terça-feira, 5 de abril de 2005

Moçambique - Cabo Delgado - anos cinquenta...


Transferindo "post" do ForEver Pemba 3:

Vamos a Palma... - Glória de Sant'Anna

Vamos. Vamos rodando mais para o norte no que se considera o melhor carro para solavancos - o pequeno e útil 'carocha'.
É tempo seco. O perigo do matope não existe. Há sim a paisagem intensa de verdes e de água plana apenas mormurante do rio com nenúfares lilazes. E os pássaros gritadores colorindo de riscos de fulgor o largo espaço aberto.
A baixa do M'salo preocupa-me porque é uma enorme extensão percorrida por caça grossa que ali vem beber ao pôr do sol, desafiando os olhos sornas dos grandes crocodilos.
Mas o pôr do sol vem muito longe ainda.
(É hora dos animais beberem. Ninguém sai de casa. - digo eu algumas vezes às crianças.)
Pára-se para o batelão puxado por cordas. Sai-se. Há uma grandiosidade de princípio do mundo no silêncio de mil olhos escondidos.
Algo me identifica com o sangue vegetal vibrante e vivo.
Já alguém reparou que nos troncos rugosos há uma aura suave de calor?
"Disseste alguma coisa?"
"Não. Não disse."
Está passado o M'salo e os rastos dos animais nas margens.
São ravinas, agora. Terreno onde a luz chispa vagamente, e que os antílopes eoutros, vêm lamber porque é área de sal e gema. Uma vez por outra juntam-se em manadas e saciam-se.
Terra de macondes. Os artistas guerreiros cujas mulheres faladoras e descontraídas de repente me sorriem. E algumas aconchegando-se, apalpam o pano do meu vestido para ver como é. E conversam. E riem.
Nas mais novas o disco de pau preto ainda pequeno inserido no lábio superior, dá-lhes uma expressão de amuo.
(Foi em Pemba que vi o primeiro maconde. Novo, alto, de rosto tatuado e sorriso largo aberto sobre os dentes em serrilha.
Olhou os quadros dos pintores brancos postos nas paredes, com uma seriedade curiosa.
Aliás ele tinha sido convidado a ver outra forma de arte. E frente a um óleo estendeu a mão e percorreu a textura. Um dedo cauteloso e atento.
Ele, como eu, ouviu a explicação breve do dono da casa sobre técnicas e formas e materiais usados pelos artistas em concepções de estética.
Dias depois voltou sempre com aquela maneira de sorrir, trazendo a mulher tão nova como ele, bonita e de rosto liso.
E como marco de um ínicio de amizade, ofereceu um pequeno jacaré de marfim que esculpira na missão cristã onde estudou.)
Em casa do chefe de posto somos convidados a comer e a ficar. (Este hábito africano de portas abertas para a hospitalidade).
A dona da casa tem olhos verdes e cabelo preto encaracolado. Nasceu-lhe há pouco o primeiro filho.
"Palma é a solidão, é o extremo de tudo. Estou cansada. Tão cansada que nem pode supôr" - diz ela que na manhã seguinte na praia de areia muito fina, me adverte num sobressalto nervoso:
"Nunca se sente debaixo de um coqueiro! Um côco maduro cai sozinho!"
Há risadas espontâneas.
Quantos anos passaram já desde que os palmares são meus conhecidos? A sombra das longas folhas, a casca fibrosa do fruto melhor do que uma escova para dar brilho ao chão, a magnífica e fresca 'água do lenho' - bebida do côco verde.
A conversa incide sobre assuntos diversos: o decorrer dos dias; contentamentos; e descontetamentos, que não levarão muito tempo a surgir à tona da estrutura social.
Um cipaio aproxima-se dizendo que andam elefantes por perto.
"Vamos afugentá-los para não destruirem as culturas", diz o chefe de posto. "Alguém quer vir?"
Eu deixo-me ficar com Elsa sempre queixosa, mas que tem um bom senso de humor.
Continuo na tranquilidade da praia fresca de sabor salgado em terra de macondes, de entre os quais poucos anos depois e em tempo de guerra haverá um novo amigo escultor.

(In Ao Ritmo da Memória - recolha de algumas crónocas publicadas no jornal Letras & Letras do Porto)
Posted by Hello

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