezeiro.

Hoje o cafezeiro nasce, cresce, produz e morre, sem que alguém pense no amanho da terra, sem que o limpem ou cuidem renová-lo na época própria.

Não só não o cultivam, como não procuram tirar daqueles que existem e cuja maior parte espontaneamente surgiu da terra, convenientemente o seu produto.

Inteiramente verde, a formar-se ainda, o proprietário colhe-o sacudindo as árvores ou batendo os ramos com varas, seca-o, ligando pouca atenção às propriedades que ele poderia ter se a maturação se deixasse fazer e fosse completa, e isto para que o preto não o roube.

Ainda assim o café da ilha do Ibo é mais saboroso e superior em qualidade a outro qualquer dos Territórios, porque sendo fácil vigiar a propriedade, só é colhido na época própria e algum é seco e arrecadado segundo os preceitos aconselhados.

Nestas condições, em terreno próprio, entre altos coqueiros, que pouca sombra lhe dão ou entre acácias e macieiras bravas, que lhes roubam o espaço, os cafezeiros encontram-se em quase todas as circunscrições dos Território aquém do rio Lugenda.

O seu preço varia segundo as necessidades que o indígena tem de dinheiro; e assim não é difícil encontrar pretos pelas ruas do Ibo, na Quissanga e no litoral, a oferecerem-no à venda a 150 e 200 réis. O seu preço ordinário, porém, é de 300 réis o quilo, quando bem seco e limpo. O café da “Vista Alegre”, Ibo, o melhor talvez dos Territórios, tem sido vendido a 500 réis, em anos de colheita fraca.

A produção, em relação ao tratamento que o cafezeiro recebe, é grande, mas a sua aparência desagrada, pela pequenez do seu grão, comparada a outras qualidades; contudo o café é apreciado e apetecido pelo seu aroma delicioso e pelo seu sabor.

É afamado o “café do Ibo”, porém poucas pessoas o conhecem, além daquelas que têm permanecido ou passado pelos Territórios e pelo distrito de Moçambique, e ainda aquelas que no Reino têm relações nesta parte desta nossa África.

Nos Territórios da Companhia do Nyassa não tem consumo outro café.

Encontra-se café, em quantidade, não só em todo o litoral como nas margens do M´Salo, Naquidunga e Pequeue, no concelho de Mocimboa, nas encostas das serras Muare e M´chibala, serras que formam um garganta onde se acha estabelecida a sede do concelho do Medo, no Mualia.

Os Territórios da Companhia do Nyassa concorrem à exposição da Sociedade de Geografia de Lisboa com nove amostras de café:

- Quririmisi, Quiriamacoma, Olumbua, Ibo, do concelho do Ibo.
- Tandanhangue, Memba, do concelho de Quissanga.
- Naquidunga, do concelho de Mocimboa.”

Salienta ainda o dito Catálogo uma nova espécie de Café, o Coffea Ibo, de Frohner, assim caracterizado:


“ Dos cafés, além dos tipos Coffea Liberica e Coffea Arábica, especializaremos um espécie nova, o Coffea Ibo, de Frohner, apresentado pela Companhia do Nyassa, e que, pela pequenez do seu grão alongado, semelhante mais ao bago do trigo do que o do café ordinário. Cultivado com esmero, deve por certo produzir um produto que alcançará boa cotação no mercado, pelas suas qualidades aromáticas.”

Relativamente ao CAFÉ, a Companhia do Niassa foi distinguida com o Diploma de medalha de ouro.

O cafezeiro florido, de extrema beleza, também poderá, futuramente, constituir mais um factor de atracção turística a ter em consideração no desenvolvimento sócio-cultural de Cabo Delgado e de Moçambique.

Bibilografia: VASCONCELOS, Ernesto de, Exposição Colonial de Algodão, Borracha, Cacau e Café.(Abril a Maio de 1906), CATÁLOGO. Lisboa, Sociedade de Geografia de Lisboa, 1906, p. 104.

(1) - (colaborador do ForEver PEMBA) - Doutor em Ciências Sociais pelo ISCSP, Univ. Técnica de Lisboa. Antigo administrador colonial. Foi presidente da C. Municipal do Ibo, entre 1969 e 1972. Antropólogo e prof universitário, continua a ser um dedicado amigo das históricas Ilhas de Querimba, que continua a investigar de maneira sistemática e a divulgar as suas inquestionáveis belezas. Neste trabalho, de modo a evitar o plágio, tão usual no nosso tempo, apenas se indica um autor. Para os interessados, desde que o solicitem, poderei fornecer outros elementos bibliogáficos que lhe serviram de base.

  • Demais posts deste blogue onde se encontram trabalhos do Dr. Carlos Lopes Bento - aqui !
O AFAMADO CAFÉ DO IBO GANHA MEDALHA DE OURO EM LISBOA
Uma Pérola de Moçambique
O afamado Café da Ilha do Ibo ganha medalha de Ouro em Lisboa
Por Carlos Lopes Bento 
(Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler. Link para formato "pdf" http://www.youblisher.com/files/publications/12/69933/pdf.pdf)

11/22/10

PRECE

Volta Jesus Cristo!

Volta a este mundo de sacripantas,
De escárnio e mal dizer.
Volta a esta terra de vaidade,
De desamor e egoísmo,
Fria e vazia como um poço abandonado,
Repleta de Sanhedrins da corrupção
E de Zerahs gananciosos.

Volta Jesus Cristo!

Volta à medula das nossas misérias
Para curares as chagas da inveja,
Perdoar com a serenidade de quem ama,
Limpar todas as Jerusaléns do nosso tempo.
Volta depressa às nossas consciências,
Aquecer a indiferença que nos rói,
Gritar uma esperança para amanhã
- Para sempre -
Não morrermos sozinhos e tristes.

Volta Jesus Cristo!

Vem dar força aos Nicodemus sinceros,
Encorajar os Josés de Arimateia verdadeiros,
Julgar todos os Tibérios modernos
Desprezar todos os Pilatos covardes,
Apontar os Barrabás perdidos.

Volta Meu Senhor e Meu Profeta!

Vamos falar aos que morrem de ambição,
Pregar a doutrina que nos salvará,
Escorraçar os que comem na opulência,
Agasalhar as crianças que tremem de frio,
Sem carinho, abandonadas como destroços.

Volta Jesus Cristo!

Para devolveres às pessoas o riso da vida,
Amar os que nada têm,
Ensinar de novo o que todos esqueceram.
Volta para me enxugares os rios da tristeza,
Nas angústias dos fins de tarde
E me abraçares nas horas de desassossego.

Volta Mestre!

Vamos berrar contra a alegria falsa,
Contra o sorriso falso,
Contra a amizade falsa,
Contra os irmãos falsos,
Contra os políticos falsos,
Contra toda a falsidade.
Quero ir contigo entoar a nossa Fé,
Derrubar os déspotas com a nossa Cruz,
Correr do Poder os que mandam sem saber.

Volta Jesus Cristo!

Eu quero abraçar-Te!

- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

11/18/10

O QUARTO ALUGADO - IV

Enquanto a Mãe mudava a água da floreira para lhe colocar novos gladíolos e margaridas, encostou-se às grades que desenhavam o jazigo de granito velho por muitos anos à chuva, ao vento, ao sol, à lua e à morte. Era sempre assim: trazia à lembrança a fotografia do Pai, que tinha na mesinha de cabeceira, e imaginava-o deitado com as mãos cruzadas no peito, indefeso e injustiçado. Mas nunca chorava. Nem uma lágrima. Olhava à volta, e todo aquele silêncio de cruzes e lápides era uma fatalidade repartida. Não tinha referências do Pai, nem um minuto de vida lhe conhecera, era um filho póstumo. Benzeu-se, deixou a Mãe recolher-se, e divagou por entres as campas na procura de caras conhecidas. Estavam lá algumas que lhe despertavam a memória, gestos e frases que lhes ouvira nos seus tempos de menino acabado de nascer. Aquele lugar era o reverso (ou o anverso?) da alegria, um aviso de efemeridade, a segunda certeza de que se existiu, um silêncio-resposta do Além, de qualquer ponto longínquo.

- Vamos – pediu-lhe a Mãe numa voz sumida.

Regressaram a casa mudos, como se tivessem recebido o chamamento de uma Razão Implacável. Debaixo das janelas, o Álvaro, já meio entornado, apregoava um quilo de batatas no leilão de fundos para a festa da Senhora do Monte. O Artur, sem alegria na voz, telefonou a comunicar a chegada. A noite daquele domingo de Páscoa desceu como um lençol a amortalhar o mundo.

Dois ou três dias antes do fim das férias perdia o apetite, levantava-se tarde numa desforra antecipada dos dias em que teria de madrugar, vagueava pelos socalcos que cercavam a casa, não lhe apetecia falar e tornava-se nervoso. Até a Mãe, de rosto tenso, regressava a uma sisudez de viúva. Incomodava-o a solidão em que ela ficaria com a velha criada e as suas vestes negras a varrerem o sujo dos dias, as contas das folhas semanais dos trabalhadores, o peso duma herança e os sacrifícios para a manter, as idas à Capela e ao cemitério. A Aninhas - que já estava lá em casa quando ele nasceu, lhe limpara o rabo e lavara muitas fraldas –, acabada a limpeza da louça, tirava o lenço amarrotado do bolso do avental, assoava-se ou fungava, limpava os olhos, dava um «Ai...», e, antes de se ir deitar, dizia: «Menina, não vá esquecer o baú do Menino...» Eram os mantimentos para os primeiros dias em que a barriga lhe pedia um suplemento: bolinhos de bacalhau, presunto, salpicão, queijo, uma malga de marmelada, broa, chouriço, frango e carne assada embrulhados em papel prateado, um peso quase igual à mala da roupa, e que ele guardava como um Serra da Estrela, preocupado em não perder a chave do aloquete. Fazia a viagem no dia do início das aulas, que este era tempo perdido com apresentações, alguns professores, até, nem aparecendo. Nunca a Mãe se aborrecia com isso, porque, bem lá no fundo, tomara ela que ele ficasse.

Se o almoço daquele derradeiro domingo de férias teve a benção de um sol primaveril que agasalhava a sala com um conforto que mais lhe tolhia a vontade de partir, o jantar foi o velório de uma alegria morta. A Aninhas – sentava-se sempre à sua direita - acariciava-lhe a mão e perguntava-lhe se queria mais alguma coisa para levar. A Mãe não levantava os olhos do prato e comia como se engolisse um remédio. Era tal o entupimento que quase se arrependia de já não ir no comboio, mesmo de pé, espremido entre a intimidante algazarra da magalada e o cheiro a mijo da retrete que não tinha sossego com o corrupio das bexigas. Os toques dos talheres salientavam o silêncio; os cães ladravam aos passos trocados das bebedeiras, correndo ao fundo do quintal para os reencontrar; o tempo, cadenciado pelo tiquetaque do relógio da sala, parecia que passava mais depressa.

- Quando é que serão os teus exames? – perguntou a Mãe, desperta da letargia.

- Lá para meados de Junho – respondeu, aliviado por lhe quebrar os pensamentos.

- Vai correr tudo bem. Eu vou rezar a Nossa Senhora de Fátima – compôs a Aninhas com a sua velha doçura.

- Só tenho medo é do Alemão – aproveitou.

- Pensas fazer algumas orais? – fitando-o inquiridora.

- Tomara eu não precisar... – murmurou.

- Lá estarei, mas não vou ter coragem de assistir.

- Mas tenho eu... – atreveu-se Aninhas.

- Mulher... Tenha juízo... Quem ficava aqui? Fechava-se a casa, era? ... Cada uma...

- Aproveitava e ia ver a minha irmã que já não vejo há anos... - insistiu a velha criada.

- Nas férias grandes vamos lá os dois...- atenuou João, diante dos olhos aguados da Aninhas que lhe agarrou mais a mão.

- Levante a mesa! – ordenou, friamente, D. Carlota.

João conhecia aquele modo: quando dominada por uma preocupação falava com uma secura tal que até ofendia as pessoas. Era, afinal, o jeito de se defender da desconsolação que a ameaçava; o resultado de muitos anos a engolir emoções. Sentindo-se à beira de quebrar, ganhava uma dureza que nem se sabia se era uma genuinidade de carácter, um fingimento de auto-defesa ou o treino de muitas lutas interiores. A sua rispidez era uma confissão, não assumida, de fragilidade; só não sabia que a Mãe, à noite, na escuridão do quarto, depois de os olhos cansarem na leitura, chorava as lágrimas que escondia de dia. A sua mesinha de cabeceira estava repleta de livros – sobretudo biografias – e lia muitos ao mesmo tempo. «Se não lesse, já estava doida! Mas livros que não sejam tristes. Para tristeza já chega a vida!», dizia-lhe a cada passo.

Quando saíram da mesa, enquanto a Mãe lavava os dentes e a Aninhas a loiça, João veio ao terraço fumar um cigarro, sempre a olhar para não ser visto. Ainda não se atrevera a pedir-lhe autorização para fumar e desconfiava se algum dia o faria. Ela cheirava-lhe o fumo, mas fingia que não sabia; e nesse jogo de esconde se ficavam. Sentou-se na sala, em frente do televisor, nem se rindo com o Homem Invisível a dar murros a torto e a direito.

- Vê se estudas, meu filho, ouviste?

- Não se preocupe, minha Mãe.

Levantou-se, deu-lhe um beijo - sentiu-lhe os lábios trementes -, e subiu as escadas que davam para o seu quarto.

- Não te esqueças de fechar a televisão quanto te fores deitar - disse-lhe do cimo. – Dorme bem. João, pouco depois, desligou a televisão, foi à cozinha despedir-se da Aninhas, que já pendurava o avental, e meteu-se no quarto. Adormeceu com os cães a ladrar aos fantasmas da noite.

Mal transpôs os portões, perguntou pelo Artur. Também faltara no primeiro dia. Sentou-se na sua carteira e estranhou que a dele tivesse ficado vazia. Aguardou-o toda a manhã. Esteve quase, no intervalo do almoço, a meter-se a caminho da casa dele, mas, talvez, não lhe sobrasse tempo para a primeira aula da tarde. Não podia arriscar mais faltas, ainda por cima no terceiro período. Pensou em telefonar, mas enojava-o ter que pedir a chave do telefone ao Francisco, muito menos à Alzira. Era uma das coisas que o arreliava, uma desconfiança desprezível que suportava com pena deles. Quando a campainha do último tempo tocou, apressou-se no regresso ao quarto, acabou de arrumar umas roupas que deixara em cima da cama, fez que jantou, foi ao baú atirar-se à carne assada, antes que ficasse seca, e saiu. Subiu Santa Catarina e tomou um café aldrabado numa confeitaria de esquina. Chegado ao Marquês, virou para Latino Coelho com tempo de ouvir a algazarra das raparigas do Colégio da Paz. O andar do Artur ficava no fundo da rua, por cima de uma garagem. Admirou-se por ser a D. Dulce a abrir-lhe a porta.

- Entra, João! Entra! Sejas bem aparecido! – saudou-o, enquanto lhe dava um abraço que nunca mais acabava.

- O que se passa, D. Dulce? – perguntou, as pernas a tremelicar, quando lhe viu os olhos alagados. – É alguma coisa com o Artur?

- É - acenando, desalentadamente, que sim, limpando os óculos ao lenço. – Senta-te, senta-te.

- Mas, D. Dulce, por favor...

- Pronto, eu digo-te: o Artur foi para Paris! Já sabias?...

- EU?!

- Queres um café ou um chá? Eu vou beber um chá.

- Não quero nada. Está bem, um café, então, por favor.

Aturdido, João relembrou o fastio de Artur naqueles dias de férias, o seu desencanto aldeão, a despedida exagerada e triste, o seu telefonema de chegada em tom de adeus. Não despercebera esses pormenores, nunca, porém, os ligara a essa antiga fantasia.

- Queres com muito ou pouco açúcar? – perguntou-lhe, da cozinha, D. Dulce.

- Uma colher, por favor – respondeu. – Mas - prosseguiu João, enquanto ela punha o tabuleiro na mesinha de centro -, foi assim sem mais nem menos? Não deu razões nenhumas?

- Sabes que ele tinha, há muito tempo, aquela ideia encaixada. - Pousou a chávena na mesinha e, entrelaçando as mãos sobre o peito, recostou-se no sofá. – Que me dizes?...

- Nunca pensei que fosse a sério.

- Ele não te falava nos problemas cá de casa? Enfiou que eu o abandonara só porque conversava com aquele senhor que tu chegaste a ver...

- ...

- Julgava que eu ia casar ou tinha alguma coisa com ele. Quando ele veio de férias de tua casa, houve aqui uma discussão enorme. Ele trouxe-lhe uma lembrança de Cascais, um pisa papéis, mas, mal o recebeu, deitou-o ao chão e berrou que nunca quereria nada dele. Malcriado para aqui, malcriado para ali, olha, se não me meto no meio, batiam-se à minha frente. Quando eu estava no quarto de banho, ouço um restolho medonho e verifiquei que ele tinha batido no Artur. Não lhe perdoei, nem perdoo, abri-lhe a porta e, aqui, não entra mais.

- ...

- Ao outro dia, quando cheguei da mercearia, vejo que ele tinha uma mala à porta. - «Vou para França, não fico mais aqui!» - Assim, sem mais nem menos. Podes imaginar o que lhe pedi, o que me enervei, o que chorei. - «Já te disse, Mãe, podes ficar com ele, eu fico comigo!» - disse-me em lágrimas.

- Mas...

- Ele pensou que fosse tudo fingido. Convenceu-se que tinha feito aquilo só para lhe agradar, fazer de conta.

- Não lhe falou que, antes que o chamassem para a tropa, ele estaria longe?

- Mas eu cansei-me a repetir-lhe que, se fosse preciso, tenho conhecimentos que o livrariam de ir. Até falei em ti, que, também, te poderia dar uma ajuda.

- Obrigado D. Dulce, oxalá não precise.

- Conheço um General que não recusa um pedido meu. Não, João, ele já tinha aquela fisgada. Fez-se, durante alguns minutos, um silêncio embaraçoso. João olhava a televisão, sem som, transmitindo imagens de soldados na selva, um helicóptero a pousar, levantando poeira, e, depois, a erguer-se com uma maca colada à fuselagem.

- Posso ir ao quarto de banho? – pediu.

- Está à tua vontade – assentou D. Dulce, sem despegar os olhos do écran.

João parou, por instantes, diante do quarto de Artur. Tinha o arrumo das coisas não usadas: a colcha de flores vermelhas parecia a mortalha de um gavetão de cemitério e os livros, na estante, gritos encolhidos à espera de uma oportunidade para se soltarem. Veio-lhe, de repente, uma sensação de abandono, um sentimento de excluído, um frio (ou um calor?) de cobardia. Fechado na casa de banho, enquanto lavava as mãos, reparou que, na prateleira, por baixo do espelho, nada ficara dele, nem, sequer, a pedra pomos com que costumava cicatrizar o sangue das espinhas do pescoço, depois de fazer a barba. Ele fora-se sem lhe dizer nada, sem uma tentativa de incitamento para o seguir, uma partilha de segredo, “grande sacana, não confiou em mim!”.

- D. Dulce, não sabe se o Artur foi sozinho ou com alguém? Quando é que ele foi, afinal? – sentando-se, novamente, no sofá.

- Cheguei a ouvir um telefonema para um tipo qualquer. Acho que relacionado com essa coisa da Aliance Francaise. Disse que me escreveria mal chegasse. Sinceramente, não sei o que aquele rapaz vai fazer...

- E quando foi? – insistiu João.

- Na sexta-feira passada.

- A Senhora pode não acreditar, mas ele não me disse nada, nem uma palavra, acredite.

- Claro que acredito. Diz-me uma coisa – virando-se para ele e fitando-o seriamente -, tu concordas com o que ele fez? Mas sê-me franco!

Ficou sem saber o que responder, encolheu os ombros no estilo «que hei-de eu dizer?!...», recostou-se e olhou para o tecto. Era a única pergunta que não esperava.

- Deixa-me fumar um cigarro? – atreveu-se já a remexer no maço de Porto.

- Aquele meu filho...- chegando-lhe o cinzeiro amarelado de nicotina. - Não me respondeste...

- Não, D. Dulce, agora não ia.

- ...

- Primeiro acabava o Liceu. Como é que ele vai fazer o sétimo ano? Ainda há os adiamentos que se podem pedir na Faculdade, não é?

- Eu disse-lhe o mesmo: «Vais deixar o Liceu por três meses, nem chega! É uma estupidez!» Sabes o que me respondeu? «A libertação não tem horas!» Aquele meu filho... Quando souberem que ele foi lá para fora como vai ser? Até tenho vergonha de lhe ir anular a inscrição! Que me vão dizer eles?! E o que lhes digo eu?!

Mesmo com a janela meia aberta, estava abafado. Ou era ele que abafava. Teve vontade de se ir embora, confundir-se na neblina nocturna, misturar-se com as pessoas e o barulho dos carros, caminhar sem ter ninguém com quem falar ou, simplesmente, deitar-se.

- D. Dulce, quando o Artur lhe escrever, diga-me, se fizer o favor. Ele tinha aí o telefone da casa onde estou, de qualquer modo vou-lho deixar.

- Como me passou!... Quero o telefone da tua Mãe para lhe agradecer o ter aturado o Artur...

- Não faça isso, por amor de Deus... Até foi bom, não a aborreci tanto...

- Peço-te... Escuso de andar por aí atrás dos papeis dele ou telefonar para as Informações. Além do mais, quero convidá-la para, se alguma vez vier ao Porto, ficar aqui. É da maneira que falamos. Por favor, João...

Deu-lhe, também, o telefone da aldeia, levantou-se, vestiu o casaco, voltou a sentir a ausência do Amigo, beijou D. Dulce que o puxou para si num novo abraço de emoção, prometeu – carregando no botão do elevador - vir mais vezes visitá-la e desceu. Estava quase a chegar ao rés-do-chão, ouviu-a, no cimo, a gritar pelo seu nome. Deixou parar aquele e voltou a subir.

- Desculpa – estendendo-lhe um envelope -, o Artur deixou-me esta carta para ti. Com a conversa já me esquecia de ta dar. Dá cá mais um beijo e não me digas nada do que ele te diz aí, está bem?

- Sim D. Dulce – enfiando o envelope no bolso, com o peito a latejar. Afinal o grande sacana não se esquecera dele...

O choque com a humidade da noite arrepiou-o Estava cansado, parecia que levara um enxerto de porrada, tinha fome. Pensou ir pela Constituição, virar em S. Brás, voltar por João Pedro Ribeiro e descer Santa Catarina. Contudo, contornou a praça, passou pelo Asilo do Terço, sorriu aos chistes das prostitutas que, encostadas às portas das pensões ou sob a luz dos candeeiros, de saias apertadas e traseiros salientes, o convidavam para se estrearem, entrou no Coutinho e pediu meia torrada e meia de leite. Da mesa, encostada à montra, podia ver os carros a pararem, os condutores descerem os vidros, combinarem o preço, abrirem as portas e arrancarem. Outros, vinham, pé ante pé, chapéus sobre os olhos, em jeito de Edie Constantine, e entravam nas hospedarias de lâmpadas mortiças depois de lançarem um olhar esquivo às imediações. Enquanto mastigava a derradeira fatia – era sempre a do meio que melhor lhe sabia -, pensou se abriria já a carta ou a leria, calmamente, no quarto. Não tinha pressa, como se desejasse prolongar a expectativa, aquele prazer hesitante que se saboreia até ao limite da curiosidade. Optou pela segunda hipótese. Foi descendo, sem pressa. Deu-lhe para olhar o relógio. Já passava da meia noite. Devia ter estado, seguramente, mais de duas horas a falar com a Mãe do Artur. Condoera-se, mas pensou que, se fosse a sua, não o deixaria partir, nem que se estendesse no seu caminho. Ser-lhe-ia difícil uma atitude igual. Sonhava partir, um dia, isso sonhava, para onde se pudesse alargar, conhecer outros pensares, visitar os ícones da Literatura, aquelas referências históricas que a leitura lhe avivava. Mas fálo-ia sem ser espicaçado. Abandonar, assim, a Mãe, seria um remorso de que nunca se limparia. “Dá-me a impressão que até o Diabo me fazia uma espera... Que raio de ideia a deste gajo...E numa altura destas, com o Liceu na recta final... Teria sido aliciado?... Hum... Se fosse, mesmo que não pudesse, dizia-mo “, pensava João, Santa Catarina abaixo, colado aos prédios. Na esquina do Automóvel Clube de Portugal, cheia de carros de luxo, meia dúzia de caras ricas conversavam por entre gargalhadas que a madrugada estendia.

Quando abriu a porta da casa, ouviu a tosse do velho. Devia ser a dizer-lhe que, por causa dele, acordara. “Grande cabrão, se fosses mas é ver com quem é que a puta da tua mulher te anda a pôr os cornos!“, mastigou. Pôs a almofada atrás da cabeça e leu a carta.

""João, meu Amigo:

Tenho a certeza de que, quando deres pela minha falta às aulas, virás falar com a minha Mãe. Pedir-lhe-ei, antes de partir, para te entregar esta carta. Não me despeço pessoalmente porque sei que não concordas com a minha decisão. Poupamo-nos os dois: tu de falares, eu de te ouvir... Aconteça o que acontecer serás sempre o meu melhor Amigo. Escrever-te-ei todas as vezes que puder e vou ter muitas saudades tuas. Acredita.

Parto com o Monteiro, aquele tipo de que te falei, a quem a puta da Pide matou o Pai, naquela maldita casa da Rua do Heroísmo, sabes?, e mais um tipo que ele me apresentou. Em San Sebastian há quem nos oriente até Paris.

Não tenho culpa de ter nascido aqui, neste rectângulo dominado por um jardineiro odioso que corta os rebentos e só deixa medrar as ervas. Não foi (minha Mãe vai, naturalmente, falar-te disso) a zanga com o seu querido (apesar de o ter corrido, vai voltar a chamá-lo, vais ver) que me impeliu. A marca vai ficar com ele e não comigo. Decidi-me em tua casa, nos dias que lá passei. O fatalismo e a soturnidade daquelas pessoas é ultrajante e mortal. Antes de enterrados já estão mortos. Vivemos numa terra em que o sol nasce sem uma esperança – uma mínima esperança, João - de um dia sermos diferentes e diversos nas opiniões, nos risos e nas lágrimas; livres, sem bufos nem vigias, com a certeza de que é melhor perdermo-nos na liberdade do que enfileirarmos na escravatura. Disseste-me, um dia – se calhar já nem te lembras -, que o futuro pertence àqueles que içam as velas. Lá vou eu, então, manobrando-as ao sabor dos ventos e das marés. Não sei se me afogarei, só sei que o prefiro a continuar à tona deste lago de podridão. Pode-te parecer precipitado sair, assim, com os exames à porta, mas há momentos em que tem de se arriscar tudo, mesmo à proximidade de um fim, hipoteticamente feliz que seja. Chama-me doido varrido, o que quiseres... Apesar desta Pátria não ter uma centelha de sobressalto, ser uma permanente escuridão, os seus olhos lampadários fúnebres e as suas bocas acentos de amargura, não sei se vou ficar muito ou pouco tempo sem a lembrar. Pode ser que isto mude e já não valha a pena estar longe; pode ser que a guerra do Ultramar acabe e já não tenhamos os pescoços no cadafalso. Mas não é apenas a recusa da guerra, a dúvida de morrer imolado na teimosia de um ditador de falsete que me leva a partir. Mais do que isso: é uma desilusão de sociedade encarcerada e, por isso, desconfiada, servil e bronca, que aceita tudo como se a vida fosse uma desgraça fatal. Não quero ser como esta gente e, antes que se me apegue o mesmo mal, vou aprender a falar sem medo. Afinal não é o Mundo só um e as fronteiras a sua aberração?

Oxalá entres na Faculdade e a guerra acabe antes de te chamarem! Desejo-te todas as felicidades!

Dá cá um abraço! Faz força comigo!
Artur""

João, durante longos minutos, ficou de olhos especados na parede em frente da cama. Antes de se deitar achou o quarto mais inóspito, velho e gélido qual uma sala de Notário; os livros, em cima da pequena secretária, pareceram-lhe Códigos de leis injustas. Até o sono chegar, imaginou o Amigo aos saltos nos boulevards parisienses.
- Conto de M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

Moçambique - HISTÓRIA - TEMPLOS E ESPAÇOS SAGRADOS DAS ILHAS DE QUERIMBA. 1ª Parte

TEMPLOS E ESPAÇOS SAGRADOS DAS ILHAS DE QUERIMBA. 1ª Parte
TEMPLOS E ESPAÇOS SAGRADOS DAS ILHAS DE QUERIMBA. 1ª Parte
Por Carlos Lopes Bento
(Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler. Link para formato "pdf" http://www.youblisher.com/files/publications/12/69933/pdf.pdf)

11/17/10

O QUARTO ALUGADO - III

Continuação daqui.
A Senhora do Monte ficava no fim do povo, na garganta de uns socalcos e no meio de um adro definido por um muro circular de pedras sobradas de antigos saibramentos. Ali descansavam as mulheres, pousando as bacias por momentos, depois de barrelarem a roupa nas margens do rio, ou os trabalhadores das vinhas que,
nas idas e vindas das quintas, por lá encurtavam caminho. Era a devoção de D. Carlota, o motivo para exercitar as pernas, mudar a água das flores, reacender pavios, repetir preces. Zeladora por Fé e por gosto, o asseio da pequenina ermida distraía-a da rotina, das amofinações do granjeio das poucas cepas herdadas e das preocupações de um filho único de um casamento relâmpago que nem dera oportunidade para uma zanga. Pelo caminho, saudavam, num cerimonial de velhos costumes, quem encontravam. As mulheres, assim que, pelos postigos, confirmavam os passantes, vinham, com os filhos às pernas, cumprimentar numa afabilidade que só a província tem. Contabilizavam doenças e melhoras, perguntavam pelos estudos do menino e quem era a visita, ofereciam préstimos e desabafavam saudades emigrantes.

- É incrível como nos sítios mais esquisitos se vêem reclames destes – anotou Artur, parando.

- Que reclame? – perguntou João, olhando para todos os lados.

- Ali – respondeu Artur, apontando para a parede de uma casa. - Não vês? - Adubai com Nitrato do Chile, único natural.

- E é bem bom... Como fertilizante não há melhor...– ajuntou D. Carlota.

- Mas isso há em qualquer curva ou canto! É como o Licor Beirão ou a Sandeman... – reinou João.

- E a guerra que isso deu!... – atirou ela.

- Guerra?... – espantaram-se, quase a par.

- Entre o Chile e os países vizinhos... É que antes de ser adubo serviu para fabricar explosivos...Chamavam-lhe o ouro branco...

- As coisas que a minha Mãe sabe...- ironizou João, lançando-lhe um sorriso divertido.

A capelinha tinha o encanto de relíquia e uma simplicidade amparada: dois bancos corridos, um de cada lado; um genuflexório com uma almofada já descarnada; quatro jarras de flores, duas aos lados da Senhora do Monte, que desfrutava o altar, e outras tantas para uma Senhora de Fátima, num suporte à parte, junto ao pequeno janelo lateral, coadouro tímido da luz do dia. Enquanto a Mãe rezava e o amigo se entretinha a estudar um carreiro de formigas, subiu a uma figueira e regalou-se na lonjura dos cerros pintados de sulfato, mudo num êxtase, tamanho o embevecimento. João, nestas alturas, sufragava as suas memórias, algumas suspensas nas paredes da sua casa, emolduradas num bafo de morte antes da hora justa. Sentia-se partido ao meio como se um dique lhe tivesse impedido o curso natural da vida. Não era como o Artur que cortara as raízes, mas, antes, uma dúvida perspectivada, em que teria de escolher entre o chão do vagido inicial e a aventura de um poiso distante. A aldeia natal assemelhava-a a um espelho da sua imagem ferida, num estatuto espartilhado pelas analogias da normalidade dos outros com a sua evolução, em que detestava as fautorias, quais piedades a adoçarem uma imperfeição que lhe tivesse anatemizado o berço. “Esta terra densa, esta leveza de ar, esta abóbada sideral são as minhas referências. Dizem-me que sou daqui, mas não sei se aqui vou morrer...”. Enquanto assim pensava, vinham dos montes ecos de fainas, cantos de aves e brisas de verdura. Gostava da cidade, aquela vantagem de ter tudo à mão, o viver sem vigias de comportamentos, despercebido, mais um no meio daquela gente toda, lugares onde aprendia que os horizontes se estendem mundo fora, mesmo que não saiamos da nossa coxia. “Mas nisto me justifico, como se entre mim, as coisas e as pessoas houvesse uma comunhão sanguínea, nascida desta seiva e deste húmus. Será a voz do meu Pai a chamar-me ao seu conhecimento, como se longe do túmulo o pudesse esquecer? Ou a presença da minha Mãe que, suspensa de um receio, pede à Senhora do Monte para que o destino não lhe leve o filho, ao menos o filho? “.

- Nunca esmagaste uma formiga?... – perguntou, debaixo, Artur, tirando-o do sério. - Não sei quem disse que matar uma formiga era destruir um bom exemplo. Já viste a disciplina e a paciência delas?...

- Igual à tua...

Ouviu-se um rodar de chave. Ao saltar, João tropeçou e caiu de joelhos.

- Estás habituado aos passeios das ruas do Porto...

- Como tu – enquanto, com as mãos, limpava as calças.

- Deixa lá, isso sai com a escova...- resolveu D. Carlota.

- Já rezou tudo, Mãe?... – abraçando-a com carinho.

- Rezei por vós... Para Nossa Senhora vos ajudar nos exames... No próximo ano tendes que estar na Universidade... O Artur também escolheu Direito?...

- Para não desfazer...

- Lá ides para Coimbra... Depois é que é preciso ter juízo... Lembras-te – virando-se para João - do filho do Pessegueiro? No Liceu foi sempre um aluno excelente, depois de ir para Coimbra não passou do primeiro ano...Queria ser médico, está num Banco em Lamego.

- E acha mau?...

- Foi um desgosto para aqueles Pais...

- Nem toda a gente pode ser doutor...Quem trabalhava as vinhas e pisava as uvas?...

- Querias ser tu a fazer isso?...

- Se não fosse filho da D. Carlota, que remédio... – subtilizou, perante a risada geral.

- O pior - interrompeu Artur com uma indisfarçável inquietação - é a guerra do Ultramar... Se não nos pomos a pau, vamos para lá como cordeiros...

- Não podeis perder nenhum ano e quando chegar a vossa vez já o Salazar resolveu a guerra. Tenho essa esperança - acrescentou ela com uma certeza tão genuína que nem dava hipótese de a rebater.

- O Salazar – balbuciou Artur – não resolve nada D. Carlota. Só complica... Os ditadores – prosseguiu, quase a medo, não sabendo que reacção encontraria – não têm esperança, nem lutam por ela.

Ela deitou-lhe um olhar de incómodo e João encolheu uma concordância. Ouviu-se, na correnteza da tarde, um estrépito de cavalgadura, e só quando já estava junto deles é que repararam - encostando-se ao muros do caminho - no Zé do Alto em cima do macho. Puxando a rédea, arriscou, em desequilíbrio, tirar a boina para os cumprimentar, mas, o animal não lhe deu azo e desapareceu, saltitante, qual Sancho Pança em busca do rasto de D. Quixote.

Andavam numa fona a acompanhar D. Carlota ao Grémio ou à Feira a mercar os comestíveis, metê-los a custo no velho corcunda alemão que ela conduzia, fincada no volante, qual náufrago agarrado à bóia salvadora, apitando – sob a troça alegre do filho e o riso desajeitado do Artur - em todas as curvas, mesmo nas descobertas; enrijavam os rabos nas carreiras de Lamego, vagueando pelo Parque dos Remédios, descendo a escadaria na mira dos joelhos das meninas; subiam os mortórios de tojo e de silvas à procura de ninhos de perdiz ou os morouços armados em furões. Quando chegava a noite, e no velho Schaub-Lorenz acabava o Café Concerto ou os hossanas de Dutra Faria, a casa assentava num pasmo. Punham-se, ainda, a conversar no quarto do João, que tinha as paredes forradas com fotos do Papa João XXI, dos Beatles, dos Shadows e da Sofia Loren, até se deitarem com projectos de novos passeios. Artur demorava a adormecer. Ouvia bater as horas no relógio da sala - metrónomo de tântalo -, seguidas de uma paz conventual que, em vez de lhe apressar a indolência, o espevitava. Faltava-lhe o ronronar dos eléctricos, as vozes dos noctívagos, a repetição dos carros. Inquietava-se com o miar de um gato, o ladrar de um cão, o estalido da madeira de algum móvel ou do soalho, até o deslizar de uma folha no abandono do quintal. “Como é que este tipo aguenta quinze dias nesta pasmaceira, sem um Cinema ou Café perto, sem carta para dar uma volta? Uma terra sem luz, a beberem água do poço, a Mãe e a velha da Aninhas a deitarem-se com as galinhas e a levantarem-se com o galo...”. Mas o seu caso é que era sempre chamado ao insono. Mortificava-o como se devesse alguma coisa a alguém e não arranjasse maneira de lha pagar. Onde estaria, agora, a Mãe? Dormiriam juntos? Lembrar-se-ia dele? Desde o telefonema da chegada nunca mais lhe ligara. Devia andar a ver os Museus com aquele emplastro atrás dele, um reformado camarário mal amanhado, a olhar para as telas como um bói para um palácio.

Pensava no Pai. Com o quinto ano feito arranjara um emprego no Cadastro da Casa do Douro e, quando herdou, deixou tudo para fazer da lavoura a sua profissão. Andava com os homens e com as mulheres, sempre à frente, nada lhe escapava, era proprietário e feitor, fazia a poda toda com a ajuda do Belchior, companheiro de Escola; na cava e na redra arredondava com a sachola as covas das cepas, colava um pulverizador às costas e só não acartava cestos na vindima porque aqueles anos debruçados na secretária tinham-lhe entortado a coluna. Nem aos domingos parava. Depois da Missa, lá ia ele dar uma volta pelas vinhas - como se respigasse qualquer falha - na espreita de um bardo com a espampa mal feita ou do susto de algum sinal de míldio. À mesa prognosticava a novidade e desancava no Comissário que lhe fizera a carregação do ano anterior e não cumpria com os pagamentos. Nunca, porém, lhe escutaram um arrependimento de escolha; dizia à Mulher que antes queria aquela vida do que a de estar todo o dia a ensinar a tabuada à canalha.

O Pai morreu quando ele brincava no quintal e um reboliço de aflição trovejou pela casa. A Mãe desatou numa gritaria, foram ao lagar buscar um tabuleiro e trouxeram-no lá estendido. Ainda o levaram, no carro do Faísca, ao hospital da Régua, um velho palacete no cimo do Peso, onde só tiveram tempo para a certidão de
óbito. Recordava-se muito bem que ficara quieto, sem saber onde estava e o que fazer, fora do tempo, como se aquilo não fosse com ele, uma vertigem de incompreensão a interrogá-lo. Mas quando a Mãe, desfeita em lágrimas, o esmagou contra o peito como se se agarrasse a uma salvação, sentiu-se tolhido. Só chorou a seguir ao funeral, ao andar pela casa, a sentir o vazio do Pai, a falta do seu cheiro, dos seus passos e da sua fala. Ao princípio, quando o viram cair, julgaram que tivesse escorregado no calço, mas, depois, como não se levantava, aninhado qual inocente atingido por um tiro à falsa fé, a não responder aos chamados, benzeram-se, e o Belchior voou por cima das silvas e das pedras até abrir o portão e gritar a infelicidade. Nunca esquecera essa data. A sua existência ficara marcada por siglas: AP e DP, Antes do Pai e Depois do Pai. A primeira era fagueira e indomável como as histórias do Cavaleiro Andante; a segunda, escura como o País em que vivia. Detestava a negritude das mulheres aldeãs e os seus olhos de servidão; os modos fatalistas e as côdeas de suor dos homens que, aos domingos, se emborrachavam nas tabernas, recuperavam rixas antigas ou inventam novas, anavalhando-se sanguinariamente. Viviam de dia como se fosse noite e dormiam à noite como se morressem. Não fazia do local de nascimento uma canga domiciliária, longe dos mundos que se sonham. Nasce-se onde as Mães estão, e fora bendita a hora de a sua ter decidido vender a herança. Não morreria como um coelho no meio de um bardo, nem seria escravo de leiras, cujo sumo era chantagiado, todos os anos, por seculares jugos estrangeiros. Não trabalharia para implorar preços, ser pago pela arbitrariedade e aturar as perseguições de mandatários de pretensos exemplares da seriedade. Não pactuaria com os donos das unhas envernizadas ou entronizados com trajes de seda que, em cadeiras de couro, brincavam com quem todos os dias bufava nas terras na procura de um sustento qual ruminante espicaçado. Não viveria para o faz-de-conta, era novo, mas, já sabedor que a honestidade não enriquece e que os que trabalham sustentam a fauna dos parasitas e dos invejosos. Partira sem um remorso da terra que lhe roubara o Pai, partiria sem uma saudade do País que lhe tolhia a esperança, ao menos a esperança. Conversaria francamente com a Mãe, dir-lhe-ia que precisava de realizar a sua revolta; ao fim e ao cabo, ela, também, resolvera sair; libertava-a, assim, para, na sua ausência, deliberar o seu futuro. Aproveitaria os amigos da Aliance Française, saberia, antes que fosse tarde, se o destino está escrito nas palmas das mãos ou na vontade de cada um. Chegara a vez de procurar o Monteiro que tanto lhe sereiava os ouvidos desde que o Pai se acabara na sinistra casa da rua do Heroísmo - com cemitério ao lado e tudo –, maldito lugar para onde iam os perseguidos perante a indiferença de uma cidade acobardada. Iriam mundo fora, pelas estradas do atrevimento, com a fome na barriga e a fartura no coração, numa viagem sem mapa, de bolsos rateados, olhos abertos ao vento da tolerância. Não o mandariam para África matar ou morrer, mesmo que apodrecesse no não regresso. Nunca obedeceria à comandita de fatos e chapéus pretos, feios e cínicos, caras de cangalheiros e discursos póstumos, governando, pelo chicote, um povo analfabeto. Nada perderia porque não tinha por onde escolher.

Acordou sobressaltado pelos estoirar de foguetes e o retinir de uma sineta. Parecia-lhe cedo, quase de madrugada, ter dormido só uns instantes, a casa varrida por um motim de passos e vozes de pressas. João, a esfregar os olhos, veio chamá-lo para que se arranjasse.

- Despacha-te! Vem aí o Senhor! – esbaforiu.

Olhou o relógio: passava pouco das oito. Que raio de horas! No tempo da sua aldeia o compasso vinha de tarde, barrigas cheias e sonos ajustados. Pelos vistos, a casa da D. Carlota era das primeiras a ser visitada. Foi, para não armar desfeita, mal penteado, como quando acordava, de salto, para as aulas. Nunca ligara muito àquelas coisas. Dava-lhe sempre a impressão do cumprimento de um ritual para a sociedade ver, mais cerimónia que devoção. A Mãe sim, e o Pai, então, era rigoroso no costume, deitava uma nota de cem escudos no saco, oferecia bolachas e vinho fino ao Padre e aos acompanhantes, alguns já meio compostos nos rostos vermelhos do esforço e do álcool. Beijava sempre a cruz fora do corpo de Cristo, imaginando as
bocas lá passadas, e ficava-lhe uma espécie de remorso por não sentir o calor da Fé. Não tinha, nisso, qualquer presunção, antes um descontentamento por não ser como os outros, como os Pais, que praticavam uma religiosidade que até lhe parecia uma ofensa não os imitar. Gostaria de aceitar a doutrina, interiorizá-la num alimento invisível, um apoio sem o qual não fosse feliz. «Quando tiveres a minha idade, vais pensar de outra forma!», dizia-lhe o Pai, ao notar-lhe as reservas. Não se importava nada de o ter ali para continuar ou alterar as suas hesitações.

Durante o almoço, Artur, esforçando-se por ser natural, disse que seguiria para o Porto no comboio da tarde.

- Mas por que não vão os dois juntos para a semana? - interrogou, surpreendida, D. Carlota. – Como vieram, assim devem ir, não achas filho?

Olhou de lado para o amigo, enquanto chupava um bocado da cabeça cozida do cabrito, e não disse nada.

- Tenho que fazer umas coisas no Porto, a minha Mãe também deve estranhar eu ficar aqui este tempo todo, e acho que não devo abusar...

João, aqui, com a boca cheia de esparregado, mimo que a Aninhas, sabendo da sua perdição, lhe fazia sempre, disse por palavras meio entarameladas:

- Se não estivesse diante da minha Mãe e à mesa, respondia - te à letra...

- A sério......

- Bom...Bom...O Artur é que sabe... – compôs ela.

- Então vê se comes, que no comboio não há disto... – respondeu-lhe João, sem lhe esconder um sorriso céptico que Artur afastou, desviando o olhar.

Acabado o almoço, foram até ao quintal fumar um cigarro às escondidas de D.Carlota. Ao longe, ouvia-se a sineta da Páscoa e via-se à entrada das portas das casas, no caminho que levava à Senhora do Monte, restos de giestas e maias pisadas. Pelo vale ecoavam morteiros e os fumos suspendiam-se no céu como asas de anjos.

- Artur, que se passa contigo?... – perguntou, estranho, João.

- Não se passa nada... O problema é que não se passa nada... Estou cheio desta pasmaceira, pá. Isto é mesmo o cabo do mundo... Falta-me o bulício do Porto, sair à rua e saltar para um eléctrico em andamento, as boazonas de Santa Catarina, ir a um cinema. Porra!, tu gostas disto?...

- O que mais gosto aqui é deste ar. Ouvimos os passarinhos sem andar a procurá-los no Jardim do Passeio Alegre ou nos baldios das traseiras dos prédios...

- Também tens passarinhos da Ribeira...

- Pronto, está bem... A minha Mãe leva-nos ao Pinhão e lá nos encontraremos no Porto. É verdade, lembrei-me agora, acabaste por não ir ao cemitério da tua parvalheira ver o teu Pai.

- Fica para a próxima. Ele sabe que o vejo todos os dias. Não acontece o mesmo contigo?...

- É que tu tinhas falado; só por isso...

- Lá irei um dia...

- Tu é que sabes.

Chegaram à Estação em cima da hora: uma confusão de fardas, garrafões, malas e embrulhos disputados pelos bagageiros, pregões das rebuçadeiras e garrafas de cerveja vazias espalhadas pelo balcão do Bar, algumas até no chão.

- Minha senhora, nunca esquecerei as sua atenções. Desculpe qualquer coisinha...- disse Artur, no meio do alarido, depois de comprar o bilhete, estreitando, demoradamente, o amigo num abraço, fixando-o como se lhe quisesse dizer alguma coisa.

- Desculpar o quê? Tem cada uma... Quando lhe apetecer venha com o meu filho, que será muito bem recebido – alegrou-o, beijando-lhe as faces.

Quando o comboio partiu, assomou à janela um sorriso triste e os seus acenos desapareceram com a última carruagem. “ Esquisito... Este gajo nunca me deu um abraço assim...”, monologava João, abrindo a porta do carro e sentando-se.

- Tenho umas flores na mala e queria pô-las no teu Pai. Vais comigo, não vais? – perguntou-lhe a Mãe antes de ligar a ignição.

- Por amor de Deus, minha Mãe...Eu também tenho que ir lá - respondeu-lhe, pensando, ainda, naquela despedida que lhe pareceu de uma pieguice quase ridícula, ainda para mais num tipo como o Artur que nem era nada dado a sentimentalismos.

Enquanto a Mãe guiava de olhos esbugalhados como se quisesse ver para lá das curvas, ele reflectia o pensamento na toalha esverdeada do Douro. Não gostava dos domingos. Eram dias bocejados, de uma inutilidade a envolver as pessoas e as coisas. Davam-se passeios tristes para justificar o dia, passear os fatos e as gravatas, mostrar a ponte e o rio às crianças lambuzadas com cremes e bolos, calar as patroas que se perfumavam para apagar os cheiros das galinhas e dos assados.

- Estás triste... – disse-lhe a Mãe, sem descravar os olhos da estrada.

- As férias passam tão depressa... – contrapôs desalentado.

- O teu amigo não me pareceu muito satisfeito...

- É um bocado estranho... Se calhar é por isso que me dou com ele...

- Mas olha que temos de procurar quem nos dê alegria...

- São tão chatos os domingos, não acha, Mãe?

- Li, já não sei onde, que os domingos são o funeral semanal do mundo...

- Nem tanto, Mãe... Essa é da Senhora...

- Olha que li isso em qualquer livro. São das tais frases que nos ficam ou porque se encaixam em nós ou porque já as pensámos em qualquer altura...

- Cuidado!... Vá com cuidado, Mãe...

- Eu vou na minha mão, valha-me Deus...

- Mas há quem não vá... A propósito, lembrei-me agora, eu podia tirar a carta... Dava-lhe jeito a si e a mim...

- Mas ainda não fizeste vinte anos...

- Mas, aos dezoito, dava-me a emancipação e já podia...

- Quando entrares para a Faculdade, vamos pensar nisso...

- É o prémio?...

D. Carlota calou-se, fingindo uma redobrada atenção e apitando a despropósito.

- Mãe... Não me respondeu...

- Está bem, meu filho, é o prémio...

Sorriu e pareceu-lhe que já era segunda-feira... Atravessaram a aldeia, acenando aos cumprimentos dos que, encostados ao muro da estrada, faziam um intervalo para os quartilhos da taberna, até pararem no pequeno largo diante do portão do cemitério.
Continua...

- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.